Transcendência e Imanência de Deus - V

A Reencarnação (1.a Parte)

Começamos hoje a falar da Reencarnação, uma das traves-mestras do Sistema Esotérico e uma Lei Universal patente em todos os níveis do Cosmos. A própria manifestação cósmica, por ser cíclica - como a sucessão dos dias e das noites, o pulsar do coração, o sono e a vigília, as marés e as estações, etc. - é a expressão da periodicidade inerente a essa Lei.

Através das Leis do Karma e da Reencarnação, encontramos o perfeito equilíbrio entre a justiça e a compaixão. Dispomos de inesgotáveis oportunidades, de eternidades inteiras para atingir níveis cada vez mais elevados de perfeição e de glória, muito além da condição humana; tanto melhor quanto mais rapida e integralmente se aproveitar essas oportunidades, o que depende (também) do mérito individual. Não se alcançam Nirvanas ou Céus Eternos permanecendo no estado do homem-animal, sem se despertar os níveis mais profundos (espirituais e divinos) do Ser; mas tão pouco existem condenações eternas a qualquer inferno (desde logo, o terrestre), pois a misericórdia divina concede sempre novas oportunidades para aprender, evoluir e ascender.

Todo o ser humano minimamente reflectido não deixará de reconhecer a puerilidade e a crueldade das concepções religiosas comuns sobre o céu e o inferno, que mais não são do que um longínquo e distorcido eco da realidade; seguramente já se terá interrogado sobre o que justifica tantas desigualdades na “sorte” dos seres humanos (desde as circunstâncias mais felizes às mais miseráveis) e tão evidentes diferenças na inteligência, bondade e outras qualidades - mesmo entre irmãos. As Leis da Reencarnação e do Karma permitem compreender como as circunstância do nosso mundo se compatibilizam com o Amor e a Justiça Divina, nos quais a nossa confiança se restaura.

Como referimos na Biosofia o 6, há muitos equívocos e preconceitos relativamente à Reencarnação. Nos países de predominância cristã (como Portugal ou o Brasil), o cidadão comum, regra geral - e, mesmo assim, na melhor das hipóteses - tem uma vaga ideia do que seja a Reencarnação de acordo com as afirmações do Espiritismo (ainda nesse caso, sem conhecimento directo de qualquer literatura desse movimento mas, apenas, por ter ouvido dizer.). Se bem que o surgimento do movimento espírita, em meados do Século passado, tenha tido a virtualidade e a importância de chamar a atenção para fenómenos que, evidentemente, mereciam e continuam a merecer um estudo sério, as suas concepções, em muitos aspectos, são bem diferentes das Esotéricas (de que meramente esboçam uma formulação muito popular, simplificada e, por isso, imprecisa).

O facto é que a Teoria da Reencarnação percorre toda a História da Humanidade, visto ser património da Antiga e Eterna Sabedoria, ou seja, da doutrina secreta de todas as nações; possui um rigor e uma base científico-espiritual que não cabia ao Espiritismo desenvolver. Modernamente, temos uma vez mais de remontar às obras de Helena Blavatsky (V. Biosofia o1), e “esquecer” as inúmeras desvirtuações proliferantes, para conhecermos o modo perfeitíssimo como essa Magna Verdade voltou a ser publicamente exposta no Ocidente, retomando a Tradição das Idades.
Muito do melhor da civilização vindoura será resultado da acção de pessoas genuina e superiormente simples, natural e espontaneamente generosas, as quais, na sua humildade - que só as torna mais dignas -, estão sempre disponiveís para aprender. Por isso, o parágrafo seguinte apenas é destinado a quem adopta uma postura de arrogância e de “já sei tudo!”.

Faz parte da característica soberba destes tempos que um indivíduo, ao ter assistido a uma ou duas palestras de um conferencista qualquer ou depois de ler duas ou três obras (regra geral com afirmações em 2a mão, distorcidas e tendenciosas), julgue saber tudo. Logo, passa a considera-se um expert, embora só conheça o ABC ou só o A ou nem sequer o A; e imediatamente se dispõe a emitir opiniões a torto e a direito, a favor ou contra, mas destituídas de um fundamento sólido.

Nós, por exemplo, sabemos muito pouco de Geologia. Nunca nos passaria pela cabeça começar a leccionar disciplinas geológicas ou a fazer livros e palestras contra os conhecimentos (reais ou supostos) da Geologia. Ora bem, cingindo-nos agora aos países de língua portuguesa - sem tal significar que, comparativamente com os outros países, neles exista maior ignorância sobre esses aspectos - são raríssimas as pessoas (incluindo os que se abalançam a ser “instrutores de esoterismo”.) que conhecem literatura ocultista (ou, sequer, os nomes dos autores) de grande qualidade nunca traduzida para a nossa língua; a grande maioria tão pouco leu ou entendeu realmente as obras mais importantes já traduzidas ou originalmente escritas editadas em português e em Portugal. Aos campeões do Materialismo ou ao Espiritualismo consumista, bem seria necessária um pouco mais de humildade - aquela mesma que se revela em tantos homens e mulheres de boa vontade.

Teremos que nos alargar sobre o tema da Reencarnação ao longo de dois artigos, ainda que procurando ser tão sintéticos quanto possível. Para melhor aproveitar o espaço e tornar a exposição mais simples, recorreremos ao método de pergunta/resposta.

O que é a Reencarnação?
Reencarnação, como a palavra indica, significa encarnar (ou seja, revestir-se de corpos) mais do que uma vez. Consiste no cíclico ou periódico tomar de formas, corpos ou veículos de expressão por parte de uma Entidade que, em si mesma, é de natureza mais elevada e permanente do que esses mesmos meios através dos quais se manifesta. É o cíclico revestimento de uma Alma - seja a alma universal, a alma humana ou a alma de um átomo - por formas que lhe permitem actuar (ainda que limitadamente) nos mundos próprios da substância de que essas formas são constituídas. É a alternância de períodos de vida objectiva e vida subjectiva, de actividade e de repouso, comummente chamados de “vida” e “morte” (1).

Sendo verdade que, no Universo, todas as Entidades encarnam, ainda que em circunstâncias muito diversas, procuraremos ater-nos ao que mais directamente interessa considerar. Deste modo, nas respostas que se seguirão, passaremos a referir-nos tão somente aos renascimentos humanos.

O que é que Reencarna?
É a Alma Humana - como veículo, por sua vez, do Eu Divino.

Expliquemos mais rigorosamente esta definição sintética: em última instância, podemos dizer que é a Mónada que - ao derramar a sua energia pelos Mundos inferiores - está na origem mesma das existências cíclicas. Porém, tal como referimos em números anteriores da Biosofia (3 e 6), a Mónada unicamente pode actuar nos Mundos inferiores através de uma natureza intermediária: o “Eu Superior”. Entretanto, conforme igualmente escrevemos, os dois Princípios mais elevados da Tríade ou Eu Superior (o Princípio Átmico ou da Vontade Espiritual e o Princípio Intuicional, Búdhico ou do Amor Crístico) são - mesmo eles - demasiado puros e indiferenciados do Todo para encarnar nos níveis inferiores. Assim, mais propriamente, é a Mente Superior que, em cada encarnação, projecta um seu raio ou fragmento nos mundos inferiores, actuando como guarda avançada da Alma Espiritual (Atma-Budhi). Recordemos que, tal como é só um fragmento da Essência Monádica que se expressa através da Tríade Superior, também a Alma Humana (Buddhi-Manas ou Mente Superior) unicamente manifesta uma limitada proporção das suas potencialidades em cada Personalidade (em cada encarnação).

Em que é que se Reencarna?
Na Personalidade ou Quaternário Inferior, i.e., num conjunto de 4 veículos: Mental Inferior, Emocional, Duplo Astral (ou Corpo Etérico; o Linga-Sharira) e Corpo Físico. Esta é a nossa natureza temporal, inferior, mortal, confinada a uma única existência (dela apenas subsiste aquilo que é digno da imortalidade, ou seja, os pensamentos, sentimentos e determinações mais sublimados).

Tomamos a liberdade de remeter os leitores para o o 6 da Biosofia (pp. 27 a 29), onde se caracterizaram cada um dos mencionados veículos. Agora, e em síntese, sublinhamos e insistimos que reencarnar não significa tomar um Corpo Físico mas, sim, um conjunto de 4 veículos constituídos por substância que se diferencia pela sua frequência vibratória - sendo a do Corpo Físico a de velocidade mais baixa e, por conseguinte, a mais densa ou menos subtil. Nunca repetiremos excessivamente que todos estes veículos possuem substância (do Plano Mental, do Plano Emocional, do nível Astral-Etérico e do nível Físico), agregada à volta dos núcleos atractivos que são os átomos permanentes ou átomos semente. E permitam-nos repetir que um Homem não é o seu Corpo Físico nem aquilo que sente e deseja nem sequer os seus pensamentos concretos, dependentes de estímulos externos mas, sim, o “Eu” que se expressa através dos referidos veículos ou formas (V. Biosofia o 6, p. 29).

Qual a periodicidade da Reencarnação?
Em termos gerais, a periodicidade tem registado grandes variações ao longo dos vários ciclos já transcorridos no desenvolvimento evolutivo da Humanidade. O tempo que mediava entre cada nascimento (no Plano Físico)
já foi, em ciclos passados, de muitos e muitos milhares
de anos (bastante superior à média actual). Se considerarmos os últimos milénios, verificamos que o grande aumento da população mundial, dependendo também de outras causas, igualmente parece implicar uma periodicidade mais rápida. No entanto, tal não significa, de modo algum, que seja norma renascer (quase) imediatamente após a última desencarnação. Isso apenas ocorre em casos bem raros, como, por exemplo, quando um indivíduo morre numa idade muito jovem, interrompendo o curso de uma vida previsivelmente mais longa.

Independentemente das variações cíclicas que englobam toda a Humanidade, a maior ou menor duração do período entre vidas físicas difere de acordo com o estatuto evolutivo de cada Individualidade. Generalizando, podemos dizer que - também aqui - “os extremos tocam-se”: são os Egos muito atrasados ou muito avançados (em termos evolutivos) aqueles que reencarnam mais prontamente. Os primeiros, por o seu peso específico os atrair “incessantemente” para a encarnação física e por não terem méritos nem veículos suficientemente organizados para gozar de um longo intervalo celestial no Devachan (ver adiante) e permanecer activos nos Planos mais subtis; os segundos, porque renunciam a grande parte do tempo que poderiam passar nesse estado de beatitude celestial e, assim, reencarnam ao fim de poucas centenas ou mesmo dezenas de anos (em alguns casos, até menos), precisamente para virem Servir (como discípulos dos Mestres de Sabedoria e Compaixão) e evoluir mais rapidamente.

O que se passa nos períodos entre as Encarnações?
A resposta a esta pergunta, por si só, justificaria um livro volumoso. Os pormenores podem ser encontrados em literatura tradicional (nomeadamente do Antigo Egipto e do Tibete) ou em algumas boas obras do ocultismo contemporâneo (i.e., produzidas desde 1875), entre as quais, pela sua simplicidade, correcção e completude, recomendamos “A Morte. E Depois?”, de Annie Besant (2). Assim, respondemos muito sucinta e genericamente: processa-se a) um sucessivo descartar dos veículos que integram a Personalidade; b) a dupla revisão (uma, ainda no Plano Físico; a outra, antes da entrada no Devachan) da existência recém-vivida; c) a “metabolização” da quintessência das experiências e aprendizagens realizadas (sendo que as qualidades adquiridas ficarão como que armazenadas no Corpo Causal - um veículo permanente, que corresponde ao Mental Superior ou Buddhi-Manas); d) um período mais ou menos longo no Kama-Loka (etimologicamente a “região do desejo”, correspondente ao limbo da teologia cristã, ao Hades da Mitologia Grega ou ao Amenti dos Antigos Egipcíos); um período mais ou menos longo de felicidade e beatitude no mundo-estado subjectivo que podemos designar por Céu ou Devachan, uma palavra tibetana que significa “a morada dos deuses” (3). Estes dois períodos dependem, evidentemente, dos méritos de cada um: um indivíduo de grande luminosidade e pureza passará meteoricamernte pelo Kama-Loka e poderia ficar longas Idades no Devachan, se lhe não renunciasse para servir ao Bem-Geral e aceder a patamares de consciência mais elevados e reais; no extremo oposto, o estado Devachânico ou celestial é mais breve e a permanência purgatória no Kama-Loka é mais longa e desagradável. Em todos os casos, porém, não existe nenhuma condenação a qualquer inferno eterno (4), como absurda e cruelmente sustentam teologias desvirtuadas.

O Que é Que determina as Circunstâncias da Reencarnação?
A Lei do Karma, também chamada de Lei de Causa-Efeito ou Lei da Retribuição. Foi assim definida por S. Paulo: “O que semearmos, colheremos” (Gálatas, VI, 7). A Lei do Karma, entretanto, não deve ser entendida como qualquer tipo de vingança ou castigo divino, antes sendo o poderoso auxiliar do processo evolutivo.

Acrescentemos alguns esclarecimentos um pouco mais complexos. Os skandhas, ou atributos cujo agregado constitui uma Personalidade, formam a base Kármica para uma nova Reencarnação. Em cada um dos três Planos - Mental, Emocional e Físico - nos quais a Alma Humana toma ciclicamente veículos (encarnando), ela está ligada a um átomo permanente ou átomo semente (ou, no primeiro dos casos, à chamada “unidade mental”). Nele se contém o diapasão, a chave vibratória que, por afinidade, atrai os restantes átomos de cada um desses veículos e, inclusive, estes ou aqueles eventos, estas ou aquelas oportunidades, de acordo com os “merecimentos” anteriores. No Corpo Causal estão subsumidas todas as qualidades desenvolvidas e (por “ausência” ou “ainda não actualização” das potencialidades virtuais) todas as faltas a suprir, condicionando karmicamente as oportunidades como, também, as provações das existências vindouras.

Um ser Humano pode, numa vida seguinte, encarnar como um animal?
Não. O ser humano partilha com os animais a mesma natureza física fundamental, bem como muitos instintos (que formam o seu subconsciente) mas distingue-se claramente desses irmãos mais jovens por:
a) Ser auto-consciente, o que decorre de
b) Ter o Princípio Mental activado (embora muito pouco, nas primeiras etapas) e formalmente organizado (referimo-nos aqui aos níveis superiores do Mental e não ao Kama-Manas).
c) Ter uma ligação individualizada entre o Eu Espiritual e as formas materiais inferiores (5) e, deste modo,
d) Constituir um Reino Evolutivo inteiramente distinto do Reino Animal.

Consequentemente, é impossível anular tais conquistas evolutivas, regressando ao Reino Animal. Além do mais, representaria efectivamente a negação do escopo das encarnações, que são sucessivas oportunidades de aprendizagem evolutiva. Mesmo quando não existe, numa particular encarnação, qualquer progresso, mesmo quando se cometem viciosas acções (físicas, emocionais, mentais) e se gera um pesado Karma negativo, não existe um retorno ao Reino Animal.(5)

É verdade que encontramos referências, tanto no presente como na Antiguidade, à reencarnação de Egos (6) Humanos em animais. Existem três razões que justificam tal facto:

1. A má compreensão do ensinamento original e a sua degradação ao nível da crendice, como se verificou em todas as religiões, sem que tal ponha em causa a sua razão de ser e a sua prístina legitimidade;

2. Na Antiguidade, quando a instituição dos Mistérios se encontrava universalmente difundida, os iniciados recorriam invariavelmente a uma linguagem simbólica ou metafórica. Se alguém enfatiza demasiado a sua natureza animal, está a criar as condições kármicas de bestialidade, que se efectivarão em vidas posteriores. No entanto, a referência a essa encarnação como um animal tinha apenas este sentido alegórico (por exemplo: ferocidade = tigre; astúcia = raposa) que, simultaneamente, contribuía para refriar a expansividade das tendências mais inferiores de largos estratos populacionais.

3. A possibilidade de os átomos-vida do Homem Reencarnante (mas não esse Homem), após a sua morte, virem a ser atraídos para corpos animais, justamente por terem sido energizados com vivências de tipo animalesco. (Cfr. Vegetarianismo e o Novo Homem, Biosofia o 6).

No Reino Animal também existe Evolução e Reencarnação mas em termos diferentes do que se verifica no Reino Humano. Salvaguardamos, entretanto, que as Mónadas encarnadas no Reino Animal, Vegetal ou Mineral são, também elas, imortais e que nenhuma delas deixará de passar pelo equivalente à etapa humana, ainda que somente em ciclos muito distantes.

Qual o Objectivo das Reencarnações?
O desenvolvimento das nossas potencialidades divinas, trazendo-as de um estado latente até à sua realização, através de uma aprendizagem progressiva até atingirmos a perfeição: “Sede pois perfeitos, como o vosso Pai Celestial é perfeito”, nas palavras de Jesus (Mateus, V, 48). Cada reencarnação é uma oportunidade evolutiva para despertarmos, ampliarmos e desdobrarmos qualidades - Amor, Sabedoria, Determinação, Inteligência Criativa, etc - e superarmos as nossas insuficiências, imperfeições ou tendências viciosas. Nem um só dos Filhos de Deus deixará de atingir os mais gloriosos cumes evolutivos, tão sublimes que nenhumas palavras humanas os poderiam descrever. A Imanência do Divino em todo o Universo e em todos os Seres é a garantia inabalável do cumprimento desse desígnio. Em vez da cruel doutrina da condenação eterna, constatamos que haverá sempre novas hipóteses de progresso e redenção (mas que não se realizam de acordo com qualquer truque ou expediente e, sim, de acordo com uma justiça igual para todos). É por isto que podemos afirmar que o conhecimento da Reencarnação nos torna mais responsáveis, alegres e optimistas e nos incita, continuamente, a sermos melhores; desvanece-nos o terror da morte e mostra a função terapêutica da dores que nos atingem, desse modo contribuindo para as suavizar.

Por que não nos lembramos das Encarnações anteriores?
No final de cada encarnação (com o descartar das Formas), o somatório de experiências concretas sublima-se e subsume-se, de Plano em Plano, até à sua impressão derradeira no Corpo Causal. (Esta codificação de dados experimentais de cada encarnação é coligida e impressa em cada átomo semente dos corpos inferiores do homem, transmudando-se de Plano em Plano até à absorção na Alma).

A Alma (Humana e Espiritual) é muito mais do que a Personalidade encarnativa; esta é apenas uma sua extensão, um seu aspecto que não a representa em plenitude. Assim, de cada vez que a Alma envia um seu raio à encarnação, não trazemos ao Mundo Físico senão a síntese e a essência motivadora e impulsionadora de um propósito definido e muito particular relativo à nova existência. As memórias definidas das vidas passadas ficam no domínio da Alma, à qual não temos vulgarmente acesso, porque permanece no seu próprio Plano. Fisicamente, o homem comum não tem recordação das vidas anteriores, uma vez que já não dispõe dos mesmos instrumentos (nomeadamente o cérebro físico) dessas outras vidas. Contudo, em cada nascimento, trazemos latentes as capacidades - tão diferentes de indivíduo para indivíduo - que desenvolvemos nas encarnações anteriores. E essas capacidades - e não a memória de factos concretos - são o que verdadeiramente importa (5). Chamamos a atenção para o facto de também não nos lembramos de ter aprendido a andar e, no entanto, sermos capazes de fazê-lo (e só isso é relevante). Adicionalmente, sugerimos a leitura das palavras de H.Blavatsky sobre a distinção rigorosa entre memória, lembrança, recordação e reminiscência no seu livro “A Chave da Teosofia” (7).

E quanto àqueles senhores que fazem regressões em directo na Televisão?.
Sem fazer juízos sobre as intenções, consideramos lamentável. Salientamos que a multimilenar e universalmente difundida Teoria da Reencarnação nada tem a ver com tais espectáculos ou supostas provas, pelo que, em si mesma, permanece e permanecerá incólume ainda quando se demonstre a fragilidade ou a insensatez de quem fala com demasiada ligeireza de coisas realmente muito sérias, importantes e bem fundadas, prestando-lhes um mau serviço (admitindo, o que é duvidoso, que quisessem prestar algum serviço).

A Teoria da Reencarnação não é anti-científica?
ÃL;€ luz de uma ciência universal do espírito, expressa nas mais diversas tradições religiosas e espirituais de todos os tempos (com variações na forma mas unidade na essência) e suficientemente documentada - malgrado as inúmeras destruições provocadas, pelo fanatismo de alguns, em textos científicos e sagrados que eram património de toda a Humanidade (veja-se o caso paradigmático das sucessivas devastações da Biblioteca de Alexandria) -, a Teoria da Reencarnação está perfeitamente assente e fundamentada.

No que respeita às ciências oficiais - por vezes chamadas experimentais -, i.e., à Ciência moderna (pós Francis Bacon), muito mais recente do que a Ciência Esotérica (8), importa aclarar o seguinte: qualquer cientista digno desse nome, que trabalhe como investigador e não como propagandista de qualquer ideologia - materialista ou de uma Igreja sectária - jamais poderá dizer que a Teoria da Reencarnação é anti-científica. Honestamente, dirá que a ciência - esta (sua) ciência - não possui (por ora) meios, instrumentos ou metodologias que lhe permitam confirmar ou desmentir a veracidade da Reencarnação. Para o fazer, teria que aceder a Planos superiores, mais subtis, que (ainda) não consegue ponderar. Assim, não podendo afirmar que ela é científica também não pode dizer que é anti-científica. Pela nossa parte, temos inteiro respeito por todos os que, na “comunidade científica”, respeitam este código de honra. Lembramos, aliás, que muitos dos maiores vultos da ciência moderna evidenciaram o mais vivo interesse pela Sabedoria Esotérica (voltaremos a isso no próximo número). Em resumo, a afirmação de que a Reencarnação é anti-científica nunca poderá partir de quem conheça, respeite e pratique os paradigmas da investigação científica mas, sim, dos que ilegitima ou ignorantemente falem em seu nome.

A Teoria da Reencarnação não é condenada pelas Religiões?
As grandes manifestações orientais de espiritualidade, designadamente as principais religiões e filosofias hindus, o budismo e o zoroatrismo estão de acordo no ponto essencial da existência da Reencarnação. Para centenas de milhões de pessoas, é um dado adquirido e aceite com tanta normalidade como aquela com que diariamente olhamos o nascimento e o ocaso do sol. O cidadão ocidental comum devia considerar com menos preconceitos de superioridade e com maior respeito aquelas grandes manifestações filosófico-religiosas, mais antigas (por vezes incalculavelmente) do que o Cristianismo, e que conservam ensinamentos da maior valia.
Duas grandes religiões actuais - o Cristianismo e o Islamismo - ainda não reconhecem oficialmente a existência da Reencarnação. Justo é, porém, referir que muitos têm sido os cristãos e islamistas a considerar a Reencarnação como um facto. Relembremos, por exemplo, os grandes místicos sufis do Islão ou cristãos ilustres como Orígenes, Clemente de Alexandria, Sinésio e S.Justino. Os próprios S. Jerónimo e Sto.Agostinho admitiram essa hipótese. Apenas no Séc. VI a Igreja Cristã considerou herética a Teoria da Reencarnação, no 2o Concílio de Constantinopla (pelos votos de uma maioria pressionada pelo Imperador Justiniano). De qualquer modo, é inegável que hoje em dia - cada vez mais - grande número de cristãos (incluindo sacerdotes e teólogos) sente interiormente o facto da Reencarnação.

Em próximo número da Biosofia referiremos algumas das várias passagens bíblicas em que logica e implicitamente se admite a Reencarnação, e demonstraremos que a recusa do conceito dos Renascimentos sucessivos torna(ria) a religião cristã cheia de contradições, injustiças e iniquidades, enquanto que a sua aceitação é um ponto fundamental para preservar o maravilhoso ensinamento original de Cristo e dos Seus mais sábios discípulos.

Aceitar a existência da Reencarnação não é próprio de pessoas ignorantes?
De modo algum. Também no próximo número da Revista daremos exemplos da imensa lista dos maiores Génios de todas as áreas da actividade e do conhecimento humanos que expressaram o reconhecimento da existência da Lei dos Renascimentos e, em geral, dos postulados da Sabedoria esotérica. Ignorar este facto ou negar-se a Reencarnação sem se compreender do que se trata, ou sem apresentar quaisquer argumentos minimamente consistentes, é que não representa indícios de grande sensatez ou imparcialidade.

José Manuel Anacleto
Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

(1) Helena Blavatsky, Glossário Teosófico
(2) Livraria Clássica Editora, Lisboa, 1925 (2a ed.); Pensamento, São Paulo.
(3) “Eis aqui a Terra dos Archons. Suave é o amanhecer no paraíso dos Devas.
Nestes tempos, um suave horizonte violeta emerge na terra do sonho e do repouso.
Das profundezas da terra densa, evolam-se as névoas quentes e brandas das cinzas do passado sombrio. Nele, ficou o tumulto da fricção dos costumes humanos, a efusão desenfreada dos opostos, os redemoinhos vortejantes das ilusões furtivas. Como tudo foi passageiro!.
Agora, brilhos estelados pontilham a atmosfera doce e perfumada de violetas. O marulhar da água das fontes virginais saúda o amanhecer das almas peregrinas e rega de frescura as sementes que retornam carregadas com a experiência de mais um dia. De onde regressam as almas? Da escola do fundo do Vale, lá onde a necessária crueza das sensações enraíza as mais duras e vívidas lições.” O Sétimo Círculo, Centro Lusitano de Unificação Cultural, Lisboa, 1995
(4) Aliás, como poderia uma causa finita (os limitados anos de uma vida) gerar um efeito infinito?
(5) Luzes do Oculto, Centro Lusitano de Unificação Cultural, Lisboa, 1998
(6) Por Ego, designamos a Individualidade perene, distinta da Personalidade aparente e transitória.
(7) Edições 70, Lisboa, 1978; Ed.Teosófica, Brasília, 1991
(8) V. Entre o Céu e a Terra, na Biosofia o 5

“A perda do ensinamento da Reencarnação - com o seu purgatório temporário resultante de sentimentos nocivos, o seu céu temporário para a transformação da experiência em capacidade - deu origem à idéia de um céu infinito (do qual ninguém é bastante digno) e de um inferno infinito (para o qual ninguém é bastante perverso), confinando a existência humana a um insignificante fragmento da existência, prendendo um futuro eterno ao conteúdo de uns poucos anos, e tornando a vida um ininteligível emaranhado de injustiças e parcialidades, de genialidade não conquistada e de genialidade não merecida. Um problema intolerável para os que raciocinam, e tolerável apenas para a fé cega e sem fundamento.”
Annie Besant

“Nenhum homem pode alcançar a verdadeira e definitiva Sabedoria numa só vida; cada novo renascimento, reencarnemos afortunada ou desafortunadamente, constitui mais uma lição que recebemos das mãos da rigorosa mas sempre justa instrutora - a Vida Kármica.”
Helena Blavatsky

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