Parapsicologia - Ciência ou ilusão?

Tal como prometemos na 1a parte deste artigo,
vamos seguidamente falar sobre COGNIÃL;ÃL;O
ANÃL;MALA (conhecimento anómalo)

Alguns casos sugestivos
Em 1898 o escritor americano Morgan Robertson publicou um livro intitulado “Futility” onde descreveu um navio, o maior já fabricado, chamado Titan, que era insubmersível, indestrutível e por isso mesmo tornava desnecessários mais do que os barcos de salvamento impostos pela lei. Tinha 19 compartimentos estanques que se fechavam automaticamente, na presença de água, e ainda poderia flutuar mesmo com nove deles inundados. Ainda que chocassem com um iceberg a toda a velocidade somente três dentre eles seriam inundados. Na sua primeira viagem, de Nova Iorque a Inglaterra, contudo, o Titan choca mesmo com um iceberg e afunda-se, sendo que somente poucos dentre os seus 2000 passageiros podem ser salvos. A coincidência entre este relato, escrito mais de 14 anos antes do afundamento do Titanic é notável. Será coincidência? É de notar que o mesmo escritor escreveu, em 1912, uma outra novela em que a marinha americana era alvo de um ataque surpresa pelos japoneses, cuja frota estava baseada nas Filipinas e que noutra novela, também de 1912, ele falou de um engenho que permitiria detectar os objectos por meio de sons inaudíveis (um sonar, portanto) e propôs que tal engenho poderia ser útil para evitar desastres como o do Titanic. Em 1956, Cox estudou 28 acidentes de comboio que tinham incluído mais de 10 pessoas feridas. Verificou que as vendas de bilhetes para os comboios considerados eram significativamente menores no dia que precedia os acidentes do que nos sete dias anteriores. Cox supôs que certas pessoas pudessem ter um pressentimento subliminar do desastre e modificassem planos de viagem sem saberem porquê.

Investigações nos Laboratórios
Até aqui temos dados muito sugestivos; contudo não chegam para comprovar a veracidade dos fenómenos que sugerem. Não constituem ainda ciência descritiva nem classificativa, quanto mais explicativa. No entanto levantam questões. Que têm sido levadas aos laboratórios de investigadores cuidadosos e têm ori ginado estudos de casos cada vez mais completos e rigorosos. Por exemplo: já em 1969, Helmut Schmidt apresentou resultados obtidos com uma máquina da sua invenção, constituída por um isótopo de Estrôncio-90, que emite electrões rápidos a intervalos de tempo aleatórios, um contador Geiger, um oscilador electrónico de alta velocidade, que oscila constantemente entre quatro estados electrónicos diferentes. Quando o contador Geiger detecta a emissão de um electrão (que é aleatória), um contador accionado pára indicando o estado do oscilador no microssegundo da emissão radioactiva. Um visor com 4 lâmpadas permite ao observador saber qual o estado do oscilador que é registado. A tarefa dos sujeitos experimentais era de dois tipos: “adivinhar” qual a lâmpada que iria estar acesa da próxima vez que houvesse uma descarga radioactiva aleatória (o que seria um conhecimento anómalo de um evento futuro) ou tentar influenciar a lâmpada que iria estar acesa em seguida (seria uma interacção anómala com um sistema físico). Utilizando enormes séries de ensaios, Schmidt registou resultados cuja probabilidade de serem devidos ao acaso era realmente ínfima. Por exemplo, numa sequência em que três sujeitos fizeram 63.066 tentativas de acerto e a probabilidade de acertos ao acaso seria de 25%, ou seja 15.766 acertos, eles conseguiram 16.458 acertos. A probabilidade de isto ser produto do acaso é de 1 em 100.000.000. Poderíamos citar uma quantidade imensa de investigações deste tipo. Deixemos de lado as mais antigas: será que, hoje em dia, se continuam a verificar resultados experimentais com igual ou maior força e com meto dologias experimentais e métodos estatísticos realmente sólidos? Falemos, então, do que tem estado a ser feito nos nossos dias com o auxílio de computadores e meios audiovisuais sofisticados.

História de Espionagem.
Em 1998 Targ e Katra publicaram um livro onde, entre outras coisas, discutem a pesquisa feita por Targ, com carácter secreto, durante qualquer coisa como 20 anos, acerca da chamada “visão remota” e do seu uso potencial em espionagem. Embora somente tenham ainda autorização do governo americano para discutirem uma pequena parte de um programa ultra-secreto, inicialmente subsidiado pela CIA, no Stanford Institute, e depois prosseguido na Science Applications International Corporation, o que revelam é surpreendente. Os resultados obtidos indicaram claramente, ao longo de 20 anos de investigação, que alguns indivíduos conseguem descrever, a distâncias variáveis entre alguns metros e milhares de quilómetros, acontecimentos que estão a ocorrer ou irão ainda ocorrer nas próximas horas com precisão. O caso típico é a descrição do local onde se encontra um observador enviado, após escolha aleatória de um dentre uma série de envelopes cuidadosamente selados e protegidos, para esse local. Esta descrição é feita por um “vidente à distância”que é cuidadosamente mantido numa sala isolada eléctrica e acusticamente e não tem qualquer meio de saber seja o que está a passar-se ou o que irá ocorrer (pois ainda nem foi feita, em muitos casos, a escolha aleatória do local de destino do observador). O famoso vidente Pat Price descreveu assim a instalação super-secreta soviética de Semipalatinsk em 1974, a 10.000 milhas de distância, com pormenores extremamente exactos e considerados improváveis pelos militares americanos - até serem confirmados, somente meses depois, por observações via satélite. As observações referiam-se não somente a pormenores visuais do local como ao facto de aí estar a ocorrer uma pesquisa sobre armas bem preocupantes. Foi também do mesmo modo que um “vidente remoto” americano descreveu um submarino gigante, o primeiro da classe “Tufão”, então em construção na URSS, em condições inacessíveis à observação militar por outros meios (mas depois comprovou-se a sua existência e a fidelidade da descrição). Aliás também o vidente Ingo Swann descreveu a existência de um anel em torno do planeta Júpiter. O que pareceu uma hipótese nada válida aos astrónomos americanos até que, algum tempo depois, foi confirmada pela sonda Pioneer 10, aí enviada pela NASA. Ainda mais, a investigação de autores como Russell Targ (perito em tecnologia Laser) e Puthoff indica alguns dados relativamente sistemáticos acerca da “visão remota”: (1) pode ser treinada; (2) parece actuar independentemente da distância, dos obstáculos físicos e, até certo ponto, independentemente do tempo (como dizem Targ e Katra, em 1998: “não há uma ponta de evidência para indicar que é mais difícil olhar ligeiramente para o futuro do que é descrever um objecto numa caixa que está à sua frente”); (3) não acusa declínio com o passar do tempo; (4) ao contrário do que ocorre com outras possibilidades humanas anómalas investigadas, pode atingir taxas de acerto de 80%; (5) parece melhorar com o isolamento eléctrico (destinado a impedir o sujeito de ter acesso à informação através da captação de informação via rádio, etc.); (6) são conhecidos factores ambientais e psicológicos capazes de inibi-la e de promovê-la; (7) atravessa uma sequência que pode ser descrita em estádios tal como o exercício de outras funções psicológicas. A este tipo de noções podem-se juntar outras como as de que a prática de me ditação, tal como a hipnose, facilita a ocorrência de fenómenos de cognição anómala. Desde a primeira publicação do protocolo de investigação em “visão remota” feita por Russel Targ na revista Nature em 1974 já ocorreram, no mínimo, trinta e três investigações similares bem sucedidas do trabalho. Entre elas, algumas foram feitas no famoso laboratório PEAR da Universidade de Princeton.

Metódos de Investigação dos Fenómenos “Psi”
O que referimos anteriormente já é susceptível de nos fazer admitir que talvez, afinal, exista o fenómeno a que podemos chamar cognição anómala (captação de informação acerca do meio ambiente ou de outros organismos por meios totalmente desconhecidos e inexplicáveis pelas noções convencionais de espaço, tempo e energia). No entanto podemos acrescentar que existe um acervo enorme de investigações comprovativas do facto. Muitas provêem do que nos parece ser o mais típico exemplo das metodologias contemporâneas na investigação dos fenómenos ditos “Psi” (Parapsicológicos ou “Paranormais”): o “Paradigma Ganzfeld”. O método básico, descrito num excelente artigo de Bem e Honorton, publicado em 1994 no prestigiado Psychological Bulletin, é o seguinte:
“Tal como os estudos sobre os sonhos, o procedimento Psi Ganzfeld tem sido utilizado na maior parte dos casos para testar a comunicação telepática entre um emissor e um receptor. O receptor é colocado numa cadeira reclinada numa sala acusticamente isolada. São -lhe colocadas metades translúcidas de bolas de pingue-pongue sobre os olhos e auscultadores sobre os ouvidos; uma luz vermelha dirigida aos olhos produz um campo visual indiferenciado e ruído branco tocado nos auscultadores produz um campo auditivo análogo. É este ambiente perceptivo homogéneo que se chama Ganzfeld (”campo total”). Para reduzir o “ruído” somático [corporal], o receptor também passa, tipicamente, por uma série de exercícios de relaxamento progressivo no início e no fim do período ganzfeld.

O emissor é fechado numa sala separada e acusticamente isolada e um estímulo visual (quadro artístico, fotografia ou breve sequência vídeo) é seleccionada ao acaso dentre um grande conjunto de tais estímulos para servir de alvo para a sessão. Enquanto o emissor se concentra no alvo, o receptor fornece um relato verbal contínuo dos conteúdos da sua imaginação e actividade mental genérica, geralmente por cerca de 30 minutos. Ao completar o período ganzfeld, são apresentados ao receptor vários estímulos (geralmente quatro) e, sem saber qual deles foi o alvo, é-lhe pedido que indique o grau em que cada um deles condiz com as imagens e actividade mental ocorridas durante o período ganzfeld. Se o receptor concede a cotação máxima ao estímulo alvo, isto é considerado um “acerto”. Assim, se a expe riência utiliza conjuntos para serem avaliados com quatro estímulos cada (o alvo e três simulacros ou estímulos de controlo), o nível de acertos esperado pelo acaso é de 0.25. As cotações podem também ser analisadas de outros modos; por exemplo, podem ser convertidas em cotações padrão para cada conjunto e analisadas parametricamente entre sessões. E, tal como nos estudos com sonhos, as cotações de similaridade podem igualmente ser feitas por juízes externos usando trans crições da actividade mental do receptor”

Os primeiros estudos deste tipo datam dos finais da década de setenta. Desde então, têm sido aperfeiçoados. A partir de 1983, os estudos foram automatizados, controlados por computador, e introduziram-se, como estímulos-alvo, sequências vídeo. Estudos deste tipo continuam a ser feitos na actualidade, com inúmeras precauções experimentais para impedir quer a fraude quer a passagem de informação sensorial por meios fisicamente conhecidos entre emissor e receptor. Mesmo um dos investigadores mais cépticos conhecidos, Ray Hyman, admitiu, em 1991, que se novos resultados, obtidos por diferentes laboratórios, viessem confirmar os dados obtidos antes com o “Paradigma Ganzfeld” talvez a investigação em Parapsicologia tivesse obtido uma realização de monta. E foi realmente isso que ocorreu, de maneira extremamente consistente. Além do mais, estudos recentes têm demonstrado a existência de dados psicológicos relacionados com os melhores resultados obtidos no procedimento ganzfeld. Sabe-se que os alvos dinâmicos, como gravações vídeo, permitem melhores resultados, que os sujeitos-receptores que acreditam na cognição anómala obtêm melhores resultados, que os indivíduos com personalidade extrovertida também pontuam melhor e que os indivíduos artisticamente dotados obtêm, por vezes, desempenhos muitíssimo superiores aos de outros grupos. Por exemplo Dalton, em 1997, trabalhou com grupos de pessoas consideradas criativas: artistas, músicos, escritores criativos e actores e encontrou um nível de acertos geral de 47% (onde somente se esperariam 25% por acaso). A probabilidade de isto ter sido coincidência é de um para muitos milhões. Acresce que o grupo dos músicos obteve um acerto de 56% (a probabilidade de ter sido coincidência é de 1 em 10.000). Isto recorda-nos a ideia, tão propalada por vários músicos clássicos e contemporâneos, de receberem a sua “inspiração” por vias “anómalas” (Deus, anjos, etc.). Utilizando um procedimento do gé nero ganzfeld, Radin efectuou, em 1997, estudos em que monitorizou continuamente a resposta galvânica da pele (a variação na condutibilidade eléctrica da pele, medida pelos clássicos galvanómetros usados como “detectores de mentiras”) em pessoas nos segundos anteriores, durante, e posteriores à apresentação de figuras escolhidas ao acaso, dentre um vasto conjunto. Tais fi guras podiam ser de tipo chocante ou alarmante (imagens pornográficas ou de extrema violência, como fotos tiradas em morgues) ou de tipo “calmo” (imagens de paisagem, por exem plo) e eram escolhidas aleatoriamente por um mecanismo electrónico somente segundos antes de serem mostradas num mo nitor controlado por um computador. Os sujeitos experimentais revelavam o início, totalmente inconsciente para eles, de uma mudança na resposta galvânica concordante com o tipo de imagem que iriam ver. antes de o computador as ter seleccionado ao acaso. Um exemplo bem curioso daquilo que Radin apelidou de pressentimento pois ocorre apenas ao nível das reacções somáticas e do sentimento e não tem conteúdos cognitivos concretos e relatáveis. Outros autores replicaram já, com sucesso, os resultados de Radin. Escusado será dizer que todos estes estudos têm sido executados segundo metodologias de um enorme refinamento e que devem muito, de resto, à autocrítica dos próprios investigadores bem como a inúmeras críticas feitas por investigadores cépticos que, afinal, muito contribuem para o aprimoramento metodológico. Fiquei até agradavelmente surpreendido quando vi a famosa investigadora céptica Susan Blackmore admitir ao vivo (numa convenção ocorrida em 1997, em Brighton, Inglaterra), após descrever uma metodologia engenhosa e impecável, que tinha obtido resultados positivos numa sua investigação sobre factores psicológicos capazes de facilitar a ocorrência de fenómenos anómalos de transmissão de informação entre pessoas e objectos.

Cognição Anómala entre Animais
Mas isto não fica por aqui. Também temos excelentes razões para pensar na existência de fenómenos de cognição anómala entre animais. Já nos anos sessenta, na URSS, terão tido lugar curiosas (e bárbaras) experiências com animais, assaz concludentes. Ostrander e Schroeder relataram, logo no início da década de 70, uma experiência em que uma mãe coelha, em cujo cérebro foram implantados eléctrodos, estava num laboratório em terra firme enquanto os seus filhos recém-nascidos viajavam a bordo de um submarino no mar alto e a grande profundidade. De cada vez que um dos seus fi lhos era morto, o cérebro da mãe coelha acusava uma reacção electroencefalográfica coincidente com o exacto momen to da ocorrência. Isso leva-nos a falar novamente em coelhos e na recente investigação laborato rial de Peoc’h, (publicada em 1996). Este autor criou dois pares de coe lhas, cada um deles na mes ma caixa de criação, du rante oito meses, tratando-se de coe lhas irmãs; ao mesmo tempo, criou em isolamento quatro outras coelhas, em quatro caixas diferentes, separadas umas das outras pelo menos três me tros a fim de evitar familiaridade entre elas (grupo de “controlo”). Posteriormente, as coelhas criadas em pares foram separadas, sendo cada uma delas colocada em caixas electricamente isoladas sendo estas caixas, por sua vez, colocadas dentro de caixas maiores, acusticamente isoladas e testadas para não deixarem escapar nem captarem qualquer som minimamente susceptível de veicular informação (verificou-se isolamento para sons de 80 decibéis e 500 Hertz a 100 centímetros das caixas). Por sua vez, as caixas com as coelhas foram colocadas, em cada sessão, em salas diferentes, situadas a 14 metros de distância entre si. Foi feita uma leitura contínua, com pletismógrafos, das variações de tensão arterial entre as coelhas. Note-se que, nos herbívoros, a tensão arterial baixa tipicamente perante sustos ou sobressaltos, e os coelhos têm espontaneamente tais reacções com frequência. Verificou-se que as variações de tensão arterial entre as coelhas irmãs coincidem muito mais, no tempo, do que as variações entre coe lhas não irmãs e criadas isoladamente. A probabilidade de isto ocorrer por acaso é de 1 para 1.000. No entanto, o investigador estava afastado, num quarto separado quer das duas salas de pesquisa quer do pletismógrafo, sendo o registo feito automaticamente. É de notar que esta não foi a primeira investigação deste género e constitui, em boa medida, uma replicação de outras pesquisas igualmente bem sucedidas.

Algumas Correlações
Retomemos agora o tema da investigação sobre cognição anómala em seres humanos. Krippner defende que “as experiências Psi subjectivas fazem interface com a sensibilidade am pliada, a imaginação criativa, a auto-regulação dos processos corporais e a memória ampliada, concedendo à ciência uma visão extensa do que podem ser intituladas ‘capacidades humanas de reserva’”. Resta ainda acrescentar que, acompa nhando o presente surto de interesse no mundo das neurociências, também têm sido feitos estudos bem interessantes em busca de correlações entre a actividade eléctrica do cérebro humano e a “cognição anómala” (aliás, o inventor dos aparelhos de electroencefalografia pretendeu utilizá-los para estudar a “telepatia”). Krippner efectuou uma série de excelentes estudos, com resultados positivos, sobre cognição anómala no decorrer de sonhos, estudos esses que usaram a electroencefalografia e prefiguraram, de resto, o moderno Paradigma Ganzfeld de que falámos anteriormente. A pesquisa sobre a correlação entre actividade cerebral e a ocorrência de experiências “Psi” tem já produzido alguns resultados embora ainda esteja num estado embrionário. Na última parte deste artigo, iremos considerar um outro conjunto de fenómenos anómalos.

Vitor José F. Rodrigues
Licenciado em Psicologia; Assistente na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa; Autor de “Teoria Geral da Estupidez Humana”, “A Invasão dos Terrestres”, etc.

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