Como brincam as Nossas Crianças

Como brincam as nossas crianças? Pelo que ouço, brincam cada vez menos. Os jogos de computador tomam conta dos universos infantis em quantidade e diversidade, ofuscando os quartos de brinquedos, preenchendo todo o tempo em que a criança devia explorar o espaço circundante, algo de fundamental para que conheça o mundo onde começou a viver há pouco tempo. Correr pela casa, aperceber-se da luz nos vários compartimentos, das cores conforme a incidência do sol, dos cheiros, dos materiais que veste ou toca, dos sons da rua, do prédio ou dos objectos que atira ao chão – tudo isto ela faz com o corpo, com o movimento no espaço.

Ora, sentada diante de um aparelho que movimenta as imagens para ela, a criança não experiencia: não manipula, não cheira, não fala, não pula, não equilibra, não corta, não abotoa, não encaixa, não ata, não segura em lápis ou pincel, não faz nada… em suma, não aprende a viver. O que estará aprendendo com os jogos de computador, só Deus sabe…

Falando com a mãe de um menino de 10 anos, contou-me esta que tem de guardar o “game-boy” na mala e dá-lo ao filho para brincar apenas durante dez minutos por dia, pois o médico tinha alertado sobre os danos na vista causados pelo jogo. Desde quando é que um brinquedo saudável tem tempo limite de brincadeiras, tipo dose de antibiótico?

Poderei falar, também, dos que têm televisão no quarto e, com 3 anos, manipulam o comando quando e às horas que querem ou que calha… e cada vez mais os pais passam noites em claro, porque as crianças estão super-activas, a uma hora em que seria normal dormirem, depois de um dia de brincadeiras a sério. E dormir é igual a refazer as energias perdidas, é igual a sonhar, é igual a voltar à casa de onde vieram – o mundo espiritual.

Dir-me-ão: “mas tudo é para usar e não abusar. Há que ter bom senso”.

Nem mais! Só o bom senso nos pode valer. E saber dizer “não!” de vez em quando…

Brincar é inventar, é imaginar os futuros possíveis, que só as crianças de hoje têm nas mãos. Brincar é refazer o mundo à sua medida, imitando os grandes - os grandes que elas admiram e amam, e de quem, por isso, aceitam as decisões.

Podemos ajudar as nossas crianças escolhendo brinquedos bonitos, de materiais naturais, como a madeira e os tecidos de algodão, lã, seda… e também pedrinhas, tronquinhos, pinhas, conchas; fazendo-as lidar com diferentes texturas, densidades, cores; propiciando a formação correcta dos sentidos com materiais genuínos e simples, para que elas possam juntar o que falta, imaginando.

Com que brincam os nossos filhos? Com o que soubermos eleger para eles. Por isso somos pais - para sermos o crivo, para os iniciarmos ao mundo com a nossa experiên-cia, a nossa maturidade, o nosso amor.

Nós escolheremos primeiro, eles perceberão mais tarde. `

Cristina Siopa
Mãe e proprietária de uma loja de brinquedos saudáveis

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