Anciãos

Não sei se lhes chame idosos, velhos ou a 3ª idade. Só sei que são nossos pais, avós, tios e que com mais ou menos stress, betão, informática, Tv. cabo, joint ventures, comércio electrónico e coca-cola light, perseguiram, muitos deles, os seus sonhos, que os ajudaram a viver. Todos ou quase todos ambicionaram vir a ter muita idade, mas acho que nenhum desejou ser velho no sentido de gasto, obsoleto, decadente, inútil.

Cá para mim, agrada-me a palavra “ancião”, pela respeitabilidade que encerra. Aquela com que nem sempre são tratados, se bem que haja velhos chatos, torcidos, mauzinhos, porque assim o foram durante quase toda a vida, deixando atrás de si um rasto de amargura, tristeza e revolta. Pessoas que espalharam mais medo do que amor. Mas isto seria tema para outra conversa.

Falemos de amor. No sentido mais amplo e universal, naquele que nos faz sentir em paz com a vida, conciliados com o mundo, que irradia para todos os lados e nos reflecte em troca o sorriso reconhecido de quem o recebe. Não há idades para o dar ou receber. Trata-se de um estado de alma que é fruto duma espécie de milagre, um verdadeiro estado de graça em que certamente todos gostaríamos de viver; mas para isso tínhamos de escutar e seguir a voz do anjo bom que nos habita em vez de fazermos o que é suposto, o que nos disseram para fazer, ou o que esperam de nós.

É suposto dar carinho e atenção às crianças, estudar psicologia infantil para aprender a lidar com elas e espera-se de quem gere as escolas e infantários que integre, no seu staff, pessoal devidamente preparado para o fazer. Educadores de infância, psicólogos, professores, foram supostamente treinados para lidar com as birras, os choros, os caprichos, as inseguranças, os distúrbios, as fragilidades, as inquietações próprios de quem está a dar os primeiros passos na vida.

Mas pelo contacto que tenho tido com lares da 3ª idade, negócio em franca expansão, não vejo que seja suposto que os respectivos gestores integrem no seu staff pessoal devidamente qualificado para lidar com os seus utentes - seres humanos que já foram crianças e atravessaram sabe-se lá que crises, depressões ou guerras fomentadas por inúmeros poderes. Pessoas que ajudaram outras a crescer, alimentando aqui e ali sonhos e fantasias através dos seus préstimos à comunidade, da sua alegria, da sua tenacidade, das suas lutas, vitórias, derrotas, do constante cair e levantar que é a vida. Para estes, chegada a tão desejada como temida velhice, não é suposto que os níveis de exigência feita ao pessoal que com eles lida sejam os mesmos que para as crianças. Para a 3ª idade não é suposto haver pessoal especializado, não existem cursos de psicologia específica para os velhos e, no entanto, eles têm-na, porque os medos, inseguranças, fragilidades, distúrbios, birras, caprichos, inquietações são vividos com a intensidade de quem está a dar os últimos passos nesta vida. Sentimentos e sensações que nós desconhecemos porque ainda não chegámos lá, a menos que um psicólogo interessado queira publicar alguma coisa sobre a matéria, um ministério dos assuntos sociais ou da igualdade se debruce sobre esta desigualdade gritante e passe a exigir formação específica para os profissionais de lares da 3ª idade e cada um de nós estenda a sua boa vontade, compaixão, amor, paciência, ternura e, em muitos casos, admiração, a quem já conseguiu chegar ao topo desta montanha. Às vezes fazendo vítimas pelo caminho, é verdade, às vezes as vítimas somos nós, também é verdade, mas, tal como nós, eles fizeram o que sabiam em dias de maior ou menor inspiração. De nada nos serve julgá-los. Perdoar e aceitar deve ser uma das vias para que o remorso e o arrependimento não nos venham a tirar o sono.

Existe uma crueldade inconsciente quando se marginalizam os feios, os gordos, os pobres, os tristes e os velhos. Uma crueldade feita do medo de virmos a ser o que rejeitamos. Durante grande parte da vida fingimos, copiamos mo-delos de capa de revista, de passerelle e de écran, onde as luzes disfarçam imperfeições, misérias, tristezas e, tantas vexes, espíritos caducos. Queremos ser deuses por fora e abafamos o ser divino que está dentro de nós. Mas quando se é velho e caíram as máscaras, talvez a voz de Deus seja mais audível.

Por mais que pense, custa-me entender o desequilíbrio, apadrinhado por todos com o aval de governos sucessivos, entre a atenção que se dá às crianças e à 3ª idade. Os velhos também precisam de quem saiba falar com eles, despertar os seus interesses, ouvir as suas histórias. Também têm criatividade, possivelmente adormecida de tanto terem ouvido, a partir dos 40 ou 50, que o melhor era darem lugar aos novos, comer, beber e fumar menos, não usar cores garridas, e fazerem uma plástica e vários implantes para serem aceites durante mais meia dúzia de anos. A sociedade, com esta actuação, envelhece as pessoas antes delas chegarem à 3ª idade e não valoriza a sabedoria dos anciãos.

Ou acordamos agora para mudar certos conceitos e preconceitos ou, quando chegarmos às idades dos nossos pais ou avós, espera-nos muito desamparo e solidão.

Ao escrever estas linhas, penso sobretudo numa vasta percentagem de anciãos que a partir dos 70 ou 80 apresenta sintomas comportamentais e psicológicos de agitação, agressividade, desorien-tação. Sintomas de demência, cada vez mais frequentes dado o aumento da chamada “esperança de vida”. Sintomas que os espe-cialistas em psiquiatria geriátrica tentam amenizar com medica-mentos. Só que o universo dos fármacos tenta aliviar o físico mas não trata do espírito nem aquece corações. Nem é essa a sua missão. Cabe à nossa consciência agir no sentido correcto, despertar em nós e nos responsáveis pelas instituições que apregoam dar apoio à 3ª idade, a boa vontade e a compaixão fundamentais para se irem desenvolvendo verdadeiras estruturas de apoio aos mais idosos. Estruturas humanas, gente solidamente preparada, que acredite que as almas e os corações não demenciam e que há sempre uma palavra, um gesto ou um olhar que podem estabelecer o contacto e amenizar a solidão e o abandono. `

Ana Zanatti

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