Psicologia Transpessoal - O que é?

A Psicologia como ramo científico do saber nasceu “oficialmente” nos finais do século passado. Nesse tempo, a luta de muitos dentre os primeiros psicólogos para darem à nova disciplina um estatuto de Ciência levou-os a procurarem “assemelhá-la”, nos métodos e na maneira de pensar a realidade, às ciências naturais então prevalecentes como modelo a seguir. Dentre estas destacavam-se a Física e a Química com todos os seus critérios “positivistas”.

O homem passou a ser visto, pelos psicólogos, sobretudo como um organismo biológico que utilizava a sua inteligência para se adaptar a um meio ambiente constituído pelas sociedades humanas. A história individual de cada um de nós passou a ser vista como a história da nossa evolução e luta individual ao ajustarmo-nos à família, à escola ou, em geral, ao meio onde crescemos, desenvolvemos a nossa vida afectiva, intelectual e física.

Nasceram, neste contexto, algumas linhas principais de estudo e de trabalho prático com o ser humano que ainda hoje podem ser reconhecidas: (1) na Psicanálise, com a valorização por ela concedida aos mecanismos inconscientes e à vida afectiva precoce como fonte explicativa da problemática psicológica dos seres humanos; (2) no Comportamentalismo, com a valorização concedida ao estudo do comportamento humano em si mesmo e ao modo como ele é condicionado por acontecimentos ambientais que o antecedem ou que o condicionam ao apresentar-se como suas consequências; (3) no Cognitivismo, com a valorização dada ao papel dos processos de conhecimento (vulgarmente designados, de modo menos exacto, por processos mentais) e à influência destes na vida emocional e no comportamento humanos.
Desenvolveram-se numerosos estudos e abordagens sem que, no entanto, elas chegassem a destacar-se como linhas de força verdadeiramente diferentes das três anteriormente referidas. Entretanto, no início dos anos 60, alguns teóricos de renome, com especial destaque para nomes como Carl Rogers, Maslow, Assagioli, Aldous Huxley, Kurt Goldstein e muitos outros, consideraram que a Psicologia estava a desvalorizar o ser humano nas suas possibilidades e a estudá-lo de modo excessivamente analítico sem valorizar devidamente áreas que, embora difíceis de estudar cientificamente, tinham importância crucial para a consideração do humano. Nasceu assim o Movimento Humanista na Psicologia enfatizando o potencial humano, a autenticidade, a liberdade humana, a importância da consciência existencial, da auto-realização, da criatividade, da auto-transcendência. O Movimento Humanista veio a ser designado, pelos seus mentores, como a “4a Força” na Psicologia.
Com a abordagem humanista da Psicologia estava criado o contexto em que, poucos anos depois, ainda na década de sessenta, nasceu a Psicologia Transpessoal. Esta pode ser considerada, de certo modo, como uma consequência lógica e natural do Movimento Humanista pois os seus fundadores são, em boa medida, os mesmos. Estes verificaram que determinadas experiências humanas pareciam estar claramente fora das considerações e das possibilidades explicativas dos modelos então vigentes - até mesmo do modelo humanista. Essas experiências foram designadas por Abraham Maslow como “experiências de pico” pois referiam-se a momentos de realização humana extremamente intensa quer se tratasse de consciência mística dilatada (as chamadas vivências de “Consciência Cósmica”), de criatividade artística, de êxtase, de percepção excepcionalmente clara, de amor, espiritualidade, transcendência dos estados normais de consciência e de auto e hetero percepção… Experiências que, longe de parecerem momentos de delírio ou ilusão, tendiam a coincidir com um bem-estar excepcional e com um reforço da saúde mental de muitos dentre os que passavam por elas. Verificou-se, por outro lado, que algumas tradições filosóficas e religiosas do Oriente e do Ocidente, compondo o que Aldous Huxley designou como “Filosofia Perene” (ligadas ao Budismo, ao Hinduísmo, ao Sufismo, à tradição da Cabala judaica ou à tradição Mística e Alquímica do Ocidente, por exemplo) forneciam descrições psicológicas do ser humano que mereciam respeito e consideração. Eram particularmente compatíveis com uma visão do homem como sendo capaz de, para além de lutar pela sua sobrevivência biológica adaptando-se ao meio e vivendo sob condicionamentos socio-culturais e fisiológicos supostamente inultrapassáveis, alcançar estados de consciência ampliados onde as suas capacidades mais “conhecidas” podiam ser levadas a um rendimento extremo ou, mesmo, podiam surgir capacidades insuspeitas. Sem serem estritamente “científicas”, tais tradições forneciam novas e úteis “hipóteses de trabalho” acerca da natureza humana e deviam, por isso, ser levadas em conta.

Estados modificados de Consciência
É neste contexto que se pode falar, hoje, em Psicologia Transpessoal. Esta apresenta-se como ramo da Psicologia que estuda os estados modificados de consciência que ocorrem nos seres humanos quer espontaneamente quer por serem induzidos e que vão para além do sono, sonho e vigília como estados tradicionalmente reconhecidos e estudados. Dedica-se, deste modo, a investigar o mecanismo de indução (por exemplo técnicas respiratórias, relaxamento, dança ritual, meditação, canto, drogas “psicadélicas”, “biofeedback”), a natureza, significado e aplicações terapêuticas ou, em geral, práticas dos estados modificados de consciência. Alguns destes estados levam o indivíduo a sentir que transcendeu, que foi além do que costuma conhecer como a sua pessoa, o seu eu pessoal, para se percepcionar como uma realidade muito mais ampla: daí o termo “transpessoal”. O ser humano pode, em determinados momentos, aceder a experiências que, indo além da sua experiência comum, lhe fornecem ideais, visões e aspirações marcantes e que tanto podem influenciar a sua vida pessoal quanto, até, a vida da sociedade em que está inserido.
No âmbito da Psicologia Transpessoal é hoje natural falar-se em “Psicotecnologias” como o conjunto das técnicas que visam auxiliar o ser humano a estimular em si mesmo e a gerir estados de consciência modificados positivamente, não patológicos mas, potencialmente, com grande potencial para promoverem saúde mental e física (embora, claro, também possam ser fonte de perigo - sobretudo quando mal conhecidos e mal praticados). Estes estados permitem ao ser humano ir mais longe na sua possibilidade de se conhecer e gerir a si mesmo, dando-lhe melhor acesso ao seu próprio inconsciente (que passa a ser visto como comportando, para além do inconsciente estudado pela Psicanálise,
um “superconsciente” de onde emanam os melhores lampejos de intuição e criatividade, por exemplo) mas, também, um conhecimento diferente e mais profundo da realidade que nos rodeia: o mundo social e físico, o Universo… Nesses estados o homem obtém possibilidades novas de conhecimento e acção e alcança respostas diferentes para os seus próprios antigos dilemas fundamentais acerca da natureza de si mesmo, da vida, da morte, do Universo. Curiosamente, os psicólogos transpessoais têm encontrado certa convergência de pontos de vista com vários dos mais eminentes físicos contemporâneos (por exemplo David Bohm, Fritjoff Capra, Amit Goswami, Costa de Beauregard) ao verificarem que a consciência humana influencia até mesmo a realidade física (uma constatação corrente da física quântica é o facto de que a consciência humana modifica os fenómenos ao medi- -los). Tudo se passa como se não fosse nada descabido considerar que a existência da própria consciência seja um dos fenómenos constitutivos do próprio Universo (uma hipótese colocada por McGinn, um dos teóricos envolvidos nas modernas polémicas acerca da natureza da consciência - que se tornou assunto de debate nas neurociências). Curiosamente, quer a existência de estados modificados de consciência com características próprias quer a existência de possibilidades humanas excepcionais associadas a eles tem podido ser investigada em laboratório seja graças aos estudos de Biofeedback (uso de máquinas para dar ao indivíduo melhor consciência dos seus processos fisiológicos quer sejam cardíacos, musculares, cerebrais e melhor possibilidade de controlá-los) seja graças aos estudos da fisiologia de praticantes muito avançados de ioga ou ainda aos estudos da Parapsicologia de tradição universitária (a não confundir com todo um “folklore” rico em charlatanismo que tem proliferado em muitos lugares).

Complementaridade de conhecimentos
A Psicologia Transpessoal apresenta-se, hoje, como um dos campos da Psicologia que estão em pleno desenvolvimento apontando para uma concepção do ser humano que, por não o reduzir a um organismo biológico condicionado e determinado pela sua própria biologia e meio ambiente, o recoloca na posição de ser livre e dono de possibilidades insuspeitas. No entanto ela não contradiz, antes pretende complementar as aquisições da Psicologia em geral - que são preciosas. O que esta corrente recente pretende, isso sim, é ampliar a nossa noção de ser humano para nela incluirmos faixas de experiência e vivência que podem contribuir poderosamente para dar mais sentido à nossa existência - que está hoje tão “ameaçada” pelo absurdo ligado ao consumismo desenfreado e à visão mecanista. E - sabe-se isso muito bem como dado de investigação rigorosa - os homens que sentem que as suas vidas têm sentido costumam possuir melhor saúde mental e viver uma existência mais alegre… Talvez seja também por isso que uma recente declaração da UNESCO (Declaração de Veneza, 7 de Março de 1986) tenha afirmado que: “O conhecimento científico, em razão do seu próprio movimento interno, atingiu os limites nos quais pode iniciar um diálogo com outras formas de conhecimento. Nesse sentido, e sempre reconhecendo as diferenças fundamentais entre a ciência e a tradição, consta-tamos não mais a sua oposição, porém a sua complementaridade”.
Afinal a Psicologia Transpessoal tem promovido este diálogo e tem extraído dele frutos importantes na direcção da visão do homem como ser biológico, social, cultural mas também emocional, intelectual e espiritual. Talvez essa visão seja mais optimista e mais susceptível de contribuir para uma melhoria das condições de vida humana, mas também mais alicerçada num conhecimento pleno e mais exacto do homem, do que a noção de que somos todos animais inteligentes em competição uns com os outros pela sobrevivência social. Se assim for, o optimismo poderá juntar-se ao rigor científico para nos auxiliar a construir outro estado de coisas no mundo. Afinal como mudar a sociedade sem mudar o homem e como mudar o homem sem lhe dar os instrumentos de se modificar a si mesmo?

Vítor José F. Rodrigues
Licenciado em Psicologia; Assistente na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, da Universidade Clássica de Lisboa; Autor de “Teoria Geral sobre a estupidez humana” e “A invasão dos Terrestres”

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