O Pêndulo do Relógio

Durante grande parte do século XX, sobretudo nas décadas de 40 a 80, os regimes e os partidos comunistas, ou semelhantes, implantaram-se e ganharam força numa grande parte do mundo. Constituíram uma realidade complexa, onde se misturaram ideias altruístas e pessoas generosas, com princípios equivocados e práticas monstruosas. Depois, vieram os sinais e, posteriormente, as evidências do seu declínio. Em muitos aspectos, ainda bem que assim foi.

Entretanto, uma onda avassaladora de neo-liberalismo, agora sem praticamente encontrar resistência, inundou o mundo quase inteiro. Com uma agressividade refinada, com uma promessa, explícita ou implícita, de bem estar fácil e imediato, com um apelo irresistível aos prazeres do consumismo, parece ter convertido e submetido tudo e todos, encontrando os mais surpreendentes aliados. Com honrosas e elogiáveis excepções, o poder económico usa e abusa, põe e dispõe, domina, explora, controla, manipula e deita fora - seres humanos -, de maneira fria, impiedosa, desumana e quase ilimitada.

Apesar de todos os seus erros e horrores, o comunismo (ou o medo do comunismo) representava, afinal, um freio para um economicismo capitalista desumano e desenfreado. Não obstante os seus exageros de retórica e (por vezes) injusta agressividade, o sindicalismo de há décadas atrás era, afinal, moderador da prepotência e da indiferença de quem detém o poder económico. Agora, parece não haver limites.

No entanto, o passado mostra-nos à evidência os movimentos pendulares do relógio da História. Tenha-se lucidez, bom senso e visão: é preciso pôr limites equilibrados, humanos e justos a estes excessos neo-liberais. Caso contrário, não nos iludamos: advirão enormes convulsões sociais, levantar-se-ão legiões de desempregados, de homens e mulheres desesperados e sem futuro, surgirão movimentos tão ameaçadores como os que deram origem às piores ditaduras - de esquerda ou de direita - do século que passou. Não é preciso nenhum dom de profecia para o ver…

José Manuel Anacleto
Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

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