Olof Palme

“Como diz Cristo, cada dia tem a sua própria tarefa. O heroísmo de cada dia, o bem que hoje posso fazer, as circunstâncias difíceis que hoje tenho de ultrapassar, o que hoje Deus quer de mim, isso há-de ser a minha maior consolação, o meu maior triunfo, a minha maior glória.”
Jacobo Hevia

“Viemos vê-lo, não só como líder do Povo Sueco, e Homem de estado de projecção Internacional, mas também como um de nós, um companheiro combatente da liberdade que deu um inestimável contributo para a luta de emancipação da África do Sul.
Do Vietname à Nicarágua, de El Salvador à Palestina, do Saara à África do Sul, por todo o lado, bandeiras a meia haste em memória deste gigante da justiça que se tornou cidadão do mundo, um irmão e um companheiro de todos os oprimidos.”
Mensagem de condolências de Oliver Tambo, presidente do ANC.

O alvo destas não só elogiosas, como fraternas palavras, era Olof Palme primeiro ministro Sueco, ditas por ocasião do seu assassinato.

Sven Olof Joachim Palme nasceu em Estocolmo, Suécia, em 30 de Janeiro de 1927. Oriundo duma família da classe média alta, Olof Palme foi uma singular personalidade política que cedo se destacou dos padrões tradicionais da sociedade sueca.

Gigante na defesa dos valores humanistas da sociedade e dos direitos dos cidadãos, se ousássemos destacar da sua riquíssima vida pública algo que verdadeiramente impressionou, escolheríamos a coerência e fidelidade ideológica. Nunca cedendo á fácil e por vezes conveniente adaptação das ideologias, Olof Palme manteve sempre um discurso optimista e coerente, nunca entrando em confronto com a visão tradicional da sociedade Sueca, ou em ruptura com os valores da social democracia ou do socialismo democrático. Foi esta postura pessoal que acabou por o transformar num verdadeiro homem de estado internacional cuja voz era ouvida e respeitada.

Olof Palme não teve uma infância fácil. Perdeu o Pai aos 5 anos, circunstância que terá pesado no tipo de educação que recebeu: foi educado por professores particulares num dos melhores colégios privados de Estocolmo. Apesar de adolescente com uma saúde frágil, nada o impediu de acabar o liceu aos 17 anos, de se licenciar em Direito em 1951 aos 24 anos e graduar-se em Ciência política em Ohio, nos Estados Unidos.
Bem cedo sucumbiu ao apelo das grandes causas. Com apenas 19 anos, juntou um grupo de estudantes Suecos que contribuíram com uma regular recolha de sangue destinada a financiar bolsas de estudo para estudantes Sul Africanos.

Como líder da União Nacional dos Estudantes Suecos, visitou os Estados Unidos, a Índia, o México e na Primavera de 1949, Praga. O racismo, as desigualdades sociais, e o comunismo na sua versão mais dura, realidades com as quais então conviveu, contribuíram para radicalizar as suas convicções democráticas, e para reforçar o sentimento de solidariedade para com os pobres e os oprimidos no mundo.

Como político, procurou levar à prática os valores de solidariedade humana em que verdadeiramente acreditou. E fê-lo com coerência ao valorizar com sabedoria e bom senso não só o arsenal legislativo sueco, como protagonizando, ele próprio, um conjunto de iniciativas de evidente visibilidade pública e de incontestada eficácia política.

No fim da década de 60, toma sucessivas posições públicas contra a guerra do Vietname. Em Fevereiro de 1968 participa numa manifestação de rua afirmando que, em democracia, ninguém pode impor a ninguém o seu próprio destino e muito menos pela força das armas, e que a liberdade é condição essencial para a democracia. Nos anos 80 luta incansavelmente pela paz e segurança comum, contra o racismo e contra a discriminação negativa das minorias, pela integração e apoio aos refugiados da guerra. Cedo Olof Palme compreendeu que não poderá haver segurança internacional se cada estado se preocupar apenas em proteger as suas cidades das agressões externas; bem pelo contrário, a estabilidade e paz no mundo dependem, em grande parte, da protecção feita aos cidadãos dentro das fronteiras de cada estado, através de políticas sociais e económicas que combatam o desemprego, a pobreza, a explosão demográfica, a degradação ambiental, o tráfico de droga e os nacionalismos extremistas.

A isto Olof Palme chamou desenvolvimento para a segurança comum! Para esta realidade, procura sensibilizar os jovens Suecos. Em Junho de 1984 faz um discurso no congresso da Juventude Social Democrata:

“Vós sois a geração que pode dar passos gigantescos no desenvolvimento duma sociedade pacificada. Conseguí-
-lo-eis se usardes as novas tecnologias e o imenso conhecimento de que hoje dispomos, para aprender e desenvolverem-se a vós próprios em diálogo, compreensão, camaradagem e amor.”

Afirmações como estas por parte de uma figura pública revelam bem o caracter do homem que as profere.
A carreira política de Olof Palme foi uma consequência natural da sua enorme vontade de servir, da sua sensibilidade e coragem colocadas ao serviço dos outros. A “coisa” e a “causa” públicas assumiram, na sua vida, um lugar de primordial importância.

Depois de ter sido líder da União Nacional dos Estudantes Suecos, director da Liga de Estudos da Juventude Social Democrata e presidente do Partido, Palme foi Deputado, Ministro dos transportes e comunicações (1965) (foi o responsável pela obrigatoriedade de se conduzir pela direita, na Suécia), Ministro da Educação e Cultura (1967), e finalmente Primeiro Ministro da Suécia em dois períodos distintos: 1969/76 e 1982/86.

Mesmo quando, entre 1976 e 1982 o seu partido ficou fora do Governo após 44 anos de poder, aproveitando o facto de desde cedo ter executado funções em actividades internacionais, Olof Palme foi chamado ao Concelho Nórdico para a Paz e Cooperação, foi enviado pela ONU para mediar o conflito entre o Irão e o Iraque, e assumiu a liderança da Comissão Independente para o Desenvolvimento e Segurança, com sede em Genéve. Em 1982 o relatório publicado pela comissão expressa a enorme preocupação desta face ao desenvolvimento incontrolado do arsenal nuclear mundial. Cito:

“Todos concordamos que uma guerra nuclear traria à Humanidade uma destruição sem precedentes. No extremo, poderia mesmo levar à extinção da espécie humana. Verificámos que a doutrina da “détent” oferece uma protecção frágil aos horrores da guerra, como sabemos que num caso destes não há vencedores nem vencidos. A alternativa é a Paz e Segurança Comum.
Temos que as encontrar, não contra, mas com o nosso adversário. A segurança internacional deve ser pois um compromisso comum, assumido contra a destruição mútua!”.

Olof Palme morreu prematuramente em 28 de Fevereiro de 1986 nas ruas de Estocolmo quando, acompanhado da esposa, regressava do cinema. Era então 1o Ministro da Suécia. Estava no auge da sua carreira política e capitalizava toda uma vida de credibilidade e coerência política.

Não faltaram as suposições e as explicações para a sua morte. Uma das mais prováveis teria tido a ver com a situação política na África do Sul.
Na época, apesar dos crimes contra a Humanidade praticados pela comunidade branca Sul Africana atingirem proporções intoleráveis, a comunidade internacional, em especial os governos ocidentais, toleravam esta situação com um misto de equívocos e hipocrisia. Olof Palme foi um dos poucos líderes ocidentais que, duma forma consistente e eficaz, condenou o Apartaide e demostrou pública solida-riedade para com os negros Sul Africanos. Fê-lo quer através de posições políticas de condenação, quer através de apoios materiais concedidos à oposição ao regime. Uma semana antes de ser assassinado fez, no Parlamento Sueco, um violento ataque ao governo branco da África do Sul. Cito:

“Sabemos que a ideologia da raça não é sustentada por factos ou diferenças de natureza humana, mas por realidades e interesses de natureza económica. O apartaide defende privilégios sociais e só persiste porque recebe ajuda de fora da África do Sul. É um sistema, repugnante que traz instabilidade á comunidade internacional e não tem futuro.”

Este discurso foi ouvido por Craig Williamson, responsável da polícia secreta Sul Africana, a quem foi imputado este crime. Apesar de na altura admitir ter estado envolvido em outros crimes políticos, Williamson sempre negou qualquer responsabilidade nesta operação, conhecida com o nome de código de “Long Reach”. Verdade ou mentira, o longo silêncio que desceu sobre este caso não prestigia a justiça Sueca, antes parece suportar a ideia de que o crime compensa.
As ideias políticas de Olof Palme foram-se desenvolvendo através das relações privilegiadas que teve com Tage Erlander, líder do Partido Social Democrata e primeiro ministro Sueco na década de 50, e do qual foi secretário particular. Ambos identificavam o “bem estar social” como modelo Sueco de desenvolvimento, e, mais do que isso, como tradição da social democracia Sueca. Por isso, frequentemente o debate ideológico girava á volta do caminho a seguir para atingir esse objectivo. Em oposição ao principio liberal conservador que encoraja e privilegia as iniciativas e poupanças privadas em seguros de pensões, de saúde, e outros tipos de segurança social, os sociais democratas defendiam ideias que obrigavam à criação de um sector público forte, em que os padrões educacionais, pensões mínimas, os cuidados médicos, deviam ser, tanto quanto possível, iguais para todos.
Olof Palme desenvolveu ideias próprias quanto ao papel do Estado numa sociedade dinâmica. Ao contrário do que pensavam os seus opositores, ele argumentava que o estado não era um factor inibidor da iniciativa individual nem atentatório da eficiência económica, mas antes um motor de desenvolvimento planificado. Como organizador da sociedade, era um instrumento propiciador de emprego, segurança, melhor habitação, melhores comunicações e de outras infra estruturas, das quais os empreendedores privados podiam também beneficiar.

Pensava ainda que, ao contrario da sociedade do passado, a pobreza e o desemprego não eram as principais causas do alastramento do descontentamento. Em vez disso, eram as insuficientes oportunidades de educação, as exíguas condições de habitação, e os deficientes cuidados de saúde que provocavam o desencanto dos cidadãos, e exigiam o reforço do sector publico do estado. Tage Erlander e Olof Palme falavam duma sociedade forte, capaz de se ajustar ás necessidades do povo, rejeitando o argumento de que isso significaria burocracia e constrangimentos de concretização.

Todas estas ideias foram expressas num livro publicado pelo partido social democrata com o título “A Sociedade dos Eleitores” ou “A Sociedade Eleitora”.
Palme era um pensador tão optimista, que uma das suas ultimas contribuições para o debate internacional foi uma proposta de que o modelo político Sueco fosse implementado no mundo de 1985.

Se enquanto político, mostrou ser um cidadão atento, e enquanto administrador provou ser um trabalhador eficaz, enquanto homem nunca deixou de ser justo e sensível. Consciente de que a verdadeira igualdade social só se alcança através de elevados e alargados níveis escolares, Palme dedicou particular atenção à política da educação. Fê-lo implementando reformas inovadoras previamente discutidas com os estudantes. Apostou no Ensino Secundário e Superior obrigatório e em programas de instrução de adultos vocacionalmente orientados. Tudo com o objectivo de reduzir precocemente as diferenças de formação que condicionavam o acesso ao emprego qualificado, logo, à qualidade de vida.

E sendo a qualidade de vida dos Suecos a sua grande preocupação, foi também para o mundo do trabalho que foram canalizadas muitas reformas. Umas visavam a reorganização do trabalho com a participação dos trabalhadores no controle e co-gestão das empresas, outras valorizar o papel e influencia dos sindicatos. O reforço e expansão do sector publico do estado, a adopção de programas políticos onde a preocupação com a equidade estava presente em vários domínios como a educação, o emprego, a saúde e segurança social e a igualdade entre os sexos, sempre fizeram parte das propostas que Olof Palme sucessivamente apresentou aos Suecos.

Provavelmente a maioria dos Suecos só deu conta da estatura internacional do seu 1o Ministro quando, nos dias que se seguiram à sua morte, ouviram os muitos testemunhos e notaram a presença de inúmeras figuras de estado de vários países no seu funeral.

Anti-colonialista militante, fomentou o apoio económico e político aos novos países que então nasciam, em particular na África e na Ásia. Enquanto grande amigo dos Americanos, nunca compreendeu nem aceitou o modo como estes retomaram uma velha guerra colonial no Vietname que antes tinha sido perdida pelos Franceses, moralmente reprovável e condenada ao fracasso. Apesar de adversário dos comunistas, nunca deu cobertura ás sucessivas ditaduras militares de Saigão, corruptas e fascistas. Na qualidade de Ministro da Educação, tomou parte na manifestação contra a guerra do Vietname ao lado do embaixador Norte Vietnamita em Moscovo, que se realizou em Estocolmo em Fevereiro de 1968. Quando, no Natal de 1972 os Estados Unidos da América bombardearam Hanoi, Palme fez uma declaração comparando o ataque com as atrocidades fascistas e comunistas de Guernica, Lidice, Karyn e Treblinka.

Defensor intransigente da paz e estabilidade no mundo, Palme lidou com mestria a questão das armas nucleares, tema muito controverso na sociedade Sueca de então.
Era de opinião que a Suécia deveria ter uma defesa poderosa capaz de fazer acreditar o mundo na sua capacidade para se defender, condição essencial para os Suecos puderem manter a sua política de neutralidade e não participação em alianças. Foi neste contexto que Palme conseguiu manter o debate e o partido unido á sua volta, mas adiar a decisão o tempo suficiente até a opinião anti nuclear ter ganho a maioria na Suécia. Apesar disso, muitos anos depois, em plena crise do petróleo, a Suécia, pronunciando-se por referendo, não fechou a porta ao poder nuclear, antes apontou um caminho gradual e lento para a sua adopção. Na prática, a estratégia de Palme continuava a resultar quase 20 anos depois.

Palme era determinado mas oportuno, controverso mas tolerante, idealista mas sensato e, para além de tudo, era inteligente e optimista.

O seu optimismo era sustentado pela crença profunda nos valores e potencialidades da democracia. Acreditava que num mundo ameaçado pelo crescimento demográfico descontrolado, pelo acentuar das desigualdades económicas e sociais, pela instabilidade política, só a democracia participativa poderia suster os ímpetos de governos autoritários, ajudar a redistribuir a riqueza, a promover a sociedade do esclarecimento e da informação, e a criar justiça social. Sempre defendeu com intransigência estes princípios. Fê-lo quer entre os seus pares, governantes do mundo, como entre os seus correligionários no seio da Internacional Socialista da qual, conjuntamente com os chanceleres Willy Brandt, Alemão, e Bruno Kreisky, Austríaco, foi destacado dirigente.

As ideias do reformismo democrático, do anti-colonialismo e anti-comunismo adoptadas e assumidas pela Internacional Socialista, foram um amanhecer de esperança para os povos oprimidos do mundo. A Internacional Socialista correspondeu a essas expectativas criando uma comissão (comissão Brandt) encarregada de encontrar e propor soluções para o desenvolvimento da assistência aos países pobres.
A ideia da comissão Brandt era de que o desenvolvimento económico dos Países do 3o mundo constituía prioridade para os países industrializados, e não só por razões de paz e segurança, conforme havia já sido referido no relatório que Palme fez em 1982 como presidente da Comissão Independente para o desarmamento e segurança e da qual já demos conta, mas também por razões económicas, vantajosas para os países industrializados - novos países a desenvolverem-se representam novos consumidores e novas oportunidades de negócio. Por isso, o relatório da comissão terminou com uma extensa lista de propostas e recomendações.

Estas ideias de bom relacionamento e entendimento entre ricos e pobres têm a marca de Olof Palme. A política de solidariedade e desenvolvimento de interesses comuns levada à prática num país pequeno como a Suécia, podia e devia ser alargada a todos os países. Era o grande desafio de Olof Palme e foi também o seu legado, recebido com entusiasmo pelas pequenas nações do mundo, mas com retraimento pelos líderes das grandes potências.

Nunca foi intenção deste artigo dar a conhecer em pormenor o admirável percurso deste “gigante da justiça” como chamou Oliver Tambo a Olof Palme. Apenas pretendemos recordar aos leitores algumas passagens da vida pública deste homem que foi político, e enquanto político nunca deixou de ser homem.
Vivemos, todos sabemos uma crise de valores. O neo liberalismo não passa duma forma de egoísmo e de arrogância por parte dos bem instalados, dos mais espertos, daqueles que não sentem necessidade de solidariedade.

Lembrar nesta altura Olof Palme, ajuda-nos a sustentar o inconformismo, a reforçar as nossas convicções no porvir duma sociedade mais justa e mais fraterna.
O assassínio de Olof Palme não só provocou tristeza e indignação nos partidos políticos alinhados com a social democracia e o socialismo democrático, mas também desencadeou uma manifestação nacional a favor duma sociedade plural, contra o terror, a violência, a guerra. Após a sua morte, a opinião pública juntou-se à volta das suas ideias de não violência, e da construção duma sociedade igualitária, de tal modo que este tem sido desde então o objectivo/vontade do povo Sueco, levado a cabo pelos sucessivos governos.

Para o 3o mundo ficou um enorme sentimento de perda de “um amigo, um companheiro combatente da Liberdade”.

José Barradas
Deputado da Assembleia da República na 7a Legislatura

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