Sistema de Plantação Directa - Uma Revolução?

Reequacionando o Milenar Sistema de Lavoura…

O que é o Feijão Mucuna
Pode dizer-se, em jeito carinhoso mas com propriedade, que este feijão - feijão Mucuna - é o feijão mágico, perdido, do velho conto tradicional que nos deixou Andrew Lang. Na verdade, ele produz um milagre que traz riqueza e prosperidade: transforma terreno infértil em terreno verde e fértil. As terras dos deserdados, aquelas pelas quais ‘ninguém dá nada’ - desertos, terrenos que sofreram contínua erosão, solos esgotados e desvitalizados - conhecem a reabilitação para a vida ao serem tocados pela acção deste maravilhoso benfeitor. Ele seria uma importante solução para as vastas regiões improdutivas em África (estamos a lembrar-nos, por exemplo, do imenso e tão penalizado território moçambicano) e em muitos países pobres noutras latitudes (nomeadamente, em vastas regiões tão áridas do Médio Oriente e da Ásia Central, onde, segundo se alega, escasseiam as alternativas ao plantio de opiáceos).
O feijão Mucuna - de que existem múltiplas variedades em estudo 1 - vai, muito particularmente, ao encontro do pequeno agricultor, tantas vezes proprietário apenas de lotes de terrenos pedregosos, de terrenos escarpados ou em socalcos, onde nenhum arado pode operar. Com ele, declina-se em definitivo a agricultura industrializada convencional, com economia de custos de combustível e do recurso nocivo a pesticidas e fertilizantes químicos.

Cultivar sem Lavrar
A plantação do feijão Mucuna faz-se directamente na terra não arada e, fundamentalmente, prepara os solos inférteis para futuras colheitas então diversificadas (alguns chamam-lhe a técnica da “adubação verde”). Esta leguminosa possui um incrível poder vital e vitalizante dos solos. Através de um sistema radicular que chega a atingir 3 metros de envergadura, actua e explora um perfil mais profundo do terreno do que acontece nas lavouras tradicionais. Atrai, de forma notável, a proliferação de minhocas, e são estas, verdadeiramente, as obreiras naturais no arado do solo.

Este sistema realmente ecológico é também equilibrante no que concerne às relações solo/atmosfera na Natureza. Com efeito, os solos passam a absorver carbono - carbono que é hoje perigosamente excedente na atmosfera -, concorrendo assim para travar e reverter as tendentes alterações climáticas do Globo. Por outro lado, como é sabido, todas as leguminosas provêem o solo de uma inestimável riqueza em azoto.
A actividade biológica natural nos subsolos é fundamental. A Natureza é prodigiosamente Inteligente e, agora - com a implementação de um tal sistema, que pode demarcar-se de todas as agressoras regras de cultivo estabelecidas no curso de milénios -, passamos a colaborar com ela e não, como até aqui, a travar-lhe o ‘passo’ com a nossa ‘lógica’ e a nossa acção desestabilizadora. A identidade e a composição dos solos são respeitadas. Com tal sistema, assegura-se, então, um equilíbrio total - ecológico -, e até as ervas daninhas são eliminadas, por conta de um processo seleccionador natural que se libera e estabiliza.

Esta revolução nas práticas do cultivo tem sido de inestimável ajuda na reabilitação de campos, nomeadamente, nas Honduras e na Guatemala. Veio, também, alterar radicalmente os hábitos alimentares de populações desvalidas. Trata-se de uma leguminosa muito nutritiva, se bem que contenha um composto, a Dopamina-L 2, com algum factor de toxidade. Para obviar a este inconveniente (que pode ocasionar dores de cabeça e alterações intestinais, por vezes passageiras, segundo as espécies), devem observar-se alguns cuidados preliminares ao seu uso: descartam-se as vagens, demolha-se durante 12 horas, escorre-se e ferve, adicionando uma colher de bicarbonato de sódio ou de carvão em pó (as soluções alcalinas são antídotos da Dopamina, inactivando-a em certa medida), durante 20 minutos, e deitando-se fora esta primeira água de cozedura. Pode, então, ser cozinhada simples ou em aditivo do pão (a mais importante base alimentar das populações muito pobres), tornando-o muitíssimo mais rico e saboroso. Dos grãos (depois de novamente levados à secagem), igualmente se faz uma farinha que se utiliza para engrossar sopas e molhos, e bem assim se produz leite e queijo de mucuna (de certa forma, à semelhança dos equivalentes derivados da soja). Nestes países, regra geral em solos antes considerados estéreis, tem sido adoptado o chamado ‘sistema de plantação inteligente de rotatividade’, de feijão Mucuna e de soja (em alguns casos, também se verificando a alternância com o sorgo ou com o milho grado, igualmente conhecido por maís).

Surpreendentemente para os muitos cépticos locais - com hábitos de lavoura completamente contrários, de muitas gerações - os solos mais pedregosos e áridos em pouco tempo tornaram-se aglutinados, estruturados e granulados e até o seu odor se modificou: passaram a apresentar um cheiro característico de ‘terra de mato’ - sinal de fertilidade. Nesses campos se reintegram agora gado e culturas, reabilitando-se, assim, a preciosa simbiose (a vitalidade integrada) da terra, de animais e de pastos.

Isabel Nunes Governo
Vice-Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

1 O Mucuna Sloani, o M. Pruriens, o M. Flagilepea, o M. Cocchinchinensis (de sementes brancas, e dos mais apreciados), o M. Utilis (de sementes negras), etc., com diferentes graus de toxidade relativamente à Dopamina - de que falaremos mais adiante -, parecendo depender da proveniência, nomeadamente em termos de latitude.

2 A Dopamina é, no entanto, uma substância com utilizações muito úteis em farmácia; por conseguinte, uma fonte de rentabilidade adicional. No seu estado natural (na Natureza), esta substância é algo tóxica, sobretudo quando não é totalmente consumida (queimada pelo organismo) na combustão própria de uma vida metabolicamente activa (factor regra geral ausente nas sociedades rurais, de hábitos e polarizações intelectuais, letárgicos e passivos, como são habitualmente os casos sobre que nos vimos debruçando). Algumas espécies de Mucuna revelam-se, entretanto, excelentes plantas forrageiras, inócuas e muito particularmente indicadas para os rebanhos laníferos. A Dopamina, apesar de ainda insuficientemente investigada, tem, em Farmacopeia, indicações preciosas e já demonstradas em múltiplos domínios: em disfunções metabólicas (nomeadamente das supra-renais e da hipófise) e do sistema nervoso central - onde intervém, como neurotransmissor, no controlo de actividades mentais, sensoriais, motoras e endócrinas; na doença de Parkinson; na gaguez; na hipertensão arterial; em algumas cardiopatias; na insuficiência renal aguda; nas cirroses hepáticas; em algumas intoxicações barbitúricas e até no desuso de químicos eufóricos (tem sido testada, com algum cuidado e reserva, na reabilitação do consumo continuado da droga Ecstasy, do qual parece proceder alguma inibição, por parte do organismo, da secreção de serotonina).

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