Spinoza

Las traslúcidas manos del judío
labran en la penumbra los cristales
y la tarde que muere es miedo y frío.
(Las tardes a las tardes son iguales.)

Las manos y el espacio de jacinto
que palidece en el confin del Ghetto
casi no existen para el hombre quieto
que está soÃL;±ando un claro laberinto.

No lo turba la fama, esse reflejo
de sueÃL;±os en el sueÃL;±o de outro espejo,
ni el temeroso amor de las doncellas.

Libre de la metáfora y del mito
labra un arduo cristal: el infinito
mapa de Aquel que es todas Sus estrellas.

Jorge Luis Borges, 1964

I - Os primeiros anos
Bela e nobre é esta homenagem do poeta cego ao filósofo holandês polidor de lentes, esse instrumento que permite aos homens ver melhor, ter horizontes mais vastos, “ver o mundo com outros olhos” mas que não conseguiu tirar da cegueira os doutos fanáticos do seu tempo.
Há vários séculos que a Igreja Católica exercia todo o seu poder para subjugar os povos mas nunca a sua garra foi tão feroz como quando os reis católicos espanhóis permitiram o seu “Santo Ofício”. Nessa longa noite da História da Humanidade ardiam, quase ininterruptamente nos territórios de Espanha, Portugal e Itália as fogueiras acesas pelos domadores de consciências e alimentadas pelos “heréticos” condenados sem remissão.

ÃL;€ medida que as descobertas científicas e o estudo dos filósofos e dos sábios da Grécia antiga faziam abalar os principais alicerces que sustentavam a concepção geocêntrica e aristotélica do universo, fundamentos do catolicismo, era posto em causa o poder eclesiástico. Copérnico demonstrara já que a Terra não era o centro do mundo e que girava sobre si-mesma à volta do Sol; Giordano Bruno fora queimado vivo por defender as mesmas ideias e desenvolver um conceito de Deus e do Universo cuja excelência transcendia os limites da estreiteza mental do seu tempo; Kepler tinha dado a representação do sistema solar e as 3 leis relativas ao movimento dos planetas à volta do Sol, e Galileu Galilei, o pai da ciência experimental - descobrira os anéis de Saturno, as fases de Vénus, 4 dos satélites de Júpiter e era mais uma voz a afirmar o heliocentrismo - perseguido pela Inquisição, abjurara, deixando a tristemente célebre expressão da sua impotência: E pur si muove.

É neste cenário que vamos encontrar em Amsterdão
a família Spinoza, Michael e Hanna Deborah, judeus sefarditas portugueses que ali encontraram refúgio para uma já longa perseguição. Aí nasceria, no mesmo ano em que Galileu foi denunciado à Inquisição, a 4 de Novembro de 1632, Baruch de Spinoza.
O jovem Baruch foi, assim, educado na boa tradição judaica - com tão bons resultados que chegou a supor-se que viria a ser rabi - e estudou ainda latim, grego, filosofia e ciências da natureza (física, mecânica, química, astronomia e fisiologia).
Naquele tempo a sociedade calvinista holandesa tolerava os judeus, embora não fossem sequer considerados cidadãos - era preciso suportar “a alma do negócio” que residia na comunidade judaica e que controlava a prosperidade dos inúmeros interesses da Holanda decorrentes da expansão marítima. Apesar deste equilíbrio os judeus de Amsterdão começaram a temer que esta situação de favor se alterasse, pois no seu seio estava a crescer uma certa corrente independente que contestava a dureza da ortodoxia e questionava o Antigo Testamento. As palavras do jovem Baruch de Spinoza punham abertamente em causa os dogmas estabelecidos e faziam perigar toda a comunidade; era de tal modo “subversivo” que foi convidado a abandonar a cidade… mas declinou a oferta.

Após uma falhada tentativa de assassínio, Spinoza enviou uma extensa carta aos dirigentes da sinagoga na qual expôs os seus pontos de vista baseados em argumentos que considerava irrefutáveis - era o ano de 1655 e como consequência desta sua atitude é acusado de heresia, materialismo e desrespeito pela Torah, perante o Tribunal da Congregação Judaica. Pensa-se ser deste ano o Breve Tratado de Deus do homem e da sua felicidade (BT)).
A comunidade judaica temendo ser anatemizada se continuasse a albergar um pensador que contestava a tão conveniente ideia de um Deus à imagem do homem, decidiu excomungar publicamente Spinoza …”Por decreto dos anjos e por ordem dos santos, excomungamos, execramos, amaldiçoamos e condenamos à danação Baruch de Spinoza (…) Amaldiçoado seja de dia e de noite; amaldiçoado ao deitar e ao levantar. Amaldiçoado ao sair e ao entrar (…) O Senhor eliminará o seu nome da face da Terra e bani-lo-á de todas as tribos de Israel pelo mal causado. Ninguém poderá dirigir-lhe a palavra, pessoalmente ou por escrito, prestar-lhe um favor, estar debaixo do mesmo tecto, aproximar-se quatro cúbitos dele, nem ler qualquer documento por ele redigido ou editado.”1
Com efeito, o clima cultural holandês, sendo dos mais abertos da Europa, atravessava um período de maior tensão, sendo deste mesmo ano um édito dos Estados da Holanda que proibia o ensino da filosofia cartesiana. Recorde-se que Descartes vivera vinte anos na Holanda, entre 1629 e 1649, e ali editara a maior parte das suas obras e expusera o seu método para alcançar a verdade acerca da natureza, do homem e de Deus.

Foi também por esta época que teve lugar um dos episódios mais reveladores da personalidade de Spinoza… A sua irmã Rebekah procurava ficar com toda a herança do pai, que falecera no ano anterior, tendo com este fim movido um processo ao meio-irmão Baruch. O jovem, então com vinte e poucos anos, ganhou judicialmente a disputa e depois de provar a justeza da sua situação de co-herdeiro comunicou a Rebekah que podia ficar com todos os bens, excepto uma cama de dossel com cortinas de que gostava muito.
Spinoza estava excomungado, falido e sem família. Mudou então o seu nome de nascimento Baruch, (que significava “bendito” ou “abençoado”) para Benedictus o equivalente latino, sentindo que perante o Deus verdadeiro do Universo, e para além de todas as crenças e religiões ajustadas aos interesses e deturpada visão dos homens, ele era abençoado. Como veremos pelo que é exposto adiante, para Spinoza a benção é a conquista individual de um estado e não algo que um homem possa conceder ou retirar a outro.

Em 1661 vai viver para Rijnsburg onde conhece Henry Oldenburg2 e começa a escrever a obra pela qual ficaria mais conhecido e que levaria 15 anos a completar, a Ethica ordine geometrica demonstrata ou seja a ordem ética demonstrada geometricamente, designada em geral apenas por Ética (Et); no ano seguinte termina o Tratado sobre a Reforma do Entendimento que consiste num esboço inacabado do método correcto para alcançar o objectivo fundamental da existência do homem, “a suprema perfeição humana”, a ideia verdadeira de Deus.
Mas detenhamo-nos agora um pouco para analisar os principais aspectos do pensamento deste filósofo e assim entendermos os motivos de uma tão forte perseguição.

II - O pensamento de Spinoza

- DEUS e a UNIDADE DA VIDA
Por Deus entendo o Ente absolutamente infinito, isto é, uma substância que consta de infinitos atributos, cada um dos quais exprime uma essência eterna e infinita. (Et.I-6)
Ao longo dos textos escritos por Spinoza podemos encontrar três sentidos complementares para a compreensão do conceito de Deus, fundamental para o entendimento da sua filosofia: Deus como o absoluto, a origem donde tudo emana; Deus como a substância3, única e infinita e com infinitos atributos; Deus como Natureza. O Ente eterno e infinito, a que chama Deus ou Natureza age em virtude da mesma necessidade pela qual existe. Como não existe em virtude de nenhum fim também não age em virtude de nenhum fim e do mesmo modo que não tem princípio nem fim para existir também não tem princípio nem fim para agir.
Provando a existência de Deus, conclui que Ele é absolutamente causa primeira de todas as coisas e a Sua própria causa (causa sui) dando-se a conhecer através de si-próprio.

O homem, com as suas limitações, não pode apreender cabalmente o que é Deus mas pode ir conhecendo os seus atributos eternos e imutáveis, aos quais Spinoza dá o nome de Propria (são Propria porque são apenas adjectivos que não podem ser compreendidos sem os substantivos, ou seja, são “qualidades” que só podem ser apreendidas pela manifestação através da substância).
Em primeiro lugar Deus é a causa de todas as coisas, e por isso entende-se que é uma causa emanativa ou causa produtiva de tudo e, na medida em que essa emanação envolve actividade, ele é também causa activa ou operativa; por outro lado, Deus é imanente pois tudo aquilo que produz está contido em si-próprio e não lhe é exterior, e Deus é também causa livre ou causa natural pois Ele é a Sua própria vontade, pela qual faz aquilo que faz. Além de ser a causa primeira ou inicial é também a causa universal e a proximate cause de todas as coisas que são infinitas e imutáveis (como o movimento, a matéria), e que foram imediatamente criadas por Ele.

Como segundo atributo encontramos a Providência de Deus - consiste no “esforço” ou “instinto” que encontramos não só na natureza como nas coisas individuais para manter e preservar a sua existência; Deus não é só causa para determinar a existência, é também o mantenedor dessa existência (Et. I, 24)
O terceiro atributo consiste na Predestinação Divina pela qual se pode dizer que tudo quanto existe, existe tal como é em conformidade com o que Deus determinou através das leis imutáveis da sua natureza em acção, sem ser constrangido por nada pois tudo é determinado a existir e a operar em obediência aos desígnios de Deus.
Em Spinoza não existe dicotomia entre o mundo perfeito e incorruptível e o mundo imperfeito e perecível; Deus é a Natureza e, como tal, é Ser e Existir, é Natureza naturante4 como ser que concebemos clara e distintamente através de si-próprio e sem necessidade de mais nada além de si-próprio, e Natureza naturada5 que consiste em todos os modos que dependem imediatamente de Deus, ou mais concretamente como as coisas particulares que são produzidas pelas gerais e que envolvem a sua substancialização. Da Natura naturata geral, ou modos, ou criações directas de Deus, apenas podemos conhecer duas: o movimento na matéria e o entendimento no ser pensante, os quais existem eternamente e permanecem imutáveis por toda a eternidade.

Quanto ao Movimento, eterno, imutável e infinito, só pode ser compreendido pelo homem quando se manifesta através da Extensão e dele apenas pode ser dito que é o Filho, Produto ou Efeito criado imediatamente por Deus; quanto ao Pensamento no ser pensante é também Filho, Produto ou Criação imediata de Deus (cf. BT I- 2,3) para toda a eternidade, nela permanecendo imutável, e cuja função é compreender e distinguir claramente todas as coisas em todos os tempos; existe na Natureza por toda a eternidade pois, tal como Deus existe eternamente na Natureza, a sua Ideia também existe no ser pensante (BT II-22/05).
Nesta concepção divina subjaz a ideia fundamental duma unidade que tudo perpassa, pois todas as coisas partilham da mesma natureza seja de um modo mais imediato ou mais afastado da emanação divina primordial, seja como modo geral e eterno, seja como extensão delimitada no tempo; toda e qualquer parte é parte de um corpo maior e nele está contido pois “a Natureza inteira é um só Indivíduo cujas partes, i.e. todos os corpos, variam de infinitas maneiras, sem qualquer mudança do Indivíduo na sua totalidade” (Et. II - Lema VII).

- A IMORTALIDADE DA ALMA e o AMOR A DEUS
“A Alma é uma Ideia que existe na coisa pensante e que surge da realidade de uma coisa que existe na Natureza” (BT II, 23-2). Para Spinoza a Alma participa quer do Entendimento como também da própria Existência, que engloba a própria corrupção e a finitude, perpassando toda Natureza. A Alma tem assim um aspecto dual, sendo o ponto de ligação entre o finito e o infinito, entre o eterno e o perecível, podendo estar unida com o Corpo, do qual é a Ideia, como unida com Deus sem o qual não pode existir nem ser conhecida. Quando se diz que a Alma humana percebe tal ou tal coisa isso significa que Deus, não enquanto é infinito, mas enquanto se exprime pela natureza da Alma humana, ou seja, enquanto constitui a essência dessa Alma, tem tal ou tal ideia. O objecto da ideia que constitui a Alma humana é o Corpo, ou seja, um modo determinado de extensão que existe em acto. Disto segue-se que o Homem consiste numa Alma e num Corpo unidos. A Alma e o Corpo são um só e mesmo Indivíduo (pois a Alma humana, como vimos, é a própria ideia ou conhecimento do Corpo, a qual existe em Deus) concebido ora sob o atributo do Pensamento ora sob o da Extensão.

Como todas as ideias existem em Deus e enquanto a Ele referidas são adequadas e verdadeiras, só podem ser inadequadas e confusas quando se referem à Alma singular. Deste modo, quando dizemos que uma ideia resulta, na Alma humana, de ideias que existem adequadas nela estamos a dizer que na própria inteligência divina existe uma ideia de que Deus é a causa, não enquanto é infinito, nem enquanto é afectado pelas ideias de muitas coisas singulares, mas apenas enquanto constitui a essência da Alma humana. Estas noções são fundamentais para a compreensão da teoria do conhecimento em Spinoza, na qual encontramos a distinção entre:

i) Conhecimento pela experiência vaga, dado pelos sentidos, pelas recordações ou pelas ideias que formamos - é o conhecimento do primeiro género, opinião ou imaginação; é a única causa da falsidade, do erro e das ficções;

ii) Razão ou conhecimento do segundo género - resulta do facto de termos noções comuns e ideias adequadas das propriedades das coisas. Os fundamentos da Razão são noções que explicam o que é comum a todas as coisas e que não explicam a essência de nenhuma coisa singular; como tal, devem ser concebidos sem nenhuma relação com o tempo, mas sob um certo aspecto de eternidade;

iii) Ciência intuitiva - é o conhecimento que procede da ideia adequada da essência formal de certos atributos de Deus para o conhecimento adequado da essência das coisas.
O conhecimento do segundo e do terceiro género são necessariamente verdadeiros e é através deles que podemos chegar à distinção entre o verdadeiro e o falso, pois aquele que tem uma ideia verdadeira sabe, ao mesmo tempo, que ela é verdadeira e não pode duvidar da sua verdade. É no sentido em que a Alma humana percebe as coisas verdadeiramente que ela é uma parte da inteligência divina; na medida em que participa desta infinita inteligência é forçoso que também nela exista algo de infinito. “Assim, embora não nos recordemos de ter existido antes do corpo, sentimos, no entanto, que a nossa Alma, enquanto envolve a essência do Corpo, do ponto de vista da eternidade, é eterna, e que a sua existência não pode ser explicada pela duração” (Et. V, 23). Por esta afirmação surge bem clara não só a pré-existência como a transcendência da Alma relativamente ao Corpo, aspectos dos quais temos conhecimento por intuição. Spinoza diz-nos ainda que é através do conhecimento intuitivo (3o género) que a Alma alcança a suprema virtude e por ele expressa o seu supremo poder e a sua superior natureza: - aquele que conhece intuitivamente, alcança a suprema perfeição humana, é afectado pela suprema alegria e alcança a ideia plena de si-mesmo e da sua virtude, acompanhada da ideia de Deus como causa. É deste género de conhecimento que nasce “o amor intelectual de Deus”, o único amor eterno e que é parte do amor infinito com que Deus se ama a si-mesmo e ama os homens. A salvação do homem consiste num amor constante e eterno para com Deus. “Este amor ou felicidade é chamado nos Livros Sagrados a Glória, e não sem razão”.

Spinoza conclui que Deus não ama ou odeia no sentido que estes termos têm para o homem, castigando ou favorecendo os homens arbitrariamente, rendido à veneração e ao culto que cada um lhe presta; Deus não ama nada em particular, mas não abandona o homem ao seu destino pois na medida em que o ser humano é uno com tudo o que existe e participa da mesma natureza, e que tudo forma uma unidade, Ele “expressa”, ou melhor, exterioriza o seu amor eterno através das Leis Divinas que não se destinam a punir ou recompensar pois “são de uma tal natureza que não podem ser transgredidas” (BT II, 24-3) e que constituem as regras eternas que agem continuamente e que foram inculcadas por Deus na Natureza, de acordo com as quais tudo vem à existência e nela permanece… As únicas leis que podem ser transgredidas são as leis do Homem.
Tendo demonstrado que algo na Alma humana é eterno, Spinoza afirma ainda que quanto maior é o número
de coisas que a alma compreende através da Razão e da Intuição menos ela sofre com as afecções que são más e menos teme a morte, pois na medida em que se aproxima do conhecimento de Deus, i. e., ama Deus, menos é afectada pela morte; “Segue-se daqui que a Alma humana pode ser de uma natureza tal que a parte dela que nós demonstrámos que pertence ao Corpo não
tenha nenhuma importância em proporção com aquela parte dela mesma que permanece” (Et. V, 38). “Se conseguirmos conhecer Deus, pelo menos com um conhecimento tão claro como aquele que nos dá a conhecer o nosso corpo, ficaremos unidos a Ele de um modo ainda mais estreito do que estamos unidos com o Corpo” (BT II. 19-15), alcançando assim a imortalidade pela união com o Eterno através da Razão e da Intuição.

- DA LIBERDADE DO HOMEM
Os homens supõem comummente que todas as coisas da Natureza agem tal como eles próprios para atingir um fim e julgam que também Deus dirige todas as coisas para determinado fim pois crêem que Ele tudo dispôs em consideração ao homem e aos seus interesses e que criou o homem para que este Lhe preste culto.
Deste preconceito resulta que o próprio homem se acha superior a tudo o resto e julga que todas coisas ao seu alcance são instrumentos que manobra a seu belo prazer para alcançar o que lhe é útil, tendo engendrado diversas maneiras de Lhe render culto para ser mais favorecido que o seu semelhante.
Esta concepção finalista subverte completamente o carácter divino de toda a Natureza como expressão de Deus, sendo totalmente contrária à concepção de um Ser Perfeito. Esta tese só é útil àqueles para quem este “é o único meio de que dispõem para se valerem de argumentos e manterem a autoridade”.

E assim se enganam os homens que se julgam livres pois têm apenas consciência das suas acções mas ignoram todas as causas pelas quais são determinados a agir. Crêem que são movidos pela vontade mas ignoram o que esta seja e como é determinada a acção. Na Alma não existe vontade absoluta ou livre pois a Alma é condicionada a querer isto ou aquilo por uma causa, também esta determinada por outra… e assim até ao infinito.
A verdadeira liberdade consiste no conhecimento intuitivo da necessidade imutável e universal. Para ser verdadeiramente livre o homem deve reconhecer que tudo tem o seu fundamento em Deus, conhecer as suas leis e na posse desse conhecimento tornar-se concordante com a ordem divinamente estabelecida. Libertar-se-á, assim, dos afectos que vão manietando o seu espírito e o impedem de alcançar a perfeição.
Esta doutrina ensina-nos que agimos apenas pela decisão de Deus, que participamos da Sua natureza
e tanto mais quanto as nossas acções são per-feitas (conformes à Lei) e quanto melhor conhecemos Deus. Ensina-nos também como devemos conduzir-nos perante as reviravoltas da fortuna e a ser benevolentes para o próximo, não por pieguice mas por orientação racional, e traz “grandes vantagens para a constituição do Estado, enquanto ensina de que maneira devem ser governados e conduzidos os cidadãos, de maneira a que não sejam escravos mas realizem livremente as melhores acções”. O bem supremo da Alma é o conhecimento de Deus e a suprema virtude da Alma é conhecer Deus, sendo a união com a natureza o mesmo que a união com a própria divindade. Agir por virtude é agir sob a direcção da Razão e chegar ao conhecimento de Deus, o que pode ser alcançado por todos os homens uma vez que participam da natureza una. Para além disso, cada homem que alcançar este bem supremo desejá-lo-á para todos os outros seres humanos pois é também na intelecção dessa unidade e na participação desse conhecimento com outros homens que reside a sua felicidade.

Os homens livres são utilíssimos uns aos outros, ligam-se por uma estreita amizade e esforçam-se por um movimento de amor igual, em fazer bem uns aos outros, criando entre si laços de uma gratidão recíproca; regem-se pela força de alma, pela generosidade, pela boa-fé e pela virtude. Com base nesta tão excelente noção de fraternidade e de comunhão dos valores supremos, Spinoza desenvolveu múltiplas considerações de carácter político e social sendo apologista de que deveriam ser dadas condições para a liberdade de expressão individual, acreditando que deste modo os instintos nobres e belos do ser humano poderiam ser plenamente apreciados e desenvolvidos.

- A REFORMA DO ENTENDIMENTO
Um dos contributos fundamentais do pensamento de Spinoza é o facto de ter feito deslocar o centro da reflexão filosófica, que derivava da consciência individual para algo transcendente (incorrecto no seu modo de ver pois o ser humano não pode partir das suas limitações para conhecer o que é perfeito e eterno), para uma perspectiva em que não se parte do eu mas de Deus, do Todo, da Substância, da qual a consciência individual é apenas um modo. Esta mudança de perspectiva é de extrema importância porque é a partir dela que poderá dar-se a conciliação entre o mundo espiritual e o mundo material (até então irredutivelmente opostos para o pensamento ocidental), a integração do real no transcendente e o reconhecimento da unidade fundamental que a tudo perpassa.

As ideias do homem são, como vimos, adequadas e verdadeiras quando se relacionam com Deus e esta certeza é dada pelo facto do nosso pensamento ser, no fundo - enquanto racional e intuitivo - o próprio pensamento de Deus. Sendo este o ponto de partida para o correcto modo de pensar; o raciocínio deve depois seguir uma ordem geométrica, e isto porque a acção constante das leis divinas se exerce pelo rigor matemático da fonte que as emana, sem possibilidade de erro - o que, traduzido em termos de extensão (espaço/tempo) é, com efeito, uma progressão geométrica do plano de Deus; um sentido mais concreto é o de que, conhecendo as leis divinas, podemos deduzir (e não imaginar) os seus efeitos e, ainda, que as próprias acções humanas se encadeiam umas nas outras com uma inevitável repercussão. O recurso ao método geométrico de exposição é utilizado por Spinoza para apresentar e defender o seu pensamento, pois se uma verdade geométrica é verdadeira ou falsa independentemente da sua existência real - é verdadeira como essência sem depender da sua existência ou actualização, e a matemática, através dos seus teoremas, axiomas, demonstrações e corolários é cientificamente irrefutável - a geometria, aplicada igualmente ao pensamento filosófico, pode levar-nos à dedução de proposições verdadeiras a partir dos primeiros enunciados.

Como o conhecimento deve agir sobre o homem, a reforma do entendimento implica uma mudança do modo de ser e de viver; determinando que a esta se suceda uma reforma ética, social e política, aplicando-se à filosofia moral, à ciência da educação das crianças, “conduzindo à elaboração de uma Medicina honesta” e “de nenhum modo se há-de menosprezar a mecânica” (pela qual podemos ganhar muito tempo e bem-estar na vida). É neste sentido que fará uma apresentação do Estado sob o ponto de vista do direito natural, exortando o poder político a assegurar a paz interior dos indivíduos de modo a garantir a livre expressão do seu pensamento. Esta reforma do entendimento, conduzida pelo método geométrico, levará a um outro aspecto interessante da obra de Spinoza pois será ele que irá dar início à análise científica de textos da tradição religiosa ao abordar diversas questões relacionadas com a interpretação do Antigo Testamento e à exposição de vários dos seus aspectos contraditórios (Ver Tratado Teológico-Político), quer sob o ponto de vista histórico quer sob o ponto de vista filológico, enunciando uma série de princípios para a sua correcta interpretação.

III - Os últimos anos
Em 1663 Spinoza foi viver para Voorburg nos arredores de Haia, num pequeno quarto em casa do pintor Daniel Tydemann. No ano seguinte publica uma das poucas obras editadas durante toda a sua vida, o Princípio da Filosofia de Descartes (Renati Des Cartes principiorum philosophiae) e Cogitata Metaphysica; o sustento do dia-a-dia ganhava-o como polidor de lentes, arte que aprendera na sua juventude. As lentes ópticas eram muito procuradas na Holanda pois tinham utilidade no florescente comércio de diamantes, em telescópios náuticos e como artefacto para gente rica - os óculos de leitura. Segundo os seus biógrafos, era um especialista nessa arte e as suas lentes eram muito procuradas..
Concluído em 1665 e publicado por volta de 1670 o Tratado Teologico-Político de Spinoza, foi denunciado pelo Conselho da Igreja Calvinista de Amsterdão como “um trabalho forjado no Inferno por um judeu renegado e o Diabo (…)”. Apesar disso, pouco tempo depois foi convidado pelo Eleitor Palatino Carl Ludwig a leccionar Filosofia em Heidelberg, mas não aceitou a oferta pois fora-lhe feita a exigência de que os seus ensinamentos não contrariassem os da Igreja.
As suas poucas obras publicadas estavam proibidas
na Holanda mas circulavam em círculos restritos, sendo estudadas e comentadas, e mereciam o reconhecimento de figuras notáveis da época na Europa; esta divulgação vem aliás explicar toda a perseguição de que foi vítima e que é totalmente desproporcionada se considerarmos apenas os textos editados.

Os últimos anos da sua vida foram igualmente simples e solitários, embora já com o reconhecimento de distintas personalidades da época como é o caso do seu amigo Henri Oldendurg, Robert Boyle, Christian Huygens e
do filósofo Leibniz que com ele se correspondeu e que se inspirou nas suas ideias; Leibniz chegou mesmo a visitar Spinoza pouco tempo antes deste morrer.
Os estudos biográficos feitos até hoje têm vindo confirmar a integridade dos seus princípios, baseados na
simplicidade de vida (diz-se que se alimentava de sopas de leite e de papas de aveia com passas) e a firmeza e fidelidade às suas convicções, talvez inspirado na figura exemplar de Giordano Bruno.
Coerente com as suas ideias, levava uma vida modesta e recolhida, pois não lhe interessavam bens, honras ou fama. Recusou avultadas ajudas financeiras que alguns amigos e admiradores puseram à sua disposição, vivendo apenas com o necessário para a sua subsistência e confinado ao espaço do seu pequeno quarto. Segundo os biógrafos, um dos seus maiores prazeres era estar na sua modesta divisão, a fumar cachimbo e a ler um dos 160 livros que constituíam a sua biblioteca.

Doente de tísica, uma doença associada à tuberculose, agravada pela contínua inalação de pó de vidro, Spinoza morreu em 21 de Fevereiro de 1677, com 45 anos. Numa das suas gavetas foram encontrados diversos manuscritos incluindo a obra pela qual sempre será recordado, a Ética. Estes trabalhos6, as suas cartas e a Opera Posthuma7 foram publicadas ainda nesse mesmo ano, mas sem autoria, pois Spinoza deixara escrito que não queria que existisse nenhuma doutrina com o seu nome. Contudo, as autoridades da época fizeram a identificação da sua obra com a intenção de a considerar “profana, ateísta e blasfema” e para a banirem com o pretexto de que “enfraquecia
a fé” e “vilipendiava a autenticidade dos milagres”.
CAUTE foi a divisa que Spinoza adoptou durante toda a vida e que até os seus admiradores seguiram durante bastante tempo.

Alda Marques
Licenciada em Filosofia; Assessora Principal do Ministério da Cultura

1 in KASHER, Asa e BIDERMAN, Shlomo - Why was Baruch de Spinoza Excommunicated?, 2001

2 Henri Oldenburg (1618-1677) foi um dos dois Secretários da Real Sociedade de Londres para o Desenvolvimento do Conhecimento Natural, na sua Carta de Fundação em 1662. Correspondeu-se com as mais notáveis personalidades do seu tempo. Cientistas, filósofos, naturalistas e físicos nas Ilhas Britânicas e também na Europa continental - Boyle, Hevelius, Leeuwenhoek, Malpighi e Newton, vários membros da Academia das Ciências de Paris e da Academia del Cimento em Itália foram apresentados ao mundo por Oldenburg.

3 Substância - é definida por Spinoza como “algo que existe em si e que é concebido por si mesmo; ou seja, cujo conceito não precisa do conceito de nenhuma coisa para existir.”

4 Natureza naturante - é o que existe em si e é concebido por si ou seja, aqueles atributos da substância que exprimem uma essência eterna e infinita i.e. deus enquanto causa livre.

5 Natureza naturada - é tudo aquilo que resulta da necessidade da natureza de Deus, ou seja , dos atributos de Deus, e. de todos os modos (manifestações) dos atributos de Deus, enquanto são considerados como coisas que existem em Deus e não podem existir nem ser concebidas sem Ele.

7 A publicação da Opera Posthuma foi feita por amigos de Spinoza em Amsterdão e compreendia: Ética, Tractatus Politicus, Tractatus de intellectus emendatione, Epistolae, Compendium Gramatices Linguae Hebrae - em 1678 aparece a tradução destes textos em língua holandesa.

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