Para uma Pedagogia da Criatividade

Todos os homens se esforçam por aprender o que não conhecem, mas nenhum busca entender melhor o que julga conhecer.
CHUANG TZU

A vida actual exige acção. O intelectual de gabinete e o espiritualista que se isola, num recolhimento interior, silencioso e meditativo mas incapaz de participar no mundo à sua volta, são figuras que devem ir pertencendo cada vez mais ao passado. Porém, se a vida actual exige operância e transformação, nem sempre vivemos a experiência de sermos os sujeitos da nossa própria actividade, de modo a que, transcendendo a prisão do isolamento, possamos crescer, florir e frutificar. É neste sentido - e só neste sentido - que se pode dizer, com Agostinho da Silva, que “o homem não foi feito para trabalhar1, mas para criar”.

É importante, contudo, compreender que não é só através da Filosofia, da Arte, da Literatura ou da Ciência que podemos ser criadores. Podemos ser criadores em todos os actos da nossa vida. Mesmo nos mais simples, como andar, beber uma chávena de chá ou vestir um casaco. Despertaremos então para a verdadeira alegria de viver; sentimento que Erich Fromm definiu como “aquilo que vivenciamos no processo de crescimento e aproximação do objectivo de nos tornarmos nós próprios” e que, para Spinoza, é a “passagem do Homem de um grau de perfeição menor para um maior”. Por outro lado, como expressão de uma actividade não-alienada, a alegria é frequentemente referenciada por todas as Grandes religiões. No Talmude, afirma-se que a alegria de um mitzvah (cumprimento de um dever religioso) é o único meio de se alcançar o Espírito Santo; o Livro dos Salmos termina com uma série de quinze salmos que constituem um grande hino à alegria; e o Novo Testamento contém diversas referências a essa divina alegria: “O reino dos céus é semelhante a um tesouro oculto num campo: um homem descobriu esse tesouro, escondeu-o e, cheio de alegria, vai vender tudo o que possui e compra esse campo” (Mateus, XIII, 44); “Disse-vos isto para que a minha alegria esteja em vós e seja perfeita a vossa alegria” (João, XV, 11),
Infelizmente, nem sempre conseguimos despertar em nós esse divino sentimento, porque a maior parte das nossa acções são alienadas. Até mesmo aquelas tidas como indispensáveis ao progresso individual e social. É que, de facto, apesar do valor que se costuma atribuir à vida e à liberdade, a sociedade trata-nos geralmente como se estivéssemos apenas obcecados pelo poder, pelo sexo e pelo dinheiro, e como se precisássemos de ser distraídos a todo o momento de qualquer contacto com a morte ou com a verdadeira Vida. Ramakrishna dizia que se dedicássemos às práticas espirituais um décimo do tempo que perdemos em distracções, atingiríamos a iluminação em poucos anos e conta-se que o Mestre tibetano Mioham, que era uma espécie de Leonardo de Vinci dos Himalaias, inventou um relógio, um canhão e um avião; mas, logo que os acabou de construir, destruiu-os imediatamente, afirmando que só serviam para lhe causar mais distracções. Todavia, a nossa sociedade utiliza habitualmente uma falsa terapia que tem por base a distracção e o esquecimento de nós próprios, projectando-nos cada vez mais para a periferia sob a pressão das mais diversas forças centrífugas. É então inevitável a insatisfação e o vazio. Os “massmedia” disseminam constantemente novas imagens, rompendo nossas defesas e nossos modelos mentais da realidade, no domínio da educação, da política, da economia, da medicina… A linguagem modifica-se então rapidamente e já vai longe o tempo em que o homem aprendia a linguagem da sua sociedade e se servia dela com poucas alterações durante toda a vida.

E também no domínio da Arte - ou do que impropriamente se passou a chamar Arte - se verificou esta aceleração. Enquanto no passado era raro haver uma mudança fundamental no estilo da Arte no espaço de tempo de uma vida humana (pois um estilo ou uma escola costumavam durar gerações seguidas), hoje, o ritmo mutacional da Arte é tão acelerado que o espaço de tempo, que medeia entre o aparecimento e o desaparecimento de uma escola, não é suficiente para que se aprenda as características e a linguagem dessa escola. Até na música se torna cada vez mais evidente este impulso acelerativo, existindo mesmo provas de que os músicos do nosso tempo interpretam Mozart, Bach e Haydn, a um compasso mais rápido do que o usado quando a composição das suas obras.

Pretende-se então dar resposta às necessidades da nossa época, de uma forma que põe em risco a saúde física e mental. E assim, procura-se absorver o maior número possível de informações, o que explica o êxito fantástico dos cursos de leitura rápida entre estudantes universitários, políticos e dirigentes empresariais. Uma das melhores escolas de leitura rápida declara-se capaz de triplicar a velocidade receptiva de todas as pessoas.

Uniformidade Alienante
Para sobreviver, inserido nesta aceleração desenfreada, o ser humano vê-se obrigado a tornar-se cada vez mais adaptável, pois as antigas raízes - religião, política, família, profissão - estão a ser profundamente abaladas. Incapaz, portanto, de uma reflexão serena, o homem do nosso tempo age sem descanso, numa ânsia por vezes incontida de afirmação e de protagonismo, trabalhando cada vez mais para melhorar as condições de vida, mas, por estranho que pareça, sem se preocupar com a própria Vida. Por outro lado, tem havido, desde o século XIX, uma tendência acentuada para a uniformidade2 e para um incompleto aproveitamento humano, expressa na produção estandardizada de milhões de produtos, na especialização3, no sincronismo da vida social (regida pelo relógio e adaptada às exigências da máquina), na concentração4. E assim, a sociedade tem sido quase unicamente orientada pelo ter, em que a macrofilia do industrialismo atingiu por vezes aspectos surpreendentemente ridículos. É o caso por exemplo, de cidades e nações que se vangloriam de ter o mais alto arranha-céus ou o maior estádio de futebol; é o caso ainda de trabalhadores e empresários japoneses da Companhia Eléctrica “Matsushita” a cantarem em coro todos os dias:

“Fazemos os possíveis para promover a produção
Enviando as nossas mercadorias para os povos do mundo Interminável e continuamente.
Como a água a jorrar de uma fonte
Cresce a indústria, cresce, cresce, cresce!
Harmonia e sinceridade!”

Tudo tem sido feito para nos esquecermos de nós próprios: os filmes, as telenovelas, a publicidade enganosa, a alucinação da velocidade, a alimentação exageradamente condimentada, o álcool, a droga, a prostituição… Por isso, não surpreenda que se tenha verificado uma inversão de quase todos os valores:
a família perdeu a coesão e a unidade; a Educa-
ção deixou-se absorver pelo utilitarismo e pelo burocracismo; o desporto transformou-se numa máquina monstruosa de competição; a devoção religiosa tem vindo a ser substituída pela crendice e pela superstição (5), levando muitas pessoas a confiarem a sua vida a bruxos adivinhos e falsos mestres. Por outro lado, a nossa liberdade espiritual está ameaçada por uma “floresta” de leis. E, cada vez que assumimos um determinado compromisso, ficamos submetidos a um novo grupo de leis. Contudo, não se pensa nisso sobretudo quando se é jovem, podendo até dizer-se que o homem passa a primeira metade da sua vida a “aceitar encargos” e a segunda metade a tentar livrar-se deles.
Como sair desta situação?

Educação para a Criatividade
Sair desta situação exige, primeiramente, que tomemos consciência dela. Depois, à medida que essa consciência se for intensificando, é preciso promover a verdadeira Educação para a Criatividade, que é, evidentemente, uma componente inseparável da Educação para a Paz, visto que não pode haver paz sem a plena expressão das nossas virtualidades. Só assim será possível atenuar essa ânsia incontrolável de consumir sempre mais e mais, que, mais cedo ou mais tarde, conduzirá inevitavelmente a uma catástrofe ecológica de dimensões imprevisíveis.

Só uma verdadeira Educação para a Criatividade nos pode libertar do terror absurdo de não estarmos actualizados, de ficarmos para trás, de não acompanharmos os avanços da tecnologia. É esse terror que o “marketing” tem explorado conse-guindo, desse modo, vender-nos tudo.

Sair desta situação exige, em segundo lugar, que se compreenda que não pode haver acção inspirada e criadora sem uma dimensão contemplativa6. Ora, quando a dimensão contemplativa, que existe em todos nós, é impedida de se manifestar, as pessoas enfurecem-se e fazem coisas sem pés nem cabeça.
Daí, que seja indispensável promover a acção, dando igual importância à contemplação; o que significa
que sem um “centro” de consciência não é possível
apoiar e fundamentar a dinâmica do pensamento.
E se o quietismo e a passividade não são aconselháveis num mundo em vertiginosa transformação, a actividade desenfreada também o não é.

Dizia Agostinho da Silva: “Quando cada um de nós for ‘aquilo que realmente é’, teremos o Quinto Império”. Nada mais correcto. Mas isso implica, como temos vindo a dizer, uma orientação pedagógica no sentido da criatividade que, conduzindo-nos ao conhecimento de nós próprios, abra também as portas de acesso ao conhecimento e à aceitação dos outros; diferentes de nós, mas, tal como nós, com uma função única e insubstituível na economia do Universo. É este o passo decisivo para o Equilíbrio e para a Paz; pois, enquanto tivermos apenas uma “medida” para avaliarmos o mundo à nossa volta, haverá sempre avidez, inveja e intolerância7. Quando cada um de nós for “aquilo que realmente é” seremos - à imagem de Deus - criadores; quer dizer: deixaremos que o mistério do Universo se expresse através do mistério da nossa Individualidade.

José Flórido
Licenciado em Filologia Românica; Professor de Literatura e Cultura Portuguesa; Autor de vários livros, nomeadamente: “Pietro Ubaldi - Reflexões” (editado pelo CLUC), “Conversa Inacabada com Alberto Caeiro”, “Um Agostinho da Silva” e diversas obras didácticas.

NOTAS
1 Recordamos que a palavra “trabalho” deriva do vocábulo latino tripaliu, que era um “instrumento de tortura”. Não surpreende, pois, que “trabalho” conserve, de certo modo, um sentido de sacrifício, de sofrimento, o que não acontece com “actividade criadora”, porque esta é expressão da nossa natureza essencial.

2 Também já nos referimos diversas vezes à distinção que deve ser feita entre unidade e uniformidade. Enquanto a unidade é “harmonia na diversidade” a uniformidade extingue todas as características individuantes.

3 A Especialização tem apenas aproveitado uma parte das faculdades humanas. A título de curiosidade, citamos aqui esta informação que recolhemos:
“Quando Henry Ford começou a fabricar um determinado modelo de automóveis eram necessários 7 882 trabalhos especializados. Ford observou que desses 7 882 trabalhos especializados, 949 requeriam homens fortes e aptos; 3 338 requeriam apenas homens de força física vulgar; e a maior parte dos restantes podia ser executada por mulheres e crianças crescidas. Então afirmou friamente: “Verificámos que 670 podiam ser desempenhados por homens sem pernas, 2 637 por homens só com uma perna, 2 por homens sem braços, 715 por homens apenas com um braço e 10 por homens cegos.”
De onde se pode concluir que a tarefa especializada não exigia uma pessoa inteira, mas apenas uma parte.
O objectivo da actividade criadora é o de que o ser humano cresça em todas as direcções e, portanto, harmoniosamente. Chamamos por isso a atenção do leitor para a diferença que costumamos estabelecer entre Especialização e Função. A Função (que corresponde àquilo que na doutrina hindu se designa por Swadharma) representa a realização para cada ser de uma actividade conforme à sua essência. Deste modo, a função encontra-se na polaridade contrária à especialização, porque enquanto a especialização é geralmente uma expressão individualizada separada do todo em que devia estar integrada, a função, pelo contrário, é a expressão individuada do Todo e, portanto, integrada no Todo.

4 O princípio da concentração, começou no século XIX: os criminosos eram concentrados em prisões; os doentes mentais eram concentrados em manicómios; as crianças eram concentradas em escolas; os trabalhadores eram concentrados em fábricas.

5 Por curiosidade, assinalamos aqui o facto da palavra “superstição derivar do termo latino superstites, que significava “aqueles que se mantinham de pé após a batalha”, quer dizer, portanto, os que sobreviviam sem terem sofrido graves ferimentos. Que relação poderá existir entre este sentido e o sentido actual da palavra “superstição”? Provavelmente os superstites acreditavam irracionalmente que a sua sobrevivência era devida ao poder de qualquer objecto ou situação por que tinham passado. Daí o facto da palavra “superstição” ter adquirido o significado que tem hoje.
Apesar das superstições terem uma orientação irracional, algumas têm-se revelado notavelmente práticas. Assim, havia na Inglaterra, a superstição de que as pessoas que contraíam a vacina (a varíola bovina, que é uma forma benígna de varíola) ficavam imunes à varíola propriamente dita. Ora, este facto comprovou-se cientificamente. E. Jenner descobriu que a inoculação da “vacina” evitava a varíola. E assim, o termo vacina (que inicialmente era, como dissemos, a designação da varíola bovina) tornou-se extensivo a todos os produtos que, por inoculação, previnam outras doenças.

6 A posição de lótus impede de algum modo o raciocínio e o pensamento discursivos, do mesma maneira que a experiência contemplativa de S. João da Cruz que advoga o abandono do pensamento, a fim de se alcançar a “chama viva do amor”, Contudo, a contemplação não elimina o pensamento; transcende-o e é condição indispensável para que ele se expresse no mundo de uma forma correcta e equilibrada.

7 Essa “medida” é um produto da mente e pode ser ilustrada pela lenda de Procrustes que era um bandido da Ática que, não só despojava os viajantes dos seus haveres, como também os obrigava a deitar num leito de ferro, cortando-lhes os pés quando eram mais compridos do que a cama; ou, no caso de serem mais curtos, esticando-os por meio de cordas, para que atingissem o comprimento do leito.
A mente é portanto a medida. A palavra mente radica longinquamente no sânscrito manas, da mesma raiz de maya, de onde provêm os termos mensurar, dimensão, mês e até homem (em inglês, man) que é “a medida de todas as coisas”. A palavra mente surge assim associada à ideia de medida ou ao que é possível de ser medido. E o que é possível de ser medido é o Universo manifestado, porque, apesar da sua inimaginável grandeza é finito. E, sendo finito é, de certo modo, ilusório, visto que não descobrimos nele o verdadeiro Actor que se esconde por detrás da diversidade imensa das suas representações. Compreende-se, pois, a insuficiência da mente para alcançar a verdade essencial.

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