Touradas. Um triste orgulho.

Há dias, num programa televisivo, anunciava-se ufanamente que os espectáculos tauromáquicos incrementaram imenso as suas vendas no ano passado, esperando-se um aumento ainda mais exponencial para a próxima “temporada”. E acrescentava-se algo como… enfim, os portugueses tinham recuperado o fervor da sua tradição; devem estar orgulhosos por serem detentores de uma tal valia tradicional e patrimonial”!

Organizaram-se cerca de 400 espectáculos na última época tauromáquica, com a entusiástica assistência de 630.000 pessoas, acrescida de muitos e muitos milhares por via televisiva.

De cada vez mais proveniências, e em nome da tradição, se clama e reivindica o direito, igual ao de Barrancos, de haver “touradas com touros de morte”. Brada-se com euforia e a maior paixão… sanguinária (que outro nome se lhe aplica, sem usar de eufemismos?).

Deixamos, a propósito, alguns apontamentos semeados no tempo, que reflectem, desde longo passado, o repúdio e a repulsa por tais práticas.

Um desses textos tem já mais de 100 anos. É da autoria de um respeitado e muito querido representante da cultura nacional - Alexandre Herculano. Eis um trecho do seu celebrizado livro “O Bobo”, acerca das touradas: “… Um espectáculo de feras bárbaras, que a civilização, desenvolvendo-se gradualmente por alguns séculos, ainda não pôde desterrar da Península, e que nos conserva na frente o estigma de bárbaros, embora tenhamos procurado esconder esse estigma debaixo dos ouropéis e pompas da arte moderna, e pleitar a nossa vergonhosa causa perante o tribunal da opinião da Europa com sofismas pueris e ineptos.”

Há 2.500 anos, Empédocles lamentava amargamente a crueza estéril das torturas sacrificiais de então: “No glorioso passado da Humanidade não se derramava nos altares o sangue inocente dos touros; os homens consideravam a pior das ignomínias arrancar a vida a um ser e banquetear-se com o seu repasto”.

Recuando ainda mais no tempo, detemo-nos na observação do culto mitraico, que dominou o mundo antigo. Nascido na Pérsia, chegou a difundir-se desde a Índia aos Urais e à Ásia Menor, estendendo-se a todo o Império Romano e, assim, à Península Ibérica.

Mitra era uma divindade que, no Panteão Zoroastriano, se situava logo abaixo a Azura Mazda (o correspondente ao 1oAspecto da Trindade Cristã - o Pai), representando como que o mediador e enviado (o Filho, ou Christos). Nasceu, curiosamente, num dia 25 de Dezembro. Também o seu nascimento foi profetizado pelos magos persas (os mais versados em Astrologia), igualmente “seguidores” de uma “estrela”; também os pastores foram os primeiros a acorrer à gruta onde nasceu, para o louvarem. Como a sua vinda se deu na Era de Touro, o seu símbolo mais “emblemático” foi a figura de um Touro (os cristãos, nomeadamente, adoptaram outros símbolos animais: a pomba, para representar o “Espírito Santo”; os peixes, como sinal de reconhecimento entre os primitivos cristãos; o cordeiro, configurando o próprio Cristo).

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