Transcendência e Imanência de Deus - IV

A Constituição Integral do Ser Humano

O Homem é um ser que existe, tem corpos e tem consciência - meramente potencial ou já despertada - em diversos Planos, reproduzindo em si a constituição septenária do Universo, sobre a qual escrevemos no o 3 da “Biosofia”. Temos, pois, de o considerar na sua integralidade e não apenas na concepção reducionista do materialismo (que limita o ser humano ao corpo físico) ou nas apresentações religiosas simplistas - consequência de haverem perdido as chaves da Ciência do Espírito, por muito que detenham chaves para abrir portas do poder temporal -, nas quais se fala vagamente de alma ou espírito (como se fossem sinónimos), considerados como uma espécie de vazio, sem substância, que se diferencia (não sabem muito bem como) do corpo físico.

O Homem integral
O Ser Humano é complexo e, se repararmos bem, podemos e devemos distinguir nele:
1. O corpo físico que todos conhecem;
2. O molde e as causas dirigentes da geração e formação desse corpo físico, bem como a vitalidade que o anima e mantém coeso;
3. Os desejos, emoções, afectos e sentimentos pessoais;
4. Os pensamentos e a capacidade analítica a partir dos dados observados e das coisas sentidas;
5. Uma inteligência criadora, que funciona em termos abarcantes e sem ser comandada, de fora para dentro, pelos fenómenos e pelas reacções que estes suscitam, antes se lhes sobrepondo, num domínio de liberdade (por isso se diferenciando do tipo de pensamento imediatamente antes considerado);
6. Capacidade intuitiva, i.e., de uma sabedoria íntima, real e essencial, adveniente do contacto directo com o âmago dos seres e das situações, o que só pode ser concomitante de um Amor inegoísta, forte, lúcido e que não se confina à própria pessoa e ao que lhe está próximo (distingue-
-se, assim, dos afectos atrás referidos);
7. Uma latente Vontade incondicionada de Bem, que se pode manifestar somente quando nenhuma mácula de egoísmo ou separatividade existe, visto ser uníssona com o grande Plano Divino, com o extraordinário Propósito Inteligente que subjaz a todo o Universo.

E, antes e depois de tudo, É (e, ao Ser, pode expressar-se sob todas as formas que vimos enumerando).

Diferentes classificações
A constituição oculta do ser humano encontra-se referida, de forma mais ou menos expressa e com algumas ligeiras nuances, nos textos sagrados das religiões e das grandes filosofias tradicionais (v.g., a Vedanta, o Hermetismo, o Platonismo, a Cabala). A menção mais ou menos expressa e pormenorizada, e algumas ligeiras diferenças na aparência, dependem, naturalmente, dos destinatários do ensinamento - em particular, da sua maior ou menor capacidade de penetração metafísica. Num estudo aprofundado, é possível comprovar a identidade fundamental de todas as classificações.
No final do século passado, Helena Petrovna
Blavatsky (referida, nomeadamente, na Biosofia o1), sintetizando essas tradições e adaptando-as à ciência e à psicologia contemporâneas, apresentou uma classificação septenária de incontornável rigor. Em alguns aspectos, contudo, não era fácil de entender pela maioria dos homens, mesmo os definida e seriamente interessados no estudo de uma ciência espiritual. Por isso, a sua notável sucessora, Annie Besant (de que falámos amplamente na Biosofia o 3), delineou - a partir do seu livro “A Antiga Sabedoria” - uma outra classificação, ligeiramente distinta, muito mais fácil de apreender. Foi, desse modo, adoptada por muitos estudantes e escritores da área esotérica, como Leadbeater, Jinarajadasa ou Geoffrey Hodson e, também, Alice Bailey, Omraam M. AÃL;vanhov, etc. (Essa classificação igualmente surge em algumas edições do CLUC, embora em outros trechos da mesma Obra, mais profundos, se adopte a enumeração original). Visto que uma parte significativa dos leitores da Biosofia não haverá tido ainda a ocasião de aprofundar o Sistema Esotérico, reportar-nos-emos preferencialmente à 2a classificação, mas apresentada e explicada do nosso modo e com as nossas palavras peculiares, o que permite fazer (pelo menos, assim esperamos) uma ponte para a 1a das classificações - de certa forma mais rigorosa, como já dissémos, porém de compreensão pouco acessível para muitos.

Esta referência de sentido histórico justifica-se para deixarmos consignado que se não desconhece nem
se desvaloriza a apresentação de Helena Blavatsky -
antes pelo contrário. Simultaneamente, importa
clarificar que as duas aludidas classificações são muito semelhantes, considerando as mesmas realidades, apenas dando mais ênfase a este ou aquele aspecto, o que se demonstra com muita facilidade. Julgamos, contudo, que será de deixar essa demonstração para outro momento e local, a fim de não tornarmos este artigo ainda mais complexo para grande parte dos leitores.

A este propósito, devemos ressalvar que, se não pretendemos complicar, tão pouco nos parece correcto resvalar para o simplismo. Poder-se-á acreditar que este estudo é árido e desnecessário; que basta aplicar uns cristais e “sentir muito” para se tornar “muito espiritual”. Se assim fosse, a conclusão mínima era que os maiores Sábios, os mais venerados Avatares e/ou Instrutores da Humanidade - um Cristo, um Buda, um Krishna, um Sankaracharya, um Pantajali, um Kapila, um Hermes Trimegisto. -, todos os Mestres de Sabedoria, ao conservarem uma inesgotável Ciência Espiritual e ao expô-la ao mundo (na medida do possível), estavam equivocados (e perdiam tempo) ou, então, quiseram enganar-nos (fingindo que é preciso trilhar esforçadamente um caminho quando, afinal, tudo se conseguiria quase instantaneamente, com uns simples truques e uns expedientes externos). Quem ignorar a hierarquia dos Planos, dos Princípios de Consciência e seus Veículos, desconhece o mapa que lhe indica qual a direcção a seguir - e, então, caminha às cegas, supondo que está a avançar muito, quando somente malbarata energia e se perde em labirintos (quiçá deslocando-se em direcção oposta à necessária). É certo que, sob uma perspectiva, há diversos caminhos; mas também é verdade que há ainda mais fantasias e ilusões confundidas com espiritualidade. Assim, entendemos que esta temática é da maior utilidade e, ademais, reveladora de uma sumptuosa Arquitectura do Cosmos.

A Mónada
Tal como vimos anteriormente (Biosofia o 3), a Mónada Humana é a Unidade Divina Imortal, o Eu Divino. É uma centelha diferenciada no Fogo Divino, de cuja essência, portanto, participa. Nela se espelha o Universo inteiro. A sua natureza é espiritual, pura, imortal e eterna. Corresponde ao “Pai que Está no Céu”, de que falou Jesus (Mateus, V; Lucas, XI, 13, etc.), ao Purusha da Filosofia Sânkhya (1) e do Yoga, ao Atma dos Vedantinos (2). Em si mesma, é Existência e Consciência Divinas e Absolutas - uma pura Unidade, portanto. Ao manifestar-se, ciclicamente, é apenas um seu fragmento que se projecta sobre os mundos da evolução humana - analogicamente com o que escrevemos a respeito da transcendência e imanência de Deus no Macrocosmo (Biosofia o 2). O puro Espírito, ao manifestar-se assim, volve-se uma díade, usando Budhi (3) como veículo e, seguidamente, uma tríade, quando Atma-Budhi (ou Alma espiritual) emprega a Mente Superior (a Alma Humana) como veículo. É nesta tríade que consiste o Espírito ou Mónada em manifestação.

A Tríade Superior
Deste modo, a Mónada, que no seu próprio plano é pura unidade, vai demonstrar-se como trindade, através da projecção dos seus três aspectos prototípicos: Vontade, Amor-Sabedoria e Inteligência Criadora.

Podemos dizer isto de outra forma, afirmando que, devido à sua extraordinária elevação vibratória, a Mónada só interage com os mundos inferiores indirectamente, através de uma natureza intermediária: o Eu Superior (tal como, por exemplo, na simbologia Cristã, o Pai envia o Cristo ou Filho, “O Caminho, a Verdade e a Vida”, pelo qual unicamente se “vai ao Pai”). O Eu Superior engloba três Princípios ou Potencialidades de Consciência (por isso se designa, habitualmente, Tríade Superior), que enumeramos e caracterizamos em seguida:

- Vontade Espiritual ou Atma - ou melhor, uma radiação de Atma, a que podemos chamar o Atma condicionado ou o Atma inferior (expressão usada por Taimni, um autor de qualidade). Realmente, numa consideração mais rigorosa, Atma é o Espírito Puro e Universal, a própria Mónada. Nesse sentido, não poderia actuar em nenhum dos mundos inferiores, a que é transcendente. Entretanto, podemos recorrer à analogia com as expressões de alguns Upanishads (4) que distinguem o Brahman Superior (Deus Imanifestado) e o Brahman inferior (Deus Manifestado). Sendo Atma idêntico e consubstancial a Brahman, é legítimo aceitar a analogia e distinguir o Atma propriamente dito (Atma superior ou a Mónada) e a sua radiação condicionada (Atma inferior ou, na expressão de HPB, o Ovo Áurico). Este Princípio é o reflexo da Vontade Monádica. Constitui a afirmação plena de Vida, de Ser, de Propósito Divino, correspondendo a um tipo de consciência ainda muito distante da quase totalidade da Humanidade; significa algo como uma Vontade de Bem Universal continuada, sem qualquer hiato, plenamente consonante com o Plano Divino. Só um Mestre é dela capaz. Mesmo S. Paulo, um iniciado, confessava “faço não o bem que quero mas o mal que abomino”.

- Princípio Intuicional, Búdhico ou Crístico, que vibra na substância do Plano Intuicional ou Búdhico. Temos aqui a capacidade cognitiva intuitiva - ou razão pura - que permite apreender, por comunicação directa, a verdade ou natureza íntima dos seres, dos fenómenos, das situações ou das coisas, e vivenciar um amor transpessoal, desinteressado, inegoísta e dirigido ao Todo em cada uma das suas partes. É o reflexo do Amor-Sageza da Mónada. Representa a fonte do verdadeiro discernimento entre o Bem e o Mal, entre a Verdade e o Erro, entre o Certo e o Incorrecto, e a possibilidade de uma sabedoria real e interna (distinta de um conhecimento superficial e baseado na sempre mutável ilusão sensorial). A verdadeira Intuição é algo de ainda relativamente raro na Humanidade, sendo lamentável que se vulgarize a referência a esse vivido, quando estão somente em causa premonições, pressentimentos, instintos, “sensações muito fortes”. Chegar a ser realmente intuitivo é o resultado de um longo e persistente esforço evolutivo, que pressupõe um grande desenvolvimento mental prévio - não apenas nos seus níveis de concretude mas também nos mais subtis. A Natureza não opera por saltos e não se passa directamente da emoção pessoal para o Amor-Sabedoria transpessoal (Intuição) sem estar bem consolidado o grau intermédio - ou seja, o Mental.

- Mente Abstracta ou Manas (5) superior, da substância dos três subplanos mais elevados do Plano Mental ou Mundo do Pensamento. Por seu intermédio, pode o Homem expressar-se em termos de pensamento abstracto, de conceitos globalizantes, de ideias arquetípicas ou sintéticas. Capacita-o a compreender as leis regentes, tanto do Macrocosmo quanto do Microcosmo e, nessa luz, a auto-induzir livremente a sua conduta, ao invés de se limitar a reagir a estímulos externos, de que, por isso, se torna escravo e dependente - como acontece quando actua ao nível da Mente Inferior e do Emocional (ver adiante). Reflecte a Inteligência Criadora Monádica, constituindo o Princípio mais característica e distintamente Humano. Consiste na consciência individual humana adi-cionada aos dois Princípios de consciência (supra-humanos) anteriormente descritos. Entretanto, a Humanidade está ainda muito pouco desperta a esse nível, ou seja, quase não é ainda capaz de pensar em termos amplos, abarcantes e límpidos, tendo, pois, um longo caminho evolutivo a percorrer.

O Homem Encarnante
Estes três Princípios compõem o Eu Superior, a nossa natureza perene. É essa Tríade que encarna para recolher experiências e desdobrar qualidades nos mundos inferiores. Mais rigorosamente, a raiz de cada uma das muitas existências é um raio - um simples fragmento - da Mente Superior (ou seja, de Manas como veículo de Budhi), da Alma Humana, que ciclicamente vai encarnar num quaternário de corpos - o Quaternário Inferior ou Personalidade. A concepção de que “há uma alma e um corpo” é extraordinariamente simplista e imprecisa. O que reencarna não é o nosso psiquismo inferior (a Mente Inferior e o Emocional, como veremos); e aquilo em que (ciclicamente) encarna não é apenas um Corpo Físico mas um conjunto integrado de quatro veículos que chamamos Personalidade.

A Personalidade
A palavra Personalidade deriva da palavra grega “persona”, e “persona” era a máscara que os actores usavam no teatro da antiga grécia. A Personalidade é precisamente aquilo que oculta o Ser real. É a nossa natureza mortal, que muda (6) de encarnação para encarnação, consistindo em:

- Corpo Mental ou Mental Inferior ou Manas Inferior formado pela substância dos quatro subplanos inferiores do Plano Mental. Através dele, o ser exprime-se em termos mentais, de pensamentos analíticos, i.e., voltados para coisas, eventos ou indivíduos separados - para as partes, enfim. É neste nível que se começam a polarizar os chamados “intelectuais”. Trata-se, no entanto, de um patamar relativamente limitado (por isso integrado no Quaternário Inferior) e, assim, as élites da cultura oficial estão significativamente aquém de uma consciência e de um entendimento de real elevação, de uma plataforma de verdadeira espiritualidade ou autêntica sabedoria. Regra geral, o Mental Inferior é subserviente dos fenómenos captados pelos sentidos físicos, é um mero repetidor de pensamentos alheios deformados e está toldado nos seus juízos pelos desejos e motivações egoístas do Corpo Emocional (Kama, em sânscrito); as suas vistas são curtas, voltadas para o efémero, impermanente, temporal. O que existe, no homem comum, é mais propriamente Kama-Manas, ou seja, o Mental (Inferior) envolvido, dominado e iludido pelos desejos ou ciosidades da natureza mortal do homem.

No entanto, em certo nível evolutivo, começa a verificar-se uma reorientação do Mental, que se vai libertando da ilusão, i.e., da escravidão de Kama ou desejo/emoção pessoais, e respondendo crescentemente ao apelo de Budhi ou Intuição, a que acabará, mais tarde, por se render completamente, passando a servir-lhe de dócil instrumento. Afloramos a questão do Antahkarana (7), algo que, todavia, não temos espaço para desenvolver aqui. Podemos, sim, dizer que toda a natureza mental oscila entre dois pólos: Budhi e Kama. Dominado por Kama, constituindo o Kama-
-Manas - a chamada Alma Animal ou Temporal; o psiquismo inferior -, o incipiente intelecto humano representa o mais difícil de superar dos problemas humanos, a fonte de todas as nossas misérias - primeiro, morais e, em consequência, físicas também; dirigido por Budhi, constituindo o Budhi-Manas (a Alma Humana), representa a floração da etapa humana - verdadeiramente, uma “ponte para a eternidade”. Assim, o Mental Inferior (e, com ele, os sentimentos mais elevados e as vivências pessoais mais nobres) é susceptível de se imortalizar, ao ser reabsorvido pelo Mental Superior.

Em suma, de modo mais simples e simbólico, diremos que o Mental (Inferior) é uma ponte ou uma porta com dois sentidos: um conduz ao inferno, o outro abre-se para o Céu.

- Corpo Emocional ou Kama (8), formado da substância do Plano Emocional. Por meio desse veículo, o Homem sói expressar-se em termos de desejos, de emoções e de afectos pessoais - não confundir com o verdadeiro amor, o qual não está matizado por nenhuma coloração de egoísmo pessoal. É o nível animal, da astúcia, do instinto, do subconsciente (também aqui não deve haver confusões com o supraconsciente, que é algo de distinto e diametralmente oposto, correspondendo ao tipo de consciência, ainda incomum, do Eu Superior). A maior parte da Humanidade é impelida basicamente por considerações emotivas, egoístas, ilusórias, cingidas ao seu interesse pessoal separado. Deste modo, encontra-se à mercê da mutabilidade das circunstâncias e dos correspondentes humores, vagueando quase cegamente ao sabor de todas as contingências, de todos os caprichos, de todas as fantasias, de todas as manipulações. De tanto querer saciar os desejos (de posse material e emocional) do seu eu separado, o homem comum sente-se cada vez mais insatisfeito e vazio. Estamos no nível da sedução que engana e aprisiona.

- Corpo Etérico ou Duplo Astral ou Linga-Sharira (9) - Composto de substância dos subplanos superiores - não apreensíveis pelos sentidos comuns - do Plano Físico, permeados e entrelaçados pelos níveis energéticos periféricos do Plano seguinte. É não só a matriz (ou o molde) a partir do qual é decalcado, precipitado, gerado ou (con)formado o corpo físico denso, como também lhe serve de canal por onde aflui a Vitalidade - Prana (10) - dos mundos suprafísicos (sem Prana, o Corpo Físico Denso desintegrar-se-ia e nunca teria sido capaz de qualquer movimento, por destituído de alento vital). No que respeita ao Plano Físico, é o Corpo das Causas Formativas (”As coisas visíveis são formadas pelas coisas invisíveis” - Hebreus, XI, 3). Este é um outro nome possível para designar este veículo; a expressão “causas formativas” foi usada várias vezes por H. P.
Blavatsky para caracterizar algumas das suas funções
e, algures, Rudolf Steiner adoptou a nomenclatura referida, que é aceitável e sugestiva, com a ressalva de ser a fonte geradora e formativa somente no que respeita ao Corpo Físico.

De facto, resulta difícil estabilizar uma designação para este corpo: Corpo ou Duplo Astral foi inicialmente usado por H.Blavatsky e Alfred P. Sinnett mas o termo era ou passou a ser usado noutras acepções e tornou-se equívoco; Linga-Sharira é empregue com outros sentidos em algumas escolas orientais; Corpo Etérico tem óbices, entre eles o de que o conceito de Éter, em Ciência Esotérica, abrange vários níveis, embora todos eles diferentes do Éter cuja existência os cientistas do Séc. XIX especularam; Corpo Vital, usado por alguns (nomeadamente Steiner e Max Heindel), necessita da mesma ressalva que “Corpo das Causas Formativas” e apenas alude a uma das funções deste veículo. Assim, indicam-se as várias designações existentes, até que uma, além de correcta, se sobreponha claramente às outras. De qualquer modo, o mais importante é perceber a que realidade nos referimos, qualquer que seja o nome que se lhe dê.

- Corpo Físico (Denso), que é o único já definidamente reconhecido e catalogado pela ciência oficial (que, porém, começa a tactear o nível seguinte). É basicamente composto de substância dos três subplanos inferiores do Mundo Físico, ou seja, os estados gasoso, líquido e sólido da matéria. Do ponto de vista esotérico, não representa propriamente o que se chama um Princípio de consciência: é apenas um terminal onde se projectam as causas dos níveis mais subtis, algo de semelhante ao écran de um computador. Entretanto, o Corpo Físico é um instrumento que nos é útil e necessário neste mundo, pelo que temos o dever de o respeitar e cuidar bem.

Importa referir, relativamente aos 7 princípios enumerados, que eles se interpenetram, sendo cada um dos relativamente inferiores, veículo do que lhe é superior.

Nunca repetiremos demasiado que não somos o nosso Corpo Físico; nem somos o que sentimos e desejamos; nem somos os nossos pensamentos concretos, dependentes de estímulos externos. É o Eu que se expressa através de diferentes veículos, os quais lhe permitem agir, sentir e pensar para, através das experiências assim proporcionadas, aprender a Criar, a Amar e a Querer sabiamente, em todas as circunstâncias. Para tanto, encarna centenas e centenas de vezes, até organizar, coordenar e purificar os veículos infe-riores - que constituem a(s) Personalidades(s) -, de molde a que estes se transformem em instrumentos adequados para expressar as potencialidades do Eu Superior, que engloba a Alma Espiritual (Budhi-Atma) e a Alma Humana (Budhi-Manas). Só então se criam as condições para uma mais definida manifestação dos Filhos de Deus - as Mónadas (”A criação geme e sofre como que dores de parto. aguarda ansiosamente a manifestação dos Filhos de Deus…” - Romanos, VIII, 19 e 22).

“Quando a mente concreta se tiver volvido em perfeito reflexo da mente superior, os sentimentos pessoais espelharem limpidamente um amor universal e a acção física for uma consciente e poderosa expressão da Vontade do Bem” (11), o ciclo de necessidade da encarnação humana terá sido superado.

Recapitulando.
. Somos uma Unidade Divina Imortal ou Mónada, que participa do Todo Divino, da Grande Mónada Universal. ÃL; semelhança do que acontece no Macrocosmos, essa unidade desdobra-se numa Trindade: Mónada ou Eu Divino, Eu Superior ou Alma (no sentido peculiar de que falámos na Biosofia o3, i.e., excluindo a alma animal), Personalidade ou Eu Inferior. No Cristianismo é esta constituição trina que é habitualmente mencionada, em especial por S. Paulo (cfr. I Tesssal., V, 23). Por sua vez, esta trindade dá origem a um septenário, como vimos. Em tudo se repercute o grande esquema cósmico (Cfr.. Biosofia os 2 e 3).

Reencarnação
Cada uma das Mónadas encerra em si todas as potencialidades - inclusivamente, criadoras - da grande Unidade Cósmica: Deus. No entanto, esses poderes latentes necessitam de ser activados (i.e. transformados de potência em acto) e tal só pode acontecer através de muitas vidas, de muitos ciclos (re)encarnativos. Falaremos disso na continuação deste artigo, em próximos números da Biosofia. Existem muitos equívocos, muitos preconceitos, muita ignorância e muitas ideias simplistas relativamente à questão das vidas sucessivas. Entretanto, se bem compreendida (para o que esperamos contribuir), a Reencarnação é de uma lógica, de uma justiça e de uma evidência maravilhosas, encadeando-se perfeitamente com as (outras) grandes Leis que regem o Universo. Qualquer edifício religioso ou espiritualista que a não admita, necessariamente cai pela base, deixando unicamente destroços inconsequentes. Não queremos ofender ninguém; mas basta reflectir um pouco - o que raramente se faz, porque a religião é habitualmente uma matéria de simples crença ou de conveniência - para verificar que assim é. Pelo contrário, a Reencarnação, bem explicada, sacia a mente e alegra o coração. Como alguém escreveu: “A alma do Homem é imortal e o seu futuro é o de algo cuja grandeza e esplendor não têm limites” (12).

José Manuel Anacleto
Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

1) Filosofia Sânkhya - Sistema Filosófico que remonta a Kapila, um grande e antiquíssimo Mestre. Constitui uma extraordinária fonte de compreensão do Universo.
2) Vedantinos - Os apologistas da Vedanta, que é um sistema esotérico oriental, estribado na interpretação do profundo significado dos Upanishads e no esforço de verdadeiro conhecimento de gerações de sábios.
3) Budhi - Palavra sânscrita, que significa Sabedoria, Discernimento Espiritual, Intuição.
4) Upanishads - Tratados de filosofia esotérica, que constituem a mais nobre e profunda divisão dos Vedas (escrituras sagradas dos hindus).
5) Manas - Palavra sânscrita, que significa Mente, Intelecto.
6) Esta mudança não é absoluta, visto haver a considerar, nomeadamente, o corpo causal e os átomos permanentes, de que não falámos, por questões de espaço e de simplicidade. Serão elucidados noutra ocasião.
7) Antahkarana - Palavra sânscrita, aqui usada para significar a ponte, formada de substância mental, entre o Eu Superior e o Eu Inferior.
8) Kama - Palavra sânscrita que significa Desejo, Paixão.
9) Prana - Palavra sânscrita. Significa o princípio vital, o alento de vida. Aparece referida neste contexto como a parcela da Vitalidade Universal - ou Jiva -, assimilada a um corpo.
10) Linga Sharira - Etimologicamente, em sânscrito, o corpo da força criadora (ou geradora).
11) In “Sete Chaves”, Centro Lusitano de Unificação Cultural, Lisboa, 1995, 1999
12) Mabel Collins, “O Idílio do Lótus Branco”, Ed. Pensamento, S.Paulo

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