Diálogo com a Natureza - Um “olhar” sobre o método científico

“As referências do conhecimento científico existem primeiramente como leis subjectivas.
Aos homens cumpre teorizá-las, convencionando sistemas e fórmulas que as expliquem e traduzam no mundo objectivo, bem como fazê-las corresponder e adequá-las em técnicas de funcionalidade que sirvam os múltiplos propósitos práticos de progresso e conforto humanos.”
(in Luzes do Oculto, C.L.U.C., 3a ed. Lisboa, 2002)

O grande projecto da Ciência é, sem dúvida, conhecer a Natureza!
Para realizar a sua quota-parte nesse notável desígnio, as ciências físicas utilizam uma metodologia própria - o método científico1 -, que constitui a sua jóia mais preciosa e, simultaneamente, define os seus limites de validade e de aplicabilidade. Esse método consta de uma série de procedimentos e de critérios padronizados que asseguram per si o contínuo aprofundamento do conhecimento científico, tornando-o independente, tanto quanto possível, da influência, dos preconceitos, das interpretações apriorísticas e dos valores pessoais, culturais ou religiosos dos que participam nessa tarefa. Utilizando o método científico os cientistas tentam, colectivamente, construir uma representação correcta, consistente e não arbitrária do Universo.

O método científico pode dividir-se em várias etapas que resumiremos a seguir.

A) Ver, ouvir e conjecturar
Primeiro, é necessário observar atentamente (quando tal é praticável) e descrever, tão completamente quanto possível, o fenómeno ou acontecimento que se pretende compreender, não deixando de questionar minuciosamente todos os aspectos e comportamentos inesperados ou estranhos.

Em seguida, formulam-se hipóteses explicativas, tantas quantas o nosso conhecimento científico e imaginação permitam, estabelecendo, em geral, relações entre causas possíveis e o acontecimento verificado.
As hipóteses têm que poder ser testadas experimentalmente, seja por via directa (realizando, por exemplo, determinada medida), seja indirectamente, testando consequências delas derivadas. Juntamente com as hipóteses, elaboram-se, pois, os procedimentos adequados à sua verificação - a estratégia, digamos assim - e preparam-se os meios necessários para a concretizarmos.

Por vezes, usam-se também modelos simplificativos que ajudam a descrever o fenómeno ou situação a investigar, permitindo fazer-se uma previsão quantitativa dos resultados. É o que acontece quando, por exemplo, admitimos que a Terra é plana para calcularmos a distância entre Lisboa e Santarém, ou que os electrões descrevem órbitas circulares em torno do núcleo atómico para calcularmos a energia do átomo de hidrogénio.

B) Testar
Depois de devidamente concebidos, os testes experimentais deverão ser cuidadosamente executados e, sempre que possível, várias vezes repetidos.
Qualquer realização experimental é sempre acompanhada de uma componente designada por “erro experimental”, proveniente de imperfeições (inevitáveis) nos aparelhos de medida e das limitações impostas quer pelos nossos sentidos quer pelos limites de medida dos aparelhos que registam a informação. Há ainda a considerar as limitações intrínsecas à própria experiência idealizada que, regra geral, põe em relevo apenas uma parte ou aspecto do fenómeno.

Em Ciência, existem modos padronizados para estimar os erros experimentais e a comparação entre a experiência e a hipótese ou teoria é sempre feita dentro do contexto de uma avaliação desses erros. Um resultado sem indicação explícita do erro ou incerteza associado não tem significado em ciência experimental.

C) Analisar e divulgar
Durante a realização dos ensaios procede-se ao registo e armazenamento dos dados que vão sendo obtidos, utilizando dispositivos e técnicas convenientes. Em seguida, esses dados são examinados com rigor e aplicados os métodos de análise adequados, recorrendo a representações gráficas e a modos de visualização auxiliares, sempre que possível.

Todas as diferentes perspectivas de interpretação devem ser exploradas. Todas as relações possíveis com anteriores experiências e com outros dados devem ser estabelecidas. Os resultados inesperados devem ser claramente identificados e equacionados novos indícios para investigação. No final, elaboram-se as conclusões e procede-se à divulgação de todo o trabalho através de uma publicação em revistas da especialidade, tornando-se, deste modo, acessível a toda a comunidade científica.

Soberanía absoluta
Independentemente de quão elegante seja uma hipótese, modelo ou teoria já estabelecida, só constitui uma descrição correcta da Natureza se as suas previsões concordarem e continuamente forem ratificadas pelos resultados experimentais. Se, pelo contrário, estes forem clara e repetidamente incompatíveis com as previsões, o método científico exige que a hipótese seja afastada ou modificada e que a teoria seja abandonada ou redefinidos os limites da sua aplicabilidade. Todos estamos familiarizados com o facto de certas ideias terem que ser abandonadas em face da evidência experimental. O planeta Terra, por exemplo, passou de centro do Universo a centro da trajectória da Lua.

É costume afirmar-se que as teorias científicas nunca podem ser “provadas”, apenas “reprovadas”, uma vez que há sempre a possibilidade de uma nova observação ou experiência entrar em conflito com a teoria estabelecida. É claro que as teorias científicas não são facilmente “descartáveis”. Perante qualquer nova descoberta, começa-se sempre por admitir que ela se deve encaixar no referencial teórico existente e somente quando, depois de repetida verificação experimental, os novos fenómenos não são de todo enquadráveis, os cientistas questionam seriamente a teoria e tentam modificá-la, chegando, por vezes, a revolucionar a nossa visão do mundo. Claramente, a chave da mudança é o método científico e a sua ênfase na experimentação. Afirmações, modelos, teorias que não possam ser testados e confirmados experimentalmente não têm o valor de uma teoria científica e serão, portanto, consideradas apenas como meras suposições ou curiosidades.

Por outro lado, se a experiência confirmar a hipótese, esta pode vir a tornar-se numa teoria científica ou mesmo numa lei da Natureza, sugerindo a sua validade universal. Lembremos, por exemplo, a tão conhecida lei da gravitação ou da atracção universal entre as massas, que tanto explica o facto de nos mantermos “presos” à Terra como de o nosso planeta permanecer na sua órbita em volta do Sol ou ainda de o Universo existir coeso, como um todo.

Deve ter-se também em conta que uma teoria científica não é apenas um conjunto de fórmulas ou afirmações. Ela deve conter em si a capacidade de prever ou antecipar novos resultados, não considerados à partida, dando sempre muito mais informação do que aquela que foi inicialmente utilizada para a constituir como tal. No seu desenvolvimento posterior, as teorias tornam-se, assim, uma importante parte do nosso entendimento do Universo e a base para explorarmos novas áreas do conhecimento.

A manipulação dos resultados
Uma questão pertinente que se pode levantar, é saber se os resultados experimentais podem ser adulterados. Poder, podem. Porém, como os trabalhos científicos só são reconhecidos como tal quando publicados e postos à disposição de toda a comunidade científica, que os analisa, repete, critica, etc., qualquer resultado incorrecto, voluntária ou involuntariamente, é, deste modo, rapidamente corrigido. É a própria metodologia da Ciência que o assegura.

A Ciência é “dona da verdade”?
A Ciência está muito longe de saber “de tudo” e ainda mais longe de saber tudo. Como se depreende do que ficou expresso anteriormente, pela metodologia que segue e pelo recurso à instrumentação (que também é limitada), os níveis de causa e efeito que se situem para além dos seus conhecimentos actuais de manipulação da matéria e da energia estão-lhe inacessíveis. A Ciência explica COMO são constituídas, COMO funcionam, COMO aparecem as diferentes coisas, seres e fenómenos, desde que as causas e efeitos envolvidos estejam ao alcance dos seus meios técnicos e metodológicos.

Então, por que é a Ciência tão arrogante?
O problema não está na Ciência, mas antes em quem nela trabalha. Um conhecido investigador português2 dizia recentemente: “Os cientistas, por definição, deveriam ser as pessoas menos arrogantes, porque deveriam ter a noção de que as certezas de hoje não vão ser as mesmas daqui a cem anos. (…) Mas a verdade é que há de tudo, como em qualquer outra profissão.”

É certo que as ciências físicas possuem um enorme prestígio devido aos sucessos teóricos e práticos que nos têm proporcionado. Por vezes, lamentavelmente, os cientistas abusam desse prestígio, exibindo uma jactância e um sentido de superioridade absolutamente injustificados e contribuindo para uma imagem deformada da essência da actividade científica e do objectivo da Ciência. Não faltam, porém, exemplos, de cientistas, designadamente os que mais se notabilizaram, que constituem referências de humildade, de consciência dos limites do seu conhecimento, e de incondicional dedicação à pesquisa da verdade.

Ciência versus Existência
Existiu, sobretudo por parte do materialismo científico (certamente, ainda com adeptos), uma atitude de excessiva confiança relativamente aos “poderes” da Ciência, acreditando, não só que tudo poderia vir a ser conhecido e explicado através dela, mas também que por ela se acabaria com o flagelo da fome, da miséria e da manipulação humana de toda a espécie.
Poucas décadas de um século bastaram para se perceber a dimensão e os diferentes aspectos desse engano. Como instituição social, a Ciência aparece ligada ao poder político, económico e militar e é confrontada com consequências muito sérias do seu desempenho, sobretudo ligadas ao armamento, à energia nuclear e, mais recentemente, à manipulação genética e à clonagem de órgãos e seres. Além disso, por constituir o fundamento da tecnologia, ela tornou-se também o “bode expiatório” de muitos desequilíbrios, alguns de efeitos desastrosos, da vida social e global do planeta.

Contudo, hoje é já conhecido de muitos (embora ainda não de forma actuante), que a solução dos problemas da humanidade é totalmente indissociável da educação e do nível ético dos seus membros e que a via da evolução da consciência neste planeta é um entrelaçado de Conhecimento, sem dúvida, (”a ignorância é a raiz de todos males”) mas também, e sempre, de Bem-querer. A Ciência não é um fim em si mesmo. É caminho! Caminho indispensável para levar a humanidade mais longe, mais alto e mais dentro.

Para além da Ciência
Um sector da opinião pública com interesses na área do Espiritualismo tem mostrado algum desagrado com o facto de a Ciência não parecer disposta a demonstrar, muitas vezes nem sequer a considerar, a veracidade de fenómenos de uma ordem subtil e extrasensorial, ligados, sobretudo, à possibilidade de existência em outras dimensões (ou melhor, em outros Planos) ou formas, a modos diferentes de “manipulação” da energia, à reencarnação e ao fenómeno conhecido por “regressão a vidas passadas”.

Gostaríamos de afirmar peremptoriamente que, para além da postura de lamentável desonestidade intelectual a que já nos referimos, só por ignorância, preconceito ou má fé pode alguém em Ciência confirmar ou desmentir a veracidade de qualquer um dos factos referidos acima ou outros de ordem semelhante. A actividade científica, esse diálogo complexo entre observação e teoria, não dispõe actualmente de meios, de instrumentos, nem tão pouco de metodologias que lhe permitam investigar esses fenómenos, pelo menos de modo seguro e conclusivo (visto que em algumas áreas há trabalhos interessantes a ter em conta). “Para o fazer, [a Ciência] teria que aceder a Planos superiores, mais subtis, que (ainda) não consegue ponderar.”3

Mas há outra face da moeda, que merece também ser referida. Que esclarecimentos pode e sabe dar-nos o espiritualista sobre esses fenómenos que a Ciência desconhece? E aqui manifesta-se um grave sintoma dos nossos dias, muito difundido através de meios de comunicação social tão acessíveis como o da própria televisão. É que, regra geral, fenómenos como o da regressão a vidas passadas ou a manipulação de “energias divinas” são facilmente propagandeadas e supostamente realizadas sem que aqueles que as praticam saibam explicar com definição, clareza e coerência lógica, como o fazem, baseados em que princípios, seguindo que leis e de acordo com que sistema.

Ora, se algo de belo e verdadeiramente útil nos proporciona o conhecimento científico, é certamente a revelação do carácter não aleatório nem incongruente do funcionamento da Natureza e o facto de tudo nela ser regido por leis e princípios que só quando verdadeiramente conhecemos e compreendemos nos permitem trabalhar, manipular e correctamente criar no seu seio. E em baixo… deve ser como em cima. Logo, das duas uma: ou não se sabe o que se está a fazer e é sempre perigoso e de consequências imprevisíveis agir desse modo; ou, na verdade (e do mal o menor), os anunciados feitos não passam de uma grande charlatanice. Uma boa dose de correcta atitude científica é sempre muito útil para não cairmos em tamanhos logros.

Os homens que apenas fazem experiências são como as formigas, só recolhem e comem; aqueles que não fazem mais que pensar assemelham-se a aranhas, que constróem as teias a partir da sua própria substância.
Mas a abelha escolhe o caminho do meio: ela recolhe o material a partir das flores do jardim e do campo mas digere-o e transforma-o com as suas próprias capacidades.

Não diferente disto é a verdadeira filosofia [ciência]; porque não se apoia somente nos poderes da mente, nem guarda na memória, tal como o encontrou, o material que é fornecido pela história natural e pelas experiências de mecânica; guarda-o antes no entendimento, depois de trabalhado e digerido.
Assim, da mais estreita e autêntica união destas duas faculdades, a experimental e a racional (o que nunca foi realmente feito até aqui) muito deve esperar-se.

Francis Bacon, Novum Organum, 1620

Liliana Ferreira
Licenciada em Física; Doutorada em Física da Radiação; Professora do Departamento de Física da Universidade de Coimbra; Investigadora na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa

1 Introduzido por Francis Bacon (1561-1626), em Inglaterra.

2 Alexandre Quintanilha, entrevista a Diário de Notícias, 24 de Março de 2002.

3 José Manuel Anacleto, Transcendência e Imanência de Deus, CLUC, Lisboa 2002.

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