Transcendência e Imanência de Deus - I

Sintetizam-se neste conjunto de artigos o resultado das gravações de uma série de conferências que proferimos de improviso, com a preocupação do rigor possível mas, também, com alguma liberdade terminológica. Deste modo, ao sabor da palavra, coligámos terminologias de diferentes tradições, assim querendo igualmente reiterar a nossa fidelidade ao conceito da existência de uma sabedoria universal. Ela é o tronco comum de que, no passado, despontaram distintos ramos (filosofias, religiões e ciências), adaptados aos diversos tempos, civilizações e tipos psicológicos; podemos agora reencontrar a sua unidade fundamental, os mesmos grandes princípios, universais e perenes (ainda que apresentados sob diferentes ângulos ou terminologias), evitando unilateralismos (orientais ou ocidentais) e argumentações de sectárias superioridades.

Breves considerações metodológicas
É indubitável que o método indutivo (que parte da observação de alguns fenómenos particulares para a formulação de leis que os explicam) possibilitou enormes avanços no domínio das chamadas “ciências experimentais”; contudo, no âmbito da Ciência-Filosofia do Espírito, procedemos do geral para o particular, do mundo das causas para o mundo dos efeitos, dos princípios universais para as consequências concretas, dos númenos para os fenómenos. Ao abordarmos qualquer tema, é sempre necessário enquadrá-lo numa perspectiva mais vasta, começando por remontar à origem das coisas, à raiz primeva do Universo, à aurora dos tempos ou, antes mesmo, àquele Estado Absoluto de Ser em que ainda não tinham surgido os mundos manifestados, nem havia tempo tal como o concebemos (e, sim, o Eterno Agora), nem existiam consciências relativas, como as nossas.

O Mistério do SER
Devemos, então, perguntar: qual a mais importante, a mais radical, a mais profunda das questões, aquela a que todas as outras, por fim, se reduzem? Na verdade, é aquela que nos coloca perante o maior, o mais grandioso, o mais tremendo dos mistérios - o mistério do SER. Realmente, podemos (e devemos) pôr quase tudo em dúvida: podemos questionar o bom fundamento das nossas convicções e a confiabilidade dos nossos sentidos e da nossa mente, podemos cogitar se as coisas que vemos não são meramente ilusórias ou simples criações subjectivas, podemos interrogar-nos (e com boas razões…) se não somos mais do que personagens de um pensamento ou de um sonho de um Ser que nos engloba, podemos até ponderar a concepção solipsista segundo a qual só existiria o próprio sujeito que se questiona. Entretanto, existe uma coisa de que nenhum de nós pode, evidentemente, duvidar: Algo É, por outras palavras, há SER. Se, como na “Passagem das Horas”, de F. Pessoa (Álvaro Campos), fôssemos tirando mundo ao mundo, algo sempre restaria - pelo menos, o vazio, o espaço em que tudo se contém. O mistério dos mistérios é, pois, a evidência do SER, a necessidade do SER, a inevitabilidade do SER!

A Causa Incausada
Nas tradicionais definições filosófico-religiosas, há uma Entidade (à falta de melhor termo) que não tem outro atributo senão o de SER - ou, mais rigorosamente, que não tem atributos, porque é puro, simples e ilimitado SER. Quando usamos a expressão “puro”, não nos referimos a pureza ética mas, sim, a plenitude, infinitude, não-condicionamento de Ser. A palavra “simples” não alude a qualquer sentido de simplista; muito pelo contrário, visto que no Ser Uno, Absoluto, infinito e Eterno está subsumida, sintetizada e latente toda a complexidade, todas as potencialidades eclodidas ou ainda a manifestar (ou que nunca se objectivarão relativamente) numa cadeia de cosmos que se sucedem no tempo e/ou se interpenetram no espaço.

Tal Ser não foi causado por nada mas é causa de tudo; não tem origem em nada mas todas as coisas têm n’Ele a sua origem. É causa de Si próprio porque É por si mesmo. É o SER necessário, o único SER do Universo que não poderia deixar de ser - eis a prodigiosa, a majestosa, a soberana evidência que todo o Universo proclama!

Concepções erróneas de Deus
A esse SER, frequentemente nominado “DEUS”, não pode-mos, em rigor, atribuir nenhuma particular caracterização que não a de SER, uma vez que qualquer outro qualificativo (ainda que posi-tivo, como “poderoso” ou “sábio”) é limitador, é relativizador, é por demais desvirtuador da sua Absoluta Seidade (”Be-ness”, na original expressão inglesa da grande H.P. Blavatsky). Habituámo-nos a ler, no primeiro livro da Bíblia Judaico-Cristã, o “Génesis”, que “Deus fez o Homem à Sua imagem e semelhança” (I, 26-27). É uma afirmação imensa e da mais profunda valia (mesmo sendo discutível a justeza da tradução - seria “Deus” ou “Deuses”, quer dizer, uma pluralidade de poderes criadores?). Na prática, porém, verifica-se o contrário, dado que temos construído (a noção de) um Deus à nossa imagem e semelhança, isto é, com características bem humanas: um pretenso deus caprichoso, ciumento, irado, vingativo, arbitrário, um pretenso deus sujeito a instáveis humores dependentes de se lhe dirigirem ou não preces, um pretenso deus condutor de exércitos e privilegiador de povos escolhidos…

Também à nossa imagem e semelhança, acreditamos geralmente que Deus criou o Homem e tudo o que existe no Universo a partir do nada, ou seja, de algo fora de si - o que constitui uma hipótese filosoficamente insus-tentável, ainda que defendida em algumas teologias. Se tal fora possível, se Deus tivesse criado o Universo, e todos os seres que o habitam, de outra substância que não a do Seu próprio Ser, então não seria Absoluto nem Infinito: o Universo era-Lhe exterior, era algo além D’Ele e, assim, evidentemente O relativizaria. Deste modo, não só nada pode ter sido criado fora d’Ele como, pela mesma razão, nada pode existir fora d’Ele. Tudo está no Todo e o Todo está em tudo. Este selo indelével, que verdadeiramente nos conforma à imagem e semelhança d’Aquele (ou, segundo a filosofia vedanta, d’Aquilo) de que tudo procede, foi maravilhosamente expresso por S. Paulo, no seu discurso no Areópago de Atenas, ao falar do Deus Desconhecido: “N’Ele vivemos, nos movemos e temos o nosso ser” (Actos, XVII, 28). Quão longe estava S. Paulo das nocões antropomorfizadas de Deus próprias das crenças populares ou de teologias superficiais!

Deus Transcendente
ÃL;€quele - ou àquilo - que permanece sempre além de qualquer mensurabilidade, além de qualquer existência limitada, relativa ou objectiva, podemos chamar Deus Imanifestado ou Deus (na Sua natureza) Transcendente.

A Ele se referiam, com grande profundidade metafísica, os antigos rishis (sábios) hindus, designando-O por Parabrahman. A raiz etimológica desta palavra é muito significativa: Para, quer dizer “o que está para além”, e brahman, quer dizer “o Ser Criador” ou “o Ser que traz as coisas e os seres à Manifestação”. Na verdade, o Absoluto, é o Deus Ignoto, é Aquele de Quem realmente nada se pode dizer (expressão consagrada em Esoterismo) - não para fazer mistério mas porque a Sua Natureza excede totalmente as nossas palavras e os nossos conceitos mentais, tão limitados e relativos. Segundo a antiga filosofia esotérica hindu, de Parabrahman apenas se consegue visualizar um primeiro, metafísico, tenuíssimo véu: Mulaprakriti, ou seja, a Raiz da Substância, visto que Mula significa raiz, e Prakriti significa substância ou natureza material. Entre Parabrahman e Mulaprakriti, neste estado pré-cósmico, além de qualquer manifestação compreensível pela consciência humana, move-se continuamente o Grande Alento, num movimento eterno, incessante, perpétuo - movimento tão vertigi-noso, duma tal frequência vibratória, duma consciência tão simultânea, que nos dá (ou daria, se o pudéssemos vislumbrar) a ilusão de imobilidade.
Num outro sistema filosófico, mais próximo do Ocidente, a Cabala Judaica, também se alude ao Imanifestado, quando se fala em Ain, Soph e Aur: Ain - Imanifestado, Soph - Ilimitado, e Aur - Luz Ilimitada. Comparando e coligando os dois sistemas, Parabrahman, o Imanifestado, corresponderia a AIN; o Alento Incessante, corresponderia a SOPH; Mulaprakriti (a raiz da substância, a matéria pré-cósmica), corresponderia a AUR (ou, noutra perspectiva, a SHEKINAH).

Deus Imanente
Periodicamente, ciclicamente, inicia-se um “Dia de Manifestação Cósmica”. Do Seio do Absoluto, do Ser Eterno, do Imanifestado, projecta-se um fragmento, uma simples emanação da Sua Essência - porção limitada desse Oceano inesgotável de Ser -, dando origem, causa, impulso, fundamento de ser e de vida a todos os universos e a todas as miríades de entidades que neles terão o seu lar. Surge, assim, o Logos, o Verbo Encarnado, a Palavra (ou Som) Criador(a), o Deus Imanente. Mesmo ao projectar-se no plano objectivo ou de manifestação, Ele é, primevamente, o Deus Uno a que se referem todas as grandes religiões e escolas filosóficas - incluindo as chamadas religiões politeístas. Na verdade, constitui uma mistificação dizer-se que o monoteísmo apenas existe nas tradições judaica e, depois, cristã e islâmica. Muito anteriormente, os grandes sábios do Oriente não ignoravam que, por detrás da multiplicidade de deuses, isto é, de poderes criadores hierarquizados, está o Inefável Um sem segundo, o Deus Uno que subjaz a todo(s) o(s) universo(s) e a todos os seus construtores. Era por reverência, para não O antropomorfizar (como tantas vezes se tem feito), que se abstinham de O nominar - a Ele, o Inominável.

Podemos ilustrar a dicotomia Transcendência / Imanência de Deus, com uma passagem do Bhagavad-Gita (uma Escritura Sagrada do Oriente), onde Krishna, falando como se fora o Ser Divino, diz: “Tendo penetrado o Universo inteiro com um fragmento de Mim mesmo, Eu permaneço além dele” (cfr. IX, 4-9). Ou seja: a Divindade anima e preenche todo o Universo, na Sua natureza Imanente mas, na Sua verdadeira Essência, permanece além desse Universo, transcendente a toda a Manifestação.

A Unidade faz-se Trindade
Segundo quase todas as grandes concepções religiosas e filosóficas, o Deus Uno Imanente, o Logos, a Vida Una de onde tudo procede, desdobra-se, em seguida, numa Trindade.

Onde quer que haja manifestação, ou seja, relatividade, tem de haver dualidade e, portanto, ao descer ao Plano da Manifestação, a Essência Divina Eterna divide-se em dois pólos: o espiritual, activo, masculino, positivo, reflexo de Parabrahman; e o material, receptivo, feminino, negativo, reflexo de Mulaprakriti. Assim, na aurora da nova Manifestação Universal, do seio do Uno, da Grande Noite Cósmica em que o Pai e a Mãe Divinos se tinham unido completamente, surge a dupla polaridade: Espírito e Matéria (Purusha e Prakriti, segundo a filosofia sânkhya, derivada do Rishi Kapila).

Da relação, do Amor entre estes dois pólos - Espírito e Matéria, Purusha e Prakriti, Pai Divino e Mãe Divina - surge o Filho, a Luz do Mundo, a Consciência de Relação (diferente da Consciência Absoluta do Espírito).

A Unidade Divina desdobra-se, portanto, numa Trindade: Espírito - Consciência - Matéria, ou Pai Divino - Filho Divino - Mãe Divina. Esta Trindade fundamental é reconhecida em diversas religiões e escolas filosóficas sob distintos nomes. No Cristianismo, alude- -se a Pai, Filho e Espírito Santo. No Hinduísmo, temos Shiva (o Destruidor ou Regenerador), Vishnu (o Conservador) e Brahma (o Criador) ou, mais arcaicamente, Agni, Surya e Vayu. Na antiga Religião egípcia, falava-se de Osíris, o Pai Solar, de Ísis, a Deusa Mãe Lunar (também na iconografia Cristã, Maria, símbolo da Mãe do mundo, aparece frequentemente associada à Lua), e de Hórus, o Filho Solar renascido em todos os sucessivos dias de manifestação. Na Cabala Judaica temos as três supremas Sephiroth (ou Emanações) da Árvore da Vida: Kether (Coroa ou Poder), Chokmah (Sabedoria) e Binah (Inteligência, Compreensão ou Entendimento).

Três Qualidades Divinas Fundamentais
Estas trindades, e tantas outras mencionadas pelas mais diversas filosofias religiosas, aludem con-substanciam, afinal, as três qualidades fundamentais em que se desdobra o Deus Uno, a Vida Divina, a Energia Universal, representando apenas formas diferentes de as designar: Vontade ou Poder, Amor-Sabedoria (”Sabedoria” sem Amor é mero conhecimento; “Amor” sem Sabedoria é mera emoção ou desejo pessoal) e Actividade Criadora Inteligente. Estas três qualidades fundamentais da Vida Divina são habitualmente nomeadas por 1o Logos, 2o Logos e 3o Logos ou por 1o Aspecto, 2o Aspecto e 3o Aspecto Divinos.

Ver Quadro 1

O Pensamento Divino imprime-se na Matéria
Devemos, entretanto, aclarar que, em cada um destes aspectos, existe igualmente a dualidade e a trindade. Ponderaremos, com especial interesse, o caso do 3o Aspecto. Temos nele, antes de tudo, a Mente Divina (Brahma ou Mahat, no ensinamento oriental), com as ideias (tomadas no sentido que lhe deu Platão) ou arquétipos do-que-haverá-de-existir; temos, num pólo oposto, a Matéria cósmica (na terminologia oriental: Pradhâna, no seu estado virgem e supersensível; Prakriti, no seu estado evolucionado ou organizado) onde se vai reflectir ou expressar o Pensamento Divino, volvido em leis universais; temos o agente de ligação ou transmissor entre os dois pólos, Fohat (segundo a cosmogonia oriental) ou o Espírito Santo (esperamos, na devida oportunidade, explicar e documentar esta corres-pondência). Fohat é a ponte de energia dinâmica através da qual as ideias existentes no Pensamento Divino se podem chegar a imprimir na substância cósmica; é o poder electro-vital que anima, fecunda, activa e organiza a Matéria (a Mãe Divina), conduzindo-a desde o seu estado virginal, indiferenciado ou caótico (Mulaprakriti e, depois, Pradhâna) até à produção das incontáveis formas (de Prakriti) em que se manifesta a vida.

É esta noção cosmogónica que subjaz ao simbolismo (cuja chave caiu quase no esquecimento) da Imaculada Concepção, da Virgem Maria que concebeu, gerou forma, por acção do Espírito Santo, para que assim venha ao mundo… a Luz do Mundo, o 2o Aspecto, o Filho, o Princípio Crístico de Amor-Sabedoria de que o Cristo histórico foi símbolo e testemunho sublime. Também, segundo a mesma antiquíssima tradição, eram virgens as deusas mães de inúmeros deuses solares ou salvadores do Mundo das religiões arcaicas, de que os mais conhecidos são Krishna (filho da Virgem Devaki) ou Sidharta Gautama - o Buda, filho da Virgem Maya. Repare-se na mesma raiz sempre presente: Maria, Maya, Mãe, Mater, Matéria…

José Manuel Anacleto
Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

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