Um Projecto de União Franco-Britânica

Em Junho de 1940, viviam-se horas dramáticas na Europa. As tropas da Alemanha nazi triunfavam por todo o lado; haviam submetido a Holanda, a Bélgica e devastado as linhas de defesa francesas e dos apoios Aliados. A França estava em vias de capitular e discutia-se a possibilidade do armistício, defendido nomeadamente pelo Marechal Pétain.
O Primeiro Ministro francês de então, Paul Reynaud, não era favorável a essa hipótese e tentava continuar a resistir.

No dia 16 de Junho, Paul Reynaud recebeu um telefonema do General De Gaulle, já então em Londres. Dava-lhe conta de uma deliberação do Governo inglês, presidido por Winston Churchill, do Partido Conservador, mas que também incluía membros dos Partidos Trabalhista e Liberal (um Gabinete de unidade nacional, numa época tremendamente difícil). Para chegar ao texto da proposta que em seguida reproduzimos, igualmente tinham contribuído alguns elementos da Missão económica francesa na Grã-Bretanha, entre os quais Jean Monnet, que mais tarde se destacaria como um dos pais da construção europeia:

“Nesta hora tão grave da história do mundo moderno, o Governo do Reino Unido e a República Francesa declaram-se indissoluvelmente unidos e inabalavelmente decididos a defender
em comum a justiça e a liberdade contra
a sujeição a um sistema que reduz a humanidade à condição de autómatos e de escravos.

Os dois Governos declaram que, de futuro, a França e a Grã-Bretanha não constituirão duas nações, mas uma só União Franco-Britânica.

A constituição da União comportará organismos comuns nos domínios da defesa, da política externa, das finanças e dos assuntos económicos.

Todo o súbdito francês gozará imediatamente
da cidadania na Grã-Bretanha e todo o súbdito inglês se tornará um cidadão da França.

Os dois países suportarão em comum a reparação dos prejuízos de guerra, independentemente do lugar onde se verifiquem, e os recursos de ambos serão igualmente, e como um todo único, utilizados para esse efeito.

Enquanto durar a guerra, haverá um só
Gabinete de Guerra e todas as forças armadas
da Grã-Bretanha e da França, sejam terrestres, navais ou aéreas, serão colocadas sob a sua direcção. A sua sede será no local onde ele julgue poder comandá-las mais eficazmente. Os dois parlamentos fundir-se-ão oficialmente num só.
As nações que formam o Império Britânico estão
já constituindo novos exércitos. A França manterá disponíveis as suas forças de terra, mar e ar. A União apela para os Estados Unidos e pede-lhes que reforcem os recursos económicos dos Aliados
e que ofereçam à causa comum o auxílio do seu poderoso material.

A União mobilizará todas as suas energias contra o poderio do inimigo, onde quer que a batalha se trave. E, deste modo, venceremos.” (1)

Nesse mesmo dia, enquanto a torrente infernal dos Panzer hitlerianos galgavam terreno e terreno, o Governo francês rejeitou maioritariamente o plano, apesar do entusiasmo de P. Reynaud. Tendo-se este demitido, sucedeu-lhe Pétain e, poucos dias depois, era assinado o armistício.
As gerações mais jovens necessitam de se manter informadas sobre todos os horrores perpetrados pelo Nazismo - não vão pensar que Hitler era um sujeito magnífico e que o Nazismo é uma coisa giríssima, que alguns grupos porreiraços até propagandeiam nas suas músicas, letras, símbolos e indumentárias - bem como, já agora, por diversos outros regimes totalitários do Séc. XX. Por muito chocantes que sejam (ou, talvez, justamente por isso), é preciso continuar a mostrar as imagens de horror dos campos de concentração e dos seus fornos, manter vivos os relatos dos que lhes sobreviveram, guardar os registos das legiões e legiões de mortos, das noites de terror dos bombardeamentos sobre Londres ou, mais tarde, sobre as cidades alemãs, de todas as barbáries cometidas.

Quando, por vezes, diante de qualquer situação desagradável, se exclama peremptoriamente “isto nunca esteve tão mal!”, talvez valha a pena recordar a sanha infernal que então abalava o mundo. Para ilustrar essa loucura, simultaneamente odiosa e patética, ocorre-nos mencionar a referência contida no Diário do Conde Ciano, genro de Mussolini e seu Ministro dos Negócios Estrangeiros, acerca do dia em que a Itália iniciou a sua intervenção no conflito: “O Alto Comando italiano nasceu hoje de manhã às 11 horas no Palácio de Veneza. Raramente vi Mussolini tão feliz. Ele realizou o seu grande sonho: torna-se o chefe militar do seu país em guerra” (!!!).

Entretanto, é também na dor e pela dor que pode aflorar a natureza mais nobre e generosa do Homem. Por muito que se discuta se os ingleses podiam, anteriormente, ter prestado um maior auxílio à França, por muito que, mesmo quando se trata das questões mais dramáticas, haja lugar para o calculismo e a mesquinhez, fica bem registar o gesto britânico.

Curiosamente, nas décadas que se têm seguido à Segunda Guerra, os ingleses têm mostrado bem pouco entusiasmo com a ideia de uma Europa Unida. No entanto, nada pode travar o processo de unificação de todos os povos da Terra. Algum dia, inevitavelmente, surgirá um Governo mundial a sério (2). É uma questão de tempo. Há 200 anos atrás, a Itália não existia como nação! Há 1000 anos atrás, inexistia qualquer dos actuais países europeus, ou americanos, ou africanos. Há 80 anos atrás, era muito mais difícil chegar de Lisboa a Bragança do que hoje o é de Lisboa a Madrid, a Paris, a GenÃL;®ve ou, até, a Nova Iorque.

Assim, a globalização em curso representa, em si mesma, um passo em frente da Humanidade. Está viciada em muitos aspectos, é certo. Tem sido fundamentalmente economicista, quando devia consistir na partilha de todo
o tipo de recursos - económicos, culturais, artísticos, religiosos, científicos, etc. É unilateral e demasiado americanizada, quando o brilho da unidade só pode ser intenso se compreende e integra o valor da diversidade.
É hipócrita, agressiva, movida pela ambição e ganância material, a até fictícia em muitos aspectos. Tudo isso sabemos. Os verdadeiros progressos, contudo, nunca foram isentos de contradições. O que importa, é não perdermos a meta de vista. `

José Manuel Anacleto
Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

Em próximo número: Quando os Portugueses Chegaram ao Brasil

(1) Cit. In “História Polémica da Segunda Guerra Mundial”, Eddy Bauer, Publicações Europa-América
(2) Lembremos que no CLUC se está preparando um livro, de publicação já anunciada e a concretizar oportunamente, com o título “O Governo da Terra” (em vários volumes)

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