Educação e Trabalho

A educação constitui, seguramente, uma das obras mais dignas e importantes que uma sociedade deve levar por diante. Da mesma forma, ninguém dotado de razoável bom senso considera desnecessária a qualificação profissional para o desempenho de actividades de interesse colectivo e, em geral, para o progresso material e, até, civilizacional dos povos. No entanto, se a possibilidade de acesso a uma ocupação profissional (e correspondente obtenção de meios de subsistência) estiver numa excessiva dependência da detenção rígida de certas habilitações conferidas pelos graus de instrução oficialmente reconhecidos, criam-se novas formas de exclusão social e de quase inevitável marginalidade.

Nunca expressaremos demasiado reconhecimento pela “santa obra da educação” - como alguém lhe chamou - que tem sido levada a cabo ao longo dos últimos séculos e, muito particularmente, naquele que em breve terminaremos. Com efeito, o acesso de uma proporção cada vez maior da Humanidade a níveis básicos (pelo menos) de estudo, à medida que o desígnio de fazer descer as taxas de analfabetismo foi assumido na generalidade dos países, representa um extraordinário passo colectivo em frente e um fundamento objectivo de esperança num novo tempo. Trata-se, provavelmente, de um dos mais notáveis acontecimentos da história e, sem dúvida, um dos mais positivos e venturosos.

Com efeito, até há muito pouco (na relatividade da História), a quase totalidade dos seres humanos passavam vidas inteiras desprovidos dos meios de cultivar, trabalhar e desenvolver a sua inteligência que, assim, naturalmente, permanecia num tremendo estágio de dormência e, desde logo, privada do acesso a fontes de informação e de auto-realização.

Nestes termos, a introdução da escolaridade obrigatória e da escolaridade mínima representa um factor determinante e um autêntico instrumento de progresso. Infelizmente, nem todos os pais ou responsáveis por crianças têm a plena consciência da importância da educação ou de quão criminoso é privá-las dessa oportunidade - por simples indiferença ou pela motivação imediatista e tantas vezes egoísta de “pô-las a ganhar dinheiro” o mais cedo possível. É tristemente verdade que, no mundo, existem muitas famílias em tão precárias situações materiais que a sobrevivência de todos os seus membros é definidamente ajudada pelo resultado do trabalho de adolescentes ou, mesmo, pré-adolescentes que a integram; que não podemos ignorar ou recusarmo-nos a compreender essas necessidades de facto; que, por isso, uma situação ideal só poderá surgir quando tais circunstâncias deixarem de existir, para o que todos (Estados e cidadãos) devemos contribuir. Assim, a escolaridade mínima e obrigatória deveria estar perfeitamente acasalada com o justo apoio às carências extremas que acabamos de referir.

Não é esse, contudo, o direccionamento específico deste artigo de intervenção. Para os fins presentes, basta reiterar que o princípio da obrigatoriedade de uma escolaridade mínima é, em si mesmo, louvável e correctíssimo.

No entanto, é de igual modo nossa conviçcão que ele precisa de ser perspectivado de forma mais lúcida e ajustada, para se adequar e servir realmente àqueles que devem ser, no nosso entendimento, os seus verdadeiros objectivos.
Em primeiro lugar, partilhamos o ponto de vista de que é “francamente insuficiente e até primário qualquer sistema educativo que esteja baseado na ênfase das profissões (regra geral, das mais bem sucedidas em termos socio- -económicos) e que se esgote (de consciência tranquila) em lhes permitir acesso. A educação não pode continuar a ser entendida em termos de uma correria desenfreada para alcançar um emprego, como se (usando propositadamente uma rudeza de expressão) os seres humanos fossem animais de carga que se devam atrelar a uma carroça, ainda que dourada, tão logo seja possível. Deve, sim, começar a ser encarada como um processo de emersão de valores sólidos e de capacidades intelectuais e afectivas que permitam a cada indivíduo conquistar a capacidade de lidar correctamente com as diferentes circunstâncias que a vida lhe irá apresentando” (CLUC - N.E. IV, Lisboa, 1996, Centro Lusitano de Unificação Cultural).

Estados modificados de Consciência
É neste contexto que se pode falar, hoje, em Psicologia Transpessoal. Esta apresenta-se como ramo da Psicologia que estuda os estados modificados de consciência que ocorrem nos seres humanos quer espontaneamente quer por serem induzidos e que vão para além do sono, sonho e vigília como estados tradicionalmente reconhecidos e estudados. Dedica-se, deste modo, a investigar o mecanismo de indução (por exemplo técnicas respiratórias, relaxamento, dança ritual, meditação, canto, drogas “psicadélicas”, “biofeedback”), a natureza, significado e aplicações terapêuticas ou, em geral, práticas dos estados modificados de consciência. Alguns destes estados levam o indivíduo a sentir que transcendeu, que foi além do que costuma conhecer como a sua pessoa, o seu eu pessoal, para se percepcionar como uma realidade muito mais ampla: daí o termo “transpessoal”. O ser humano pode, em determinados momentos, aceder a experiências que, indo além da sua experiência comum, lhe fornecem ideais, visões e aspirações marcantes e que tanto podem influenciar a sua vida pessoal quanto, até, a vida da sociedade em que está inserido.
No âmbito da Psicologia Transpessoal é hoje natural falar-se em “Psicotecnologias” como o conjunto das técnicas que visam auxiliar o ser humano a estimular em si mesmo e a gerir estados de consciência modificados positivamente, não patológicos mas, potencialmente, com grande potencial para promoverem saúde mental e física (embora, claro, também possam ser fonte de perigo - sobretudo quando mal conhecidos e mal praticados). Estes estados permitem ao ser humano ir mais longe na sua possibilidade de se conhecer e gerir a si mesmo, dando-lhe melhor acesso ao seu próprio inconsciente (que passa a ser visto como comportando, para além do inconsciente estudado pela Psicanálise,
um “superconsciente” de onde emanam os melhores lampejos de intuição e criatividade, por exemplo) mas, também, um conhecimento diferente e mais profundo da realidade que nos rodeia: o mundo social e físico, o Universo… Nesses estados o homem obtém possibilidades novas de conhecimento e acção e alcança respostas diferentes para os seus próprios antigos dilemas fundamentais acerca da natureza de si mesmo, da vida, da morte, do Universo. Curiosamente, os psicólogos transpessoais têm encontrado certa convergência de pontos de vista com vários dos mais eminentes físicos contemporâneos (por exemplo David Bohm, Fritjoff Capra, Amit Goswami, Costa de Beauregard) ao verificarem que a consciência humana influencia até mesmo a realidade física (uma constatação corrente da física quântica é o facto de que a consciência humana modifica os fenómenos ao medi- -los). Tudo se passa como se não fosse nada descabido considerar que a existência da própria consciência seja um dos fenómenos constitutivos do próprio Universo (uma hipótese colocada por McGinn, um dos teóricos envolvidos nas modernas polémicas acerca da natureza da consciência - que se tornou assunto de debate nas neurociências). Curiosamente, quer a existência de estados modificados de consciência com características próprias quer a existência de possibilidades humanas excepcionais associadas a eles tem podido ser investigada em laboratório seja graças aos estudos de Biofeedback (uso de máquinas para dar ao indivíduo melhor consciência dos seus processos fisiológicos quer sejam cardíacos, musculares, cerebrais e melhor possibilidade de controlá-los) seja graças aos estudos da fisiologia de praticantes muito avançados de ioga ou ainda aos estudos da Parapsicologia de tradição universitária (a não confundir com todo um “folklore” rico em charlatanismo que tem proliferado em muitos lugares).

Complementaridade de conhecimentos
A Psicologia Transpessoal apresenta-se, hoje, como um dos campos da Psicologia que estão em pleno desenvolvimento apontando para uma concepção do ser humano que, por não o reduzir a um organismo biológico condicionado e determinado pela sua própria biologia e meio ambiente, o recoloca na posição de ser livre e dono de possibilidades insuspeitas. No entanto ela não contradiz, antes pretende complementar as aquisições da Psicologia em geral - que são preciosas. O que esta corrente recente pretende, isso sim, é ampliar a nossa noção de ser humano para nela incluirmos faixas de experiência e vivência que podem contribuir poderosamente para dar mais sentido à nossa existência - que está hoje tão “ameaçada” pelo absurdo ligado ao consumismo desenfreado e à visão mecanista. E - sabe-se isso muito bem como dado de investigação rigorosa - os homens que sentem que as suas vidas têm sentido costumam possuir melhor saúde mental e viver uma existência mais alegre… Talvez seja também por isso que uma recente declaração da UNESCO (Declaração de Veneza, 7 de Março de 1986) tenha afirmado que: “O conhecimento científico, em razão do seu próprio movimento interno, atingiu os limites nos quais pode iniciar um diálogo com outras formas de conhecimento. Nesse sentido, e sempre reconhecendo as diferenças fundamentais entre a ciência e a tradição, consta-tamos não mais a sua oposição, porém a sua complementaridade”.
Afinal a Psicologia Transpessoal tem promovido este diálogo e tem extraído dele frutos importantes na direcção da visão do homem como ser biológico, social, cultural mas também emocional, intelectual e espiritual. Talvez essa visão seja mais optimista e mais susceptível de contribuir para uma melhoria das condições de vida humana, mas também mais alicerçada num conhecimento pleno e mais exacto do homem, do que a noção de que somos todos animais inteligentes em competição uns com os outros pela sobrevivência social. Se assim for, o optimismo poderá juntar-se ao rigor científico para nos auxiliar a construir outro estado de coisas no mundo. Afinal como mudar a sociedade sem mudar o homem e como mudar o homem sem lhe dar os instrumentos de se modificar a si mesmo?

Vítor José F. Rodrigues
Licenciado em Psicologia; Assistente na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, da Universidade Clássica de Lisboa; Autor de “Teoria Geral sobre a estupidez humana” e “A invasão dos Terrestres”

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