Uma Terra Una… com muitas cores

Embora sem particular alegria ou satisfação, sorrimos quando ouvimos falar em manifestações anti-globalização.

Estar contra a globalização é pretender impedir a evolução natural das coisas; e prova bem objectiva de que é assim, encontra-se patente nos manifestantes que, sendo, por exemplo, portugueses, ouvem música inglesa, vêem filmes americanos e telenovelas brasileiras, usam aparelhagens japonesas, calçam sapatos italianos, usam perfumes franceses, conduzem carros alemães, entrançam os cabelos ao jeito africano, colorem-se com roupas orientais, etc., etc., etc.

Desde as viagens marítimas das centúrias de Quatrocentos e Quinhentos, até à multiplicidade dos meios de comunicação das últimas décadas, tudo vem concorrendo para que a terra seja uma, e que o mar, a distância ou qualquer outra coisa não mais possa separar.

Na verdade, se outrora foi um ideal verdadeiramente justo e belo aquele que se configurava na frase emblemática “Uma Só Nação”, nos nossos dias o ideal a realizar é “Uma Só Terra”: uma só Terra com um governo unificado, com uma religião unificada, com uma consciência unificada. E assim, todos os povos da terra emergirão com o seu colorido, com as suas vestes, com as suas canções, com os seus legados, com as suas missões para dar e receber.*

Pela nossa parte, não podemos deixar de rejubilar com o tempo em que multidões virão do Oriente e do Ocidente e se sentarão à mesa… comendo os frutos da abundância da consciência em expansão deste Planeta, da nossa Mãe Terra; com o dia em que o Cosmos fecundará a Terra e a Terra dará verdadeiramente à luz o seu filho - a consciência una de si própria.*

No entanto, se a globalização é um bem inevitável, necessário e até maravilhoso, ela não pode ser feita sob a égide da uniformização por um particular modelo político, económico ou social, vigente nos países mais poderosos, e que estes imporiam ao resto do mundo, considerado inferior. Tal constituiria, apenas, uma nova forma de conquista e de domínio. São pois, respeitáveis, as vozes que alertam, com lucidez e coragem, não contra a globalização, mas contra certo tipo de globalização - especialmente a que obedece a desígnios quase exclusivamente economicistas, de lucro, de predomínio.

Cabe, pois, recordar, que a única fraternidade mundial possível e legítima, é a do encontro, reconhecimento, convívio e partilha de todos os recursos materiais, morais e espirituais, de todas as experiências, de todas as histórias, de todas as culturas, de todos os homens, de todas as raças, de todas as nações, de todos os anseios, de todas as conquistas, de todos os futuros possíveis e sonhados.*

Deste modo, quando falamos em governo unificado - o governo da Terra - certamente que não se trata de uma quimera irrealizável. Os países que hoje consideramos perfeitamente normais, não existiam há ainda uns poucos séculos - período de tempo bem curto na história da Terra e da Humanidade. A natureza desse governo, porém, é que merece uma ampla e cuidadosa consideração. É necessário conciliar o sentido de visão e de coerência mundial; a eficácia das decisões; a representatividade das diferenças, que sustente o equilíbrio e a justiça; a descentralização que, sem criar novas separatividades, garanta o conhecimento de cada realidade e a adaptação a cada contexto. Por governo unificado, não se deve entender um conjunto de burocratas assentes num pináculo de poder económico e militar a controlar - muito menos a tiranizar - cegamente naturezas diferentes e desconhecidas.

De igual modo, por religião unificada, não pretendemos significar a extinção da pluralidade de religiões e/ou o domínio de uma particular Igreja. Pelo contrário: saudamos os passos dados no âmbito do ecumenismo (não o confinando às igrejas cristãs) e somente lamentamos que eles tenham sido tão limitados e epidérmicos. Os relacionamentos entre religiões e Igrejas não se devem limitar a parecer de tolerância, com apelos mais ou menos demagógicos à paz. A verdadeira questão está em (re)encontrar a Religião-Sabedoria que é comum a todas, em que todas se reconhecem como as diferentes cores da Luz una e se respeitam fraternalmente - sabendo que a diversidade das cores é bonita, necessária e possível, porque existe a Luz de que são diferenciações. É muito mais do que ecumenismo; é muito mais do que tolerância; é muito mais do que pacificação; é muito mais do que palavras bonitas ou politicamente correctas: é reconhecer, compreender e justificar a grande Sabedoria Universal, a Ciência Espiritual imorredoura, o Caminho do aprimoramento e do Bem Geral que todos os Grandes Instrutores, de todas as Grandes Religiões e Sistemas Espirituais, ensinaram em todos os tempos.

* De um dos livros do Centro Lusitano de Unificação Cultural

José Manuel Anacleto
Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

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