A Grande Respiração Cósmica

“O aparecimento e o desaparecimento do Universo são descritos como expiração e inspiração do Grande Sopro, que é eterno e que, sendo Movimento, é um dos três aspectos do Absoluto..”

“Quando o Grande Sopro expira, é chamado o Sopro Divino e considerado como a respiração da Divindade Incognoscível - a Existência Una - emitindo esta, por assim dizer, um pensamento, que vem a ser o Cosmos. De igual modo, quando o Sopro Divino é inspirado, o Universo desaparece no Seio da Grande Mãe, que então dorme “envolta nas suas Sempre Invisíveis Vestes”.

Estas passagens da “Doutrina Secreta” - Vol. I - Cosmogénese 1, publicadas em 1888, contêm em si a essência do que Alfred Friedmann 2 viria, em 1922, a deduzir: O Universo está em expansão.

De facto, tendo concluído que o Universo parecia idêntico 3 qualquer que fosse a direcção em que se olhasse - isotropia - e que o mesmo acontecia qualquer que fosse o ponto ou local do espaço donde se fizesse a observação-homogeneidade - Friedmann mostrou que não se poderia esperar que o Universo fosse estático como Einstein tentara, erradamente, provar.

O modelo de Friedmann previa que as galáxias estavam a afastar-se com uma velocidade que era proporcional à distância a que elas se encontram de nós. Por outras palavras, quanto mais longe elas se encontram, mais depressa se afastam. Isso mesmo foi observado por Edwin Hubble em 1924 que, medindo o posicionamento das riscas espectrais da maioria das galáxias, verificou que elas se encontravam desviadas para o vermelho, ou seja, todas se afastavam de nós. Posteriormente, e usando o telescópio do Monte Palomar para medição de galáxias ainda mais afastadas, Hubble chegou à seguinte conclusão, que é, hoje em dia, conhecida como a Lei de Hubble:

“O Universo está em expansão e a velocidade de recessão das galáxias é directamente proporcional às suas distâncias à Terra. ”

Figura 1

Essas velocidades são da ordem das dezenas de milhares de quilómetros por segundo.
Embora Friedmann haja descoberto apenas um, na verdade foram deduzidos três modelos possíveis para o Universo. Em todos eles, as duas variáveis determinantes do destino do Universo são a densidade média da matéria-substância, visível e invisível, e a velocidade ou ritmo de expansão da mesma.

Assim, se a densidade de matéria for inferior a um dado valor crítico (W< 1), a atracção gravitacional 5 não poderá deter a expansão do Universo, embora o possa abrandar um pouco. O Universo expandir-se-á para sempre.

Se W =1, a velocidade de expansão é suficiente para evitar o colapso gravitacional. A velocidade a que as galáxias se afastam umas das outras torna-se cada vez menor, embora não se anule.

Se W > 1, a velocidade de expansão do Universo não é suficiente para compensar a atracção gravitacional entre as diferentes galáxias e a expansão parará - para depois iniciar-se o movimento inverso, de contracção. O Universo implodirá no que é chamado de “big crunch”.

Este modelo de Friedmann faz lembrar um pouco o que se passa, em escala mais reduzida, quando se pretende colocar um satélite em órbita. Se o foguetão que o transporta atingir a velocidade de 11 Km/seg , consegue libertar-se da força de atracção da Terra e entrar em órbita. Se não, não conseguirá escapar e descreverá uma trajectória parabólica que o levará a esmagar-se contra a superfície do nosso globo. Pelo contrário, se a sua velocidade for muito maior que 11 Km/seg, ele escapará ao campo gravitacional da Terra e atingirá o espaço exterior. Conforme expressou Hermes Trimegisto, “nas grandes como nas pequenas coisas”.

Figura 2

Qual o modelo que melhor descreve o Universo por nós percebido? Será que ele se expande para sempre ou parará de se expandir para, de seguida, iniciar o movimento inverso de contracção? A densidade de matéria visível do Universo, bem como a da “matéria escura” que, não sendo detectada directamente, é “visível” pela influência gravitacional que provoca nas órbitas de estrelas das galáxias e aglomerados galácticos, parece indicar que, a menos que haja outro tipo de matéria ainda não detectada, o Universo expandir-se-á para sempre. No entanto, caso se venha a detectar outro(s) tipo(s) de “matéria escura” (conforme o Ensinamento Teosófico e Esotérico), a densidade do Universo poderá ser suficiente para obrigar a um abrandamento progressivo na velocidade de recessão das galáxias. O Universo acabaria por parar de se expandir e iniciaria o movimento oposto, de contracção. Nesta perspectiva, a gravidade, que das 4 conhecidas é a força mais fraca da Natureza, levará o Universo a contrair-se até ao momento em que, no culminar da aproximação, terá lugar o “big Crunch”, tal como previsto pela teoria da Relatividade Geral de Einstein. De acordo com esta teoria, os ciclos de expansão e contracção suceder-se-ão indefinidamente, originando assim um universo oscilante, com um ritmo e periodicidade que, em muitos aspectos, nos lembram os “Universos inumeráveis manifestando-se e desaparecendo (…) como o fluxo e refluxo periódico das marés” da 2a proposição da “Doutrina Secreta”.

Esta periodicidade de expansão e contracção encontraria paralelo também naquilo que, na Cosmogénese de H.P.B. 6, é descrito como o Grande Sopro da Divindade Incognoscível. Quando o Grande Sopro expira - expansão do Universo - os mundos vêm à existência e, no universo físico, os quarks dão origem aos protões e neutrões 7. Estes e os electrões, por acção das forças electromagnéticas recém aparecidas, formarão átomos, e a matéria assim constituída originará as estrelas e galáxias, os sistemas solares e os planetas onde moléculas complexas, integrando elementos formados nas estrelas mais antigas, permitirão o aparecimento da vida, tal como a conhecemos. Por fim, o despertar da consciência individual e grupal darão, a todos e a cada um, sem excepção, e como consequência do seu esforço continuado no desdobramento das potencialidades latentes, a possibilidade de participarem na direcção, sustentação e harmonia do Todo, do qual somos parte integrante. Como dizia S.Paulo 8 ao discursar no areópago em Atenas, “. N´Ele vivemos, nos movemos e temos o nosso ser.”

Quando o Sopro Divino é inspirado - contracção do Universo - os mundos manifestados desaparecerão na implosão final - big crunch - para, após um período de repouso, se reiniciar o ciclo de manifestação.

As soluções de Friedmann de que nos falam os cosmólogos têm, todas elas, uma característica comum que é a de que, num dado momento de um passado muito, muito distante, a distância entre as partículas que viriam a dar origem ao Universo deveria ser praticamente nula. Com o Universo primevo reduzido a um ponto, a densidade de energia e a curvatura do espaço-tempo deveriam ser infinitas. Neste ponto, a que se dá o nome de singularidade, e nestas condições, as teorias cientificas existentes e as leis da física conhecidas não são aplicáveis. A relatividade geral e as outras leis da física deixam de ser válidas. Não é possível saber ou explicar como era o Universo para lá de 10 - 43 seg (tempo de Planck 9) após o big-bang. Antes do tempo de Planck, os campos gravitacionais deveriam ser tão intensos que, segundo S. Hawking, os efeitos quânticos não podem ser desprezados. Uma teoria que combine a Relatividade Geral, que explica o macrocosmos, com a M.Quântica, que descreve o microcosmos, o mundo subatómico dos quarks e gluões, parece ser indispensável para se poder penetrar nesse véu que teima em esconder os segredos do Universo da curiosidade da ciência. É o que explica o infinitamente grande - relatividade - dando as mãos ao que descreve o infinitamente pequeno - Mecânica quântica - numa tentativa de empurrar para mais longe a fronteira do conhecimento humano, por detrás da qual se esconde “Aquilo que é e todavia não é”, como tão subtilmente vem expresso nas estâncias de Dzyan que se referem à Noite do Universo. Não nos sendo “possível conceber seja lá o que for sem uma causa”, deverá haver “Aquilo que é”, que seja a fonte e o destino do Universo tal como é apresentado aos nossos sentidos e à nossa razão: ele existe, está ordenado e evolui.

Os diferentes reinos da Natureza, o nosso sistema solar, a nossa galáxia e os incontáveis aglomerados galácticos que os mais potentes telescópios conseguem revelar, o átomo e a mais insignificante das unidades de vida que compõem, animam e evoluem na Terra, parecem estar organizados em unidades colectivas em que o pequeno se organiza no grande e este, por sua vez, em unidades ainda maiores, numa gigantesca espiral evolutiva onde, desde o mais elementar dos átomos de hidrogénio à mais grandiosa e deslumbrante das nebulosas, todos parecem envolvidos e empenhados. São os quarks no núcleo, os átomos formando moléculas, estas constituindo tecidos que por sua vez formam órgãos. Os órgãos originando sistemas e estes, numa complexidade crescente, tornaram-se indispensáveis aos seres vivos de qualquer dos reinos. É o indivíduo, a família, o país e a humanidade. São os planetas integrando os sistemas solares e estes, aos milhões, compondo as galáxias que se estendem, no espaço e no tempo, para lá do que a imaginação e o engenho humano podem, por enquanto, alcançar ou representar. “Aquilo é e… todavia não é”.

Fernando Nene
Licenciado em Microfísica e Engenharia.

1 Estâncias de Dzyan. Estância I - A Noite do Universo
2 Físico e matemático russo, um dos poucos cientistas que tomou a Relatividade Geral de Einstein por aquilo que ela era e não tentou adaptá-la às suas convicções pessoais, como ato fez o ilustre autor da mesma. A convicção de que o Universo era estático levou Einstein a introduzir a constante cosmológica nas suas equações, o que viria mais tarde a classificar como o maior erro da sua vida.
3 Em 1992 o satélite COBE ( Cosmic Background Explorer ) detectou que, de facto, o Universo só é o mesmo em qualquer direcção se o considerarmos em larga escala. As medições efectuadas revelam variações na intensidade da radiação de fundo - que se pensa ser o que resta da explosão inicial - com a direcção de observação. Estas pequenas variações na radiação de fundo são, pensa-se, consequência da causa que terá estado na origem da formação das galáxias. Segundo os cosmólogos, num Universo primevo em expansão, onde a densidade de matéria varia ligeiramente de local para local, a gravidade terá impedido as regiões mais densas de se expandirem e, por isso, a contracção imposta pelas forças gravitacionais terá levado à formação das estrelas, galáxias e aglomerados galácticos onde viria a despontar a vida tal como a conhecemos.
4 Megaparsec = 1.000.000 <> 10 6 Parsec 1 parsec é aproximadamente 3,26 anos-luz, sendo um ano-luz a distância que a luz percorre num ano à velocidade de 300.000 Km/seg ou seja 9,46 X 10 12 Km. (1 Parsec=3,09 X 10 13 Km)
5 A mesma que nos faz pesar 80 Kg na Terra, menos na Lua e muito mais em Júpiter
6 Helena Petrovna Blavatsky - “A Doutrina Secreta vol I”
7 Constituintes dos núcleos atómicos
8 Actos dos Apóstolos 17, 28
9 Max Planck

License

This work is published under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 2.5 License.

Post a Comment

You must be logged in to post a comment.