Um Conto sobre a Unidade da Vida

Diz a lenda que um Bodhisattva* caminhava pelos campos embevecido pela extasiante beleza que o circundava. Na verdade, em torno tudo era Sabedoria expressa nas belas e indescritíveis formas e cores daquele momento que a Natureza lhe presenteava.

De súbito, no horizonte, avistou uma pomba. Voava com dificuldade, cansada e dorida pelas agruras do seu percurso, pela dureza da vida. Estava prestes a despenhar-se no solo mas, num derradeiro esforço, impulsionou-se para vir cair justo aos pés do Grande Sábio, com a sua suave expressão cheia de sofrimento.

- Imploro-te, Bodhisattva, que me ajudes! Venho há muito a ser perseguida por um abutre e já não tenho forças para lhe fugir. Só em Ti vejo a esperança!…

O Mestre lobrigou um enorme pássaro negro que voava naquela direcção. Mas… também ele tinha o sofrimento estampado no seu porte e no seu voo. O Bodhisattva ergueu do chão a pomba e ocultou-a nas pregas do seu vestido enquanto lhe segredava ternamente:

- Aquieta o teu coração. Eu sou o Senhor do Amor e, junto a mim, nada tens a temer.

Então, o abutre acercou-se. O seu semblante era triste, e estava exausto e muito fraco.

- Senhor, tem piedade de mim. Já me não lembro há quanto tempo não vejo alimento. E vi-Te esconder a pomba debaixo das Tuas vestes. Dá-ma, depressa, senão morro!
- Não posso satisfazer-te. Prometi que a protegia.
- Senhor, se não aparecesses no meu caminho, eu teria direito ao que é meu, como mandam as leis da natureza. Não fui eu que fiz as leis e sim os deuses.
- Não posso - disse, pleno de angústia, o Sábio. - Retoma o teu caminho e busca caça em outro lugar…
- Mas isso é demasiado cruel! Não vez que já nem voar posso? Se uma raposa me encontrar nesta condição, estarei perdido! Condenas-me, Tu próprio, a uma morte dolorosa e lenta pela fome ou a que seja devorado por outro mais forte do que eu?!

Num relance o Mestre aquiesceu interiormente que ele tinha razão. Que a pomba igualmente tinha razão. E que Ele, Bodhisattva, também tinha razão ao não renegar a promessa de defender a pomba. Como poderia dizer-lhe a crua verdade de que ela representava o “salário” legítimo do abutre? Não, o seu coração compassivo não podia sentenciar assim. Entretanto, que devia Ele fazer:

Sacrificar a pomba indefesa e desvalida? Não podia!
Sacrificar o abutre sofrido e inocente? Não podia!

Eis, porém, que o Seu coração e o Seu rosto se iluminaram ao vislumbrar a solução:
- Estás certo, abutre. Não tenho o direito de te privar do que a natureza te impôs. Aceita, pois, um pouco da minha carne para satisfazer a tua necessidade.

E um prodígio, então, aconteceu. Uma Balança e um cutelo surgiram no meio deles. O Bodhisattva pegou a pomba, pousou-a com muito jeito num dos pratos da Balança e, cortando o Seu próprio braço, colocou-o no outro. Mas… o fiel da Balança quase se não mexera, e todo o peso se centrava na frágil pomba. Mais um pedaço da divina carne foi cortado… e outro… e outro… e outro. E o fiel da Balança persistia sempre para o mesmo lado.

O Bodhisattva subiu para a Balança, cujos dois pratos de imediato se equilibraram. Uma vida por outra vida!

O abutre, que assistia emudecido, bateu as asas e transfigurou-se:
- Eu sou o deus Indra - e vim para Te pôr à prova!

Nesse momento, uma torrente de Amrita caiu dos céus e sarou o Bodhisattva. O deus Indra, olhando-O solene e reverentemente, anunciou que ainda uma outra vez, em nome do Amor, Ele deveria voltar à Terra - para Servir os homens e todas as criaturas que sofrem. Da longa Geração dos Servidores Iluminados, Ele seria o próximo Senhor Buda! `

José Manuel Anacleto

* Um Bodhisattva está um grau abaixo de Buda. Etimologicamente, significa o que está no equilíbrio ou ritmo (Sattva) da Sabedoria (Bodhi)

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