Entre Dois Mundos - O Céu e a Terra

No princípio era Brahma, com O qual estava a Palavra.
E a Palavra é Brahma.
Os Vedas

No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus, e a Palavra era Deus.
O Evangelho de João

Quão extraordinária se nos revela esta concordância fundamental entre as sagradas escrituras do Oriente e do Ocidente! Por intermédio do som, de uma emanação vibratória plena de consciência, ambas atribuem a criação do universo à vontade de um Ser divino. Tal crença primordial, todavia, não se restringe às tradições hindú e cristã; pelo contrário, com surpreendente regularidade, a teoria cosmogenética de uma vibração divina encontra-se disseminada por diversas culturas da mais remota antiguidade. Chineses e celtas, egípcios e maias, sumérios e hebreus - todos estes povos se referem, mitológica ou simbolicamente, a um fenómeno primordial seme-lhante. Trata-se de um Som cósmico, eterno e universal, reconhecido como verdadeira essência da vida e da consciência, da substância e do sentido, ao mesmo tempo princípio sensível e inteligível. O som acústico que reverbera no mundo, fundamento real da música e da linguagem, seria então reflexo perceptível e mani-festação física por excelência de uma actividade vibratória superior e transcendente. Assim também surgiu o estudo da astrologia nas culturas primevas, como conhecimento de um zodíaco de signos tímbricos e interpretação das suas influências na esfera terrestre.

A noção mística do OM no Oriente
Muitos nomes houve por que foi designada e invocada a Palavra criadora - v.g., AUM, AMEN, OMEN, I AM, HU, YAHWEH. No registo védico, o texto sagrado mais antigo de que há conhecimento, o monossílabo OM exprime o som e o conceito desta vibração original na sua forma mais pura (una e indiferenciada). Todos os seres, todos os fenómenos materiais ou energéticos da Natureza estão imbuídos do poder vibratório do OM, que progressivamente se vai diferenciando e combinando entre si, à medida que baixa de frequência e desce do reino espiritual. São sete as emanações vibratórias ou os aspectos tonais em que primeiro se diferencia o OM, uma gama arquetípica de qualidades sonoras individuais cujo poder soberano garante harmonia e ordem no universo. Intimamente associados aos planetas principais, estes sons celestiais terão óbvia correspondência na estrutura elementar do mundo físico tal como o percebemos: outrossim tem a escala diatónica sete notas musicais; o espectro cromático, sete cores fundamentais; e o curso da semana, sete ciclos naturais.
Vocalizada na meditação yogi, ou tão-só sentida como audição interior, a sílaba OM promove a sintonização da consciência humana com a ordem cósmica, com a imperceptível Voz divina. Poderá então este som interior ser vivenciado, em ressonância quiçá silenciosa, através da meditação profunda.
Em sânscrito, sintomaticamente, o som acústico perceptível (ahata) e o som espiritual omnipresente (anahata) têm raiz etimológica comum. Refira-se que o termo “anahata” designa igualmente o chakra do coração, o mais importante dos sete centros espirituais que, no Homem, captam e emitem energia e onde está sediada a Palavra. No misticismo védico do som, a música e a voz humana são assim um veículo sensível para a manifestação das energias do Som cósmico. Os Vedas, aliás, são hinos sagrados que se destinam a ser entoados e cantados, em vez de lidos e estudados; à reflexão privilegiam a meditação, o acesso a estados superiores de consciência através da co-vibração e da harmonia plena com o Som mais íntimo do que É eternamente.

O conceito metafísico do LOGOS no Ocidente
É também pela Palavra divina que, na linguagem alegórica do Génesis, se manifesta a suprema vontade criadora. “Deus disse: ‘Faça-se a luz!’ E a luz foi feita. … Sobreveio a tarde e depois a manhã: foi o primeiro dia. Deus disse…” - eis a Voz reiterada que assim representa os sucessivos momentos da Criação na história bíblica original. Se a luz aí nos aparece como a primeira mani-festação da vida, a mais intensa vibração de tudo o que existe no plano físico - como a manhã do mundo, conforme a lapidar imagem vetero-testamentária - é em verdade o Som todo-poderoso que a invoca e lhe confere primazia. Cala-se a Voz, enfim, consumado que está o impulso criador: “tendo Deus terminado no sétimo dia a obra que tinha feito, descansou do Seu trabalho.” E assim se cumpre estoutra métrica septenária com uma interrupção rítmica para o repouso sabático, que corresponde a um tempo final de pausa e de silêncio. Também aqui, na tradição judaica, tal quietude é a pedra de toque para quem interiormente escuta e se dispõe a pôr em prática a palavra de Deus revelada ao Homem.
Razão do mundo e guia da consciência humana, a Palavra divina será expressa pelo conceito de LOGOS no grego neotestamentário; nos escritos joaninos, em particular, representa Deus feito homem, o Verbo incarnado, o Espírito impregnado na matéria. É este o mistério fundamental da dupla natureza de Cristo - divina e humana, eterna e contingente - do Filho unigénito e consubstancial ao Pai, que d’Ele recebe o Seu falar e agir. Aquando do baptismo no rio Jordão desceu o Logos divino sobre Jesus e n’Ele entrou, tornando-se exemplo vivo da pura sabedoria e do amor sublime no Homem. Transparece aqui, na infusão crística da Palavra e na revelação amorosa da Verdade, uma afinidade patente com o misticismo védico do som: só purificando e expandindo o chakra do coração (ou anahata) poderá o músico-yogi exprimir os sons celestiais, a Palavra universal. É de facto a experiência do sentir, o pensar do coração, que primeiro se manifesta no Homem como percepção vibrante (ou audição interior). Recorde-se a comovente imagem bíblica do Mestre e do discípulo dilecto na ÃL;šltima Ceia, em que João “estava à mesa reclinado sobre o peito de Jesus”, como que haurindo directamente da fonte o testemunho da Vida. De realçar ainda a designação do Filho como Verbo ou Logos, na doutrina cristã, e a de Vishnu como Voz ou Grão Cantor, nas escrituras hindús; ambos constituem, ademais, a Segunda Pessoa das respectivas teologias trinitárias, o elo de união entre o Céu e a Terra.

Característico do ser racional na reflexão filosófica grega, em oposição ao anterior estado mítico, o Logos humano permite igualmente articular o mundo inteligível e o mundo sensível. Como pensamento conceptual e linguagem, permite decifrar o hieróglifo que é o ser humano na relação que estabelece com a sua origem espiritual e com o ambiente natural. Como discurso inteligente e expressivo, acompanha pari passu a evolução da consciência individual. Essencialmente dupla é, na realidade, a natureza da palavra humana - interior e exterior - que une som e sentido num todo criador. Atente-se no exemplo de Sócrates, cujo sábio magistério se esgotou numa oralidade vibrante: podiam então os discípulos ouvir e sentir o profundo impacto da palavra do mestre, que não vê-lo, como se fôra a voz de um oráculo. Em consonância com a tradição religiosa e mitológica dos deuses olímpicos, que carecia de livros sagrados, haveria a filosofia socrática de se repercutir e agir directamente, de viva voz. Também na música é necessário perceber a ideia, o conceito, a Palavra - não apenas a sonoridade. Se esta não reverberar intimamente em nós como linguagem da alma e do espírito, como expressão e sentido, não poderá em rigor considerar-se como música.

Tem ainda o conceito de Logos um outro eixo semântico fundamental, de carácter essencialmente quantitativo, um outro modo de exprimir a inteligibilidade do mundo: além de discurso e razão, significa medida e proporção; além de palavra e gramática, número e matemática. A Pitágoras se deve o desenvolvimento de uma metafísica baseada no número, síntese de razão e de religião, que realça o valor de penetrar cientificamente os mistérios da natureza para alcançar a união da alma humana com o cosmos divino. Não apenas objecto do pensamento, os números são tidos também como verdadeiros átomos do universo, cuja combinação forma toda a realidade. Baseia-se tal concepção precisamente na descoberta da origem matemática dos intervalos musicais - qual revelação religiosa! - na correspondência entre consonância harmónica e proporção aritmética, entre combinação eufónica de sons e comprimento das cordas que os produzem. Para os pitagóricos, que viam a Criação a partir de uma mónada numericamente indiferenciada, todo o universo seria regido por princípios esotéricos de harmonia - configurações matemáticas que exprimem a música celestial, a Harmonia das Esferas. Curiosamente, esta cosmogonia reflecte-se numa acepção particular que o termo “logos” tomou na linguagem musical grega, ao designar a medida da cítara ou da lira (i.e., os trastos ou travessões) onde a corda deveria ser pisada de modo a produzir uma nota definida. Pode então o Homem redimir a matéria inerte, a substância mineral, fazendo-a vibrar harmoniosamente como instrumento musical e, assim, falar a linguagem dos deuses.

Epílogo
Em plena era contemporânea da razão científica, que relevância afinal poderão ter todos estes misticismos e metafísicas ancestrais do som ao afirmar a origem insubstancial, vibrante da matéria? Nunca, deveras, até à Física atómica e de partículas dos nossos dias, tinha a matéria sido de novo essencialmente descrita como energia em estado de oscilação, em que os átomos reagem e se comportam como que imbuídos de uma ressonância exótica, como se fossem notas musicais. Sugerem, pois, os dados da investigação científica mais recente que na base do universo inteiro está o fenómeno da vibração e os diversos modos de harmonia concomitante. Fruto deste renovado interesse pelo princípio da ressonância, que abarca o Céu e a Terra, talvez estejamos já hoje no bom caminho para se descobrir e compreender a verdadeira natureza, a quinta-essência da matéria.

No limiar do século que ora se cumpre, duas figuras maiores do renascimento espiritual em curso vieram esclarecer e corroborar esta convergência fundamental entre as tradições milenares do Oriente e do Ocidente: Helena Blavatsky, primeiro, explicou que “os átomos são designados como vibrações em ocultismo”; Rudolf Steiner, depois, reafirmou que “todos os objectos têm um som espiritual na fundação do seu ser”. Cabe agora a cada um de nós descobrir esse som e por ele afinar o seu destino, sentir e vibrar, escutar e discernir - em suma, ser intérprete da sua própria música, tocar de ouvido a música da vida. Uma questão, porém, haverá sempre de nos acompanhar: o som que dentro de nós ouvimos e intimamente nos faz vibrar é a voz de um oráculo ou o canto de uma sereia?

Josephus Lusitanus

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