Espiritualismo ou Primarismo?

Tal como nos momentos de grande efervescência política, já recuados no tempo em Portugal, se usavam os termos “fascista” ou “comuna” como forma primária de insultar, e se invocavam “progressismos” inconsequentes ou se inventavam “reaccionarismos” inexistentes, também nesta época de popularização do ocultismo - tantas vezes, pseudo-ocultismo 1 -, se recorrem às catalogações fáceis para afastar as vozes incómodas que falam de rigor, de qualidade, de conhecimento vasto e fundamentado.

Põe-se o carimbo de “Nova Era”, “Aquariano”, “Uraniano” e “energias do chakra cardíaco” e eis que se abre irreflectidamente a porta a todo o tipo de menoridades, de embustes, de sensacionalismo ignorante, de promessas de Ascensão imediata, de abertura (total!) dos chakras, de alinhamentos das auras dos sete (!!!) corpos, de evacuações para estrelas distantes, de queimas do Karma, de entradas na 4a dimensão, de prazerologias (!!!….) e tutti quanti.

Se, tendo pugnado anos a fio pela causa do Ocultismo (quando tal era manifestamente difícil e impopular) e estando sempre disposto a corrigir os próprios erros 2, à medida que os detecta, alguém - em nome da dignidade, da pureza e da verdade da Ciência Espiritual - alerta para os perigos da irresponsável promoção do que ilegitimamente apresenta o nome de “esotérico”, é de imediato (e com a maior ligeireza) apodado de “pisceano”, “saturniano”, “chato”, “demasiado complicado” e “excessivamente mental”.

Não obstante, continuamos a sustentar que o fomento e apoio, explícito ou implícito, aos negócios, passatempos e fantasias pseudo-espirituais representa não só falta de inteligência e discernimento mas, também, uma profunda ausência de amor. Sim, ausência de amor pela Verdade e/ou pela qualidade; ausência de amor pela legítima e autêntica espiritualidade que, deste modo, se deixa cair na lama; ausência de amor por toda a Humanidade, ao gerar o risco de deitar a perder, por muitos anos, a oportunidade de restaurar no planeta a universal, intemporal e integral Ciência Sagrada da Vida, a única que pode trazer a solução real dos problemas que nos atormentam.

Todos concordaremos, decerto, que qualquer ciência, filosofia, religião, arte ou actividade social deve servir o propósito de ser verdadeiramente útil - sanando os males e sofrimentos, propiciando o bem e uma duradoura felicidade. No entanto, precisamos de questionar os meios mais adequados e eficazes para atingir esses fins. É neste ponto que temos uma total discordância dos métodos que são geralmente seguidos, e que radicam sempre numa visão limitada, superficial, unilateral e imediatista; que pretendem resolver os problemas ao nível dos efeitos epidérmicos, em vez de operar na sua raiz causal.

Alguns exemplos do domínio comum
Tomemos um ou dois exemplos fora do âmbito especificamente esotérico, para que, por analogia, melhor se entenda o que pretendemos dizer.

  1. Continuamos a ter uma cultura que hipervaloriza as esmolas, a caridadezinha, os panos quentes para minorar as situações difíceis que se vão sucedendo em catadupa. Nada temos, decerto, contra o facto de se ajudar quem morre de fome ou de outras carências imediatas, quem está envolvido em situações de grande intensidade dramática. Pelo contrário: achamos que constitui um imperativo de “consciência”. O que não podemos é iludir-nos, julgando que desse modo resolvemos os problemas de fundo, e que não surgirão novas misérias, novas desgraças, novos conflitos. Eles despontam incessantemente, porque as causas que os provocam mantêm-se vivas - e quase ninguém se preocupa com isso. Ter a lucidez para detectar essas causas, e a coragem para enfrentá-las, é na verdade muito mais útil e importante do que a caridadezinha esmoler, às vezes histérica e exibicionista, que suscita muitos aplausos, projecção mediática e beatificações mas que não resolve o mal de raiz. Uma doença grave não se cura com analgésicos, não obstante a utilidade pontual que estes tenham!
  2. Assistimos, estupefactos, aos acontecimentos de 11 de Setembro nos Estados Unidos da América. Passado o choque, logo as pessoas se dividiram em dois campos: os que diabolizavam não só os autores materiais e morais dos ataques mas o islamismo em geral ou, mais ainda, todo o mundo não ocidental (proclamando a superioridade da nossa civilização); os que deram largas ao seu anti-americanismo e o alargaram à anti-globalização (palavra que se usa com a maior ligeireza, como se globalização e capitalismo ou imperialismo americano fossem sinónimos) e ao anti-quase tudo. Assim tem acontecido ao longo das sucessivas guerras que enchem, uma após outras, as páginas do livro da história recente da humanidade. É sempre fácil culpabilizar alguém de modo imediatístico: os americanos, os comunistas, os israelitas, os palestinianos, os indonésios, os brancos, os pretos, os “infiéis”, os islâmicos, etc., etc., etc. - esquecendo os antecedentes, as causas, as mil e uma voltas que o mundo já deu, o outro lado da história que nos recusamos a ver…

Podemos esquecer que os americanos já ajudaram a combater ou foram mesmo determinantes para vencer forças tremendamente opressivas? Mas, ao mesmo tempo, podemos olvidar que já apoiaram, por interesse próprio, alguns dos maiores tiranos, inclusive os que agora se volveram seus inimigos de morte? Podemos esquecer que os americanos auxilia(ra)m economicamente muitos países? Mas, ao mesmo tempo, podemos, olvidar que retiram os maiores dividendos no meio da miséria, da pobreza mais extrema, e que até um prudente egoísmo lhes deveria aconselhar a uma mais equilibrada partilha de recursos? Podemos esquecer as arrogantes, hegemónicas e egoísticas posições de isolacionismo dos americanos? Mas, ao mesmo tempo, podemos olvidar que lhes recorremos e cantamos loas quando necessitamos do seu auxílio? Podemos esquecer que, no seu próprio país, em nome de um desvirtuado sentido de liberdade, se utiliza e até incentiva o uso massivo e indiscriminado de armas, inclusive por crianças, se permite o treino militar de grupos xenófobos e a propaganda das suas ideologias, as mais aviltantes formas de exploração do corpo, de rebaixamento da dignidade humana, de redução de tudo e todos a objectos de negócio? Mas, ao mesmo tempo, podemos olvidar que ali nasceu um novo mundo de oportunidades, entre as quais a de saírem à luz do dia muitas ideias verdadeiramente progressivas, úteis e benfazejas para a Humanidade?

Podemos esquecer que os judeus sofreram, ao longo da história, as mais cruentas e lamentáveis perseguições, culminando no genocídio levado a cabo pelo nazismo? Mas, ao mesmo tempo, podemos olvidar que se consideram O “povo eleito”, que repudiaram, geralmente, a mescla com outras raças, que olham, sobranceiramente, os palestinianos como “os filhos da escrava”? Podemos esquecer que os palestinianos foram desapossados do território onde viviam porque outros decidiram que os judeus ali deviam instalar um país - Israel? Mas, ao mesmo tempo, podemos olvidar que, quando tal aconteceu, os palestinianos já viviam na miséria, podemos olvidar a brutalidade da situação de muitos países islâmicos da zona que, com um rendimento per capita superior ao dos países considerados mais ricos, têm a grande maioria da sua população na indigência, enquanto fortunas colossais se concentram em meia dúzia de mãos? Podemos esquecer que os islâmicos foram tantas vezes agressivos no seu expansionismo e que, regra geral, abrigam costumes obsoletos e deploráveis? Mas, ao mesmo tempo, podemos olvidar que eles, num tempo, foram os vivificadores da civilização ocidental - essa mesma que agora proclama a sua superioridade - e que, inquestionavelmente, deram extraordinárias contribuições para a Arte, a Filosofia, a Ciência, enriquecendo o património comum da Humanidade, incluindo a parcela que agora lhes explora os recursos?

Podemos esquecer que, sob (a falsa) bandeira do Cristianismo, a nossa civilização destruiu, arrasou, massacrou, esmagou e pilhou (as) outras, chegando a fazer desaparecer algumas; plagiou indecentemente as religiões mais antigas (e algumas bem mais pacíficas, especialmente o budismo) para, depois, as catalogar de demoníacas; declarou e manteve guerras “santas”; deu origem aos mais horrendos episódios de matança e crueldade que se possa imaginar e que nenhuma outra civilização - “dita” inferior - jamais praticou? Mas, ao mesmo tempo, podemos olvidar que esses outros povos, depois de entrarem num ciclo descendente da sua história, se voltam para o Ocidente para, como necessidade vital, importar a sua tecnologia, o seu dinamismo e até a sua ciência, por mais limitada (ao confinar-se ao mundo físico) que seja, para não falar do armamento que usam? Podemos esquecer como é aviltante invocar-se Allah para fazer rebentar bombas e explodir edifícios? Mas, ao mesmo tempo, podemos olvidar como é identicamente reprovável invocar as benesses divinas, quando se pensa em vingança ou em perpetuar a (pretensa) superioridade de um povo em particular ou de uma nação em especial? 3

Muitas outras dicotomias deveriam ser acrescentadas para ilustrar como tudo é bem mais complexo do que certos simplismos fazem supor. Centremo-nos, porém, na realidade de que, a esses simplismos, unilateralismos e fanatismos, os círculos espiritualistas não são alheios.

Palavras a recordar
Em Setembro de 1882, o Mestre Koot-Hoomi que, na Grande Fraternidade que assegura o Governo Interno do nosso planeta, trabalha no sector mais definidamente ligado ao Ensinamento religioso - mas da religiosidade que é Amor assente em Conhecimento Sagrado, e que pouco ou nada tem a ver com os sectarismos das diferentes Igrejas; Ele, que é um dos Grandes Seres da mais elevada espiritualidade; Ele, que reverencia O Senhor Buda, e o Senhor Krishna, e o Senhor Cristo, escreveu estas palavras da mais extraordinária precisão e lucidez, ao falar dos males que afligem a Humanidade:

“E agora, assinalarei o maior de todos, a causa principal de quase dois terços desses males que afligem a humanidade desde que essa causa se converteu num poder. Trata-se da religião - sob qualquer forma e em qualquer nação. É a casta sacerdotal, o clero e as igrejas. É nestas ilusões, que o homem tem por sagradas, onde deve buscar-se a origem de tal quantidade de males que são o grande açoite da humanidade e que ameaçam asfixiá-la. A ignorância criou os Deuses e a astúcia se aproveitou da oportunidade. Olhe-se a Índia e olhe-se a Cristandade e o Islão, o Judaísmo e o Fetichismo.

É a impostura dos sacerdotes o que fez a estes Deuses tão terríveis para o homem; é a religião o que faz dele um beato egoísta, um fanático que odeia a toda a humanidade que não pertença à sua própria seita, sem que, por isso, se torne melhor nem mais moral. É a crença em Deus 4 e nos Deuses que converte dois terços da humanidade em escravos do punhado daqueles que a enganam, sob o falso pretexto de salvá-la. Não é o homem - que sempre está pronto para cometer todo o tipo de crimes se se disser que o seu Deus ou os Deuses o pedem - a vítima propiciatória de um Deus ilusório, aviltado escravo dos seus temidos sacerdotes? O camponês italiano, o irlandês ou o eslavo passarão necessidades e verão a sua família faminta e nua, para poder oferecer alimento e vestido ao seu sacerdote e ao Papa. Durante dois mil anos, a Índia suportou o peso das castas, enquanto que só os brâmanes viviam na opulência; na actualidade, os seguidores de Cristo e de Maomé digladiam-se mutuamente em nome e para maior glória dos seus mitos respectivos. Tenhamos presente que toda miséria humana jamais diminuirá até ao dia em que a melhor parte da humanidade destrua, em nome da Verdade, da moralidade e do amor universal, os altares dos seus falsos deuses.” 5

São palavras bem oportunas neste tempo - ainda quando alguma coisa mudou. Além do mais, recordam-nos quanto a pseudo-religiosidade, supersticiosa, fanática e ignorante, é a pior adversária da verdadeira religiosidade. Identicamente, o pior adversário do Esoterismo (que é a Ciência Universal, uma Sabedoria-Conhecimento Integral da Vida, ou Biosofia), é o primarismo ou simplismo pseudo-esotérico.

Ciência Esotérica ou “esoterismos” avulsos?
Por todo o lado proliferam práticas ditas espiritualistas ou esotéricas. No entanto, o que poderia ser a realização de um sonho tornou-se um pesadelo: o que abunda é o negócio, o sensacionalismo disparatado e ridículo ou, na melhor das hipóteses, um pequeno e superficial fragmento, apresentado, com pompa e circunstância, como se a ele tudo se reduzisse. Mesmo neste último caso (repetimos, o melhor de todos os anteriormente considerados), muitíssimo pouco se avança na resolução real dos problemas reais. Só com uma perspectiva global e (omni)abarcante se pode ir à causa dos problemas em vez de remediar alguns efeitos (que logo irrompem de outro modo). Só o Todo é Real; a parte é sempre uma irrealidade. A verdadeira utilidade, dignidade e legitimidade do que pretende o nome de Esotérico só pode existir quando se tem o Conhecimento de um sistema integral.

Com isto, não queremos significar que se conheça tudo, até aos Planos mais profundos (ou elevados, na Hierarquia dos Mundos). Tal é impossível, mesmo para o homem com destacada sabedoria, estando somente ao alcance dos Mestres mais excelsos. Entretanto, pode e deve existir a noção de que existe esse Conhecimento tão vasto e integral e um razoável domínio da pluralidade dos seus aspectos - e não apenas de uma pontinha qualquer, desgarrada do todo.

Definir prioridades
Será melhor limpar as auras - admitindo que quem diz fazê-lo, o sabe realmente fazer - que logo se voltam a “sujar”, ou ensinar claramente o ser humano qual a hierarquia do septenário dos seus níveis de consciência e respectivos veículos, para que se esforce em polarizar-se nos mais elevados e não continue a sujar a(s) sua(s) aura(s)?

Será melhor alinhar os chakras - admitindo que, quem diz fazê-lo, efectivamente sabe do que fala e não leu apenas um livro, e frequentou um curso à pressa e ao acaso -, que logo se voltam a desalinhar, ou ensinar ao homem as leis intemporais que regem o caminho evolutivo e facultar-lhe o conhecimento que lhe permitirá revelar o Divino em si 6?

Será melhor repetir decretos e ladaínhas (até ao ponto de criar estados psíquicos de embriaguez), para obter favores materiais ou “espirituais”, ou compreender as Leis que regem o Universo e, assim, coadunando-se com elas, ser o fomentador do Bem geral?

Será melhor fazer incessantemente passes de energia e técnicas sensuais de relaxamento (até criar estados psíquicos de alienação ou histerismo), ou ter ideias sólidas e globais para os mais diversos sectores da actividade humana, à luz da Sabedoria-Conhecimento Espiritual?

Será melhor fazer vénias e incensar o primeiro guru que se apresente a teatralizar de santidade, a simular milagres e a inventar revelações, ou demonstrar, exaustiva e solidamente, a unidade essencial de todos os Grandes Instrutores de todos os tempos, latitudes e religiões, assim evidenciando que há uma Ciência Universal do Espírito e que as diferentes religiões nunca - nunca, nunca, nunca! - devem ser causa de afrontamentos 7?

Será melhor inventar profecias e dar palpites a torto e a direito - mais a torto que a direito -, ou ter uma amplitude de horizontes tão grande, que permita construir lucida e construtivamente o futuro-que-deve-ser?

A nossa resposta é clara. Não se pode prescindir de uma Ciência Esotérica integral, de uma verdadeira Biosofia; e quem mais não pode do que ver pequenos fragmentos, que se não se ponha em bicos de pés, para tapar os que detêm esse conhecimento - mas, sim, que humilde e honestamente, apoie e difunda o trabalho deles, muito mais vasto e importante.

José Manuel Anacleto
Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

  1. Apesar de muito actual, o problema já se punha há 100 anos atrás. Cfr. o pequeno mas utilíssimo livrinho de Annie Besant “Ocultismo, Semi-Ocultismo e Pseudo-Ocultismo! (Editora Teosófica, Brasília).
  2. Cfr. o artigo por nós publicado no o 6 da Biosofia, “Espiritualismo ou Egoísmo?”, de que este é a natural e prometida continuação.
  3. Em resumo, é preciso compreender que ninguém é inteiramente vítima e ninguém é inteiramente carrasco, e que só assumindo globalmente culpas e responsabilidades se podem resolver situações tão complexas.
  4. Refere-se, certamente, o Mestre, aos estereotipos de “divindades” antropomórficas - que são os ídolos adorados por todas as religiões, no seu lado exotérico.
  5. In “Cartas dos Mahatmas para A.P.Sinnett” (acabam, finalmente, de ser editadas em Português: Ed. Teosófica, Brasil, 2001).
  6. V. Humberto A. Costa, “Adão ou Macaco?”, in Biosofia o 4.
  7. … E não continuem a ser justificadas as palavras do autor de “As Viagens de Gulliver”, Jonathan Swift: “Temos religião suficiente para fazer com que nos odiemos uns aos outros, mas não temos religião suficiente para fazer com que nos amemos uns aos outros.”.

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