Nicholas e Helena Roerich - Um Casal Ígneo

“Os artistas, objectivadores do Real, libertadores da tristeza e da dor, construtores da alegria que alenta e renova, devem ser considerados como verdadeiros patronos da Nova Idade.

Ao estabelecerem a ponte sensível entre o mundo interno de beleza, de significados, valores e ideias, e o mundo das formas externas, eles vivem uma estreita relação com as características e virtualidades do 7o Raio, que governa a Era recém-iniciada. Estão também intimamente ligados ao 4o Raio (da harmonia por conflito), que governa o Reino Humano como um todo (visto ser esse o 4o Reino da Natureza no arco ascendente). Assim, dentro destas tónicas energéticas e qualitativas, a eles deve caber importante contributo no advento do Homem Novo.” ((As Novas Escrituras, Vol. IV, C.L.U.C., 1996) (1a ed.), 2000 2a ed.))

Ao longo da história da humanidade, houve sempre uma estirpe rara e bela de casais ígneos, de pares que se juntaram para se sacrificarem em prol de um ideal muito maior do que eles, ideal esse que os incendiou por dentro, exigindo uma entrega total. Lembramos, de um modo solto e não exaustivo, os pares reais do Antigo Egipto: Aquenaton (Amenófis IV) e Nefertiti; Séti I e Touya; Ramsés II e Nefertari. No campo da ciência, Marie e Pierre Curie. Na política e na acção social, Mohandas e Kasturbai Gandhi. E, por fim, no ocultismo moderno, temos uma série de casais: Henry S. Olcott e Helena Blavatsky - neste caso e no seguinte não houve uma relação carnal e marital. Contudo, a ideia fundamental mantém-se, ou seja, a união de um homem e de uma mulher baseada na admiração e amizade mútuas e num ideal e numa missão comuns - Annie Besant e Charles Leadbeater; Foster e Alice Bailey e o nosso casal Nicholas e Helena Roerich. Esta corrente de pares feéricos não parou, continua, e muitos de nós têm a sorte de os observar na lide e na labuta em prol de um mundo melhor. A eles, a todos eles, os do passado, os do presente e os do futuro, deixamos aqui a nossa gratidão e oferecemo-lhes a nossa prece: Que o fogo divino vos incendeie e vos consuma, Casais Solares, na construção do Reino de Deus sobre a Terra.

Helena Roerich
Comecemos por Helena Roerich. Tal como a velha Helena, (não a de Tróia, mas a do mundo, a pioneira e grande Blavatsky) nasceu naquelas longínquas e geladas terras da Rússia, a 13 de Fevereiro de 1879 e, tal como a sua terra, foi uma mistura: de Ocidente e Oriente, de cheiros asiáticos e cores gregas. Esta franzina Helena, de olhos grandes e negros, ousou, como Prometeu, roubar o fogo aos deuses, e queimar, numa aspiração ardente, o mundo dos homens.

Filha de um arquitecto proeminente, o Arquiduque Chapochnikov, era extraordinariamente sensitiva e adoecia frequentemente. Quando enferma, apareciam-lhe dois homens muito altos (os Mestres M. e K. H. ?), que a auxiliavam.
A irmã de sua mãe, a princesa Putyatine, tinha uma herdade em Bologoye, onde a pequena Helena passava os verões. Lá aprendeu a amar a natureza e os animais. Conta-se que os animais domésticos corriam para ela para a saudar, quando de manhã saía de casa para os alimentar.

Aprendeu a ler muito cedo. Apreciava os filósofos e meditava sobre a Bíblia. Talentosa na música, tocava piano, pintava e desenhava.

Quando conheceu Nicholas, descobriu que tinham muito em comum. Passavam o seu tempo juntos, indo a concertos e a exposições. Apaixonaram-se e, por fim, casaram a 28 de Outubro de 1901. Tiveram uma vida familiar feliz e, da sua união, surgiram dois filhos, Jorge e Svetoslav. Este último tornou-se um excelente pintor (tal como o pai) e, do retrato que fez de sua mãe, percebe-se uma mulher muito bonita.

Em 1915, Nicholas Roerich adoeceu com pneumonia e deixam a sua casa em Petersburg para viverem num clima mais ameno. Depois de uma passagem por Inglaterra, chegam a Nova Iorque em 1920, para a primeira exposição de Nicholas Roerich nos Estados Unidos. Foi por esta altura que Helena entra em contacto com o seu Mestre e escreve o primeiro livro, “Folhas do Jardim de Morya I”, cuja 1a edição saiu em 1924. Seguiram-se mais 14 títulos na série Agni Yoga, onde o seu Mestre expõe pela primeira vez ao mundo as fundações do yoga da 6a Raça. O último volume a ser publicado, “Supramundo II”, saiu à luz do dia em 1938, nas vésperas da 2a Guerra Mundial.

Livros
O seu Mestre, o Senhor do olhar penetrante, transmitiu por seu intermédio, um conjunto de sublimes ensinamentos, a propósito do novo yoga, o Yoga do Fogo, da Vida e do Sacrifício. Afirmo, por experiência feita, que os seus livros não se podem ler de uma forma comum. São páginas de meditação; parágrafos que se digerem devagar; frases, que na síntese de um relâmpago, incendeiam a mente e iluminam a vida.
Em “Folhas do Jardim de Morya I”, diz o Mestre, pela pena de Helena, naquele seu jeito compacto e imperioso: “A vida troveja - sê vigilante”; “Um Templo para todos - para todos, um Deus”; “Meus Amigos! A Felicidade reside em servir a salvação da humanidade”; “Quando Eu amanhã narrar o livro da alegria, não esqueçais o chamamento para a bata-lha!”. E o discípulo, ao apelo do Mestre, responde: Apesar das minhas fraquezas, apesar da minha miopia, apesar das minhas traições, aceita Senhor, a minha romba lança, o meu escudo esburacado, a minha armadura amolgada - estou pronto para a contenda!

Em “Agni Yoga” afirma o Mestre: “Lembrai-vos do baptismo pelo fogo, da cruz ígnea, e de todos os cálices flamejantes, que Eu vos revelei há muito tempo, como símbolos do próximo yoga.” E, mais uma vez, responde a voz trémula do discípulo ao Mestre: Senhor, fui baptizado pelos sacerdotes, nas águas geladas do mundo; anseio agora pelo baptismo do fogo, do Senhor da Chama Dourada, apesar de saber que perderei tudo o que amei, nas viagens do passado.

Sugerimos a todos aqueles que sentem dentro de si a chama do fogo da Era de Maitreya que, de uma forma demorada e lenta, meditem nas palavras do Mestre. Elas são semente do Novo Mundo; elas são ovo do Novo Mundo; elas são mote da nova consciência. Comecem pelo primeiro livro, “Folhas do Jardim de Morya Vol. I”, e ouçam o apelo urgente do futuro; depois, sigam em frente e parem demoradamente no Vol. II; virem então à esquerda e, no 7o quarteirão, repousem laborando em “Nova Era Comunidade”. No outro dia, logo pela manhã, ascendam ao “Infinito Vols. I e II”; Cansados da jornada e numa vigília nocturna, orem na capelinha “Hierarquia”; desçam então ao poço iniciático “Coração”; sem medo, de olhos vendados e mente aberta, penetrem nos “Mundos Ardentes I, II, II”; gritem então, a uma só voz com o Universo, “AUM”; depois, num abraço vasto e longo, mergulhem em “Fraternidade”; e, finalmente, no fim da jornada, descansem em “Supramundo I e II”.

Helena e Nikolai (Nicholas é a tradução do seu nome para o inglês, que o pintor usava com frequência, no mundo ocidental), tiveram uma vida fértil em acontecimentos. Talvez os mais significativos, sejam as suas viagens pelo Oriente. Na Índia, organizaram uma expedição à Ásia Central e percorreram a China, a Mongólia, o Tibete e outros países. Embora se conheçam poucos detalhes da sua vida, sabe-se que foi uma activista participante nas grandes questões do seu tempo. Foi uma Instrutora espiritual com um grande número de discípulos. A sua sabedoria - a sabedoria de uma iluminada -, encontra-se disseminada por centenas de cartas que enviava aos seus correspondentes e alunos. Estas epístolas foram publicadas em “Cartas de Helena Roerich I-II”. Nestas missivas, Helena mostrava a sua preocupação e interesse pelas diversas questões do seu tempo.

Ela foi uma percursora da Nova Era. E antes deste assunto se tornar moda - de mau gosto, diga-se de passagem - com todos os folclores que nós conhecemos actualmente à sua volta, ela escreveu em 1929 o seguinte: “O livro das novas descobertas e da luz da ousadia está aberto diante da humanidade. Já ouviram falar acerca da aproximação da Nova Era. Cada época tem o seu Apelo, e o chamamento fundador da Nova Era será o poder do pensamento criador; e o primeiro passo nesta direcção será a abertura da consciência, a libertação de todos os preconceitos e de todos os conceitos tendenciosos e forçados.” ((Letters of Helena Roerich I; 3, Agni Yoga Society, Nova Iorque, 1954))

A Mulher do Futuro
Outra das suas preocupações, foi com a condição das mulheres do seu tempo. Escreveu ela: “A próxima grande época está intimamente ligada à ascensão da mulher. Tal como nos melhores dias da humanidade, a época futura oferecerá novamente à mulher o seu direito ao lugar, lado a lado com o seu eterno companheiro de viagem e de trabalho, o homem. Deveis-vos lembrar que a grandeza do Cosmos se fundamenta na origem dual. Será possível então, menosprezar um dos seus elementos?” ((Letters of Helena Roerich I; 2, Idem)). Como todas as grandes almas, Helena antecipa-se ao seu tempo; ela sentiu (verdadeiramente, intuiu) que a grande transformação cultural que se esperava para o futuro implicaria a participação plena da mulher - e hoje sabemos que assim é, e assim será.

Mais adiante e na mesma carta, Helena volta a abordar a questão da mulher, integrando-a agora na problemática da cultura e da educação: “Contudo, no seu esforço pela educação, a mulher deve lembrar que todos os sistemas educativos são apenas meios para o desenvolvimento de um conhecimento e cultura superiores. A verdadeira cultura do pensamento é desenvolvida pela cultura do espírito e do coração. Apenas esta combinação promove aquela síntese sem a qual é impossível realizar a grandeza real, a diversidade e a complexidade da vida humana na sua evolução cósmica. Assim, enquanto se esforça pelo conhecimento, que a mulher se recorde da Fonte de Luz, e dos Lideres do espírito - aquelas grandes mentes que, verdadeiramente, criaram a consciência da humanidade. A humanidade encontrará o caminho para a verdadeira evolução, aproximando-se desta fonte e do princípio liderante da Síntese.”

Quando, ainda hoje, vemos pessoas com alguma maturidade intelectual e espiritual a utilizarem o seu tempo em práticas de tipo Hatha Yoga, será com certeza útil recordar as suas palavras acerca deste assunto: “não devemos hipervalorizar os resultados do Hatha Yoga e pensar que os “os adeptos do Hatha Yoga são iguais aos do Raja Yoga na sua habilidade para despertar a kundalini ((Esta força, também denominada como “Poder Ígneo”, é um dos poderes místicos do yogui e é buddhi (intuição) quando considerado como um princípio activo; é uma força criadora que, uma vez despertada, pode matar tão facilmente quanto criar. (Helena Blavatsky, Glossário Teosófico).)) e para adquirir os vários tipos de siddhis ((Faculdades psíquicas, poderes anormais ou extraordinários do homem. Um dos tipos compreende as energias psíquicas mentais inferiores, grosseiras; o outro, exige a mais elevada educação dos poderes espirituais. (Helena Blavatsky, Glossário Teosófico).))” e que “eles atingem a bem-aventurança e se libertam da matéria”. De facto assim não é. O grau de bem-aventurança atingido por tais adeptos é muito relativo e, através da Hatha Yoga, nunca atingem a libertação da matéria (no sentido que é utilizado pelos Grandes Instrutores). Tal como diz o ensinamento, “Não conhecemos ninguém que tenha atingido a meta pelo caminho do Hatha Yoga”.

Mesmo o desenvolvimento dos siddhis inferiores, que os hatha yogis adquirem utilizando exercícios terrivelmente difíceis e mecânicos, não são duradouros; nas suas próximas encarnações, poderão perder todos eles. Só aquelas conquistas que vêm naturalmente são válidas e permanentes, porque constituirão o resultado de um desenvolvimento espiritual interno. Apenas desse modo as manifestações de verdadeiro poder podem ser alcançadas. Os exercícios de Hatha Yoga não devem ir além de um ligeiro e cuidado pranayama, que fortalece a saúde; de outro modo eles podem ser perigosos, conduzindo à mediunidade, obsessão e loucura.”

Cremos que, assim, mais uma vez ficaram claros os perigos que o aspirante corre ao praticar certas disciplinas mais físicas. Volta-se a repetir que os yogas do actual tipo médio de aspirante, são o Jnana ou o Raja, podendo ser complementados pelos Karma ou Bahkti Yogas.

São também de Helena Roerich as obras “On Eastern Crossroads” e Foundations of Buddhism”, embora usando pseudónimos diferentes para cada uma delas.
Em 1930, com o seu marido Nikolay e inspirada pelo seu Mestre, O Senhor do Raio Azul, funda a Agni Yoga Society. A propósito do Agni Yoga, escrevemos no passado o seguinte: “Muito pouco se sabe deste percurso espiritual. Conhece-se apenas que ele será o yoga da próxima raça, a Sexta. O discípulo deste yoga tem já o seu corpo búdico e intuitivo razoavelmente desenvolvido e encontra-se polari-zado no chakra cardíaco e no centro correspondente da cabeça. Este é a via dos discípulos avançados e dos iniciados. Muito sinteticamente, poder-se-á dizer que ele é o caminho da vida, da síntese espiritual, do fogo, da intuição e do sacrifício. O 2o (Amor-Sabedoria) e o 4a (Arte, Beleza e Harmonia) raios regem este percurso.” ((Biosofia, o 5 - Primavera 2000, pág. 59; Centro Lusitano de Unificação Cultural, Lisboa))

Foi também ela a primeira tradutora para o russo da obra importantíssima de Blavatsky “A Doutrina Secreta”. A propósito desta obra - a D. S. -, nunca é demais realçar a sua importância, grandeza e profundidade. Na minha modesta opinião, ela é na actualidade a mais importante obra, não só do ocultismo, como também, da literatura mundial. Nada se lhe compara, nada se lhe equivale. Ela é para mim como um furacão, um tornado que passa pela mente, e que, num ímpeto de força e movimento, a purifica dos seus miasmas, superstições, limitações e ilusões. Ela é como uma explosão que nada deixa de pé, e que, contudo, num acto de magia grandiosa, tudo reconstroi de uma forma mais bela, mais imponente - mais poderosa. Estudar e meditar a D. S. é como alguém disse, uma iniciação, no sentido de que a sua reflexão leva, inevitavelmente, a uma expansão da consciência.

Helena Roerich desencarnou em 1949, e pode dizer-se, com segurança, que os seus livros são hoje mais conhecidos do que o foram durante toda a sua vida.

Nicholas Roerich
Nikolai Roerich nasceu na cidade russa de Saint Petersburg, em 19 de Outubro de 1874. O seu pai, Constantino, era de origem escandinava e um proeminente notário; a sua mãe, Maria Kalashnikova, pertencia a uma velha família da nobreza russa. A infância decorreu em Ishvara. Foi lá que Nikolai aprofundou o seu relacionamento com a natureza. Os elementos, o vento, a terra, a água tornaram-se os seus confessores e amigos. Com um temperamento solitário, facilmente entrava em comunhão com a natureza, e em rigor podemos afirmar que o seu primeiro mestre foi o mundo natural. Foi naquela época que se iniciou o seu interesse pelas lendas, tradições e poesia do seu país.

Muito cedo se apaixonou pela arqueologia, e com frequência fazia expedições para desvendar o passado e interrogar as rochas. “Parecia, com uma intuição supranormal, com recordações subliminares, conhecer as grandes linhas de desenvolvimento humano”. A actividade nesta área tornou-o um dos maiores arqueólogos da Rússia.
Por desejo do pai, iniciou o estudo de Direito em 1893 e, simultaneamente, ingressa na Academia de Belas Artes de Saint Petersburg. O seu primeiro mestre, Kuinji, percebeu nele a lucidez, e anteviu o seu génio. Dava-lhe plena liberdade criativa. A sua pintura era estranha, cheia de mistério e magnetismo. Falava à alma do espectador: de terras longínquas, de lendas ainda vivas, de heróis, de guerreiros e de sacerdotes, de vagabundos e de peregrinos - que sulcavam a grande aventura colectiva da vida.
Os êxodos dos povos, os guerreiros impressionantes, os céus avermelhados e as nuvens grandes, densas e negras, aparecem nas suas telas, dando-lhes uma tónica profética e reflectindo, ao mesmo tempo, a batalha que se trava no interior de cada homem e no interior do coração colectivo da humanidade.

As montanhas, os Himalaias imensos, foram outra das suas inspirações. Elas representam o transcendente, o suprahumano, o que está para além do sensorial. A sua imponência, a sua força, a brancura da sua presença, simbolizam o etéreo, o subtil, o espiritual.

Um Homem Universal
No ano de 1900, visitou a Exposição Universal em Paris. Este encontro com a cultura do mundo impressiona-o profundamente, iniciando nele um processo de universalização, que o havia de marcar para toda a vida.

De 1909 a 1916, com a sua mulher Helena, visitou a Itália, a Alemanha, a Inglaterra e a Holanda. Em 1917, instalou-se na Finlândia e, retirado do mundo, em profundo contacto com a natureza, produziu a famosa série de telas sobre esse país.
Voltou a Paris e pintou os cenários, desenhou o guarda-roupa e chegou a escrever os guiões para Serge Diaghilev, para as óperas de Rimsky Korsakov e de Borodin. Conviveu com Paulova e Nijinsky. Concebeu os cenários para as obras de Maeterlinck e para Tristão e Isolda de Wagner. Com vista ao bailado a Consagração da Primavera de Stravinsky, pintou, no teatro dos Campos Elíseos, uns cenários que seriam admirados em toda a Europa. Diga-se de passagem que, para este bailado, não só concebeu os cenários (de uma beleza ímpar, como podem confirmar os que tiveram a oportunidade de assistir ao bailado quando aqui esteve em Lisboa), como também desenhou o guarda-roupa - assim dando um colorido e um exotismo inigualáveis ao espectáculo.

Expôs em Helsínquia em Março de 1919 e, nesse mesmo ano, encontrou-se com Rabindranath Tagore (prémio Nobel da literatura) em Londres. No ano seguinte, a convite de Robert Harshe, visitou Nova Iorque e expôs os seus trabalhos em vinte e nove cidades da América. Proferiu conferências e conheceu grandes figuras do mundo das artes, da política e da ciência, estabelecendo fortes amizades com Huxley, Einstein e Milikan. Criou escolas de arte e fomentou o surgimento de grupos de investigação inspirados no ideal da cultura, como porta para a paz e a unidade. Em toda a parte é recebido como profeta de um novo tempo. Naqueles que se aproximam dele, inspira idea-lismo, sentido da beleza e crença num futuro de esperança, onde o Amor possa reger a vida social, a economia e a educação. A sua criatividade, optimismo, humanismo e universalismo tocaram homens de estado e líderes religiosos, que o adoptam como instrutor e inspirador.

Regressou à Europa em 1923 e, em conjunto com a sua mulher Helena e o seu filho Jorge, iniciou uma viagem à Índia com o objectivo de realizar uma expedição à Ásia Central. A expedição, que tinha objectivos artísticos, etnólogos, culturais e espirituais partiu de Darjeeling em direcção a Caxemira e Ladakh (Pequeno Tibete). Nikolai pintou numerosos quadros em Sikkin e no Butão, encetou a viagem pela rota das caravanas - a mais alta do mundo - e conheceu paisagens e terras das quais sempre se recordará. Profundamente impressionado pelo Oriente, as suas obras começam a falar-nos das lendas arcaicas, da Atlântida, de Shamballa e dos Adeptos ((Os Adeptos são “homens” que, tendo chegado - ao longo de inúmeras reencarnações e um esforçado percurso evolutivo - a um altíssimo grau de maturidade espiritual, são considerados, nas diferentes culturas, como seres de excepção, génios, santos, profetas e mahatmas. Só a título de exemplo, pertencem a esta Fraternidade, a esta Hierarquia Espiritual Planetária, de Homens Perfeitos e Filhos de Deus, ocupando diferentes níveis hierárquicos e funções, figuras como: o Senhor Jesus, Shri Krishna, Patanjali, S. Paulo, S. Francisco de Assis, Leonardo da Vinci, o Senhor Buda Gautama, o Senhor Maitreya, Maomé, S. Thomas More, Akbar, Pitágoras, Platão, Moisés, Maria Madalena, Gandhi e o Infante D. Henrique.)). É nesta viagem que Nikolai, Helena e Jorge entram em contacto com os Mahatmas dos Himalaias.

A 29 de maio os Roerich atravessam a fronteira russa e chegam a Moscovo a 13 de Junho. Aos comissários do Povo e da Educação, Nikolay ofereceu a sua tela “Maitreya, o Conquistador”, que ficou exposta no Museu Gorki. Em Setembro de 1926, o pintor e os seus, voltaram a atravessar a Ásia Central em direcção à Índia, correndo novamente sérios riscos e suportando as temperaturas do Inverno Tibetano (quarenta graus abaixo de zero). Durante este período pereceram cinco membros de expedição e noventa animais. No entanto, é nesta altura, que Nikolai pinta os mais belos quadros da sua obra (mais de quinhentas telas), paisagens da Ásia que nenhum pintor antes dele tinha recriado. Estas obras encontram-se agora dispersas pelos mais importantes museus e colecções do mundo.

A Arte, a Cultura e a Paz
Nikolai nunca aderiu a “ismos”; não foi um pintor de modas estéticas e de escolas. A sua “moda” foi a procura da Beleza - qual demanda do Graal - e a sua “escola” foi o espírito e o eterno. A “inteligência” da nossa época ignora–o, ou finge que o desconhece; todavia, ele deixou uma obra - só as telas são cerca de seis mil - que somente o homem do Séc. XXI e do IIIo Milénio entenderá realmente.
No final de 1928 instalou-se na vila de Naggar, Kulu, Índia. No ínicio dos anos trinta, N. R. promove um projecto do tamanho da sua alma - O Pacto e a Bandeira da Paz. Esta iniciativa, lançada em Nova Iorque em 1929, foi aprovada um ano mais tarde pela Sociedade das Nações (o protótipo da Organização das Nações Unidas), recebendo a aprovação entusiástica de figuras políticas e culturais da craveira de Alberto I, Rei da Bélgica, de Rabindranath Tagore, de Maurice Maeterlink e do Presidente dos E. U. A. Delano Roosevelt. Este projecto estipulava que todas as instituições educativas, artísticas, científicas ou religiosas, bem como todos os edifícios que possuíssem um significado ou valor cultural ou histórico deviam ser reconhecidos como centros invioláveis e respeitados por todas as nações, quer em tempos de paz, quer em tempos de guerra. Com este objectivo, estabeleceu-se um tratado que tinha a finalidade de ser assinado por todas as nações do mundo. Roerich desenhou o símbolo que ficou conhecido como a Bandeira da Paz e da Cultura: uma circunferência verme-lha contendo três círculos encarnados sobre um fundo branco. Este símbolo sagrado encontra-se em todas as civilizações e culturas de todos os tempos. São vários os significados que lhe podemos atribuir: os três círculos simbolizam a arte, a ciência e a religião, rodeados pela circunferência da cultura; ou, então, o passado, o presente e o futuro rodea dos pelo eterno; ou, ainda, o subconsciente ou instinto, o consciente ou inteligência, e o supraconsciente ou intuição rodeados pela circunferência da consciência; e por fim, e na mesma linha, a alma temporal ou animal, a alma humana ou imortal e a alma espiritual ou divina, rodeadas pela Anima Mundi, a Alma do Mundo.

A primeira convenção internacional teve lugar em 1931, em Bruges, na Bélgica, suscitando um interesse enorme nos mundos da ciência e da cultura. Em 1932, na mesma cidade, realiza-se a segunda convenção e cria-se a Fundação Roerich Para A Paz. Representantes de Governos, pensadores, humanistas e religiosos assis tiram às duas convenções. A 17 e 18 de Novembro de 1933, em Washington, realizou-se uma terceira Convenção, onde se fizeram representar 35 países e, um mês mais tarde, os membros da 7a conferência da União Pan-americana unanimemente assinaram o Pacto da Paz.

Henry Wallace, então secretário da Agricultura e mais tarde Vice Presidente dos Estados Unidos, demonstrou um profundo interesse pela personalidade e pela obra notável de N. R., assim como pela profunda filosofia do Oriente. Infelizmente o egoísmo e o ódio da huma nidade falaram mais alto. A mensagem do profeta, do místico e do lúcido visionário foram esquecidas - e, mais uma vez, a guerra estalou numa loucura sem precedentes, tendo o mundo sofrido a sua 2a Grande Guerra.
Nikolai viveu os seus últimos anos em Naggar, nos Himalayas que tinha amado tanto, e desencarnou a 13 de Dezembro de 1947, sendo cremado segundo a tradição do povo do espírito.

Em jeito de reflexão final, ficam as suas palavras: “A arte unificará toda a humanidade. A arte é una e indivisível. … A arte é a manifestação da síntese universal. A arte é de todos … Levai a arte ao povo, a quem pertence. Temos que ter não só os museus, teatros, universidades, bi bliotecas, estações de comboio e hospitais decorados e cheios de beleza, como também as prisões. Quando isto acontecer, não necessitaremos mais de prisões. …

A verdadeira paz, a verdadeira unidade é o desejo do coração humano… (o homem) quer amar e abrir-se à rea lização da Sublime beleza. Na superior compreensão da beleza e da sabedoria, todas as divisões convencionais desapareceram. … todos os símbolos da humanidade têm o mesmo significado, a oração sagrada: Paz e Unidade.” `

João Gomes
Diácono da Igreja Católica Liberal; Coordenador da Unidade de Serviço aquarius, inspirada predominantemente na Boa Vontade Mundial

Bibliografia
Shambhala (Prólogo), Nicholas Roerich, Grupo Libro.
Three Remarkable Women, Harold Balyoz, Altai Publishers.

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