Brancos, pretos e outros - Quem Atitou a Primeira Pedra

Durante este mês de Julho, sobretudo na 2º metade, falou-se abundantemente duma série de assaltos na zona da grande Lisboa que foram objecto de grande referência e discussão mediáticas.

Não vamos aqui tocar, por não estar em discussão, na necessidade de uma maior presença policial dissuasiva, nas responsabilidades do governo deste ou daquele partido e no comportamento desta ou daquela oposição (a Biosofia é apartidária). Nem sequer nos vamos agora ocupar, embora seja da maior importância e merecedor de uma ampla consideração, dos gran-des erros civilizacionais e da prevalecente desorien-tação no que respeita a valores – estas, sim, as causas profundas (e de que, por isso, quase ninguém fala) de tantas situações de violência e de miséria humana nas sociedades consideradas mais avançadas. Sublinharemos, exclusivamente, as extrapolações de índole racista que, de forma explícita ou implícita, se fizeram dos mencionados acontecimentos.

Antes de tudo, como questão prévia, cabe lamentar que se tratem assuntos de suma importância e gravidade do ponto de vista humano em termos de histeria emocional, de afirmação demagógica ou primária e de gritaria politiqueira (porque há política e há politiquice, o que é diferente). Já basta, por exemplo, que temas como a (des)penalização do aborto ou do consumo de drogas sejam discutidos com base em patéticos chavões e fundamentalismos políticos e religiosos.

Agora bem: pôde ouvir-se e ler-se frequentemente, nos media, que os assaltos tinham sido perpetrados por “um grupo de jovens africanos” ou, menos eufemisticamente, de “raça negra”.

Africanos?! De raça negra?! É significativo. Sobretudo em pessoas que alardeiam ética e decência, defesa da liberdade e dos direitos humanos… Que nos lembremos, nunca se noticiou um assalto mencionando que os autores eram “europeus” ou “de raça branca” – apesar de muitos existirem.

Rapidamente se podia ouvir, um pouco por todo o lado, comentários como “eu não sou racista mas não suporto os pretos” ou “os pretos deviam era ser man-dados lá para a terra deles” – para não citar expressões muito piores, onde afloram uma crueza e um desamor habitualmente escondidos sob uma camada de verniz…

Qual cidadão de raça branca gostaria de ouvir “não sou racista mas não suporto olhos azuis!” ou “sai daqui, ruivo, vai lá para a tua terra”!? Entretanto, é isto que os de raça negra ouvem quotidianamente e sabem que se murmura ou pensa… Alguns ficam desfeitos, outros complexados, outros revoltados e a alimentar sentimentos de raiva e vingança, que às vezes podem ma-nifestar… É de estranhar? Não seria dessa mesma for-ma que os “brancos” reagiriam em semelhantes circunstâncias?

Há algum tempo atrás, um miúdo “preto” foi expulso de um colégio, por vontade combinada dos seus colegas (que lhe diziam “sai daqui, porco…”, entre outras vilezas) e dos respectivos pais. Mais tarde foi determinada, jurisdicionalmente, a sua reintegração; mas como po-deria ele encarar o dia a dia ao lado dos muitos que, com a maior repugnância, o repudiaram? Que senti-mentos de perplexidade, medo, timidez ou vergonha - quiçá, de uma confusa culpa - pode uma criança gerar perante um tal ódio, perante o enxovalho e o dedo acusador dos outros? Pense bem: gostaria que isto sucedesse ao seu filho, fosse ele branco, “africano”, “chinês”, “indiano” ou “pele vermelha”? Não são coisas de outro século; ocorreram o ano passado, na civilizadíssima Suiça – sim, esse país tão pacífico e “asséptico” mas onde muitos, hipocritamente, sob o pretexto de uma cómoda e egoística neutralidade e de um conveniente sigilo, vivem do dinheiro sujo, tantas vezes dos maiores tiranos (entre eles, alguns donos – “negros” – de países africanos)!

Voltemos a Portugal. Durante séculos, milhões de portugueses têm emigrado para os cinco continentes – seja pela miséria, seja pelo gosto de aventura, seja por tantas razões diferentes! Instalámo-nos em outros países, onde fomos recebidos das maneiras mais diversas – às vezes vivendo em condições humilhantes e sob olhares de sobranceria e desdém; (re)descobrimos terras, do ponto de vista europeu; colonizámos países, fomos cruéis em alguns casos, fraternos noutras situações. Como poucos outros povos, mesclámo-nos com outras raças. Nas nossas veias – e no nosso, digamos assim, inconsciente colectivo - corre sangue africano e indiano e árabe… Ainda bem que tal acontece, porque, povo pobre que somos, em termos económicos e culturais, no contexto europeu (embora isso esteja a mudar), essa universa-lidade constitui o nosso mais rico património. Acima de um milhão de portugueses chegou a estar em África; mais de outro milhão em países europeus (França, Alemanha, Luxemburgo, etc.); vários milhões na América do Sul (Brasil, Venezuela…) e do Norte (EUA, Canadá…). É por tudo isto que é mais incrível bradar-se “os pretos que vão lá para a terra deles! O que é que eles vêm para cá fazer?”. E nós, o que fomos fazer para a terra deles, muito antes, sem perguntarmos nem pedirmos licença, há quinhentos, há trezentos, há cem, há quarenta anos?!

Entendamo-nos sem equívocos: houve muitas pessoas de bem, muitos portugueses dignos em África, que não abusaram de ninguém, tal como, em países onde predomina a raça branca, há tantas e tantas pessoas de outras raças que são estimáveis e encantadoras; existem indivíduos de raça negra que manifestam instintos violentos, tal como o fizeram e fazem indivíduos de raça branca, amarela ou vermelha; é preciso ter firmeza, tão serena quanto possível, sempre que, ofensivamente, se recorreu à violência.

Isso tudo sabemos e ficou expresso. Mas uma coisa é certa: relativamente a todas as outras raças, os “brancos” não podem atirar a primeira pedra, porque… há muito que a atiraram! Quem, se não a raça branca, nos tempos históricos, conquistou, explorou, tiranizou, escravizou, massacrou, exterminou outros povos, outras raças, outras culturas? Ainda hoje, com todas as Declarações de Direitos, continuamos a portar-nos como se só a nossa cultura, a nossa ciência, a nossa religião, os nossos modelos socio-económicos e os nossos padrões de progresso fossem válidos – e julga-se que, dessa forma, somos muito bonzinhos e promovemos a fraternidade universal!

É um dado insofismável que toda a civilização de raça branca tem uma imensa dívida perante os seus concidadãos de raça negra. Nenhum de nós se pode furtar a esse saldo; tristemente - e vergonhosamente -‚ é uma herança que todos (nós, os “brancos”) carregamos. Po-der-se-á dizer: mas temos nós de assumir as res-ponsabilidades dos nossos antepassados? E por que não? – respondemos. Acaso, no respeitante ao passado, não assumimos também a posse e o orgulho dos feitos enaltecedores das anteriores gerações da nossa pátria ou da nossa civilização, do património cultural, das tradições que tanto prezamos, do “sangue derramado pelos nossos antepassados”?

Na verdade, o que foi perpetrado pelos europeus desde o século XV constitui um desfile de inenarráveis atrocidades, só concebíveis num mundo de louca selvajaria. Eram eles - os negros - os selvagens? Temos pilhado, usurpado, trucidado, torturado, amesquinhado, aviltado a dignidade humana de gerações desses nossos co-habitantes deste infernalizado planeta azul.

Com a mais inimaginável crueldade, obrigámos pais a assistir ao desterro, à tortura e ao morticínio dos seus filhos, e vice-versa; separámos famílias e servimo-nos desses seres humanos, arrancando-os (aos milhares) das suas próprias terras nativas e reduzindo-os à mais hedionda escravidão; roubámos as suas posses naturais e multimilenares, fazendo fortunas para servir a nossa insaciável ganância, a nossa desmesurada sede de riqueza e de poder. (Algo de semelhante, aliás, fizeram os civilizados europeus aos nativos das Américas, da Índia e por aí fora).

E hoje, quando seria normal estarmos envergo-nhados e cabisbaixos, tentando ressarci-los - sem a contra-producente atitude de dar umas esmolas e tentar impor os nossos modelos - da sucessão de dor que provocámos, dos crimes inomináveis que pesam sobre os nossos ombros (pelo menos sobre aqueles que aspiram a ter alguma consciência ou carácter), continuamos a sacudir responsabilidades e a agir do modo mais espantosamente incivilizado e desumano. A memória é curta… quando convém.

Como podemos pagar uma dívida tão pesada? Somen-te com a maior humildade, compreensão, soli-dariedade e irmandade de que formos capazes. Temos o dever imperioso e urgente de aprender a repor alguma justiça.

Na actualidade, objectiva-se, designadamente, devolver o ouro aos judeus. Os horrores que lhes infligiu o nazismo são lembrados com alguma frequência - e ainda bem que assim é, para que haja memória e não se repitam tais situações. Entretanto, quem fala da barbárie e da rapacidade humilhante com que se trataram os negros durante séculos? E quem jamais, sincera e dignamente, pediu desculpa? É preciso fazê-lo, de modo livre, digno e consciente!

Os países desenvolvidos assumem hoje algum dever de solidariedade, disponibilizando fundos económicos para auxiliar nações pobres. Talvez o façam limitadamente; talvez, em muitos casos, se alimentem vícios, nomeada-mente de classes dirigentes corruptas e tirâ-nicas; talvez se dê com uma mão para, depois, tirar com outra, aí escoan-do produções industriais e tecnológicas e controlando todas as riquezas. Mas é um primeiro passo. E, sobretudo, revela que começámos a entender que o mal de alguns é o mal de todos, que ninguém pode ter felicidade, pros-peridade e segurança sem os outros e, muito menos, contra os outros. Ainda que seja por essa razão de certo modo calculista, acabemos de vez com apartheids, ghettos, segregações e outras formas mais subtis de separatismo.

Antes de tudo, aos tais “africanos”, é preciso garantir e acessibilizar, na prática, a educação dos jovens - não como quem faz um favor mas como quem, efectivamente, tem esse dever entre mãos.

Se continuarmos a obstaculizar as suas condições de vida, se dificultarmos o acesso à educação e à cultura, se houver desigualdade no trato, não podemos esperar uma retribuição de respeito, de amizade e sã convivência – sobretudo dos adolescentes, naturalmente mais rebeldes (em todas as raças) e agora imbuídos de uma sensação de aventura, de heroísmo e de vingança de muitas afrontas reais.

Os responsáveis desta revista podem, em qualquer altura, sugerir um conjunto de medidas que – no âmbito urbanístico (1), laboral e cultural – promovam uma melhor integração de imigrantes e de raças ou etnias minoritárias no nosso país. Antes de tudo, porém, importa chamar a atenção para a necessidade de evitar julgamentos generalistas, odiosos e que não tenham em conta o que foi a história de séculos. Importa evitar uma escalada de conflitos rácicos. Importa lembrar a herança dos crimes cometidos pelos antecessores da nossa raça e todas as acções e omissões separatistas que continua-mente se praticam. Criámos condições para a violência e a marginalidade emergentes (não só nestes casos, como em tantos, tantos outros); não nos podemos eximir às respectivas responsabilidades. Sem cair em permissividades balofas, temos de compreender e compensar quem cresceu acossado no meio da hostilização, de humilhações, de miséria, de um deserto em matéria de apoios educacionais e culturais. Por tudo isto, que nos perdoem - se puderem e souberem - os nossos irmãos de raça negra! Que cesse a lei do “olho por olho, dente por dente”! E que, em conjunto, saibamos construir uma sociedade mais justa, mais íntegra, mais fraterna - e mais eminentemente humana. `


Isabel Nunes Governo

Vice-Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

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