Por uma nova cultura

A Biosofia é produzida numa sala de 4 m2, parte dos quais ocupados com arrumações. Recebeu dois subsídios, um do Instituto Português da Juventude, outro do Departamento da Juventude da Câmara Municipal de Lisboa; qualquer deles se limitou ao montante, a dizer a verdade, simbólico de 100 contos. Entretanto, fazer sair um único número custa um pouco mais de 1000 contos. Do produto das vendas, uma parte significativa, natural e logicamente, fica para a Distribuidora e para as livrarias, papelarias ou bancas.

Nenhum dos colaboradores da Revista recebe qualquer remuneração. A entidade que a edita, o Centro Lusitano de Unificação Cultural, é uma Associação sem fins lucrativos que desenvolve inúmeras actividades pedagógicas, literárias e beneficentes com meios tão escassos que - não hesitamos em dizê-lo - fariam desistir quem não tivesse um lúcido e definido espírito de missão, e uma inabalável coragem para enfrentar todas as dificuldades. Publicou mais de cinquenta livros, em diferentes línguas: os originais em Português e traduções em Inglês, Espanhol, Francês e Russo. Não está, nem quer estar dependente de tutelas oficiais ou partidárias, nem de promoções mediáticas, nem de campanhas ocas de Marketing. Existe, resiste, cresce e multiplica sempre mais as suas actividades e meios de contribuir para um mundo melhor, unicamente pela generosidade dos seus simpatizantes (sendo justo destacar o trabalho do GRACL) e, antes e depois de tudo, dos seus dirigentes. No entanto, todas as contribuições são absolutamente voluntárias e sem qualquer contrapartida, efectiva ou prometida, que não seja a satisfação de apoiar causas nobres e fundamentais. Estamos habituados a sorrir quando ouvimos “queríamos fazer muitas coisas, mas não temos condições, não temos estruturas, não temos dinheiro, não temos subsídios”, porque nunca vacilámos na determinação de fazer o melhor possível, com padrões de dignidade, e de ousar ir sempre mais além.

Estas explicações, um pouco longas, são indispensáveis para deixar claro que não estamos assentes em apoios institucionais nem dispomos de qualquer de estrutura empresarial ou base financeira sólida.

A Biosofia é uma corajosa e rara promotora de uma nova cultura, nos mais diversos domínios. De facto, dificilmente haverá alguma área do pensamento ou da actividade humana sobre a qual não apresente ideias, reflexões, clarificações e propostas. Quantas revistas assim conhece o leitor? Olhemos à nossa volta: há as publicações assumidamente do efémero, das colunas sociais e dos acontecimentos da vida particular desta ou daquela personagem pública; há as revistas do sensacionalismo (incluindo as de uma assim chamada “espiritualidade” - ligeira, comercial e ao sabor da moda); há os produtos da cultura oficial, sempre com os mesmos rostos e as mesmas ideias de refugo, incessante e descaradamente repetidas, com base na convicção de que os chavões habituais, próprios de uma civilização insensata e decadente, podem melhorar alguma coisa, e de que o apogeu da cultura são os romances galardoados, volvidos em best-sellers e discutidos com um ar muito sério (mas que, na verdade, salvo honrosas excepções, seriam considerados brincadeiras de criança no seio de qualquer Humanidade pensante, por nada de essencial abordarem ou, muito menos, contribuírem para resolver). Como a Biosofia, porém, quantas publicações existem?

É muito importante saber assumir a sério o projecto de uma Nova Cultura - sem fanatismos ou utopias inconsequentes mas igualmente sem cedências aos pré-concebidos e às menoridades da Nomenklatura instalada nos diferentes centros de poder: político, económico, mediático, religioso, educativo, artístico, cultural, etc. Não receamos pensar os temas que ninguém se aventura a pensar nem colocar os problemas que ninguém ousa colocar. Não nos refugiamos num agnosticismo hipócrita, preguiçoso ou demagógico (porque também existe um agnosticismo digno e sincero) face às questões fundamentais, atiradas, por uma cultura do material e do efémero, para o limbo dos assuntos tabu ou para o domínio da simples crença: a origem e o destino do Universo, o sentido da Vida, o fim da existência humana, a verdade sobre a Evolução, a natureza do Divino.Não ignoramos os problemas inadiáveis da educação, da ética, do racismo, da exclusão social, nem os tratamos com lugares-comuns. Cada número da Biosofia é um alforge de novas ideias, de contributos para uma diferente e melhor “compreensão da Vida, do Universo e do Homem”. A pouco e pouco, vamos fazendo presentes e tornando normais as perspectivas que, no pensamento oficial, pura e simplesmente não existiam. Já aconteceu sermos confrontados, como se fossem novidades, com ideias e princípios que havíamos exposto pioneiramente.

E então? A Biosofia e a entidade que a publica realizam cada dia da sua existência o milagre de sobreviver, um milagre de amor e generosidade. Havemos de resistir, como sempre o fizemos. Mas precisamos de meios e ajudas em maior quantidade, para que se multipliquem as iniciativas e possamos estar mais presentes e intervenientes. Por isso, deixamos este apelo a quem sabe que fazemos um trabalho pioneiro e de grande relevância para tornar melhores os valores que condicionam a Humanidade e determinam o nosso mundo.

Precisamos de mais assinantes, de mais publicidade, de maior divulgação (neste último aspecto, todos podem ajudar.). Além disso, há coisas muito simples: não deixar passar um número, ainda que estejam por acabar de ler os anteriores, é uma forma de ajudar - e a maior partes dos temas da Biosofia valerão tanto (ou mais) daqui a muitos anos como valem hoje; comprar para oferecer, em vez de simplesmente emprestar, é outro modo de nos apoiar. Quatrocentos escudos não custam nada mas contribuem para nos auxiliar a sobreviver. Seja como for, resistiremos. Por uma Nova Cultura. Por um Novo Homem. Em Nome do Futuro.

Isabel Nunes Governo
Directora da Biosofia; Vice-Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

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