A Reencarnação e as Religiões

Na sequência do conjunto de artigos subordinados ao tema “Imanência e Transcendência de Deus”, falámos no anterior número desta Revista acerca da Reencarnação. Conforme o prometido, dedicaremos agora algum tempo ao modo como ela é considerada pelas religiões. Visto que as Igrejas Cristãs - seja a Igreja Católica, a Ortodoxa, a Anglicana ou outras de raiz Luterana ou Calvinista - são largamente maioritárias nos países europeus ou americanos onde circula esta Revista, deve entender-se como natural que a elas nos reportemos predominantemente. Tal não significa menor respeito por outras religiões, em que, aliás, como já vimos, a Reencarnação é ponto assente.

Será importante clarificar que, ao longo da sequência de artigos a que nos referimos, publicada nos os 2, 3, 4, 6 e 7 da Biosofia, estabelecemos uma série de princípios que são pressupostos necessários para a boa compreensão do presente artigo. Isso é principalmente verdadeiro no que respeita à Constituição Integral do Homem (Biosofia o 6, pp. 23 a 30) e à definição genérica do que é a Reencarnação (Biosofia o 7, pp. 11 a 18). Se tal não for tido em conta, algumas das afirmações constantes deste particular artigo poderão parecer nebulosas e é provável que alguns leitores pressuponham um conceito de Reencarnação que, realmente, não partilhamos. Repetindo o que escrevemos no o anterior, a ideia generalizada sobre a Reencarnação é muitíssimo imprecisa.

Para tornar a leitura mais leve, continuaremos a seguir o método de pergunta / resposta para a nossa exposição.

Podemos aceitar a Teoria da Reencarnação se esta é rejeitada pelas Religiões?
Caberá aqui repetir uma frase consagrada: “Não há religião superior à verdade” (1). A realidade da Reencarnação independe da opinião de quem quer que seja.

No entanto, cada Religião é uma expressão própria da Verdade - como que uma diferenciação prismática da Luz Una, que permite a manifestação de várias cores. Nós sustentamos que cada uma das grandes Religiões é, no seu propósito e na sua formulação original, uma expressão particular (adaptada a diferentes circunstâncias e necessidades) de uma Sabedoria Divina, Eterna e Universal, de uma suprema Ciência do Espírito. Deste modo, qualquer religião digna desse nome está muito acima de uma simples crença ou opinião. Há muitas e, tantas vezes, conflituantes opiniões e crenças. No entanto, os Grandes Instrutores que assentaram as bases, o ensinamento original de cada religião, sabiam do que falavam, e fizeram-no com amor e compaixão, em palavras revestidas de poesia e inspiração, mas fundamentadas num conhecimento exacto e rigoroso. É por isso que respeitamos todas as religiões.

Quando nos referimos a religiões, não devemos confundir com seitas, que é uma coisa muito diferente. Entretanto, quando uma religião, ou melhor, quando a interpretação religiosa de uma Igreja, se afasta da Sabedoria Universal, torna-se sectária, unilateral, separada do todo. Há dois grandes equívocos do ocidental médio relativamente à religião: o 1o, é o de julgar que só existe uma religião, aquela em que foi educado; o 2o, é o de supor que tem de acreditar sem pensar e investigar, porque, realmente, ninguém dispõe nem poderá jamais dispor de um Conhecimento Espiritual. Presume-se, assim, que só há duas posições possíveis: ou acreditar cegamente no que a Igreja diz ou, caso contrário, ser materialista e ateu.

Ora, a verdade é que há uma Ciência do Espírito, com uma clara e rigorosa formulação de Leis, que todos podem chegar a entender, sem ficar dependentes de crenças. E existem muitas religiões que, conhecidas, estudadas e interpretadas no seu conjunto, permitem compreender essa eterna e universal Sabedoria, que é o fundamento que a todas subjaz e legitima.

Das grandes religiões, apenas quanto às duas mais recentes - o Cristianismo e o Islamismo - se pode colocar o problema da rejeição da Reencarnação. Pelas razões acima expostas, trataremos especificamente do Cristianismo, sustentando que, como maravilhoso meio de aprimoramento e de compaixão divina oferecido à Humanidade por Grandes Seres, ele não rejeita a Reencarnação, mas antes a pressupõe.

Não é verdade que o Cristianismo rejeita a Reencarnação?
Não. Aconteceu, sim, que Igrejas ditas Cristãs, a certa altura, se afastaram desse Ensinamento Universal e de todas as Idades. Ainda assim, muitos dos sacerdotes dessas mesmas Igrejas, hoje em dia, regra geral privadamente, admitem a realidade da Reencarnação. E seguramente, os seus mais altos responsáveis, quando reflectem no tema, não deixarão de ter a mesma posição - dada a superior lógica, justiça e evidência que apresenta. O problema, pois, está em ganhar a coragem para assumir publicamente que se cometeu um erro e voltar ao Ensinamento original (o que, aliás, seria encarado com naturalidade por muitos dos seguidores dessas Igrejas que, sincera e honestamente, aceitam a Reencarnação como um facto). (2)

A Humanidade nunca esteve abandonada à sua sorte. Sempre teve a assistência do Divino, e sempre lhe foram prodigalizados os Ensinamentos, as referências e os preceitos para progredir do ponto de vista espiritual e semear causas luminosas, em vez de raízes de infelicidade. Supor-se que, durante centenas e centenas de milhares de anos antes do Judaísmo e do Cristianismo, não foram oferecidas à Humanidade formulações religiosas e espiritualistas legítimas, constitui um grave insulto à Misericórdia Divina. Lamentamos profundamente que essa suposição seja mantida, inclusive, por pessoas consideradas cultas. Tal é tristemente demonstrativo do modo negligente, desinteressado e primário com que se reflecte sobre as questões religiosas.

O facto é que, Idade após Idade, do tronco comum da Eterna e Universal Sabedoria, despontaram inúmeras apresentações religiosas, filosóficas e de ciência espiritual que, embora adaptadas a cada tempo e latitude, são expressão da(s) mesma(s) Verdade(s) básica(s). Entre os pontos invariavelmente reconhecidos e apresentados, encontra-se o das vidas sucessivas. O Cristianismo não pode ser considerado uma excepção - e se, assim fora, teria contra si a evidência de incontáveis gerações anteriores de grandes sábios, dotados de extraordinário Conhecimento e Amor compassivo (3). Na realidade, Jesus foi mais um - maravilhoso e sublime! - elo nessa ininterrupta cadeia de Grandes Instrutores.

Ele foi muito claro quando expressou “Eu não vim abolir a Lei.” (Mateus, V,17). Efectivamente, o Senhor Cristo não veio trazer qualquer nova teologia, qualquer nova teoria filosófica, qualquer nova explicação global do Universo, da Vida e do Homem. Não precisava de o fazer - mais do que isso, não o devia fazer - porque essa explicação sempre havia existido e continuava válida - tratava-se da Ciência Universal do Espírito, da Religião-Sabedoria de todas as Idades. O que, sim, Ele veio oferecer, essencialmente, foi um poder de regeneração moral da Humanidade, uma tónica mais acentuada na importância do Serviço activo, uma formulação mais adequada aos povos que depois haveriam de ter uma preponderância no mundo, constituindo basicamente a civilização europeia e americana (sendo lastimável, entretanto, que esses povos tenham desenvolvido xenofobias rácicas, culturais e religiosas…) e certos instrumentos ritualísticos (v.g., os chamados sacramentos) que poderiam ser úteis a muitos seres humanos; mas não pretendeu, obviamente, pôr em causa as bases da Ciência Espiritual de todos os tempos (de que é um expoente) pois, caso contrário, tê-lo-ia declarado e exposto a sua “alternativa”.

Se Jesus não conhecesse perfeitamente e não subscrevesse por inteiro o princípio das vidas sucessivas, decerto não diria “Sede perfeitos como o Pai Celestial é perfeito” (Mateus, V, 48) e “coisas maiores do que aquelas que eu fiz, vós havereis de fazer” (João, XIV, 12), pois é manifesto que tais conquistas evolutivas não se alcançam somente nas dezenas de anos de uma vida. Ele alude a condições qualitativas e substanciais que a média da Humanidade somente no futuro, após vários ciclos encarnativos, poderá atingir.

Mas por que é que a Bíblia não ensina a Reencarnação?
Como todos os Livros Sagrados, a Bíblia está repleta de um simbolismo cujas chaves, embora rigorosas e universalistas, são conhecidas de poucos. A essa luz, não poderia contestar-se a presença do conceito da Reencarnação na Bíblia judaico-cristã. Daremos um simples exemplo: em João, XV, 1-8, o Agricultor é o Espírito Uno, o Pai; a Videira, é a Tríade Superior, o Filho; os Ramos, são as inúmeras Personalidades encarnativas. No entanto, sendo impossível, no contexto de um simples artigo, abalançar-nos ao desenvolvimento de tais considerações, teremos de cingir-nos à interpretação mais literal dos textos.

Conta-se que, um dia, Cristóvão Colombo foi interrogado por um eclesiástico que pedia para lhe indicar a passagem bíblica onde se dissesse que a Terra era redonda. O grande navegador terá respondido, aproximadamente: “Não o posso fazer porque a Bíblia não o diz. Mas também não afirma, em parte alguma, o contrário.” (4) De modo semelhante, podemos dizer que, se em nenhuma passagem a Bíblia afirma expressamente a realidade da reencarnação, também em nenhuma passagem a nega (5). Entretanto, são vários os trechos, tanto no Antigo como no Novo Testamento, em que, implicitamente, está presente a noção da pluralidade das existências ou, pelo menos, a sua admissão.

É o caso, nomeadamente, de Jeremias, I, 4-5; Malaquias, III, 23 (ou IV, 5, noutras versões); Mateus, XI, 14-15; Mateus, XVII, 10-13; Marcos, IX, 11-13; João IX, 2; João V, 5-14; João, III, 7; João, XIV, 12; Hebreus, V, 10; Apocalipse, III, 12 (além das já antes mencionadas).

No final deste artigo, veremos como axiomas fundamentais do Cristianismo ficariam completamente invalidados, se não for considerada a Lei das existências cíclicas (Reencarnação).

Importa ainda enfatizar que referências a esta Lei se encontram em diversos Evangelhos Apócrifos - alguns deles em nada desmerecendo dos chamados Evangelhos sinópticos. De resto, a Reencarnação era aceite no âmbito das Comunidades e correntes espiritualistas de onde despontou o Cristianismo e/ou as suas influências primitivas: os ebionitas, os essénios, os nazarenos, os nazareus, os gnósticos, os ofitas, etc.

A Reencarnação não é inconciliável com a Ressurreição?
Não, desde que se compreenda correctamente o que é a Ressurreição (e também, obviamente, a Reencarnação). Para o efeito, recorreremos a uma citação de um dos livros do CLUC (”Luzes do Oculto”): “Todos os verdadeiros (altos) iniciados ‘desceram aos infernos’ e ressuscitaram ao terceiro dia. A ressurreição dos mortos ao terceiro ‘dia’ tem como significado e correspondência simbólico-esotérica a apoteose do ser, iluminado: a dominação e a elevação de consciência, Plano após Plano - Físico, Astral, Mental -, até à libertação dos Mundos da Forma, dos Reinos mortais.

Nos Mistérios da Antiguidade, fazia-se corresponder esta realidade com determinados passos do candidato à iniciação, sendo que este era levado a descer às profundezas de uma cripta, de onde ressurgia, triunfante e redentor de toda a natureza inferior, ao terceiro dia (porque tríplice é tanto a natureza inferior como o Eu Superior). A tradição construída à volta do Grande Avatar da Era Cristã em nada de essencial difere das tradições referentes a outros Grandes Avatares precedentes: Orfeu, Krishna (nos aspectos referidos como em tantos outros), Apolo ou Gautama. Tal só prova a Magna Verdade - por isso mesmo Universal - de que todos são dramática e sublime expressão: a Eterna Sabedoria e o Caminho da Ascensão a nela percorrer” (6).
Por outras palavras, é necessário que o Quaternário Inferior ou Personalidade, ligado aos três mundos de maior materialidade - físico (denso e etérico/astral), emocional e mental concreto - seja integralmente reorganizado, transmutado e revestido pela Tríade Superior - mental abstracto, intuicional e átmico (7). Então, o cavalo, símbolo daquele quaternário (8), torna-se imaculadamente branco, montado e comandado pelo Cristo (Cfr. Apocalipse, VI, 2). Da mesma forma, o Senhor Buddha (Gautama) iniciou a longa peregrinação que o conduziu até à suprema Iluminação montado num cavalo branco (9). Na tradição oriental, fala-se no “Avatara do Cavalo Branco”, a culminante manifestação hipostática de Vishnu, segundo os brâmanes, o Buddha Maitreya referido no Budismo setentrional, ou Sosiosch, o Salvador masdeísta (a religião precedente de Zoroastro), tal como, numa tradição islâmica, o vindouro Iman comandará um cavalo branco…

Tais conquistas evolutivas, entretanto, só podem ser alcançadas ao cabo de muitas e muitas vidas de progresso - ou seja, de sucessivos renascimentos. Efectivamente, qualquer sentido lógico e coerente de Ressurreição não apenas é conciliável com a Reencarnação, como antes a pressupõe. Deste modo, várias passagens do Novo Testamento aludem a ambas a realidades, não porque sejam a mesma coisa (como às vezes, forçadamente, se afirma) mas porque se entrelaçam entre si.

Pode dar-se algum exemplo desses trechos?
Sem dúvida. Porventura o mais notável é o da 1a Epístola aos Coríntios (XV, 35-50). Eis como aí se expressou São Paulo (tanto quanto as traduções chegadas aos nossos dias permitem “ver”): “Todavia, dirá alguém, como ressuscitam os mortos? E com que corpo vêm? Insensato! O que semeias não recobra vida, sem antes morrer. E, quando semeias, não semeias o corpo da planta que há de nascer, mas o simples grão, como por exemplo, de trigo, ou de alguma outra planta. Deus, porém, lhe dá o corpo como lhe apraz, e a cada uma das sementes, o corpo da planta que lhe é própria. (…) Se há um corpo animal, psíquico, também há um espiritual. Mas não foi o espiritual que veio primeiro e sim o animal; o espiritual vem depois. O primeiro homem, tirado da terra, é terreno; o segundo veio do céu. Assim como reproduzimos em nós as feições do homem terreno, precisamos de reproduzir as feições do homem celestial. O que afirmo, irmãos, é que nem a carne nem o sangue podem participar do reino de Deus; e que a corrupção não participará da incorruptibilidade”.

O simbolismo presente nas palavras do Apóstolo Paulo é magnífico. Um comentário integral justificaria por si só um livro sobre a Antropogénese e a Constituição Oculta do Ser Humano. Por falta de espaço, deixamos somente algumas notas:

1. As sementes - “como, por exemplo, de trigo”, outro sugestivo símbolo - representam os átomos-permanentes ou átomos semente, mencionados na Biosofia o 7 (pp. 16 e 17). Em cada Plano, eles são o núcleo atractivo que, por afinidade vibratória individualizada, própria, atraem os restantes átomos que formam cada corpo (não apenas o físico) em cada nova encarnação - a cada uma das sementes o corpo que lhe é próprio.

2. Fica inequivocamente demonstrado que a constituição do Ser Humano não é tão simples como ter um corpo físico e uma alma, ao contrário do que supõe o conceito religioso popular. S. Paulo considera (a) uma natureza física, (b) um corpo psíquico - o agregado Kama-Manas, ou alma animal - e (c) o Homem Espiritual. Compare-se com o que escrevemos na Biosofia o 6 sobre a Constituição Integral do Ser Humano.

3. Em muito poucas palavras, S. Paulo dá uma belíssima explicação sobre a Antropogénese, sobre o desenvolvimento Humano ao longo das diferentes Raças-Raiz (chamadas Gerações (10) nos Evangelhos), sobre o trabalho realizado por grandes Hierarquias de Seres - os progenitores Lunares do homem terreno e os progenitores Solares do homem interno ou celestial - e sobre o curso da evolução das diferentes naturezas do Homem.

4. O final desta passagem, isto é, a partir de “Assim.”, descreve a transmutação substancial acima descrita - em resposta à pergunta anterior -, evidencia que a Ressurreição nada tem a ver com o ressurgimento do corpo ocupado numa única vida e deixa claro que está em causa, sim, um imenso progresso evolutivo, só realizável em muitas vidas (que, entretanto, nos conduzirão a patamares de consciência gloriosos e sublimes, insusceptíveis de ser correctamente descritos nas palavras humanas).

Não é a Teoria da Reencarnação incompatível com as Noções de Céu, Purgatório e Inferno?
As formulações habituais sobre o Céu, o Purgatório e o Inferno - e, ainda, o Limbo da Teologia Cristã - são maneiras muito simplificadas (e, portanto, destituídas de grande rigor) de tentar imprimir sobre a Humanidade a noção da Lei do Karma (”tudo o que semearmos, colheremos”; Ver Biosofia o 7) e a importância de agir, sentir e pensar correctamente, de molde a causar os melhores efeitos futuros possíveis.

Evidentemente que a realidade, tal como descrita pela Ciência Esotérica, é muito mais profunda e repleta de significado. Ainda assim, porém, as ideias de Inferno, Céu e Purgatório conciliam-se com a Reencarnação, desde que se entendam claramente quatro pontos (para referir somente os principais):

1. Só na cruel imaginação de teólogos fanáticos e pouco esclarecidos poderia existir tal coisa como um inferno eterno. A concepção esotérica rejeita completamente esse absurdo mas explica como, karmicamente, por uma lei de causa-efeito, o ser humano pode para si mesmo gerar condições infernais tanto nos períodos de existência no Plano Físico, como nos estados post-mortem. Em todos os casos, todavia, essa condição relativa acaba por cessar quando se esgota a potência (também relativa) da causa que a originou (11). Deve notar-se que a palavra eternidade encontrada nas traduções de alguns trechos públicos significava, originalmente, um período de tempo prolongado - mas não ilimitado.

2. Em todas as sucessivas encarnações, o ser humano tem de esgotar e/ou compensar o seu Karma negativo, o que representa de igual modo (e principalmente) fonte de aprendizagem e sublimação, com vista a gerar estados celestiais em si mesmo e ao seu redor. Cada existência tem, assim, algo de purgatório. Outra correspondência deste conceito é encontrada na “passagem” pelo Kama-Loka, a que aludimos no número anterior da Biosofia (cfr. p.15).

3. Tal como igualmente aludimos na Biosofia o 7, há um estado no período entre as encarnações físicas a que podemos chamar Devachan ou Céu. No entanto, essa não é a meta final, porque existem ainda muitos degraus de aperfeiçoamento a subir, mais lições a aprender, novas qualidades a despertar. É um período de repouso e felicidade entre existências “terrenas”, proporcional (na sua duração e na sua qualidade) aos méritos de cada um. Coisa diferente é o Moksha (dos hindus), o Nirvana (dos Budistas) ou o Céu final a que se reportam certos trechos cristãos (por exemplo, Apocalipse, III, 21) e que Camões tão formosamente aflorou nas suas redondilhas de Babel e Sião (12):

“Ditoso quem se partir
Para ti, terra excelente,
Tão justo e tão penitente,
Que depois de a ti subir,
Lá repouse eternamente”. (13)

4. Esta superior condição celestial, todavia, só pode resultar de um grande desenvolvimento em termos de Sabedoria (compreensão das Leis regentes do Universo), de manifestação de Amor, de firme e continuada Vontade de Bem…, das diferentes qualidades divinas. Esse desenvolvimento não nos é concedido “miraculosamente”, por qualquer divindade externa; tem de resultar do nosso próprio esforço evolutivo (embora auxiliados pela majestosa Ordem Universal). Assim, facilmente se compreende que o ser humano comum jamais poderia permanecer num “céu eterno” ou num estado “nirvânico”, por carecer de requisitos, de qualidades, de registos de consciência que o justifiquem e permitam. Acaso os vulgares pensamentos, desejos, interesses e actos característicos da média dos homens e mulheres que conhecemos se coadunam com tão excelsas alturas? Certamente que não. Por conseguinte, muitas vidas são ainda necessárias para realizar o indispensável progresso.

Com que argumentos podemos defender a Teoria da Reencarnação face ao cepticismo de muitos cristãos?
O mais importante e útil de todos, é lembrar que a recusa do conceito da Reencarnação torna a Religião Cristã cheia de contradições (conduzindo a muitos para posições materialistas). Dirão alguns que os desígnios da Providência são insondáveis; mas, se o são, parece mais digno atribuir-lhe desígnios justos e bondosos do que desígnios injustos e cruéis. Com efeito, a Igreja, por não aceitar a Reencarnação, tem que sustentar o dogma inverosímel das penas eternas, ou seja: os breves anos de uma vida determinariam (na maior parte dos casos, ainda segundo a Igreja) a condenação e sofrimento infinitos. Além dos problemas de crueldade e injustiça que isto envolve, perguntar-se-á: dentro da infinita gama de maior ou menor bondade ou maldade, onde demarcar a linha que levaria uns ao Céu e outros ao Inferno? O que é o obscuro limbo para onde irão - também eternamente - as almas de crianças que não tiveram sequer ocasião de dar provas positivas ou negativas? Ou irão antes para o Céu? Nesse caso, não será melhor os pais, desde logo, assegurarem o lugar dos filhos no Céu? O que acontece àqueles que nasceram e viveram - sem culpa nenhuma - em ambiente cujas influências são essencialmente negativas? Se tal facto é tomado em conta, então para quê tentar mudá-lo, para quê evangelizar (usando a expressão das Igrejas)? Não se irão apenas criar mais responsabilidades inúteis?
A lista de perguntas poder-se-ia prolongar indefinidamente. Por que é afinal tão fraco o plano de salvação engendrado por Deus? Valerá a pena originar seres que, na maior parte, atingirão… a condenação eterna? Se um pai humano - com todas as suas limitações - está disposto a conceder novas oportunidades aos seus filhos, propiciando-lhes o melhor possível, por que não o faz, na Sua suprema bondade, o Pai Divino? Não são correspondidas as sublimes palavras de Jesus, no momento da dor maior: “Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem”? Se os homens, ao errar, estão a semear a sua própria ruína, não é precisamente um erro de quem não sabe o que faz? Será possível, nos curtos anos de uma vida, cumprir o mandamento do Cristo “sede perfeitos como o vosso Pai Celeste é perfeito” (Mateus, 5,48)? Como justificar a escolha de Maria para mãe de Jesus se não tivesse méritos anteriores que tornassem justa e não meramente arbitrária a escolha”? Como sofremos as consequências de um “pecado original” se, então, não existíamos? Poderá haver um Céu de Justiça, de Amor e de Paz, enquanto outros estão perdidos no inferno, como sustentam as Igrejas aprisionadas no conceito de uma única existência?

Ao longo deste artigo, esperamos ter referido muitos outros elementos demonstrativos de que, sem as Leis do Karma e da Reencarnação, qualquer construção teológica é precária e insustentável - excepto com base numa crença cega e fanática, de que ninguém minimamente lúcido pode fazer a apologia.

José Manuel Anacleto
Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

Notas:
(1) Como muitos sabem, tal é o lema adoptado pela Sociedade Teosófica, muitas vezes por nós referida, por toda a gratidão e respeito que merece. Ressalve-se, contudo, que o Centro Lusitano é uma organização independente de qualquer outra, embora reconhecendo e desejando contribuir para divulgar outras organizações ou correntes de pensamento dignas e úteis.

(2) Recomenda-se a leitura das seguintes obras: “Reincarnation - Na East-West Anthology”, compilação de Joseph Head e Silvya.L.Cranston (Theosophical Publishing House); “Reincarnation in Christianity”, de Geddes MacGregor (A Quest Book, 1989)

(3) Agastya, Krishna, Zoroastro, Orpheu, Hermes, Patanjali, Kapila, Pitágoras, o Buda Gautama, Lao-Tsé, etc, etc.

(4) Vale a pena lembrar que a esfericidade da Terra era conhecida dos Sábios da antiguidade, sendo, nomeadamente, aludida nos Vedas, Escrituras Sagradas dos hindus que remontam a muitos milhares de anos atrás.

(5) Existe, é certo, um passo (na Epístola aos Hebreus) em que quase directamente se parece afastar a ideia da Reencarnação. Deve-se notar, porém, que a referida epístola, embora comummente atribuída a S. Paulo, não é da sua autoria. A própria Igreja reconhece que o estilo desta epístola é completamente diferente das restantes atribuídas a S. Paulo. É, pois, um texto de autor e origem desconhecidos. Além disso, é bem sabido e reconhecido que as versões bíblicas actualmente existentes diferem muito do original, devido às diversas e sucessivas traduções e interpolações. Se acrescentarmos que a referida passagem pode ser interpretada de forma a não pôr forçosamente em causa a teoria da Reencarnação, parece legítimo não lhe atribuir demasiado significado.

(6) In “Luzes do Oculto”, Centro Lusitano de Unificação Cultural, Lisboa, 1998. Outros desenvolvimentos podem ser encontrados no excelente livro “O Cristianismo Esotérico”, de Annie Besant; Ed. Pensamento, S. Paulo.

(7) Sobre os vários termos e conceitos aqui aludidos, veja-se o o 6 da Biosofia (pp. 23 a 30) e, mais concisamente, o o 3 (pp. 34 a 38).

(8) Cfr. H. Álvares da Costa, O Nascimento do Novo Homem, Biosofia o 8.

(9) Cfr. “Glossário Teosófico”, de Helena Blavatsky, Ed. Ground; “Dicionário dos Símbolos”, Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, Editorial Teorema, Lisboa, 1994;

(10) Isto explica muitas aparentes incoerências dos Evangelhos, quando se usam frases como “não passará esta geração, sem que estas coisas aconteçam…”. De facto, não aconteceram naquela geração, considerada no sentido comum da palavra, mas ainda acontecerão nesta Geração, entendida como Ciclo ou Idade de desenvolvimento humano (no caso, a 5a Raca-Raiz).

(11) Citando Pietro Ubaldi: “… Deve haver proporção entre causa e efeito. Então, não é possível que uma causa limitada no tempo (uma só vida) possa produzir um efeito de natureza ilimitada (eternidade). Essa causa só poderá produzir um efeito a ela proporcional, da mesma ordem, isto é, limitado por natureza”. In “Problemas Actuais”, Fundapu, Rio de Janeiro, 1981.

(12) Babel simboliza a Personalidade e os mundos inferiores, separatistas, onde “os Filhos de Deus estão exilados”; Sião, o Espírito, a Pátria do Homem Real.

(13) Repare-se na subtileza da distinção: pode-se subir (a Sião), mas só em condições excelsas aí se pode permanecer eternamente…

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