Teixeira de Pascoaes - O Sentido Messiânico da Saudade

No limiar de uma nova Idade, o estudo da Cultura Portuguesa e dos seus representantes, como, aliás, o estudo da Cultura de cada povo, tem de ser efectuado de um modo diferente daquele que se tem feito geralmente até aqui. Na verdade, nenhum acontecimento, seja de que natureza for, deverá ser apresentado como um facto isolado ou disperso, pois, no domínio da Ciência esotérica, nada que se apresente de um modo fragmentado e, portanto, incompleto, é digno de autenticidade. Somente o que a Tradição designa por Pleroma - que significa Plenitude - tem, de facto, o apoio e a aceitação da Grande Confraria, a que S. Paulo faz referência (Efésios III; 18, 19). Isto significa que só aquilo que se encontra em relação com o todo - isto é, em harmonia com o Mundo e também com o próprio Universo - nos pode dar alguma garantia de que não nos estamos a desviar dos objectivos do trabalho esotérico.

Para que seja possível estar em conformidade com esta perspectiva, no que diz respeito à Cultura Portuguesa, é necessário que se consiga, através da nossa história e da nossa literatura, dar uma resposta satisfatória a esta questão: “Que coisa é Portugal?”Mas, depois de esclarecido o nosso lugar no mundo, não se trata agora - como lucidamente afirmou Agostinho da Silva - de se saber se somos ou não o povo eleito, se a nossa missão consiste ou não em fundar o Quinto Império; o que importa, sim, é saber se somos ou não capazes disso. Há aqui, evidentemente, uma diferença subtil, mas muito importante. Não está em causa proclamarmos que temos uma missão especial a cumprir, por que todos a têm. O que está em causa realmente é centrarmos toda a nossa consciência, todo o nosso esforço, toda a nossa atenção, na realização de um projecto que possa unir o mundo. A questão centra-se, portanto, numa acção organizada e criadora.

A Filosofia da Saudade
É, de acordo com esta perspectiva - isto é, tendo em consideração que nenhum estudo deve ser efectuado sem a sua integração no todo e como expressão desse mesmo todo - que vamos tentar abordar Teixeira de Pascoaes (1). Uma dificuldade, porém, se levanta: A profusão de elementos que se encontram na sua poesia não permite que, na brevidade de um artigo, se possa dizer tudo aquilo que seria necessário e conveniente. Difícil é, portanto, escolher os elementos que mais nos interessam, sem que, para tal, se perca a harmonia do conjunto. Porém, não se pode falar de Pascoaes sem se reflectir sobre o sentido messiânico da Saudade que, nos tempos actuais, avessos aos voos do espírito, fizeram dele alvo de controvérsia e de contestação. É preciso, por isso, “de socultar” essa Filosofia da Saudade que, para muitos, se apresenta como pedra de tropeço ao progresso e à evolução. Este ponto de vista, inteiramente errado, contribuiu para esquecer e até marginalizar Pascoaes. Mas a Saudade não é, necessariamente, o sentimento que nos prende ao passado. Se é certo que, muitas vezes, nos envolve numa visão retrógrada e anacrónica, que elimina a directriz criadora da nossa vida, o facto é que, quando dizemos, por exemplo, “tenho saudade das férias”, é, sobretudo, para o futuro que estamos voltados, embora nesse futuro estejam contidos os momentos agradáveis que já vivemos e que criam em nós o desejo de os vivermos de novo. Tenhamos, então, presente a Parábola do Filho Pródigo (Lucas 15; 11-32). Ela expressa alegoricamente, como é do conhecimento geral, a longa peregrinação da alma humana que, desde as origens, tem de passar pela transitividade da Existência até regressar ao intransitivo da Essência. Mas esse retorno não será possível sem uma chamada, sem um apelo cósmico. Esse apelo é a Saudade. Sem esse apelo, o homem permanecerá eternamente neste vale sombrio e nunca será compelido a ascender ao cimo da Montanha; sem esse apelo, o Filho não regressará a casa de seu Pai (2). Ora, o facto deste sentimento, a Saudade, ser, como pretende o Saudosismo, a própria essência da alma lusitana (3), é o sinal de que esta é particularmente dotada para conquistar o Universo e para, num abraço fraternal, unir todos os povos. Eis, em síntese, a Filosofia da Saudade. Enfim, pela Saudade tudo se pode perder e tudo se pode ganhar: Pela Saudade, se perdeu a mulher de Loth, cristalizada em estátua de sal por não ter resistido à tentação de olhar para trás; pela Saudade, se perderam também aqueles que, pretendendo ser seguidores de Cristo, quiseram primeiro “enterrar os seus mortos”. Mas, é pela Saudade que o filho Pródigo regressará a Casa de seu Pai, reconciliando-se com Ele.

Agora, sem nos determos demoradamente numa exaustiva interpretação crítica, viajaremos através de alguns aspectos da obra de Pascoaes, no sentido de, primeiramente, determinarmos a Presença da Saudade e, depois, em segundo lugar, a organização do que, no seu pensamento poético e filosófico, vai constituir propriamente a Filosofia da Saudade.
Segundo Teixeira de Pascoaes, cada coisa, cada ser, contém uma luz subjacente, uma Verdade essencial. E a essa Verdade essencial, que subjaz na interioridade das coisas, chama o Poeta presença de Saudade, que é também o apelo cósmico do Amor. Por isso: “não ameis a cousa na própria cousa; amai-a sim na sua presença de saudade (”Verbo Escuro”). Essa presença de Saudade é simultaneamente passado e futuro, mas também é presença da infância, porque a infância não morre. O anjo que somos, nos primeiros anos, jaz, como enterrado, em nossa memória. (”Verbo Escuro”). E desperta vozes antigas que o comovem: Ainda te ouço latir meu velho Nilo! / A tua voz ainda comove e abala / Todo esse fundo abismo do passado! (”As Sombras”). E as mesmas emoções de outrora revivem no presente de um modo renovado e criador: Eis-me, outra vez, aqui na minha aldeia / Que já me trouxe ao colo e me cantou, / Para eu adormecer altas canções / Que nem o próprio tempo dissipou. (”As Sombras”). E também emergem as me mó rias do seu tempo de estudante: Primeiros tempos de Coimbra… Ansiedades inanimadas… Sombra de Inês fazendo a minha noite… Remotas lágrimas acesas, nos longes do meu ser… Via láctea a que pertence a minha alma.(”Verbo Escuro”). Esta presença de Saudade, ansiedade do Filho desejando regressar a Casa de seu Pai, Transfigura tudo à sua volta: Os meus olhos as coisas transfiguram / Vivo como as crianças, num constante / Deslumbramento, num delírio de alma! (”Vida Etéria”). E conduz a um estado superior de “despersonalização”. Quer dizer, a pessoa, a figura atrás da qual nos escondemos (”Verbo Escuro”), ao desvanecer-se pela comunhão com a Natureza e com o Universo, descobre o que há de mais oculto no seu ser. A Saudade é, pois, o sentido das origens que permite a transferência de um “eu” pessoal para a consciência universal do “Eu Sou”: Ouço uma voz dizer em mim: “eu sou alguém…/ E sinto que essa voz não é só minha; eu sinto/ Que dimana de tudo o que me cerca e tem / Ermo perfil, nas trevas, indistinto… (”Sempre”).

A Poesia de Pascoaes
Pascoaes deixa-se atravessar pela Poesia. Os seus versos expres sam o desprendimento, o não-agarrar, a subjectividade imersa na objectividade. As coisas revestem-se de alma e a alma está imanente nas coisas: As coisas que me cercam silenciosas, / São almas a chorar que me procuram. / Quantas palavras misteriosas / Neste ar que aspiro, trémulas, murmuram! (”Sempre”). E, neste deixar-se atravessar pela Poesia, a Palavra estabelece uma relação imediata com a realidade. Emanação do Verbo cria dor, pluraliza-se então de miríades de sinais sonoros que representam a essência de cada ser: Eleonor me chamo, já que o verbo / Pôs um sinal de som em cada coisa: / Sinal que é a própria coisa, algumas vezes, / Na sua essência viva e misteriosa. / Ouve aquela palavra que é Saudade / Verás como traduz a tua raça, / No que ela tem de funda intimidade / Religiosa, mística, infinita! (”Marânus”). Mas a Palavra não é imóvel, fixa, estática. Está sempre sujeita à subjectividade de quem a pensa e de quem a expressa: Assim, a palavra “Deus” toma, através dos místicos, aspectos tão diversos que o próprio Deus, se porventura os contemplasse, não se reconheceria em nenhum deles. (”Duplo Passeio”). Por isso, a língua é, para o poeta, de transcendente importância. É algo que veicula o génio de um povo, deixando transparecer em certas palavras os sinais da sua singularidade: Quanto mais palavras intraduzíveis tiver uma língua, mais carácter demonstra o Povo que a fala. A nossa, por exemplo, é muito rica em palavras desta natureza, nas quais verdadeiramente se pres cruta o génio inconfundível. (”A Arte de Ser Português”). Nesse sentido, os poetas desempenham uma função determinante. São eles que reúnem os diversos aspectos em que a Arte se manifesta: Toda a emoção artística entre nós se encontra nos poetas. É neles que temos de procurar os músicos, os escultores e os pintores. Este facto é devido às faculdades especiais da língua. A graça alada de certos verbos, o sentido e o som nebuloso de certas palavras transcendentes ajeitam-se aos movimentos incoercíveis da alma, que só a música apreende e desenha com as cores fugidias das suas notas. (”Os Poetas Lusíadas”). E, de facto, a poesia pascoalina apresenta essa versatilidade que a torna apta a comunicar as mais diversas cambiantes da alma humana. Os seus versos fluem livre e espontaneamente, numa espécie de fluxo e refluxo que assinala o próprio ritmo do cosmos. Há contudo o frequente regresso a uma ideia e a um centro emotivo, sendo a Saudade que assume sempre a função principal na organização do seu pensamento. Mas a Saudade não é apenas a expressão mística de uma consciência cada vez mais centrada no “Eu Sou”. Também a Pátria, o Mundo, a Natureza e o Universo são a Voz da Saudade, que anuncia a origem comum de todas as coisas: ÃL; nublosa Saudade que, ao luar, o mar exala, quem és tu! Que diz o vento, essa tua linguagem delirante… Fala do príncipio do mundo, das primeiras idades que vivíamos, sem a doença da alma, em que tudo era luz, frescura, superfície. (”Verbo Escuro”). O Poeta sente-se então fraternalmente ligado a todos os seres, porque as diferenças entre eles são mais aparentes do que reais; e o próprio reino mineral não representa mais do que uma transcensão da matéria: E via o escuro reino mi neral, / Num alvorar de etérea sensação / Fazer-se, enfim, o reino espiritual, / Metamorfose imensa e luminosa. / E viu que o último reino transcendente / Pela sua estrutura e natureza / Se casava, profunda e intimamente, / Com a sombra fantástica de origem. (”Marânus”).

Nacionalismo, Anti-Nacionalismo
e Supra-Nacionalismo
Outra das razões que, de certo modo, “marginalizou” Pascoaes foi o seu ideal nacionalista. Por isso, também em relação a este aspecto - como já o fizemos relativamente à Saudade - impõe-se um esclarecimento. Com efeito, um ideal nacionalista não tem necessáriamente de ser anacrónico e anti-progressista, porque as palavras e as ideias têm a verdade que o espírito lhes pretende impri mir. De facto, ao falar-se de nacionalismo, podemos considerar três prespectivas:
A primeira é anti-nacionalista. Segundo ela, nada justifica uma identidade nacional.
A segunda é nacionalista. Centra-se na identidade nacional, opondo a nação às outras nações. Isto é, a nação é um fim em si própria e tudo deve ser feito para que ganhe prestígio e preponderância em relação às outras nações.
A terceira perspectiva é também nacionalista. Diríamos antes, supra-nacionalista. De acordo com ela, a nação deixa de ser um fim em si própria, para ser um meio, através do qual se possa alcançar um objectivo maior - a humanidade. Compreende-se assim a afirmação de Fernando Pessoa: “A nação é o caminho entre o indivíduo e a humanidade”. Por isso, o espírito nacionalista do passado vai dar lugar ao espírito supra-nacionalista do futuro mas, em qualquer deles, está presente a ideia de uma identidade nacional.
É de acordo com esta última perspectiva que devemos entender o ideal nacionalista de Pascoaes, a frequente alusão à Raça lusitana (4) e também ao sentido messiânico da Saudade e da Renascença portuguesa, capaz de alcançar uma dimensão universal:
Mas o Povo Português, criando a Saudade, que é o Desejo e a Dor, que é Vénus e Maria, o Espírito semita e o corpo ária, viveu a própria Renascença, a qual encontrou, portanto, na alma da nossa Raça a sua expressão vivente e espontânea, a sua força viva que, posta, de novo, em movimento, criará uma nova civilização. O espírito lusitano abrirá na História uma nova Era. (”O Espírito Lusitano”).
Pascoaes é imenso. O esforço aqui feito no sentido de reabilitar o seu pensamento e a sua obra está muito aquém do valor real deste gigante das nossas letras. Es pe ramos, contudo, que o leitor seja capaz de completar aquilo que nós não fomos capazes de comunicar.

José Flórido
Licenciado em Filologia Românica; Professor de Literatura e Cultura Portuguesa; Autor de vários livros, nomeadamente: “Pietro Ubaldi - Reflexões.” (editado pelo CLUC), “Conversa Inacabada com Alberto Caeiro” e diversas obras didácticas.

(1) Teixeira de Pascoaes é o nome literário de Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos. Nasceu em Amarante, a 2 de Novembro de 1877, tendo falecido na mesma terra em 1952. Era filho do Conselheiro João Pereira Teixeira de Vasconcelos e de Carlota Guedes Monteiro. Formou-se em Direito, em Coimbra (1896-1901), tendo exercido advocacia em Amarante e no Porto. Dirigiu a revista “A Águia” (entre 1912-1917), tornando-se o mentor do saudosismo e acabando por ir viver a maior parte do tempo no solar de Pascoaes, em Gatão (arredores de Amarante). Celibatário, viveu no entanto sempre em companhia da família, cuidando das suas terras. A serra do Marão foi a sua mais íntima confidente, formando o seu espírito desde a infância. Deixou vasta obra que em ordem cronológica, apresentamos a seguir:

1895 - “Embriões” - Porto
1896 - “Belo” (1a parte) - Coimbra
1897 - “Belo” (2a parte) - Coimbra
1898 - “Sempre” (1a edição) - Coimbra
1899 - “Terra Proibida” - Coimbra
1902 - “Sempre” / 2a edição) - Coimbra
1903 - “Jesus e Pã” - Porto
1906 - “Vida Etéria” - Coimbra
1907 - “As Sombras” - Lisboa
1909 - “Senhora da Noite” - Porto
1911 - “Marânus” - Porto
1912 - “Regresso ao Paraíso” - Porto
“O Espírito Lusitano e o Saudosismo” - Porto
“Elegias” - Porto
1913 - “O Doido e a Morte” - Porto
“O Génio Português na sua Expressão Filosófica, Poética e Religiosa” - Porto
1914 - “A Era Lusíada” - Porto
“Verbo Escuro” - Porto
1915 - “A Arte de Ser Português” - Porto
1916 - “A Beira num relâmpago” - Porto
1917 - “Terra Proibida (2o edição) - Porto
1919 - “Os Poetas Lusíadas” - Porto
1920 - “Elegia da Solidão” - Amarante
“As Sombras” (2a edição) - Porto
1921 - “O Bailado” - Lisboa
“Cantos Indecisos” - Coimbra (incluindo também “Senhora da Noite”; “O Doido e a Morte”; “Elegias”; Elegia do Amor”
1922 - “A Caridade” - Porto
1923 - “Regresso ao Paraíso (2a edição) - Porto
1924 - “Elegia do Amor” (2a edição) - Porto
“O Pobre Tolo” - Porto
“Jesus Cristo em Lisboa” (teatro em colaboração com Raul Brandão) - Lisboa
1925 - “Londres” (poemeto) - Lisboa
“Cânticos” - Lisboa
“D. Carlos” (teatro em verso) - Lisboa
1928 - “Livro de Memórias” - Coimbra
1934 - “S. Paulo” - Porto
1935 - “Painel” (com ilustrações de Almada Negreiros) Lisboa
1936 - “S. Jerónimo e a Trovoada” - Porto
1937 - “O Homem Universal” - Lisboa
1940 - “Napoleão” - Porto
1942 - “O Penitente” (biografia de Camilo) - Porto
” Duplo Passeio” - Porto
1945 - “Santo Agostinho” - Porto
1949 - “Versos Pobres” - Porto
1950 - “O Empecido” (novela) - Porto
“Guerra Junqueiro” - Porto
1951 - “Calvário” (soneto) Amarante
“As Estudantes de Coimbra” (discurso)
“Os Dois Jornalistas” (novela) - Porto
1953 - “ÃL;ltimos Versos” - Lisboa
1957 - “Epistolário Ibérico” (cartas de Pascoaes Unamuno) - Nova Lisboa

(2) Nas redondilhas “Babel e Sião”, baseadas no Salmo CXXXVI de David, Camões expressa esta ideia, fazendo referência à “Saudade do Céu”:

“Não é logo, a saudade
Das terras onde nasceu
A carne, mas é do Céu,
Daquela Santa cidade,
Donde esta alma descendeu.”

(3) Apresentamos a seguir algumas citações de autores portugueses que permitem compreender a importância da Saudade na tradição portuguesa:

“Saudade” é palavra somente portuguesa, e nenhuma outra nação a tem, do que me parece ser causa (releve-se-me usar deste argumento para confirmar minha opinião) porquanto, como as outras nações não amam tão perfeitamente como a nossa, não lhes é necessário ter palavra com que mostrem cousa que havia de ser baldada”.
(António de Sousa Macedo: “Flores de Espanha e Excelências de Portugal”. Lisboa. 1631. Cap. XIII. Exc. XV).

“Floresce entre os portugueses a Saudade, por duas causas, mais certas entre nós, que em outra gente do mundo; porque de ambas essas causas, tem o seu princípio. Amor e ausência são os pais da saudade; e como nosso natural, é entre as mais nações, conhecido por amoroso, e nossas dilatadas viagens ocasionam as maiores ausências, de aí vem, que de onde se acha muito amor e ausência larga, as saudades sejam mais certas, e esta foi sem falta a razão porque entre nós habitassem, como em seu cultural centro”.
(D. Francisco Manuel de Mello: “Epanáforas de Vária História Portuguesa”. Lisboa, 1676. “Epanáfora Amprosa” III. Pág. 286)

“A palavra Saudade é porventura o mais doce, expressivo e delicado termo da nossa língua. A ideia, ou sentimento por ela reportado, certo que em todos os países o sentem; mas que haja vocábulo especial para o designar, não sei de nenhuma outra linguagem senão da portuguesa”.
(Almeida Garrett: “Camões”. Paris. 1825, 2a ed. Lisboa, 1839)
“Se o Universo é a infinita lembrança da esperança, ele é, por isso mesmo, a expressão cósmica da Saudade.
Também a consciência humana resulta de um movimento reflexo do espírito criador sobre as suas formas já criadas, da esperança espiritual sobre a lembrança espiritual, da imaginação revolucionária sobre a memória conservadora. E, por isso, a alma, como síntese daquelas duas forças, é a expressão transcendente da Saudade.”
(Teixeira de Pascoais: “Os Poetas Lusíadas”.

Para Platão tudo é saudade: saber é recordar.
No Fédon, Sócrates explica a Cebes e a Símias a necessidade duma recordação de outra vida para compreendermos as funções do nosso pensamento.
(…)
“O conhecimento do mundo sensível é, por um lado, a inserção da alma na imortalidade da matéria, é também na fluência da matéria, a serena iluminação do Espírito. O conhecimento é, pois, fundamentalmente uma Saudade.”
(Leonardo Coimbra: “Sobre a Saudade”).

“Sem dúvida, Camões é principalmente, como lírico, um poeta da ausência física. Longe da mulher amada, perdidos os bens um dia entrevistos ou ilusoriamente gozados, inquieto, repartido entre a esperança e a Saudade, é que o Poeta faz vibrar as notas mais pungentes, mais profundamente originais da sua lira. Por isso, teixeira de Pascoais pôde falar a respeito de Camões da “profunda intuição saudosa do existente”. A verdade é que o lirismo camoniano se presta, sem deformação do sentido dos seus versos, a uma interpretação saudosista”.
(Jacinto do Prado Coelho - “A Letra e o Leitor” - Portugália Editora - pg. 23).

(4) Para T. Pascoaes. A palavra “Raça” não tem, evidentemente, a conotação que lhe atribuímos frequentemente.

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  1. Analisando um texto sobre o nacionalismo de Teixeira de Pascoaes « perspectivas on 23 Aug 2009 at 11:08 am

    […] (autor: José Flórido) […]

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