Um Concerto dos Yes (e Giordano Bruno, e todos, todos, todos!)

Regressando quase 25 anos atrás, fomos assistir ao concerto dado em Lisboa (24/2/2000) pelos Yes, um dos grupos que encheram a nossa adolescência - como os Genesis (”And when the Master comes…”), os Floyd (”You reached for the secrets too soon…”), os Barclay James Harvest (”Oh sweet Jesus, see me cry…”), os Emerson Lake & Palmer (”Welcome back, my friends, to the show that never ends”)… Foram tempos em que não ceder ao comercialismo chegou a ser um ponto de honra, quase uma moda - ou talvez, afinal, para a maioria, nada mais tenha sido, justamente, do que uma moda…

Pouco mais de 3.000 pessoas estiveram presentes naquela noite mas os Yes encheram o Pavilhão com a magia e a pureza do seu som, ora intenso, ora cristalino, ora sumptuoso, jamais concessivo, popularucho ou comercialista - e tão longe do martelar infernal e de plástico prevalecente nestes últimos anos. A perfeição dos teclados, as guitarras impecavelmente tocadas por Steve Howe, a voz única (quase celestial!) de Ion Anderson soaram como um bálsamo. Eles não se renderam! Só por isso valeu a pena ouvi-los! E por esse motivo, por um sentimento de justiça e porque a dignidade é uma coisa muito importante, não lhes regateámos aplausos e, se pudéssemos, teríamos enchido o pavilhão para eles, tornando maior o calor que, ainda assim, lhes não faltou…

A nossa crise civilizacional é de tão formidável dimensão que não podemos deixar de nos sentir solidários com todos os que, ao seu nível e na sua própria esfera de actividade, contribuem para melhorar, um pouco que seja, o nosso mundo, elevando os padrões de cultura e de (con)vivência.

Acima de tudo, não podemos deixar morrer os melhores e mais belos Ideais! Temos o dever de sustentar e fortalecer o elo (”mantende o elo intacto” - as últimas palavras de H.P.Blavatsky) que perpetua a sua transmissão e recriação, ininterruptamente, geração após outra, idade atrás idade! Precisamos de amar os Ideais, de respeitar e honrar os que viveram por eles, de compreender e ajudar os que vivem por eles, de preparar e facilitar o caminho para os que por eles viverão!

A nossa querida Annie Besant algum dia assim falou sobre Giordano Bruno: “Pobre orador! Com as tuas palavras ardentes não pudeste acender os corações duros e frios como pedra; acendeste apenas a tua própria fogueira, cujas chamas reduziram a cinzas o teu corpo…” (A Mensagem de Giordano Bruno ao Mundo Moderno)

E como Bruno, quantos e quantos assim vieram, com tantos e distintos meios de fomentar o verdadeiro progresso! Romperam caminhos com a sua vontade; explicaram o Universo e o Homem com a sua pura filosofia; definiram paradigmas com o seu pensamento gerador; criaram beleza com a sua arte inspirada; codificaram leis com a sua laboriosa ciência; inflamaram corações com o seu ardor heróico; libertaram consciências com o seu sentido de justiça e de ordem! Um após outro, vieram e voltaram os melhores operários, os mais dignos servidores, os mais destemidos combatentes pelo Amor e pela Verdade - e ainda se não conseguiu romper o muro da ignorância e da insensibilidade que escraviza a Humanidade!

Mas há e haverá sempre quem tenha força para lutar. E é preciso continuar a lutar - até ao dia em que o mundo deixe de ser imundo (como tem vindo a ser) e os humanos deixem de ser desumanos (como ainda são frequentemente) e o supersticioso sectarismo materialista (que nos agrilhoa) deixe de toldar o entendimento.

“Silly human race” (…”And You and I”)… “Soon - Oh, soon! - the Light!”, “Going for the One”…

José Manuel Anacleto

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