A Crise de Autoridade

Um conceito mais elevado de autoridade tem de emergir desta “nova” classe dirigente. É que a palavra autoridade tem vindo a perder o seu verdadeiro significado, adquirindo progressivamente uma conotação negativa, quase sinónima de poder imposto pela força ou pela violência. Conotação que se compreende, se atendermos à ideia que, vulgarmente, se tem de autoridade policial, por exemplo.

Mas, em que consiste realmente a autoridade?

Em primeiro lugar, é preciso que se entenda que autoridade e poder nem sempre significam a mesma coisa. Assim, por exemplo, ao poder que é conferido pela posse ou utilização de uma arma não se pode chamar autoridade, porque esta se situa numa ordem completamente diferente de valores: a superioridade moral e intelectual.

Por outro lado, confunde-se geralmente autoridade com autoritarismo. Mas, a diferença de significados é flagrante. Porque, enquanto o autoritário grita, ameaça, para que os outros se atemorizem e obedeçam às suas ordens, o homem que tem autoridade não precisa de recorrer a esses meios, porque a sua presença se impõe e nela se reconhece o guia e o chefe. A razão é inerente à sua pessoa, transparecendo nos gestos mais simples e no tom sereno da voz. Só ele tem de facto autoridade e, consequentemente, tem também o poder.
No que diz respeito ao sistema de ensino - como, aliás, em relação a quase todos os outros aspectos da vida social -, verifica-se uma verdadeira crise de autoridade. Cada vez menos, o Ensino se fundamenta na autoridade do professor, que se acha enfraquecido, sob o embaraço de todos os convencionalismos que lhe são impostos pela burocracia administrativa. É de assinalar até o facto da palavra professor ter vindo a ser frequentemente substituída por docente, o que é muito significativo. Com efeito, enquanto professor contém, principalmente, um sentido de missão, docente tem, sobretudo, ou quase exclusivamente, um sentido de profissão. Nem devemos ignorar que professor significa, verdadeiramente, aquele que professa uma ciência, uma arte ou uma língua, e que professar é proferir votos solenes de ligação a uma religião ou a uma doutrina. E, se este facto pode parecer de somenos importância a quem não quer atribuir às palavras grande valor, para nós, porém, para quem a língua é um índice dos padrões morais, intelectuais e culturais de uma sociedade, a questão é de importância relevante.

Serão múltiplas as razões que justificam esta crise de autoridade. Mas, não podemos deixar de assinalar que é, precisamente, o saber convencional que, tendo burocratizado cada vez mais a Escola, substituiu, ou tem vindo a substituir progressivamente, o génio criativo do professor pelos sistemas, pelos programas, pelos planos, pelos inventários; pelos relatórios, pelos inquéritos, pelas estatísticas, pelas reuniões improdutivas, pelo barroquismo das novas terminologias, etc. Se quisermos utilizar uma linguagem matemática, diremos que a autoridade do professor é inversamente proporcional a todas essas formas de controlo e de fiscalização, e directamente proporcional ao Saber real. Por isso, é preciso ter presente que todos os sistemas de Ensino que não tenham por fundamento a autoridade do professor estão irremediavelmente condenados ao insucesso.
Assim, se a autoridade do professor é colocada em segundo plano, como tem vindo a suceder, surgem imediatamente problemas impossíveis de solucionar. É o caso, por exemplo, do tão discutido processo de avaliação que raramente é considerado numa perspectiva de ultrapassar o formalismo da técnica. Mas, se é impossível excluir do processo avaliativo o factor subjectivo do professor, o fulcro da questão situa-se, portanto, na capacidade de julgar. O que significa que o problema da avaliação é, radicalmente, um problema de autoridade. Tudo mais - escalas, testes, critérios prévios de correcção, etc. - são apenas aspectos externos, cuja valiosa utilidade não seria posta em dúvida, se não estivessem somente a contribuir para desviar a atenção do verdadeiro centro do problema. Assim, o que está fundamentalmente errado não é a aplicação da técnica ao ensino; o que está fundamentalmente errado é a prioridade da técnica em relação à autoridade. Por isso, todas as técnicas, apoiadas na autoridade do professor, contribuem para a elevação do ensino; porém, quando é a técnica que se pretende sobrevalorizar, fazendo depender de si a autoridade, é inevitável a desagregação e o insucesso escolar.

Claro que a autoridade a que nos estamos a referir não se deve manifestar apenas no sector do ensino. Ela deve ser inerente a todas as actividades humanas, porque é, essencialmente, expressão do Saber Real. Por isso mesmo, se pode afirmar, segundo a linguagem singela do Poeta, que “a autoridade é silenciosa como uma flor”.

José Flórido
Licenciado em Filologia Românica; Professor de Literatura e Cultura Portuguesa; Autor de vários livros, nomeadamente: “Pietro Ubaldi - Reflexões…” (editado pelo CLUC), “Conversa Inacabada com Alberto Caeiro” e diversas obras didácticas.

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