Parapsicologia - Ciência ou ilusão? (3a Parte)

Concluímos no presente número as nossas considerações sobre a fundamentação da Parapsicologia como ciência.

Interacção Anómala entre Psiquismo e Sistemas Físicos e Biológicos
Existe há 20 anos, nos EUA, uma unidade de investigação muito especial, conhecida como o PEAR Lab (Princeton Engineering Anomalies Research Laboratory). É coordenada pelo Deão Robert Jahn, seu fundador em 1979, e por investigadores de grande destaque tais como Brenda Dunne ou Roger Nelson. Um folheto de apresentação do PEAR, que recebi em 1999, apresenta um belo resumo da parte que nos interessa realçar do trabalho aí efectuado:
“A parte mais substancial do programa do PEAR examina as anomalias que surgem nas interacções homem/máquina. Nestas experiências, operadores humanos procuram, apenas por volição, influenciar o comportamento duma variedade de mecanismos mecânicos, electrónicos, ópticos, acústicos e fluídicos de modo a conformarem-se a intenções pre-estabelecidas. Em calibrações na ausência de observadores essas máquinas sofisticadas produzem saídas estritamente aleatórias; contudo os resultados experimentais demonstram aumentos no conteúdo de informação que somente podem ser atribuídos à influência de operadores humanos. Ao longo da história do laboratório, milhares de experiências deste tipo, envolvendo muitos milhões de ensaios, foram desempenhadas por cerca de uma centena de operadores. Os efeitos observados são geralmente bastante pequenos, da ordem de algumas unidades em dez mil, mas são estatisticamente repetíveis e parecem ser específicos dos operadores nos seus detalhes. Em contraste, os resultados de determinados operadores em máquinas completamente diferentes tendem a ser similares em carácter e em escala. Verifica-se que pares de operadores com intenções comuns induzem um maior número de características anómalas nos resultados. Os mecanismos também respondem a actividades grupais de números superiores de pessoas, mesmo quando elas não têm consciência da presença das máquinas. Estas anomalias homem/máquina podem ser demonstradas com os operadores localizados a milhares de milhas do laboratório, exercendo os seus esforços antes ou depois da verdadeira operação dos mecanismos”.

Por estranho que pareça, os investigadores do PEAR têm divulgado inúmeros artigos e relatórios de investigação com resultados comprovativos destas afirmações. O seu trabalho com os chamados geradores aleatórios de campo tornou-se uma referência obrigatória pois eles têm realmente conseguido demonstrar, em inúmeras experiências, que sujeitos humanos conseguem afectar esses geradores “desviando-os” da aleatoriedade.
Mais uma vez a título de exemplo, gostaria de referir aqui uma extraordinária pesquisa levada a cabo por uma série de investigadores em colaboração utilizando simultaneamente geradores aleatórios em vários laboratórios mundiais. A ideia dominante é a de que, uma vez que se tem comprovado a capacidade de observadores humanos para gerarem influências intencionais sobre geradores electrónicos aleatórios (um chamado efeito de micro-psicocinesia), talvez o facto de um vasto número de pessoas estarem, ao mesmo tempo, concentradas no mesmo evento pudesse ter um efeito notável sobre tais geradores. Os funerais da Princesa Diana e da Madre Teresa de Calcutá forneceram a ocasião para, uma vez mais, trabalhar sobre esta hipótese. Participaram na investigação dez cientistas trabalhando, com geradores aleatórios de três tipos, em seis laboratórios diferentes em vários lugares do mundo. O objectivo desta pesquisa foi o de verificar se surgiam, nos geradores aleatórios, quaisquer desvios significativos face à expectativa do acaso, desvios esses que coincidissem com os momentos em que grande número de pessoas estivessem especialmente atentas a fases-chave das cerimónias nos funerais. Para as cerimónias da princesa Diana, a probabilidade de os desvios observados pelo conjunto dos experimentadores ser devida ao acaso foi, sensivelmente, de 1 para 100 coincidindo com outras pesquisas positivas. No caso do funeral da Madre Teresa de Calcutá, em que a investigação somente pôde ser feita usando 11 geradores, os resultados obtidos não foram significativos, o que os experimentadores atribuem ao facto de a atenção mundial estar claramente menos bem concentrada e definida neste caso pois a sua morte era longamente esperada e ela tinha tido uma vida bem preenchida, o que não ocorreu com Diana, cuja morte gerou uma resposta pública muito mais emotiva. É de notar que Radin, por exemplo, referiu resultados coincidentes com os de Diana obtidos no momento do veredicto no julgamento de O. J. Simpson ou em momentos culminantes de uma entrega de ÃL;“scares…

Curiosamente também na área da interacção anómala entre psiquismo e sistemas físicos tem sido efectuada pesquisa extremamente interessante com animais. Daremos somente dois exemplos. Rémy Chauvin, famoso biólogo, publicou em 1974 uma revisão de investigação parapsicológica animal onde relatou o modo como Helmut Shmidt verificou, em laboratório, que os gatos podem influenciar “psicocineticamente” geradores aleatórios: este colocou um gato num recinto arrefecido, situação bastante desagradável para o animal. Esta situação, no entanto, poderia ser modificada pelo calor de uma lâmpada infravermelha cujo tempo de funcionamento era controlado por um gerador aleatório que tendia a mantê-la acesa durante cerca de metade do tempo apenas, na ausência de um animal no recinto. No entanto, uma vez colocado o gato dentro desse dispositivo, a lâmpada passou a estar acesa mais tempo do que seria esperável segundo as leis da aleatoriedade. Como se o gato tivesse podido influenciar os aparelhos. Curiosamente, com baratas colocadas no mesmo aparelho o resultado é muito estranho pois elas parecem interferir no sentido do arrefecimento ainda maior. Obtiveram-se resultados replicando a experiência com lagartos (caso em que o aquecimento diminui no bom tempo e aumenta no mau tempo, o que faz sentido), pintos e mesmo ovos fecundados (caso em que a temperatura tende a aumentar a não ser que a lâmpada seja excessivamente forte, caso em que diminui.). Mais recentemente, Peoc’h (1996) demonstrou várias vezes, utilizando pintos que tinham nascido na presença de um robot de deslocação aleatória (tomando-o por “mãe” e seguindo-o para todo o lado), que estes conseguiam influenciá-lo para que se deslocasse mais vezes na direcção deles do que na direcção oposta (o que faz algum sentido pois os pintos ficam inquietos se a mãe se afasta deles).

Outro domínio de investigação que não podemos deixar de referir é o que geralmente aparece na literatura como “investigação sobre interacção mental à distância com organismos vivos”. Neste campo está geralmente em causa a demonstração de que sujeitos humanos conseguem influenciar o comportamento ou a fisiologia de organismos vivos. Um caso extremamente típico, com resultados positivos, é aquele em que, num dispositivo experimental do tipo Ganzfeld que descrevemos anteriormente, um indivíduo que observa outro através de um circuito vídeo fechado tenta influenciá-lo (sendo que o sujeito-receptor não sabe quando irá ser influenciado e o próprio agente procura influenciá-lo somente em momentos determinados aleatoriamente no próprio decorrer da experiência, olhando-o fixamente). Numa revisão de literatura sobre investigação em torno da ideia largamente divulgada culturalmente de que são possíveis “curas à distância” através da oração, “visualização criativa” ou outros métodos, Schlitz e Braud referiram, nos anos 90, uma série de pesquisas bem sucedidas. Por exemplo: Grad demonstrou que sementes “tratadas” com uma solução salina “influenciada” por um “curador espiritual” (Estebany) cresciam mais do que outras tratadas com uma solução quimicamente igual mas não “tratada”; Nash, biólogo como Grad, demonstrou, noutro estudo, que a taxa de crescimento de bactérias podia ser influenciada pelas intenções conscientes de “curadores”; o próprio Braud verificou uma redução altamente significativa na taxa de destruição das células sanguíneas de sujeitos humanos colocadas em tubos de ensaio, em soluções apropriadas, em salas distantes daquela em que o “curador” exercia a sua acção; Grad e os seus colaboradores verificaram, em laboratório, que as feridas cutâneas de ratos de laboratório se curavam mais depressa quando estes eram tratados por curadores espirituais (sem que estes jamais os pudessem tocar fisicamente e tendo sido controlados efeitos “normais” como a temperatura das mãos). Numa revisão estatística detalhada sobre 19 investigações onde foi procurada uma influência directa sobre medidas fisiológicas nos “sujeitos-alvo”, Schlitz e Braud verificaram que a probabilidade de os resultados globais serem mero produto do acaso era inferior a 1 em 1.000.000. Podemos assim basear-nos nestes e em numerosos outros estudos para concluir que a possibilidade de existirem interacções anómalas, inexplicadas por quaisquer mecanismos biológicos ou físicos conhecidos, entre o psiquismo e sistemas físicos ou biológicos não é pura ficção: acontece mesmo. Ora uma tal possibilidade pode ser muito rica em implicações nada negligenciáveis.

Moral desta História?
A mente humana parece realmente capaz de captar informação e de agir sobre fenómenos físicos e biológicos do nosso mundo tangível sem qualquer mediação física conhecida. Isto pode parecer paradoxal mas está já bem estabelecido por muitas décadas de investigação que atingiu, hoje em dia, um nível de sofisticação inegável. Não falta rigor epistemológico à investigação que demonstra a existência da possibilidade de seres humanos e até animais poderem interagir à distância com sistemas físicos e biológicos ou poderem transcender os limites usualmente conhecidos para o que chamamos Espaço e Tempo para captarem informação sobre eventos distantes no futuro e no passado. Como é evidente, qualquer especulação sobre hipotéticas implicações religiosas deste facto poderá ser ilusória. Do mesmo modo, o facto de se demonstrarem efeitos experimentais, no laboratório, em que sujeitos humanos conseguem obter micro-efeitos de acção “à distância” sobre partículas elementares, células ou até aspectos mais amplos da fisiologia de organismos vivos, não é equivalente a basear numa suposta “realidade” uma longa série de filmes espectaculares sobre poderes humanos mirabolantes - e, pelo menos por agora, talvez risíveis aos olhos dos que pesquisam, em laboratório, efeitos físicos e psicológicos anómalos. Entretanto admito que o estudo das funções psicológicas anómalas talvez aponte, já hoje, na direcção de um conceito diferente de Homem, não como máquina biológica mas como algo mais. Para explicar fenómenos “anómalos” que, afinal, acontecem com seres humanos comuns, talvez tenhamos que recorrer a “conceitos anómalos” do Homem, admitindo que ele seja, afinal, dotado de estruturas, e/ou capaz de utilizar formas de energia, cuja natureza permanece quase totalmente inacessível à investigação directa mas parece pertencer a um outro nível da realidade. No entanto, este conceito não é, ainda, testável embora constitua uma interpretação possível para os dados existentes.

Vítor José F. Rodrigues
Licenciado em Psicologia; Assistente na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa; Autor de “Teoria Geral da Estupidez Humana”, “A Invasão dos Terrestres”, etc.

Sugestões para leitura
- Chauvin, Rémy (1991): La Fonction Psy. Paris: Éditions Robert Laffont, S.A.
- Radin, Dean (1997): The Conscious Universe. New York: HaperEdge.
- Targ, Russell e Katra, Jane (1998): Miracles of Mind. Novato, California: New World Library

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