O Infante D. Henrique - Entre o mito e a realidade

Terceiro filho do glorioso rei D. João I, fundador da 2a Dinastia e de D. Filipa de Lencastre, o Infante D. Henrique nasceu no Porto em 1394 e morreu em 1460.

É digno de nota o cultivo dos sentimentos de união familiar que era apanágio da casa ilustre de Avis, num século de violências e egoísmos desenfreados. A responsabilidade desta característica costuma ser atribuída a D. Filipa de Lencastre, a grande educadora da “Ínclita Geração”; porém, é mais rigoroso afirmar que as virtudes dos “altos infantes” provieram das qualidades pessoais dos seus educadores D. João I e de
D. Filipa, sua mulher.

Os desígnios do Infante
O Infante D. Henrique é conhecido na História pelo “Navegador”, não porque largamente tivesse navegado - pois os seus maiores percursos marítimos, não passaram de modestas viagens a Marrocos - mas por se reconhecer que a ele se deve o início e os primeiros êxitos da Expansão Ultramarina de Portugal. E bem merece tal epíteto pois que foi, de facto, o impulsionador das navegações dos descobrimentos portugueses - abnegado e pertinaz, sem nunca recuar ante as dificuldades de tal empresa. Como escreveu Luis de Albuquerque, “D. Henrique não navegou muito, é certo, mas fez navegar muito os outros…”

Não deixa, no entanto, de ser uma das figuras mais discutidas da História de Portugal. Rodeado de lendas e mitos, vários historiadores procuraram engrandecer a sua figura num esforço de mistificação, afogando e até obscurecendo aquilo que na realidade fez.

Gomes Eanes de Azurara, na “Crónica da Guiné”, retrata o príncipe, sobretudo, como o arquétipo do cruzado piedoso, ardente de fervor religioso e indómito na luta contra os infiéis, sem deixar de referir intuitos de proselitismo, interesse económico e curiosidade científica, num programa de grande alcance, mas perfeitamente humano.

A conquista de terras marroquinas, especialmente a da cidade de Ceuta, constituiu o primeiro pensamento expansionista do Infante D. Henrique. Este projecto tinha um objectivo essencialmente económico: propunha-se apoderar de um centro abastecedor de trigo (cereal que escasseava no Reino) e refrear a pirataria que se exercia no Estreito de Gibraltar e que prejudicava o desenvolvimento económico de Portugal, na medida em que dificultava a normal navegação mercantil do Mediterrâneo.

Decidida a empresa de Ceuta, os seus preparativos demoraram cerca de três anos. A Armada organizava-se ao mesmo tempo no Porto e em Lisboa. No Porto, se encarregava o Infante D. Henrique e com ele embarcaram gentes das Beiras, Trás-os-Montes e Minho. Em Lisboa, se encarregava o Infante D. Pedro com gentes de Estremadura, Entre-Tejo e Guadiana e Algarve. Segundo o cronista Zurara, quem mais afanosamente trabalhava era D. Henrique, de 20 anos. E a sua frota numerosa exibia nos mastros o pendão tricolor com a sua divisa bordada : “Talent de bien faire” (vontade de bem fazer).

Já se encontravam reunidas as duas frotas no Restelo quando morreu a rainha D. Filipa, a 18 de Julho de 1415. Por um momento, a dor do rei parecia impedir a concretização deste projecto preparado com tanto empenho; mas o ânimo dos infantes salvou a expedição e a 25 de Julho a armada levantou ferro.

No dia 21 de Agosto de 1415 conquistaram a cidade, depois de combaterem durante todo o dia. No Domingo seguinte, a 25, depois de “limpa” a mesquita-maior para ser sagrada Igreja cristã, dedicada a Nossa Senhora da Assunção, foram armados cavaleiros os Infantes D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique e, depois deles, uma longa fila de fidalgos combatentes.

Dissolvida pelo rei, em Tavira, a expedição vitoriosa chegada de Ceuta, foram recompensados quantos nela tinham participado. Nestas recompensas largamente distribuídas, a maior honra coube aos Infantes porque D. João I criou para eles um título novo de nobreza: o de duque. Assim, D. Pedro foi nomeado duque de Coimbra; D. Henrique, duque de Viseu. A D. Duarte, esperava-o um título maior: o de herdeiro da coroa.

Segundo Damião Peres, esta acção guerreira no Norte de África e as posteriores navegações para Sul do Cabo Bojador teriam ainda visado não só a procura de novos mercados, como também abrir o acesso aos centros produtores do ouro. Com efeito, depois de ali voltar três anos depois, com alguns dos demais infantes seus irmãos, é de crer que começassem a tomar vulto na mente de D. Henrique as ideias de uma expansão mais ampla para Sul - com sentido evangelizador, por um lado, visto se tratarem de regiões povoadas por gentes pagãs ou islamizadas, e com sentido económico, por outro, dado provirem de lá o ouro e outros produtos que chegavam à Europa.

Apesar dos apelos do Papa Eugénio IV em 1436, repetido em 1444, em que exortava os príncipes, barões, condes, imperadores e senhores cristãos a combater os “sarracenos e infiéis”, concedendo remissão de todos os pecados e plenas indulgências àqueles que viessem a encontrar a morte no desempenho dessa missão sagrada, D. Henrique não seguiu este procedimento de “caça ao homem”, por anular a possibilidade de comércio, preferindo difundir a religião de Cristo por duas vias diferentes: a primeira, que constituiu o embrião da actividade missionária, mandando sacerdotes para junto dos reis africanos que lhes pediam que os industriasse na fé; a segunda, trazendo jovens nativos que seriam devolvidos às suas terras de origem, depois de instruídos nos costumes europeus e doutrinados na religião católica. O Infante, homem realista, conseguia deste modo atingir dois objectivos: o de proselitismo cristão e (ao mesmo tempo) o de estabelecer relações comerciais amigáveis com os povos nativos.

Os autores dividem-se quanto aos horizontes que o Infante pretendia alcançar nas suas viagens de descobrimento: se apenas o conhecimento de África e “o desejo de conhecer as regiões afastadas do Oceano Atlântico, se acaso haveria ilhas ou terra firme”, como nos diz Diogo Gomes, servidor do Infante, ou se ir mais além, para Oriente, conhecer a Índia ou Índias, como refere o cronista Azurara. A dúvida permanece mas, como salienta Damião Peres ,”é de crer que, embora por certo indefinidamente, a miragem oriental, comum aos homens do seu tempo, embriagasse também a mente do Infante”.

Retrato físico e psicológico
Gomes Eanes de Azurara e João de Barros deixaram-nos tracejado o retrato do grande Infante: estatura regular, compleição vigorosa, membros fortemente musculados, pele branca e corada, o rosto tostado pelo ar do mar, os cabelos levantados, o olhar duro, uma extrema gravidade no porte, gestos sóbrios, palavra suave e vagarosa. Mesmo quando se zangava, “as mais escandalosas” palavras, que proferia, eram “Dou-vos a Deus! Sejais de boa ventura!”. Dotado de uma extraordinária energia física, era capaz de um dispêndio extremo de energia.

Foi casto, sóbrio e austero, no entanto, de coração duro (pelo menos, aparentemente). Assim, é acusado pela sua conduta para com os irmãos, o Infante D. Fernando, cativo após o desastre de Tânger onde morreu à espera de resgate, e o Infante D. Pedro, durante as desavenças com o Duque de Bragança que terminaram com a sua morte na Batalha de Alfarrobeira. É possível que num e noutro caso tenha sobreposto a razão de Estado aos impulsos afectivos.

O Plano dos Descobrimentos
O plano de descobrimentos não foi concebido apenas pelo Infante; outras personalidades relevantes foram responsáveis por ele. D. João I, D. Duarte e D. Afonso V, reis de Portugal, bem como o Infante D. Pedro, regente na menoridade de D. Afonso V, apoiaram os esforços e iniciativas de D. Henrique, concedendo-lhe direitos territoriais, políticos e fiscais sempre com o intuito de prestigiar e facultar meios económicos necessários ao prosseguimento da obra iniciada. Apesar das imensas riquezas, herdadas ou adquiridas e os monopólios, doações e subsídios presenteados pela Coroa, debateu-se toda a vida com falta de meios, tão necessários ao avanço das descobertas.

Foi difícil vencer correntes marítimas, ventos contrários e loucos terrores dos marinheiros. Para lá do Cabo Não ao Bojador, situado mais ao Sul, não se encontravam mais que penhascos escarpados ou dunas de areia e o rugir das vagas ouvia-se muitas milhas ao largo. Evitava-se cuidadosamente a proximidade dessas paragens, “onde a terra está quase constantemente envolta numa bruma espessa e os ventos do largo levantam vagas monstruosas”. Era uma investida contra o desconhecido, passar além dessa barreira de recifes e agitadas águas que se estendem pelo mar dentro. O Cabo Bojador era “muito perigoso por causa de uma mui grande restinga de pedra que dela sai do mar mais de quatro ou cinco léguas, na qual já se perderam alguns navios por mau aviso”, como escrevia Duarte Pacheco, nos primeiros anos do século XVI, no seu roteiro “O Esmeraldo de Situ Orbis”. Foi Gil Eanes que, em 1434, depois de algumas tentativas frustradas, fez a primeira ultrapassagem daquele cabo. Como recordação desse feito, trouxe Gil Eanes consigo um punhado de flores silvestres (análogas àquelas a que se dava o nome de rosas de Santa Maria), colhidas no litoral africano para além do Cabo Bojador, que entregou ao Infante. A ultrapassagem deste cabo representava a possibilidade de novos avanços nos descobrimentos da costa africana. Foi por vencer essa dificuldade, a partir do exemplo de Gil Eanes, que posteriores marinheiros vieram a perder o receio de se engolfar no oceano.

Com maior ou menor ritmo, conforme o desenrolar dos problemas político-militares do Reino, o descobrimento da costa africana foi-se fazendo, ao mesmo tempo que se aperfeiçoavam os meios técnicos para a sua concretização. De Lagos, onde residia o Infante, partiam navegadores que, no dia a dia de bordo, reconheceram ventos e correntes, ensaiaram rotas para as navegações desejadas, determinaram latitudes, venceram todo o género de dificuldades. Assim, obtiveram conhecimentos de Geografia, aprenderam a navegar no Atlântico Sul, a observar a altura das estrelas, tendo igualmente aperfeiçoado as caravelas. Com efeito, a barca em que navegara Gil Eanes e o barinel utilizado por Baldaia vão ser substituídos pela caravela, navio não inteiramente novo, mas ao qual se introduziram adequadas modificações, provendo-o de velas triangulares, o que permitia bolinar, isto é, navegar com ventos contrários. Este navio tornou possível novos grandes avanços para Sul, assegurando maior facilidade nas viagens de regresso. Chegou-se ao Rio do Ouro, Cabo Branco, penetrou-se no Golfo de Arguim, atingiu-se Cabo Verde. Era crescente o número de expedições que se faziam com finalidade económica às regiões africanas descbertas. Nos últimos anos da vida de D. Henrique, Pedro Sintra prolongou o descobrimento da costa africana desde a região guineense do Rio Geba até à Serra Leoa, que constitui o termo dos descobrimentos henriquinos.

Entre tanto que se tem escrito sobre a “Escola de Sagres”, muitos nomes têm sido apontados como colaboradores, homens cultos que teriam contribuído com o seu saber para a resolução das inumeráveis dificuldades com que se iam deparando os marinheiros ao serviço do “Navegador”. Das crónicas e documentos, sabemos que teve ao seu serviço, além de muitos judeus, numerosos genoveses, franceses, mouros, etc, resultando desse labor um espólio imenso, desde o progresso da náutica, a evolução da cartografia que apresentou o mundo terrestre com dimensões inesperadamente conhecidas, a remodelação na construção naval, em que fomos peritos, e a redacção de roteiros de viagens de incalculável valor…

Síntese
Damião Peres, na sua obra “História dos Descobrimentos Portugueses”, coloca a figura do Infante D. Henrique acima de qualquer apreciação laudatória ou depreciadora numa síntese admirável que não resistimos a transcrever: “O Infante D. Henrique não foi realmente um geógrafo, mas tudo mostra que a sua inteligência se abria à curiosidade geográfica; não foi cartógrafo, mas soube compreender e utilizar o conhecimento dos que o eram; não foi um missionário, mas promoveu o proselitismo cristão; não foi um cruzado, mas combateu contra os muçulmanos na conquista de Ceuta e na tentativa de Tânger; não foi um descobridor, mas estimulou as navegações de descobrimento; não foi um mercador, mas impulsionou a exploração mercantil do ultramar português; não foi um economista, mas soube criar o intercâmbio de produções tão característico da expansão ultramarina de Portugal. Sem ser enorme em um só aspecto, foi muito grande no conjunto deles”.

Alexandrina Leal
Licenciada em História

Bibliografia
“História dos Descobrimentos Portugueses” , Damião Peres, 1982
“Dúvidas e Certezas na Hirtaria dos Descobrimentos Portugueses”, Luis de Albuquerque, 1990.
“História de Portugal, I Vol.” António de Oliveira Marques, 1973.
“História de Portugal”, Edição Monumental da Portucalense Editora, III Vol., Cap. II de Jaime Cortesão, sob direcção de Damião Peres

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