A Magia do Xadrez

Procedente da Índia, os Persas e, depois, os Árabes irradiaram esta prática mítica e fascinante, levando-a consigo na sua expansão por todo o mundo ocidental. O xadrez percorreu a História, cativando estadistas, pensadores, literatos, artistas… Constou, expressamente, de testamentos de numerosas figuras ilustres e de gerações de respeitadas famílias, considerado, que era, um património de elite, um bem precioso. Em muitas nações, era jogado somente entre a realeza e as estirpes mais elevadas do organismo social, e cada partida era sempre acompanhada de uma atmosfera de solenidade, num cenário - quase diríamos - religioso.

A História e algumas (talvez não mais que) lendas referem-no ocupando renomadas personagens tão díspares, no que se refere ao carácter como também ao seu papel social, como Akbar, o célebre imperador mongol da Índia; Afonso X, de Castela (cognominado “O Sábio”, e que, inclusive, deixou um dos mais importantes códices sobre xadrez, o Libro de los Juegos); Cristóvão Colombo e os Reis Católicos; a corte francesa, ao tempo da Revolução (sussurrando-se que o Conde de Saint-Germain o tenha jogado, com arte e perícia inexcedíveis); o Czar russo Pedro, o Grande; Napoleão Bonaparte; o Imperador Aleixo I (em Constantinopla). Diz-se que Cleópatra presenteou Júlio César com um magnífico jogo de xadrez em alabastro.

Originalmente, o jogo encerrava um simbolismo vivo e glorioso, na visão hindu, representada pela casta dos Kshatriya 1, e que, depois, pouco-a-pouco se desvaneceu. Figurava a luta entre duas forças - do bem e do mal, da luz e das trevas -, entre os deuses (devas) e os titãs (asuras), no fundo, entre as forças elementares da natureza (sendo esta o palco, sempre mutável, da Vida, ali simbolizado pelo tabuleiro). Nele se representava como que a precipitação momentânea de determinadas forças cósmicas que cada um (jogador) deveria saber incorporar, adestrando o seu discernimento (raciocínio) e exercitando o seu “saber”. Era considerado como que uma “prova” de cariz transcendental que cada candidato se aprestava a empreender - qual Batalha de Kurukshetra, epicamente cantada no Bhagavad-GÃL;®ta. Com efeito, os Kshatriya eram os indivíduos pertencentes à casta guerreira ou real, e a sua acção está indelevelmente associada ao cenário de Kurukshetra ou Dharma-kshetra (literalmente, “Campo da Justiça, Lei ou Dever”; Kshetra = campo ou local onde semeamos “as boas e más sementes das nossas acções”), aí onde, alegoricamente, se deu a famosa Batalha, com este mesmo nome, cujo protagonista Arjuna 2 foi guiado por Krishna.

No tabuleiro, o branco representa o substrato ou pano de fundo espiritual, em que assentam e se justapõem as malhas da matéria (as múltiplas redes ou tecituras - Planos de diferentes densidades - em que se desdobra o Universo Manifestado). Este branco é suposto ser uniforme e homogéneo, apenas lobrigado, desde este Plano incompleto e imperfeito, através das malhas - o xadrez - da própria matéria na qual polarizamos as nossas vidas. É do “branco” (invisível) que extraímos as nossas energias e a inspiração (direcção) que nos conduzirão nos labirintos do mundo.

A partir daqui, todo o jogo figurativo de forças (mais yin ou mais yang, mais polarizadas na matéria ou mais polarizadas no espírito) se desenrola. O objectivo subjacente era, invariavelmente, estimular a boa utilização do instrumento da inteligência no lidar com as oportunidades constituídas dos obstáculos que a todo o momento se cruzam no nosso caminho.

O tabuleiro - ou távola - apresenta 64 casas, alternadamente brancas e negras, que configuram uma mandala. Na perspectiva anteriormente identificada, segundo a qual apenas na matéria não há uniformidade (o branco seria pleno, inteiro, por detrás dos “palcos” da ilusão), surgem, então, verdadeiramente apenas 32 casas, negras. E estas seriam as casas da “oportunidade”: os 32 Caminhos da Sabedoria” 3.

No que concerne às “personificações” das diferentes forças que integram, e colidem entre si, na esgrima do xadrez, devemos encarar essa luta não de uma forma externa e profana mas, sim, de um enfoque simbólico e psíquico. O xadrez pode e deveria (idealmente) ser jogado de uma perspectiva ética, figurativa da nossa luta interior perante os inimigos mais temíveis: os nossos próprios erros, que detectamos - ali, em cada “cenário” de cada jogo - ponderada e minuciosamente. Procuramos caminhos, mas caminhos de derrube das nossas próprias imperfeições personificadas por símbolos estrategicamente colocados - as peças do xadrez. Isto vale, também, para as duas posições adoptadas por cada um dos jogadores, e aqui não interessa objectivamente a cor das peças.

Na verdade, a luta mais real e mais perigosa é sempre contra um adversário interior (a nossa natureza animal); tudo o resto é (um)a projecção, multiplicada ad infinitum, das nossas próprias imperfeições e insuficiências que injectamos no mundo exterior. O mal verdadeiro radica sempre, antes de tudo, no nosso íntimo mais recôndito e é (também por isso) o nosso mais temeroso inimigo.

O xadrez é um jogo de espelhos
O xadrez pode representar, como vimos, o exercício de uma disciplina ascética. O que colectivamente projectamos no mundo é um jogo de sombras. Neste palco da vida, todos e cada um de nós um dia assumimos a condição de “guerreiros de luz”! E, nessa perspectiva, precisamos de combater o mal no nosso interior e descortinar cada vez mais, cada vez mais lucidamente, o Eu perene - o projector, o farol… o sol - que está por detrás das sombras. É esse, afinal, o objecto das nossas vidas terrenas: o império, a vitória da luz!…

Na realidade, todos somos activamente partícipes e responsáveis pelo devir colectivo. Com cada uma das nossas acções (figurativamente, com cada nova posição avançada no tabuleiro) mudamos a ordem do mundo; o devir pessoal mas, também, colectivo radica em cada novo passo que damos, como ângulos que sucessivamente despontam e se abrem em cima de sempre novas possibilidades. 4

Na abrangência de uma visão mística, quiçá o xadrez pudera, inclusive, ensaiar-se - celebrar-se - de uma forma ritualistíca, nas mentes dos construtores de catedrais. Os ladrilhos - o solo onde pisamos - não raro apresentavam o expressivo padrão de quadrículas alternadamente branco e negro, onde as pedras imbuídas de significado - protagonistas de uma Batalha muito especial -, talvez fôramos nós.

O xadrez como potenciador do Pensamento Abstracto
O pensador que empreende uma partida de xadrez é uma espécie de “fazedor de andaimes” no edifício subtil que é o Pensamento Abstracto. Com efeito, existe uma demarcação, muito nítida em termos operativos, entre os dois níveis em que se move o pensador: a seguir ao (sub)Plano do Pensamento Concreto - cujos limites constituem uma autêntica barreira, da maior rigidez - existe um Mundo de muito maior subtilidade, abarcância e acuidade de percepção das realidades, e de maior e mais rápida mobilidade. O xadrez estimula, assim, a abertura de caminhos em Planos de percepção muito acima do comum. A possível e decorrente incursão nos mesmos, a sua dominação plena… depende, depois, da nossa própria e peculiar Vontade…

As pedras do xadrez
As pedras do xadrez parecem ter sofrido substituições no decurso da sua longa História. No entanto, é possível entrever um simbolismo basilar constante que presidiu à sua figuração:

O Rei, desde sempre, foi a figura axial - e, de um modo sui generis, integra todas as outras; no curso da cruzada (que é cada partida de xadrez), reassume a essência de todas as outras, cujos envoltórios (corpos) - pertença do mundo da aparência, e das mutações e contingências - vão caindo sucessivamente no palco da vida.

O Rei equivale, pois, ao Eu Superior, que tem ao seu serviço os súbditos e servidores constituídos nas restantes peças.
A Rainha, seu complemento e aliada, empreende com ele a dura batalha de cada parada xadrezista (no contexto que vimos abordando, “…de cada vida encarnativa”). Ela simboliza a Personalidade (extensão do Eu Superior, com enfoque e raízes nos mundos materiais) ou carácter assumido em cada uma dessas vidas - com um perfil próprio, e meios e oportunidades que, em cada uma delas, se desenvolvem de forma sempre diversa.

Esta dupla tutela, entretanto, uma instrumentação própria 5 - em linguagem ocultista, o quaternário inferior - que se moverá, depois, de diferentes modos em cada cenário configurado (curiosamente, o nome sânscrito do xadrez era shaturanga: precisamente, “o quaternário”, ou os 4 componentes ou angas). Essa instrumentação é constituída por um corpo mental (ou manásico, na terminologia hindu), simbolizado pelo Bispo/Elefante 6; por um veículo das emoções e do desejo (ou kâmico), simbolizado pelo Cavalo; por um corpo astral-etérico (ou linga sharira), simbolizado pela Torre; e por um corpo físico (o sthula sharÃL;®ra), com os seus próprios sentidos 7, e que abriga e para onde convergem as forças elementais. Os referidos sentidos, e suas correspondências suprafísicas, constituem os meios de relacionamento dos diferentes corpos/instrumentos da Personalidade com o meio externo e envolvente; e as forças elementais (que habitam o Eu Inferior e que são, na realidade, a sua matéria mais elementar) intervêm produzindo o necessário atrito que gera impulso (acção) e evolução - sendo, no seu conjunto, os pivots da nossa consciência material e telúrica. No arsenal xadrezista, simbólica e sinteticamente, são estes (sentidos e forças elementais) os peões - quais guardas-avançados que tacteiam e perscrutam o mundo externo.
Algumas imagens simbólicas associadas às pedras do xadrez
Subjacente ao jogo do xadrez (e impregnando-o), existe um psiquismo colectivo expresso em imagens simbólicas dispersas, associadas às pedras do jogo, que transportam inúmeros significados, como alguns dos que resumidamente se seguem:

O Elefante - O elefante 8 é a montada de Reis, como também do deus Indra 9 e do Bodhisattva Samanta-bhadra. É igualmente um dos nomes atribuídos a Shiva: Suradvipa era o elefante divino.

Mais importante ainda, será assinalar que no panteão hindu figura ainda Ganesha, o deus da Sabedoria (o da cabeça de elefante). Ganesha é também um dos epítetos de Krishna e é equivalente ao egípcio Thoth e ao grego Hermes.

No Oriente, o elefante é pois um símbolo de Sabedoria e é, assim, naturalmente conotado com mais do que uma divindade. É, por outro lado, um agente (um instrumento da acção) e o prodigalizador ou mediador das bênçãos celestes. Simboliza, adicionalmente, aquele que dominou em si os fulgores da carne (diz-se que um elefante não cobre a sua companheira grávida - sendo que o período de gestação é de dois anos - nem outra qualquer, durante esse período). A sua imagem alude à virtude e à castidade.
O elefante, símbolo de uma mente desenvolvida, que subordina e gere os instrumentos que lhe estão abaixo, para um propósito superior, é, então, a imagem da compreensão dos desígnios dos deuses, e da partilha, com eles, do Plano Universal.

O Cavalo - O cavalo é, por seu turno, a montada, o veículo, do homem peregrino, conduzindo-o por entre as escarpas das vastidões terrenas, e guiando-o, depois, pelos labirintos do “limbo” post-mortem. Ele é a força fecundante. Deméter (a deusa da cabeça de cavalo) é a deusa da fertilidade e dos agricultores. No Bhagavad-GÃL;®ta, os cavalos são associados aos sentidos que é necessário, primeiro, apurar e adestrar, e, depois, dominar - para a glória do espírito. Ele é a sensualidade e a emoção, estando muitas vezes conotado precisamente com o elemento água 10.

Frequentemente, o cavalo assume uma simbologia de purificação e de transcendência espiritual - quando sugere, justamente, a necessidade de dominação das forças inferiores e ctónicas. Nesse caso, surge - figurativamente - um cavalo branco; outras vezes, o Pégaso. Este belo cavalo alado, da efabulação grega, era representativo da sublimação do elemento terra e da transcendência das peias deste mundo e sugere, neste caso, a natureza de Buddhi (a oitava superior de Kama). Pégaso cria a fonte Hipocrene (fonte do cavalo), perto do bosque sagrado das musas. Ele é, então, muitas vezes associado às artes, como um seu mentor (e gestor de emoções).

A Torre - A torre é o megalito do poder - ou menir -, condensador da energia divina, da energia da geração. É o lingam (ou linga) na tradição hindu, e está, assim, associado e é aqui representativo do linga-sharÃL;®ra ou corpo das causas formativas (o corpo energético donde radica - e que modela - o corpo físico do homem, com as suas peculiaridades individuais; o corpo que origina os genes e, bem assim, a hereditariedade familiar e a do património comum da humanidade): o homem físico propiciará o casamento perfeito entre o Espírito e a Matéria. É a Bethel 12, dos hebreus, que tem as suas fundações na terra (do barro) mas que se abre às alturas dos céus - glorificando-o.

A torre é, igualmente, um símbolo (e a promessa, ou aceno) de transmutação da matéria bruta, inferior, em algo subtil e gloriosamente transcendente (daí, a frequente representação alquímica de um atanor, figurando uma torre).

Em outros contextos, a torre tem, entretanto, inúmeras atribuições de sentido diverso.

O peão - O peão ou pajem. A imagem das forças cegas, da espontaneidade, do impulso virgem não pensante (e no seu aspecto negativo, da inconsequência, do não medir os efeitos.). O peão é o símbolo da criança, muitas vezes traquina e aventureira, que está sempre diante do perigo, contudo. protegida por forças de uma Natureza inerentemente sábia e abscôndita, com que lida de forma espontânea, graças a um pacto de franqueza e alegria.

De certa forma, o peão pode ser visto também como o próprio corpo físico (o sthula sharÃL;®ra - precisamente, a plataforma donde arbitra e opera o homem nesta etapa da sua polarização nos mundos inferiores), que abriga e para onde convergem as aludidas forças elementais.

A vitória final.
Nessa batalha entabulada, após os muitos e ponderosos lances - expressos em ataques e contra-ataques, em acção e reacção -, o xeque-mate representa, por fim, a transmutação do nosso próprio lado sombra, depois das múltiplas e frequentemente dolorosas experiências, depois de morosos e inumeráveis desafios, ajustes e aperfeiçoamentos, depois de um longo desenvolvimento evolutivo.

Isabel Nunes Governo
Vice-Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

1 A casta a que pertencia o Buda Siddharta Gautama.

2 Diz-se que o príncipe Arjuna fora misticamente engendrado pelo deus Indra, e este é o patrono da nobreza militar, a casta dos Kshatriyas.

3 A tradição oculta hebraica conta 32 Caminhos da Sabedoria (os 10 primeiros Caminhos da Sepher Yetzirah correspondem às 10 Sephiroth, e os 22 que se adicionam são os próprios Caminhos ou linhas que as unem, as relacionam e por onde flui, incessantemente, a energia una). Segundo a tradição islâmica, Deus teria ensinado a Adão 32 letras do alfabeto - a base e a síntese do “Verbo Manifestado”.

4 Esta mesma ideia está contida no I Ching, ou Livro da Mutações (transformações) - compêndio filosófico da Sabedoria chinesa também usado com intuitos de oráculo.

5 Para mais elementos sobre a instrumentação ou os diferentes corpos do “Eu Espiritual”, ver os artigos “A Constituição Septenária do Homem”, in Biosofia o 6.

6 Julgamos que tão-só em Portugal, Brasil e Inglaterra o Bispo toma o lugar tradicional do Elefante (comum a todos os outros países).

7 Talvez se possa correlacionar tais meios sensoriais com os tattvas da filosofia sânkhya.

8 Airâvata, o elefante branco.

9 Como curiosidade, assinalamos o seguinte: Indra é identificado com Varuna (a mais antiga divindade védica), que aparece frequentemente associado a Mitra (nos Vedas, Mitra rege o dia, e Varuna, a noite.). E mitra é o chapéu ou distintivo usado por um bispo - muito mais tarde, o substituto do elefante em alguns países do Ocidente.

10 No frontispício do Parténon, por exemplo, estavam representados cavalos puxando o carro da lua, e esta é um símbolo do elemento água e da emoção.

11 Ver “Transcendência e Imanência de Deus”, in Biosofia o 8; “O Ritual de Circulação da Luz” (Centro Lusitano de Unificação Cultural, Lisboa, Junho de 2001).

12 Por outro lado, era no topo da Torre de Babel que se encontrava a Porta de/para Deus.

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