O espírito Zen na Tradição Ocidental

Consideramos injustificada pretensão da nossa parte dizer, nestas breves páginas, algo que possa acrescentar às numerosas obras já editadas, escritas por consagrados especialistas em Budismo-Zen, sobre o qual — fazendo eco do que esses mesmos autores têm afirmado — qualquer explicação é insuficiente, senão mesmo impossível. Contudo, e apesar dessa limitação, entendemos que valeria a pena seleccionar alguns pontos de referência que poderão, talvez, contribuir para a unidade do saber e para a libertação do ser humano neste período de transição da Idade do Filho para a Idade do Espírito Santo.

Antes de mais, achamos conveniente distinguir o Budismo-Zen propriamente dito do Zen não ortodoxo: o primeiro é uma organização budista que teve a sua origem na Índia, no século VI A.c., tendo chegado ao Japão no século XII da nossa era, depois de ter transitado pela china e pela Coreia; o segundo - o Zen não ortodoxo, também chamado Gedo-Zen(1) - encontra-se em toda a parte e em todas as verdadeiras religiões. É um estado de consciência superior que, logo que alcançado, permite ver directamente a essência das coisas, exactamente como elas são, e não com as cores sombrias ou alegres da nossa subjectividade.

Um ponto fundamental, em relação ao qual nos temos de situar, é o de que o advento de uma Nova Era é impulsionado pelo espírito de Síntese; pelo que, ao abordarmos qualquer questão concernente à ciência, à filosofia ou à religião, devemos fazê-lo, tendo sempre em consideração o facto da verdade ser apenas uma e, por conseguinte, não pertencer exclusivamente a nenhum grupo, escola ou partido. Falar sobre Zen não foge a esta regra, devendo a sua abordagem ser feita sob a égide da Unidade. Da unidade e não da uniformidade. Porque, enquanto esta última tende a suprimir as características específicas que individualizam os seres, a Unidade, pelo contrário, sendo harmonia na diversidade, aceita o que possa haver de específico em cada Religião, Filosofia ou indivíduo, sem nunca deixar de integrar o que há de comum em todas as coisas.

É, portanto, de acordo com esta perspectiva, que vamos falar do Zen, ou sobre o Zen, sem nos determos propriamente nos aspectos históricos e nos meandros complexos da sua doutrina. Que é, pois, o Zen? O Zen é um caminho de libertação que, ao alcançar o seu objectivo principal, a Iluminação, não difere essencialmente do que possa existir de melhor e de mais profundo nos outros grandes caminhos do espírito, sejam eles orientais ou ocidentais, sejam eles do Norte ou do Sul. E é por estarmos conscientes desse facto e de, na sua mais su-blime expressão, a Verdade não poder ser comunicada por palavras(2) - de acordo com o preceito bu-dista, segundo o qual “aqueles que sabem não falam e aqueles que falam não sabem” - que pretendemos expressar a universalidade do Zen sem que nos deixemos enredar em complexas explicações verbais.

Como via de libertação, o Zen - antes de alcançar a dimensão contemplativa e a espontaneidade que tanto nos surpreendem e maravilham - exige enorme esforço da mente, da vontade e do corpo. Pelo que, a Iluminação, se bem que possa ocorrer de uma forma espontânea e em condições que poderão parecer até imprevistas, é sempre o resultado de um trabalho imenso de organização e de aperfeiçoamento do Eu da Personalidade até que este se renda completamente à voz do Eu Real. Para isso, a Sabedoria e a Compaixão são condições indispensáveis. E, a fim de que se chegue a esse estádio de realização do ser, é necessário atingir determinados objectivos (as dez paramitas) por meio de práticas adequadas:
A primeira paramita3 consiste em dar (dar apoio material, dar segurança, dar educação); a segunda é a disciplina (disciplina de refrear o mal, de concentração, de virtude construtiva); a terceira é a paciência (tolerância em relação ao desdém e às injúrias, tolerância em relação às verdades dolorosas); a quarta é o vigor (que consiste na perseverança para ultrapassar os condicionalismos e os hábitos e para desenvolver o potencial da mente); a quinta é a meditação (cujo objectivo é alterar a percepção e a forma como se vive a experiência do “eu” e do mundo); a sexta é a visão (que conduz ao conhecimento intuitivo da essência das coisas, sem intervenção do pensamento); a sétima é a perícia dos meios (técnicas para libertar as outras pessoas); a oitava consiste nos votos ou compromisso (uso da vontade num sentido superior); a nona é o poder (despertar das capacidades e dos dons espirituais); a décima é o conhecimento (não o conhecimento convencional, mas o conhecimento real, isto é, a Verdade). E, para gravar na mente as impressões relacionadas com as dez paramitas, foram concebidas as “Histórias Zen”, muitas delas aparentemente irracionais, porque inacessíveis às operações lógicas do pensamento.

Todo este sistema, apesar de conter em si próprio um método e uma disciplina específicos, conduz a uma experiência universal, tendo o seu contributo, para uma melhor e mais profunda compreensão de Cristo, sido reconhecido por alguns esclarecidos sacerdotes cristãos, como, por exemplo, William Johnston, que nos relata a sua própria experiência depois de ter participado num encontro com sacerdotes budistas. Após praticar a meditação Zen, estabeleceu com o Mestre (Roshi) o seguinte diálogo:

“- Como vai indo o seu Zen? - perguntou o Mestre.
Tenho praticado bastante - respondeu Johnston. Sento-me silenciosamente na presença de deus, sem que me ocorram palavras, pensamentos, imagens ou ideias.
- O seu Deus está em toda a parte e você é capaz de sentir a Sua presença?
- Sim.
- Muito bem, muito bem! Continue. Vá em frente. E acabará por descobrir que deus irá desaparecer e somente W. Johnston permanecerá.”

Sentindo-se chocado, porque esta observação soara como uma negação de tudo o que ele considerava sagrado, Johnston, ainda que não fosse habitual contradizer o Mestre, observou:

“- Deus não desaparecerá. Johnston é que poderá desaparecer e Deus tomará o seu lugar.
- Sim, sim - respondeu o Mestre, sorrindo. Foi isso precisamente o que eu quis dizer.”
Concluiu, então, após este diálogo, que o Mestre, ao negar Deus, queria, no fundo, dizer o mesmo que ele, William Johnston, pretendera expressar com a afirmação de Deus. De facto, o que ambos quiseram pôr em evidência foi a transcensão da dualidade, que é a comunhão - segundo o cristianismo - entre o Pai e o Filho, ou o “Eu e o Pai somos um”, na linguagem singela de Jesus. Por isso, qualquer que seja o ponto de vista - quer seja Deus ou Johnston a desaparecer - é apenas o Eu Sou4, imerso na Eternidade, que acaba por emergir do silêncio da meditação.
Mas há um outro aspecto que convém referenciar: Nesta transcensão da dualidade, o Zen dá especial ênfase ao desempenho do homem. Pois, ao contrário da tradição judaico-cristã que é extremamente teocêntrica, colocando tudo ou quase tudo na dependência de Deus, o Zen mostra-nos que a actividade humana é também muito importante, sendo, de certo modo, a força e a pureza da Invocação feita pelo homem que determinam a resposta ou Evocação de Deus (ainda que o Zen não conceptualize Deus).
Como não nos é possível - e tão-pouco conveniente - expulsar os arquétipos ocidentais e substi-tuí-los pelos orientais, é talvez preferível que nos situemos na nossa própria tradição e aproveitemos o que possa haver de comum e de verdadeiramente positivo nas outras tradições. No entanto, o mais importante é reconhecer que Cristo e o Zen, se bem que tenham a sua linguagem própria e o seu modo específico de libertação, não estão longe um do outro: vivendo na insegurança - ou talvez num estado de suprema segurança - e realizando um esforço sem tréguas, Jesus afirma que “as raposas têm covis e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça” (Mateus, VIII - 20). E os Mestres Zen, desapegados de tudo e acei-tando pacientemente o inevitável, expressaram provavelmente a mesma ideia, ao declararem que “em cima, nem telha a cobrir a cabeça; e em baixo, nem um palmo de terra onde pôr os pés”. Nós, porém, que ilusoriamente procuramos a “segurança” na cumplicidade das Companhias seguradoras e entesourando bens neste mundo de areias movediças, quão dis-tantes estamos da divina insegurança de Jesus e dos Mestres Zen! Este é um ponto de luz que nos aproxima ou mesmo identifica. Talvez, numa outra oportunidade, possamos referenciar outros aspectos fundamentais dessa identificação.

José Flórido
Licenciado em Filologia Românica; Professor de Literatura e Cultura Portuguesa; Autor de vários livros, nomeadamente: “Pietro Ubaldi - Reflexões” (editado pelo CLUC), “Conversa Inacabada com Alberto Caeiro”, “Um Agostinho da Silva” e diversas obras didácticas

Notas:
1- Ge significa “fora de”; do significa “via”, “caminho”.

2- O facto de Jesus ter silenciado quando Pilatos lhe perguntou o que era a Verdade não deve ser, a nosso ver, interpretado como incapacidade do Mestre em responder à pergunta do funcionário romano. Estamos certos que o seu olhar maravilhosamente radiante teria querido dizer: “Se fores silencioso como eu também poderás conhecer a Verdade.”

3- Paramita significa literalmente “ter atingido um objectivo” ou “ter ido mais além”.

4- “Antes que Abraão existisse, Eu sou” (Cristo). Este “Eu” é o fundamento do ser. É a voz do grande Eu que suprime toda a consciência do meu pequeno “eu”.

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