A Luz - Perspectiva Esotérica

Na nossa concepção, ocultista, a luz, em sentido lato, abrangente, é o Akasha ou Anima Mundi nas suas infinitas graduações ou condensações, segundo os Planos da Consciência Manifestada. Em qualquer desses Planos (do Grande Septenário), ela está presente e flui livremente, podendo, contudo - e em simultâneo -, ser transitoriamente particularizada.

Importa recordar que, de acordo com a Ciência Espiritual, o Universo tem uma natureza septenária, ou seja, 7 Planos de diferente frequência vibratória, de diferentes qualidades da respectiva substância, de diferente subtileza ou densidade. Sobre este ponto fundamental, remetemos para os artigos “Imanência e Transcendência de Deus” e “Entre o Céu e a Terra - A Electricidade”, publicados respectivamente no o 3 (pp. 36 a 38) e no o 4 (pp. 19 e 20) da Biosofia.

Nos Planos inferiores e mais densos, onde a nossa actual existência presente tem o seu foco, a luz manifesta-se (à nossa percepção) como uma pulsação e uma “radiância” emitidas por todos os corpos, independentemente do seu grau de materialidade e de se tratar, ou não, de substância que a Biologia designa como “orgânica” ou “inorgânica”. (1) No entanto, em sentido mais rigoroso e abarcante, é a própria respiração e uma radiância de todas as unidades de vida em todos os 7 Planos da Manifestação.

Ela integra a consciência global do Cosmos já que, na perspectiva ocultista, o Espaço-Tempo (Akasha) - matriz e substância de tudo o que existe - é Consciência Pura (2) e preenche toda a “distância”. Na verdade, não constitui simplesmente uma metáfora dizer-se que a luz é conhecimento (consciência) e está em toda a parte, ainda que, na imensidão nocturna dos “céus”, pareça invisível. De facto (à nossa percepção) é invisível e incorpórea, até ao momento em que interage com outros corpos físicos. Aí, (nessa interacção, e por causa dela), corporifica-se e torna-se activa e visível, por condensação e reflexão.

Tomemos como exemplo o nosso Sol - a maior e mais básica fonte de luz que irradia para todo o sistema. Apesar de essa luz chegar ininterruptamente a todos os recantos do sistema, alimentando e sustentando toda a sua existência, à noite estamos (aparentemente) rodeados de escuridão. Um astronauta, que estivesse a uma certa distância da Terra, poderia confirmar que, em redor desta, a característica cor índigo das noites de céu estrelado a englobava e se perpetuava em todas as direcções. Contudo, quando a metade do globo em que nos encontramos está de fronte para o sol, percebemos a luz; para nós, todo o espaço que medeia entre o Sol e a Terra está inflamado de luz, todo o nosso horizonte está prenhe por ela. Tudo isso resulta de aquela luz ser vibração (isto é, potência de movimento) inerente à Vida Solar e de a nossa presença terrestre lhe oferecer resistência, interceptando-a no seu movimento (no seu pulsar). Interagimos com ela e reflectimo-la, corporificando (densificando) a luz - se bem que, à distância, o nosso globo permaneça, por inteiro, envolto em escuridão.
A outra condição para a luz se poder manifestar é a de uma forma restritiva - ou seja, condensada e localizada -, como reacção “autocombustiva” na qual o corpo etérico (3) e o corpo químico (4) se devoram mutuamente, num processo que pode ser instantâneo, mais ou menos demorado, ou extremamente arrastado no tempo, segundo o potencial energético. São exemplos disso uma simples fogueira (que perdurará acesa enquanto subsistir vitalidade etérica no interior do corpo químico consumível); o fenómeno de activação luminosa a par da lenta consumição etérica verificada nos filamentos de tungsténio de uma lâmpada; a luminescência irrompida da sucção etérica da atmosfera produzida por uma deflagração nuclear ou mesmo por uma simples explosão num ambiente saturado de gás inflamável (provocando-se um abrupto vácuo e uma violenta alteração e deslocação de pressões); e, evidentemente, no fenómeno de irradiação luminosa de cada estrela que pontilha o nosso Universo, irradiação essa longamente sustentada de acordo com o potencial energético - e, assim, a lentíssima combustão - de cada uma delas.

No caso do nosso Sol, estamos dentro do seu campo magnético e somos literalmente banhados e impregnados pela sua vida, partilhando-a. Mais: imperceptivelmente para nós, na ínfima proporção que nos cabe nesta partilha de vida activa, estamos sendo consumidos com ele nessa prolongada combustão.

Natureza Pulsante e Propagatória da Luz
O Akasha, perspectivado na sua globalidade, está em perpétua “ebulição” (vibração): move-se dentro de si mesmo, o que equivale a dizer, move-se sem se deslocar, uma vez que, fora de si, não há Manifestação (Acção ou Exteriorização Divina).
Já em outros contextos identificámos o Espaço-Tempo com o Akasha (Akasha, a raiz, o substracto e a essência da Matéria). Imaginemos, então, à seme-lhança do que fizeram grandes Sábios da Antiguidade - Tales de Mileto, Pitágoras, Anaxágoras, Plutarco, Demócrito, Heráclito, etc -, que o Espaço-Tempo está prenhe de uma espécie de corpúsculos (a que chamavam eons). Os corpúsculos - essa colectiva vida ígnea - que impregnam o espaço homogéneo e livre, vibram sem, propriamente, se propagar (estão, ubiquamente, em todo o Universo); os que preenchem e incorporam circunscritamente a matéria (matéria, no sentido de densificação modular do Akasha) deslocam-se incessante e velozmente entre as diversas unidades “materiais” (particularizadas) inerentes a cada Plano. No espaço livre, obedecem a uma vibração em contenção (5); no seio da matéria condensada, obedecem a um movimento de propagação ou irradiação - o apelo entre as partes separadas (que tendem, permanentemente, para a unidade).
Evidentemente, não existe matéria sem o seu suporte ou substrato espiritual, e a própria matéria apresenta-se sob inúmeras graduações de densidade que, elas mesmas, se interpenetram (à imagem de uma esponja embebida em água; água que, por sua vez, é compenetrada pelo ar; ar que, por sua vez, é compenetrado pelo éter…). Assim, a luz ou radiância dimanada pelos corpos é de natureza simultaneamente vibratória e propagatória, porque toda a matéria é actuada e infundida pelo espírito (o impulso, a Razão, a Ordem e o sentido de Ser), na sua manifestação activa ou vital (6): o Espírito fecunda o Akasha ou, na conhecida frase bíblica, “o Espírito de Deus movia-se sobre as Águas Primordiais…” (Genesis, I, 2).
No Cosmos Manifestado, as energias particularizadas sofrem desvirtuação: elas são metamorfoseadas e “cunhadas” pelo próprio índice vibratório (de consciência) das unidades de vida que as polarizam e circunscrevem.

O Tempo e o Espaço são indissociáveis, como as duas faces de uma mesma moeda. Constituem dois aspectos - que se complementam - da Energia Una e Universal. Por essa razão, os filósofos antigos elegeram um só termo, eon, para referir a mesma unidade espacio-temporal.
Nos Mundos ditos “da Forma” (correspondentes ao Quaternário Inferior), todas as energias são de natureza electromagnética, se bem que, neste Plano Físico, em termos comparativos, as radiações cósmica e gama, por exemplo, se possam caracterizar como de natureza essencialmente eléctrica. Quanto mais “material” é o plano da sua expressividade vibratória, mais a qualidade magnética se sobrepõe à qualidade eléctrica.
Na verdade, relativamente aos Planos da Manifestação nos quais o Homem tem percepção directa, distinguimos que, nas propriedades electromagnéticas da radiância anímica, a componente qualitativa designada magnetismo é inerente à energia circunscrita num corpo material, ou seja, à forçada inércia ou estagnação temporárias (que potencia a interacção atractiva entre os diferentes corpos e, assim, a tendência como que de “catapulta” ou “disparo” que está na origem do “movimento propagatório”); a componente qualitativa designada electricidade (7) alude mais propriamente às vibrações da Energia Universal no seu estado homogéneo e livre (não conglomerado ou particularizado).
ÃL;€ escala do nosso Universo material, inclinamo-nos a considerar que as radiações cósmica e gama, bem como, muito provavelmente, a energia recentemente identificada e denominada lambda (8), se situam no extremo eléctrico do espectro electromagnético.
As ondas electromagnéticas em que o magnetismo é expresso (e, de modo progressivo, predomina sobre a qualidade eléctrica) são, nomeadamente, os raios-x, ultravioletas, térmicos e luminosos, infravermelhos, as microondas e as ondas de rádio.

Ver é Interpretar e Obter Conhecimento - e Só se Pode Ver Através da Luz…
Numa súmula, a luz pode ser considerada o veículo para a aproximação e a identificação com o Conhecimento - ela é e transporta conhecimento. É, deste modo, o liame, a comunicação e a interligação entre as miríades de seres ou formas de vida - o sangue e a vitalidade do próprio Universo.
< < Pág. anterior 2/4 Pág. seguinte >>

Isabel Nunes Governo
Vice-Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

Notas:
(1) … Designação cujas implicações, no que respeita ao conceito de “Vida”, não são, numa grande medida, partilhadas pela Ciência Esotérica. É uma questão a abordar noutra oportunidade.

(2) Esse oceano de conhecimento está num modo como de “latência”. Apenas se manifesta e activa quando é particulari-zado ou “encapsulado” (numa porção limitada, claro) por uma entidade (individual ou colectiva; neste último caso, um pla-neta ou um sistema solar, nomeadamente).

(3) Corpo Etérico - Corresponde ao Linga-Sharira, ao Corpo Modelo ou Padrão, ao Duplo Astral das obras de H.P.Blavatsky, de A.P. Sinnett e de outros autores teosóficos do final do século XIX. Encontra-se definido na Biosofia o 6, p. 28. Cabe lembrar que o Éter de que os ocultistas falam há milénios não deve ser confundido com o hipotético Éter que os cientistas, nos Sécs. XVIII, XIX e início do XX, admitiram existir.

(4) Corpo Químico - Constituído por substância dos níveis mais densos e mensuráveis do Plano Físico.

(5) O carácter pulsante da luz faz-se expresso no seu alinhamento e no seu fluir pelas linhas de força da matriz akashica de cada Plano do Septenário. Reportamo-nos à metáfora, acima utilizada, de um movimento ebulitivo.

(6) Fohat, no Ocultismo Oriental. Sobre Fohat, consulte-se, nomeadamente: “A Doutrina Secreta” e “Glossário Teosófico”, de H.P.Blavatsky; “Deus, Homem e Universo”, de I.K.Taimni; “Cartas de Luxor”, “O Sétimo Círculo” e “A Invocação Universal”, do CLUC; Biosofia, o 3, pp. 35 a 38.

(7) Em última análise, a electricidade, no seu estado puro, é ubíqua (não localizada nem compartimentada) podendo assim inferir-se que é atributo do Espírito. A sua pureza vai diminuindo à medida que se afasta dos Planos primordiais; embora já mesclada, ela é, contudo, predominante (sobre a componente magnética e telúrica) e comparativamente livre nos 1os Sub-Planos de cada Plano Cósmico.

(8) … Já antes prevista (a “constante cosmológica” de Einstein, no 1o quartel do século XX…). Segundo os modernos cientistas, “trata-se de uma força obscura, emanada do ‘espaço vazio’ e que impregna o Universo, contrariando (vencendo) a força da gravidade”. Para o ocultista, esse “espaço vazio” é o ponto de transição para os Planos suprafísicos - sendo, pois, que o vazio é apenas aparente (cfr. “Entre o Céu e a Terra”, Biosofia o 5, pp. 39 e ss.).

License

This work is published under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 2.5 License.

Post a Comment

You must be logged in to post a comment.