Educação e Instrução

De acordo com o seu étimo, a palavra educação significa, propriamente, conduzir para fora, isto é, “exteriorizar”, “trazer à luz” as potencialidades que em nós existem - tal como a semente que necessita apenas de certas condições exteriores para que, o que nela está contido em essência, se possa transformar em planta e florescer.

A ideia não é evidentemente nova; mas precisa de ser repensada, pois, frequentemente, os especialistas em educação - como, aliás, quase todos os especialistas - perdem o sentido mais íntimo da realidade. É por isso que se torna urgente insistir neste ponto: Educar é, essencialmente, despertar a verdade mais profunda que em nós existe, para que seja possível o desempenho da própria função, não só na vida social mas também no Universo.

A palavra Instrução tem um significado muito diferente. De facto, enquanto e, de “educar”, nos indica o verdadeiro sentido da palavra (algo que vem de dentro para fora), o prefixo in, de “instruir”, indica-nos precisamente o contrário (algo que vem de fora para dentro). Contudo, estas palavras usam-se, por exemplo, indiferentemente, como se da mesma realidade se tratasse.. Foi por isso, por exemplo, que Émile Durkheim afirmou que “cada sociedade, em momento determinado do seu desenvolvimento, possui um sistema de educação que se impõe aos indivíduos de modo geralmente irresistível, sendo uma ilusão acreditar que podemos educar os nossos filhos como queremos, pois há costumes em relação aos quais somos obrigados a estar em conformidade. Se os desrespeitamos muito gravemente, eles vingar-se-ão nos nossos filhos”.

Esta afirmação de Durkheim deixa claramente perceber que o termo “educação” não está a ser usado de acordo com o seu verdadeiro significado: o de despertar, manifestar a nossa verdadeira natureza. Durkheim deixa transparecer nesta sua afirmação que a educação consiste na adaptação do indivíduo ao convencionalismo social, para que ele possa sobreviver. Ora, é indispensável restituir às palavras o seu verdadeiro significado. Por isso, reconhecemos ser pela educação que podemos ter acesso ao Saber Real, competindo, por outro lado, à Instrução a função de adaptar o indivíduo às convenções sociais (Saber Convencional). Reservamos, portanto, a palavra Educação para designar - segundo a maiêutica socrática 1 - o despertar da verdade e da virtude, existentes em nosso profundo ser mas que, devido a condicionalismos diversos, muito dificilmente se podem manifestar.
Assim, ainda que “educar” e “instruir” tenham, como acabámos de verificar, sinais contrários, as suas funções não são, por esse motivo, inconciliáveis. Diremos até, para que melhor se compreenda a função específica de cada uma, que a educação se destina à Vida 2 e a Instrução à Sobrevivência. E quando nos estamos a referir à Vida não queremos atribuir a esta palavra uma conotação vulgar. Por “Vida” queremos nós dizer o encaminhamento do ser humano para a sua plena realização; e, por “Sobrevivência”, estamo-nos a referir à necessária adaptação do indivíduo a certas condições sociais, pois que, para viver precisamos primeiro de sobreviver, mas em situação alguma devemos matar a vida por causa da sobrevivência.

Do exposto se pode concluir que a Educação não pode ter outro objectivo que não seja o florescimento total do ser humano, segundo as linhas de força da sua individualidade, isto é, de acordo com a sua própria “essência” 3, o que significa que, tendo a Educação um objectivo superiormente individual, tem também um objectivo superiormente colectivo. Só quando cada um de nós se expressa segundo a sua própria essência pode efectivamente dar o seu verdadeiro contributo à “existência”.

Isto significa que cada um de nós tem de ser “aquilo que realmente é”- o que, embora merecendo certamente a concordância da maior parte de nós, só pode ser inteiramente compreendido quando adquirimos um novo ponto de vista. Por outras palavras: ainda que, aparentemente, todos afirmemos a mesma verdade, nem sempre estamos a afirmá-la do mesmo ponto de observação. Por isso, dizer simplesmente que cada um de nós deve ser “aquilo que realmente é” pode não ultrapassar a banalidade. Mas, na verdade, estamos em presença de um problema imenso, que diz respeito ao mistério da Vida e do Universo. Ora, “ser-se o que realmente se é”, uma relação de plena espontaneidade muito dificilmente se pode conciliar com o que disse Durkheim a respeito da educação dos nossos filhos em conformidade com as exigências sociais. Esta é, pois, uma questão fundamental, porque existe quase sempre contradição entre aquilo que realmente somos e o que a sociedade, com as suas convenções e tradições, pretende fazer de nós.

Resumindo: a Educação tem por objectivo o Saber Real. Este Saber interior tem por princípios: a evidência, a unidade e a espontaneidade. A Instrução, tendo por principal objectivo o Saber convencional, exige uma autoridade exterior que pretende situar o indivíduo na sociedade do seu tempo.

Como se pode concluir, tanto o Saber Real, como o Saber convencional são necessários ao progresso do ser humano. Mas a civilização moderna atingiu um grau tão elevado de convencionalismo que, actualmente, quase ninguém admite a existência de um Saber real. Por isso, o reencontro com a espontaneidade original, que corresponde ao despertar da infância primordial, é a missão imensa que nos compete realizar no terceiro Milénio.

José Flórido
Licenciado em Filologia Romântica; Professor de Literatura e Cultura Portuguesa; Autor de vários livros, nomeadamente: “Pietro Ubaldi - Reflexões…” (editado pelo CLUC), “Conversa Inacabada com Alberto Caeiro” e diversas obras didácticas.

1 A palavra maiêutica significa “arte de partejar”. Sócrates escolheu-a para designar o seu método de ensino, estabelecendo analogia com a profissão da sua mãe, que era parteira. Assim, também ele era “parteiro”. No seu caso, “parteiro” das alma, pois que auxiliava a “trazer à luz” a verdade que nelas estava contida.

2 A expressão “Árvore da Vida”, usada no evangelho cristão, indica, de certo modo, o sentido que estamos a atribuir à palavra “Vida”.

3 A palavra “essência” significa propriamento “dentro do ser”, contrariamente a “existência”, que significa “fora do ser”.

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