Deficientes profundos e Equitação Adaptada

As Origens dos Equídeos
Diz a Paleontologia que a sua origem, como espécie perfeitamente definida e destacada dos restantes Ungulados, remonta ao Eocénico, há cerca de 60 milhões de anos. Porém, o primeiro cavalo com as características gerais que hoje se reconhecem - o Equus Caballus - teria surgido há uns seis milhões de anos.

Características dos Equídeos
Os equídeos, sendo uma espécie animal caracterizadamente bem musculada, revelam (em termos da sua consciência) estar bem “ancorados” no Plano Físico 1. Por outro lado, dizem os estudiosos, são detentores de um excepcional equilíbrio e desenvolvimento de todos os órgãos dos sentidos 2, possuindo:

1. uma visão invejável, lateral e quase totalmente abrangente (direccionam a visão de cada um dos olhos independentemente um do outro e são, inclusive, possuidores de uma boa visão no escuro);

2. têm um apuradíssimo e criterioso sentido olfactivo (identificam os tratadores à distância e são capazes, até, de os distinguir e localizar no meio de uma multidão). O olfacto, subtil e sensível às hormonas em geral, detecta, por exemplo, o nervosismo ou o medo dos humanos; igualmente, e a enorme distância, a condição do cio 3 das fêmeas. São muitíssimo sensíveis ao odor do sangue, evidenciando inquietação e nervosismo quando estão perto de um matadouro;

3. um excelente ouvido, além de que são particularmente atentos e interpretativos de um vastíssimo espectro de códigos auditivos. São singularmente receptivos e estimuláveis pela voz humana e distinguem as vibrações sonoras que manifestam afabilidade, doçura, rudeza, agressividade, mando, encorajamento, etc.;

4. uma boa percepção táctil. O tacto constitui uma eficaz instrumentação de linguagem entre os próprios animais e entre estes e os humanos. Os cavalos assinalam e interpretam pequenos toques e pressões exercidos pelas pernas dos cavaleiros nos seus laterais e, bem assim, na boca, através da rédea e do freio. A pelagem do focinho é fortemente sensitiva permitindo-lhes identificar, pelo toque, os objectos que não podem ver, nomeadamente o conteúdo da manjedoura. Entre eles, comunicam, afagando-se e soprando-se mutuamente nos focinhos, revelando assim a sua sociabilidade; a par disto, é inegável que comunicam entre si de muitos outros modos, inclusive numa linguagem corporal e com uma curiosa saudação mútua. Adoram ser escovados e massajados;

5. uma invulgar capacidade das suas papilas gustativas, que têm papel preliminar mas fundamental na selecção e aproveitamento de oligoelementos importantes a partir de forragens aparentemente pobres, favorecendo assim o seu característico vigor físico. Os cavalos, quaisquer que sejam as suas raças, regra geral exibem uma saudável e lustrosa pilosidade, um dos muitos factores que evidenciam a sua prodigiosa energia. Concomitantemente, são ágeis, velozes e belamente esculpidos pela Vontade da Natureza que neles reside.

Inteligência
A espécie equina é, indubitavelmente, das mais inteligentes do Reino Animal (figurando a par do elefante, do cão, do gato, do golfinho). Por outro lado, sendo os cavalos fogosos, apaixonados, temperamentais, transmitem uma incomparável sensação de segurança e de poder, e, não obstante, também uma enorme serenidade. A sua energia é, deste modo, muito benfazeja para quem com eles comunica e estabelece uma relação, emanando força e irradiando saúde, e, ao mesmo tempo, revelando uma tranquila confiança e enorme afeição aos humanos com quem privam de perto. Como curiosidade, o índice ferroso da hemoglobina dos equídeos evidencia um poderoso vigor electromagnético e confirma a sua forte implantação no Plano Físico, cujas condições tão bem dominam. Não será por acaso que, desde a antiguidade, se considera a sua afiliação à regência do planeta Marte 4.

Por todas estas razões conjuntas e enunciadas, apresentam um padrão de ressonância vibratória (um campo de energias) apaziguador e corrector de muitos dos distúrbios emocionais que afectam os humanos.

Um sexto sentido
É conhecida a sensitividade do cavalo no que respeita a locais impregnados de “dor” (popularmente, por vezes considerados “assombrados”) onde, nalguns casos, tiveram lugar acontecimentos trágicos. Têm, também, percepção invulgar de situações de perigo iminente, indetectáveis para qualquer ser humano. Igualmente, reconhecem os estados de espírito dos seus tratadores e dos seus montadores, e é aqui que se entreabre um novo capítulo que propicia a nossa “história”:

A Terapia dos Deficientes Profundos
Efectivamente, por todo o globo tem vindo a ser incrementada a chamada “Equitação Adaptada”, um meio complementar de terapia com resultados incomparáveis 5.

Verificou-se uma empatia singular e insubstituível na relação de cavalos e dos seus montadores deficientes. Os cavalos, indubitavelmente, percepcionam a “diferença” e a fragilidade dos seus amigos e tornam-se invulgarmente afáveis, pacientes e cooperativos. O seu entendimento mútuo é enternecedor. Os doentes com a síndrome de Down (vulgarmente ditos “com mongolismo”) encontram um novo e insuspeitado estímulo para a vida: podem dar e receber amor sem restrições ou inibições, e ganham auto-estima e confiança em si próprios. Assombrosamente, até nos casos de autismo profundo se verificou o que pareceria impossível. Nestes doentes (nalguns casos, já adolescentes ou, mesmo, adultos) incapacitados de perceber e de comunicar com o mundo exterior, muitos deles esboçam pela primeira vez algumas palavras, muitos expressam pela primeira vez um sorriso. A sua atenção, até então inviolada (encapsulada), é despertada para a realidade deste mundo físico: já se dão conta e seguem a sucessão de alguns acontecimentos, adquirem uma noção temporal, desenvolvem e adquirem um domínio da sua postura física 6 nunca antes conseguido. Em alguma medida, todos estes doentes progridem, alcançando um equilíbrio maior e inusitado. Capazes de expressar sentimentos, são múltiplos os exemplos de que afagam espontaneamente o cavalo e que transferem, depois, essa experiência e conquista para o domínio familiar.

O factor da consciência concisa, concentrada, que é a caracterizada pelo cavalo (a sua capacidade de atenção antes referenciada), parece propagar-se, moldando e harmonizando os padrões desregulados e cristalizados dos autistas. O temperamento voluntarioso, determinado, do cavalo, capaz de empreender as mais esforçadas cavalgadas 7, parece contagiar e influenciar beneficamente os mais fracos e os doentes. O seu êxito na comunicação com estes doentes, antes fechados no seu mundo, nunca esteve acessível aos humanos. Com efeito, pelas experiências recolhidas, ele patenteia a capacidade de trazer - de fazer assomar - as realidades dos mundos internos, subterrâneos 8 (das emoções contidas e incomunicáveis), para a superfície, para o Plano Físico; e curiosamente, muitos são os símbolos e os mitos do passado que nos falam do cavalo como condutor e guia do homem, das trevas dos mundos subterrâneos para a superfície e para a luz do dia. Este psiquismo - estas leis - parece(m) estar presente(s) no fenómeno, esperançoso e gratificante, a que assistimos.

Desde há já alguns anos, em Lisboa, um exemplo desta meritória actividade é levada a efeito no Quartel de Braço de Prata, da Guarda Nacional Republicana. Saudamos entusiasticamente esta belíssima e tão útil iniciativa… e esperamos que surjam muitas outras afins em todo o território nacional.

Isabel Nunes Governo
Vice-Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

1 Diz-nos a Tradição esotérica que a maioria dos animais tem uma consciência mais difusa e polarizada (pairando) no chamado Plano Astral.

2 Têm os sentidos mais desenvolvidos do que os nossos.

3 São sensíveis, olfactivamente, às feromonas. Estas são hormonas segregadas pelas éguas nos períodos do cio e que, exaladas pelos ares, constituem uma mensagem expressiva para os garanhões de que estão prontas para acasalar.

4 Astrologicameente, o metal sob regência ou polarizado por Marte é o ferro.

5 Obviamente, quando podem montar, ainda que seja com ajuda (apoio de alguém também montado, segurando por detrás). Uma prática com resultados muito positivos e equivalentes é levada a efeito com golfinhos. Em todos os casos, é ainda muito importante para estes doentes privarem assiduamente com (e, se possível, terem em casa) gatos, cães, coelhos ou outros animais sociáveis e dóceis.

6 Neste aspecto particular, especialmente em doentes com paralisia cerebral, registram-se progressos apreciáveis na sua postura corporal (inclusive, em grande número de casos, mais autonómica): uma maior firmeza e verticalidade lombar e, generalizadamente, uma melhoria no tónus muscular.

7 Diz-se que um cavalo pode cavalgar até morrer.

8 O Plano Astral, o Mundo das Emoções.

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