Mitologia Germânica

A Criação do Mundo, A Árvore da Vida e a Catástrofe de Ragnarok

Mitos e arquétipos sócio-históricos encontram-se em todas as civilizações. Na sua qualidade de suporte de valores espirituais e filosóficos, o mito adquire na existência humana um valor metafísico, que pode chegar a ser fundamento da própria sobrevivência, constituindo-se como antídoto contra a esterilidade espiritual.

É nesta acepção que Mircea Eliade fala do Mito Salvador, porque ao convergirem nas estruturas mitológicas grandes verdades intemporais operantes no passado, constituídas em esperançoso futuro num eterno presente, o mito torna a vida mais compreensível, e portanto mais suportável. É que o mito transcende a temporalidade do tempo histórico, constituindo-se como um precedente, um exemplo, um ponto de referência, e logo é a face transcendente da própria história. 1

Nesta perspectiva a Mitologia dos Povos Germânicos, tal como as suas congéneres clássica e indígena, proporciona uma profícua viagem ao mundo dos arquétipos, manifestação de uma realidade superior de Polaridades alternantes, num movimento cíclico em anel, que R. Wagner tão bem compreendeu, caracterizam a dinâmica desta mitologia, em que dois mitos principais merecem a nossa mais profunda reflexão: o Mito da Criação e o Mito do Fim do Mundo ou Ragnarok.

É interessante verificar que tanto cristãos como gnósticos e maniqueístas, face à polaridade Bem e Mal, consideram que o demiurgo maligno criou o Cosmos físico e encarcerou as psiques-centelhas de luz oriundas da divindade benigna - nas trevas da matéria. O dualismo iraniano, patente nas doutrinas de Zoroastro, considera separadamente o deus do Bem (Ahura-Mazda) que também é deus da Luz e do Fogo, e o deus do Mal e das Trevas (Ahriman). Este dualismo maniqueísta foi aceite por alguns pitagóricos, mas violentamente rejeitado por outros. Jâmblico, Porfírio e Plotino, seguidores de Platão e Pitágoras, refutam a noção de que o Cosmos era inerentemente mau e ilibam o seu Mestre da acusação de dualismo.

De facto, Pitágoras aceitava uma relação de Dez Opostos Cósmicos do tipo finito-infinito, luz-trevas, masculino-feminino, etc., e todos eles constituem a Harmonia Cósmica. É aqui que reside a principal diferença entre Pitágoras e Zoroastro: na afirmação do Cosmos possuir uma admirável harmonia que é eterna.

Para Zoroastro, o Mal seria finalmente derrotado no Fim dos Tempos, e teria então início o domínio eterno e absoluto do deus Fogo. O universo teria um fim e os opostos cósmicos malignos seriam destruídos. Para Pitágoras, os opostos cósmicos mantinham-se, mas integrados, criando uma magnífica Harmonia perceptível apenas aos Iniciados e perpetuada na Música das Esferas, expoente do êxtase estético e da crença helénica na beleza.

A Apocatastasis, a Grande Catástrofe e suas implicações, ou melhor, a Grande Restauração, são afinal o Retorno à Harmonia Divina, à Idade do Ouro Primordial e a um caminho espiritual.

Mas vejamos de perto o que nos diz a Mitologia Germânica sobre a Criação e o Fim do Mundo (Ragnarok).

O poema VolÃL;spa conta-nos que no princípio não havia terra, nem céu, nem mar, nem plantas, mas apenas Ginnungagap, o Grande Vazio, que no entanto se apresentava pleno de potencial de criação. O mundo é o resultado do encontro do Calor e do Frio intenso (dois opostos); o homem e a mulher são produto do desmembramento do cadáver do gigante Ymir 2. Yggdrasil, a Árvore da Vida, era o centro do Universo, e sob as suas raízes encontravam-se três regiões - a dos Deuses, a dos Gigantes, e a dos Mortos. 3 Esta Árvore era o centro fixo de uma série de Mundos 4 em diferentes planos, que se acreditava terem um começo e estarem destinados à destruição. Ao espalhar os seus ramos, a Árvore formava o elo que ligava Deuses, Humanidade, Gigantes e Almas Desencarnadas. Era uma espécie de escada que ascendia aos Céus e descia às regiões inferiores e ao mundo subterrâneo. Era também o símbolo da Regeneração Constante, oferecendo aos homens a Imortalidade. No seu topo encontrava-se uma águia, e na raiz uma serpente, que permanentemente atacava a Árvore nas suas fundações. Um esquilo chamado Ratatosk subia e descia a Árvore constantemente, levando mensagens entre a Serpente e a Águia que, no Fim dos Tempos, levarão a cabo entre si uma luta mortal. Pensa-se que o esquilo fosse afinal o xamã, que em transe percorria os nove mundos das Iniciações Odínicas, ligando os opostos. Também o rei dos deuses Ases - Odin ou Wotan - se fez suspender numa árvore durante nove dias para obter o Conhecimento e a Sabedoria. 4

Enigmática, imprevisível, imperiosa, a Serpente intemporal é o símbolo da manifestação e da reabsorção cíclicas, da renovação periódica ou sucessiva. Uma serpente chamada Jormungand rodeava como uma grinalda a Terra, ocultando-se no oceano, numa dinâmica circular aparentada com a roda da vida, à primeira vista imóvel, mas a girar sobre si própria de forma perpétua e infinita.

Os nove níveis de existência no universo - os nove mundos de Yggdrasil, a Árvore da Vida - estendiam-se desde o Asgard, o mundo celeste dos deuses antigos, Midgard, o mundo dos homens, situado no centro, Vanaheim, o mundo dos deuses Vanes, situado a oeste, Muspelheim, o mundo do Fogo, situado a sul, Svartalheim, o mundo subterrâneo dos gnomos, Helheim, o mundo da morte - no ponto mais baixo do universo -, Niflheim, o mundo do frio e das trevas, situado a norte, JÃL;tunheim, o mundo dos gigantes, a este, Alfheim, o mundo da luz e dos elfos. O neófito dos Mistérios Odínicos teria como objectivo final do seu percurso iniciático ressuscitar Balder, o deus do Bom e do Belo 5, depois de ter sucessivamente percorrido os nove mundos ou céus, ou esferas da natureza.

Em versos memoráveis o poema VolÃL;spa dá-nos a descrição do Crepúsculo dos Deuses, que depois Snorri Sturlason parafraseou em prosa no seu relato de Ragnarok - o Fim do Mundo.

Esse Crepúsculo anuncia-se por um inverno prolongado que durará três anos semeados de guerras entre os homens. Assistir-se-á à ocultação do sol, a tremores de terra e à libertação de monstros provenientes das profundezas insondáveis do baixo astral. A Serpente enfurecida provocará a subida das águas e a Terra será inundada. Nesse momento os Gigantes chegarão no seu barco feito de unhas de defunto, e um outro grupo cavalgará o arco-íris, sob o comando do gigante Surt, para invadir o Asgard, morada dos deuses. Então, os exércitos dos Deuses e dos Gigantes defrontar-se-ão para a batalha final.

Mas nem os Deuses do Asgard nem os Gigantes conhecerão o gosto da vitória. Apenas os filhos dos Deuses e o gigante Surt irão sobreviver. Surt terá por missão destruir o que restar da Terra e do Céu através do Fogo.

Mais tarde a Terra reverdecerá, a vida voltará, e com ela os deuses; e tudo ficará na memória dos homens apenas como um sonho mau.
Vê como surge outra vez
A terra das marés, de novo reverdecida.
Nos campos de Ida estão os Ases
E aí falam àcerca da Serpente gigante.

Novamente se encontram os prodigiosos
Dados de ouro sobre a erva,
Os quais outrora pertenciam aos deuses.

(Edda, VolÃL;spa)

Depois da imagem terrível da desintegração e aniquilação completa semelhante à morte, uma nova Criação terá lugar. De acordo com os ensinamentos de Yggdrasil - a Árvore da Vida - é dela que a vida deve brotar de novo após a Grande Catástrofe de Ragnarok.

Então terá lugar a grande conciliação e transmutação dos opostos, no sentido de uma Harmonia cósmica universal sonhada por Pitágoras, que ouvia a Música das Esferas.

O Mal tornar-se-á em Bem: Balder regressa
HÃL;dnor e Balder surgem felizes na sala da vitória.
Os deuses de eleição.

(Edda, VolÃL;spa)

E como será mantido o equilíbrio cósmico, face às ameaças do tempo cíclico? Contra as episódicas sublevações dos Gigantes inscritos no tempo cíclico lá estará o deus Thor, com o seu martelo Mjolnir, para lhes dar luta sem tréguas. Em tempos de paz e abundância, longe dos poderes da destruição, são, porém, os deuses Nanes ou Vanir - Freyr e Freyia - que determinam o curso dos acontecimentos e são venerados, pois presidem à fertilidade e ao amor.

Busca o regaço da Mãe Terra
Ela proteger-te-á do Abismo.

Maria Lucília F. Meleiro
Licenciada em Filologia Germânica; Autora do livro “A Mitologia dos Povos Germânicos” e tradutora, entre muitas outras obras, de “Os Filhos do Graal”, de Peter Perling

1 Veja-se “A Mitologia dos Povos Germânicos”, de Maria Lucília F. Meleiro, ed. Presença, capítulo sobre a pluralidade de interpretações possíveis do Mito.

2 Ymir, um Gigante, é o primeiro ser vivo. É dele que provêm os gigantes e os homens. No começo Ymir alimentava-se com o leite nutritivo e mágico da vaca Audumia.

3 Na fonte Urd, Yggdrasil mergulhava as suas raízes, e daí provinha a sua força. Essa fonte era guardada pelas Nornas (uma espécie de Parcas, senhoras da Vida e da Morte).

4 Atente-se no simbolismo esotérico do número nove, que representa as grandes realizações mentais e espirituais. Sendo um número que triplica a triplicidade, representa também a imagem completa de três mundos: material, espiritual e anímico. É, portanto, a Verdade total e completa. São também nove as esferas celestes, e nove os espíritos que as governam.

5 Balder, Baldur ou Baldor é um deus da raça dos Ases. Filho de Odin-Wotan e de Frigg “dele só há a dizer bem” diz Snorri. Encarnação da pureza e da beleza, os seus julgamentos jamais se realizam. HÃL;dr, irmão de Balder, incitado pelo perverso Loki, lança contra Balder o visco que o matou. Morto Balder, o mundo não mais poderia conhecer a verdadeira bondade, a justiça perfeita e a beleza benfazeja.

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