A Ordem e a Inteligência do Cosmos - A Perspectiva Esotérica

A busca da verdade rigorosa sobre uma ordem, expressa em Leis, presente nos diferentes fenómenos da Natureza, é o desígnio de todos os cientistas. Para qualquer Ciência - seja a Ciência das Ciências (o Ocultismo), seja a Ciência Oficial (sem sentido depreciativo), ainda confinada aos mundos mais densos, seja qualquer um dos seus ramos em particular -, a existência de uma tal ordem, que implica inteligência, constitui uma base fundamental. É o pressuposto ou, pelo menos, a esperança da sua existência que impulsiona e confere dignidade a qualquer pesquisa científica.

De que lado está a ordem?
A propósito dessa ordem, o esoterista coloca importantíssimas questões à Ciência Oficial, nomeadamente a todos aqueles que trabalham nos domínios da Física, da Cosmologia e da Biologia.
Sem entrarmos em profundas abordagens epistemológicas - aliás, extremamente interessantes -, lembremos a oposição entre dois pontos de vista principais:
Essa ordem pode existir como algo de objectivo, (também) do lado de lá da nossa percepção e interpretação, podendo ser descodificada pela inteligência humana de modo também objectivo, ao menos em grande medida;
Essa ordem não existe objectivamente, e representa apenas uma ficção, uma forma da nossa inteligência - que tende a ser ordenadora e a pressupor nexo, coerência, relação causa-efeito - interpretar factos que, em si mesmos, são caóticos, desordenados, independentes de quaisquer leis. Por outras palavras, a ordem só existe do lado de cá, subjectivamente.

Em termos de Teoria do Conhecimento, esta última hipótese foi defendida por vários filósofos ao longo dos séculos. Abstemo-nos agora de comentários valorativos; veremos, mais adiante, qual a posição da Filosofia Esotérica. Neste momento, basta dizer que, levando essa hipótese ao limite, a Ciência, como procura da Verdade em si mesma, seria uma quimera, um esforço condenado ao fracasso, uma causa inelutavelmente perdida (o que, decerto, significaria uma desilusão e um desgosto para toda a comunidade científica). Ficaria, quando muito, confinada a um passatempo intelectual (assim como uma charada que se esgota em si mesma) e/ou a um utilitarismo tecno-lógico, visto que permite produzir máquinas, instrumentos, construções. Então, reduzida a Ciência a essa expressão tão limitada, drasticamente diminuída na sua dignidade e inibida de atingir o seu propósito inicial, o melhor seria quedarmo-nos por aqui em considerações.

Admitamos a outra hipótese. Continuando a simplificar, ela sustenta a validade do Conhecimento, da Ciência, como compreensão susceptível de ser real, verdadeira e fidedigna de uma objectividade em que há ordem, leis, inteligência.

Quem ou o Quê dispõe uma ordem inteligente?
Fixemos este ponto. A ordem implica inteligência. As leis, que a ciência se esforça por desvelar e formular de modo compreensivo, implicam inteligência. Ora bem, onde há inteligência, tem que haver algo ou alguém que seja inteligente; onde há ordem, tem de haver algo ou alguém que disponha, garanta e mantenha a ordem. Se essa ordem inteligente existe no Cosmos (também) do lado de lá da nossa subjectividade, então, quem ou o quê a detém, sustenta, É? Qual a realidade ontológica desse Algo ou Alguém - seja singular ou plural - que é inteligente, extraordinariamente inteligente a ponto de dar ordem a um Cosmos tão imenso e prodigioso?

As teologias simplistas dão como resposta: é Deus, o
Ser Perfeito, Absoluto, Omnipotente e Omnisciente. Entretanto, se a Natureza revela ordem e inteligência, é igualmente verdade ela não é perfeita, nem absoluta: há tentativas, há falhanços, há imperfeições. O Cosmos, maravilhoso mas imperfeito, não pode, pois, ter sido obra directa de um Ser Absoluto, Omnipotente, Omnisciente.

O materialismo científico (assim chamado), ou certo tipo de agnosticismo, afirma: é a Natureza ou a Matéria como um todo que é inteligente. Esta resposta, aflorando (tal como a anterior) uma verdade profunda, é, contudo, insuficiente. É uma sustentação vaga, que conduz a uma abstracção de fuga à realidade ontológica (mais ainda quando, decompondo cada vez mais aquela que outrora julgou ser a unidade última da matéria - e, ao fazê-lo, voltando a comprovar a correcção das teses da “Doutrina Secreta”, de H.P.Blavatsky, onde antecipadamente se sustentava a infinita divisibilidade do átomo -, se depara com inúmeras partículas com vontade e inteligências próprias)… Na Natureza ou na Matéria, vemos tantas Inteligências, ordens e forças paralelas, relativamente autónomas e com domínios circunscritos - mas tantas vezes cruzando-se e chocando-se -, que uma tal afirmação é redutora e simplista, passando por cima da questão: Quem ou o Quê opera na Matéria, na Natureza, no Universo, conferindo-lhe ordem, inteligência, relações fenoménicas que podemos compreender como Leis? Quem ou o Quê é o(s) sujeito(s) ou agentes legisladores?

Sobre estas questões, a Ciência e a Filosofia exotéricas (o oposto de esotéricas) estão longe de dar a última palavra - na verdade, mal ainda balbuciaram a primeira. Entretanto, manda a Verdade que se diga que esta é uma interrogação vital e insofismável.

Vejamos, então, qual é a resposta do Esoterismo.
Quanto às relações sujeito-objecto, nada melhor do que citar a obra magistral de Helena Blavatsky: “Tudo o que é, emana do Absoluto, que, por força mesmo desta qualidade, é a única Realidade; e, assim, tudo aquilo que é estranho ao Absoluto, a esse Elemento causativo e gerador, deve ser uma ilusão, sem nenhuma sombra de dúvida. Isto, porém, do ponto de vista exclusivamente metafísico. (…) A impressão experimentada em qualquer dos Planos é uma realidade para o ser que a experimenta e cuja consciência pertença ao mesmo Plano”. Noutra passagem, escreveu HPB: “Nada é permanente, a não ser a Existência Una, absoluta e oculta, que contém em si mesma os númenos de todas as realidades (…) No entanto, todas as coisas são relativamente reais, porque o conhecedor é também um reflexo, e por isso as coisas conhecidas lhe parecem tão reais quanto ele próprio. (…) Seja qual for o Plano em que possa estar a actuar a nossa consciência, tanto nós como as coisas pertencentes ao mesmo Plano somos as únicas realidades do momento.”(1)

Por outras palavras: sendo que o Imanifestado ou Absoluto é a verdadeira Realidade, porque incondicionada e além de toda a ilusão (que é impossível aí, por inexistir diferenciação entre sujeito ou conhecedor, e objecto ou cognoscível), no domínio da Manifestação (onde há objectos que podem ser conhecidos por sujeitos e que é, portanto, o campo da Ciência), existe uma harmonia e consubstancialidade entre os objectos de um Plano ou Mundo em particular e a Consciência de um sujeito cuja percepção está focalizada nesse Mundo. E, assim, há uma correspondência entre o tipo de ordem e de inteligência manifestada objectivamente nesse Mundo ou Plano e o molde de inteligência e de sentido de ordem do sujeito que a pretende conhecer. Consequentemente, o esforço da Ciência e do Conhecimento é válido, porque a ordem existe em ambos os lados (objectivo e subjectivo); ainda que todo o Universo manifestado, do ponto de vista puramente espiritual seja ilusório, o esforço de conhecimento é a via pela qual, subindo de Plano em Plano nas correspondências subjectivo-objectivo, nos podemos sucessivamente elevar da estagnação própria da ignorância e da inércia.

Deixamos, num parêntesis, duas notas: alguns reconhecerão aqui fios de conexão com a Filosofia Sânkhya e com a Monadologia de Leibnitz, o grande filósofo e cientista alemão dos Sécs. XVII-XVIII. Por outro lado, julgamos que, desta forma, fica desvanecida a anedota do oriental que, considerando este mundo como Maya, despertaria desse (suposto) delírio ao embater com a cabeça numa parede.

Esclarecido, embora em traços muitíssimos gerais, o tema da validade do Conhecimento Científico, sob o prisma da Filosofia Esotérica, vejamos agora o que a Ciência Oculta tem a dizer acerca do substrato ontológico das leis, da inteligência e da ordem manifesta no Cosmos.

O Ocultista afirma a evidência do Ser Absoluto, cuja realidade necessariamente admite, por ser insustentável um niilismo radical; porém, declara honestamente que, qualquer Entidade existente num Universo relativo e dual, nada pode dizer directamente sobre a Realidade Absoluta, Una e Imanifestada, excepto que É e, ao Ser, permite que todas as coisas, mundos e fenómenos possam existir. O Absoluto está além de toda a compreensão relativa, por mais excelsa que seja.
Acrescentamos ainda, citando um excerto do livro “Cartas de Luxor”, do CLUC: “O Divino é a grande e única realidade do Cosmos; não obstante, a Eterna Sabedoria jamais pode aceitar como sendo rigorosa a concepção das religiões populares e desvirtuadas sobre um único Acto Criador, pelo qual um Pai Absoluto teria instantaneamente criado o Universo. Sustenta, sim, que o Deus Uno, a Essência Pura do Universo é a Causa Primordial que, depois, se desdobra numa infinidade de potências ou causas criadoras - tão vastas em número quanto as Consciências que se diferenciam no seio do Ser–Consciência da Unidade Divina -, todas elas concorrendo para a construção (ou, no final, a dissolução) e evolução de todas as formas, de todos os mundos, de todas as esferas de Ser.” 2

Por outras palavras: temos a primordial energia una, sobre a qual trabalha o Pensamento Divino. Este, contudo, para não ser uma simples abstracção além do espaço e do tempo, é integrado e dotado de substância-energia actuante pelas legiões de deuses, Hierarquias Criadoras ou Dhyani-Chohans (conhecidos como Serafins, Tronos, Arcanjos, etc, nas tradições espirituais do Ocidente) isto é, de “seres inteligentes que ajustam e controlam a evolução, encarnando em si mesmos aquelas manifestações da Lei Una que conhecemos como “Leis da Natureza”(1) e “colaborando na construção, sustentação e direcção de todo o Universo objectivo, de cada uma das suas formas, de cada um dos seus átomos.”(3)

Se bem que possamos expressar uma Lei da Natureza através de uma fórmula matemática, tal não explica o que a torna viva e actuante. Uma fórmula, por si, não gera sequências ordenadas - inteligentes - de fenómenos, não gera formas ordenadas - inteligentes - se não tiver vida, ser, energia.

Esses Seres, essas Hierarquias Criadoras ou Dhyani Chohans (4), são, pois os meios, através dos quais se transmite o Pensamento Divino, o grande Propósito Inteligente do Universo - Universo de que são os verdadeiros arquitectos, construtores e dinamizadores. São eles as (invisíveis) forças vivas actuantes em toda a substância, são eles o ser e o dinamismo das leis universais. Não são eles perfeitos ou absolutos e, assim, tão pouco o é o Cosmos manifestado. Se o qualificativo de deuses lhes pode ser geralmente aplicado, tal se deve ao facto de serem invisíveis e, nas suas classes mais elevadas, sapientíssimos, brilhantes, luminosos (5).

Entretanto, de um ponto de vista mais científico, são eles as forças inteligentes (ou semi-inteligentes) e ordenadoras e directoras da Natureza.

Entre as Hierarquias mais elevadas, temos grandes arquitectos e construtores de Universos; nos degraus inferiores de uma escada imensa, temos as pequenas vidas elementais - representadas nos folclores de todos os povos6 - que, por exemplo, constituem a (embora diminuta) vontade e inteligência das partículas atómicas, de cujos agregados se compõem as formas do Universo visível.

José Manuel Anacleto
Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

1 In “A Doutrina Secreta, Vol I” (Ed. Pensamento, S.Paulo)

2 Centro Lusitano de Unificação Cultural, Lisboa, 2000

3 José Manuel Anacleto, “Noções Básicas da Cosmogénese”, in “Portugal Teosófico o 79″, Ed. STP, Lisboa, 2000

4 Literalmente, em sânscrito, “Os Senhores da Luz”.

5 Os Devas do Hinduísmo são, justamente, os “seres brilhantes” ou “luminosos”.

6 Que justificam um estudo mais rigoroso do que a mera curiosidade complacente. Povos antigos, intelectualmente mais infantis, ainda na curva descendente para a materialidade, tinham algum acesso a mundos mais subtis, expressando-o de um modo simbólico, colorido e fantasiado, que é necessário saber descodificar e entender no seu contexto.

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