A Matéria - Na Perspectiva do Ocultismo

A Ciência Oculta face à Ciência Física
Apresentando-se como a mais profunda e universal das ciências - verdadeiramente, a Ciência das Ciências - e, ao mesmo tempo, como a mais rigorosa de todas (por isso mesmo, comprovada e reafirmada Idade após Idade, nas mais diferentes latitudes), o Ocultismo saúda respeitosamente todos os que, no âmbito das ciências físicas e sociais, investigam com seriedade e perseverança os mistérios da Natureza.

A Ciência física, independentemente das conclusões erradas e/ou precipitadas - naturais e susceptíveis de ser corrigidas, de acordo aliás com os seus princípios metodológicos -, é, portanto, um esforço digno e respeitável. Representa, somente, uma parte da verdade - a sua camada mais externa, na maioria dos casos - mas… é um caminho! E se, em muitos aspectos, pode apresentar um universo árido e sem “porquê nem para quê” - pois, na verdade, apenas pretende responder ao como -, se, em muitos aspectos, pode abafar alguns dos mais nobres anseios do ser humano, trouxe em contrapartida bens inestimáveis à Humanidade-como-um-todo: a exigência de seriedade e de (tentativa) de demonstração de qualquer afirmação, o desmantelamento de muitas superstições, receios e crendices, o impulso ao desenvolvimento de uma mente capaz de compreender correcta e objectivamente, sem as desvirtuações dos subjectivismos pessoais e ilusórios.

O Esoterismo é muitas vezes considerado, nomeadamente em vastos sectores da Comunidade Científica, como um conjunto de pretensões infundadas, absurdas, anti-científicas e ofensivas de qualquer ser humano inteligente. Por muito que nos custe admiti-lo, diante da insensatez e primarismo de muitas das práticas e formulações do que hoje em dia se cataloga como esoterismo (à solta nos media e em todo o tipo de livros, práticas e organizações, que surgem como cogumelos nesta euforia New Age), tal juízo não carece de base objectiva. Mas não se pode pôr tudo no mesmo saco. Desde 1875 - com o esforço iniciado por Helena P. Blavatsky 1, foram produzidas diversas obras ocultistas de grande qualidade, merecedoras da maior atenção, quanto mais não fora porque em muitos aspectos se anteciparam aos posteriores desenvolvimentos da Ciência. Por outro lado, antes dessa nova e sistemática exposição pública de partes relevantes dos Ensinamentos Ocultistas, existe toda uma Sabedoria Milenar, a Sabedoria Antiga, fruto de labor de sucessivas gerações de investigadores, estudiosos e Mestres do Conhecimento sagrado, que persistiram num esforço sempre mais aprofundado.

Ciência Moderna e Sabedoria Antiga
A Ciência moderna teve um parto tremendamente difícil, no meio do fanatismo, do obscurantismo e da oposição de Igrejas dominantes no Ocidente. Necessitou de assumir um corte com o passado. Entretanto, é necessário repor a justiça. Fazemos essa justiça relativamente ao valor da Ciência experimental; deve esta, em contrapartida, reconhecer que no passado, antes que essa época de trevas religiosas descesse sobre a Humanidade, uma poderosa e sólida Filosofia/Ciência havia sido construída - de resto, muitos dos termos que a Ciência moderna veio a utilizar têm essa mesma origem. E ela é merecedora de uma atenta consideração, sem complexos de superioridade ou pressupostos de que os Antigos nada sabiam.

A este propósito, valerá a pena dar um exemplo claramente relacionado com o tema deste artigo. A expressão átomo é muito antiga. Que a História humana registe, remonta a Leucipo e a Demócrito, que viveram há cerca de 2.500 anos atrás, na Grécia Antiga. Por vezes ouve-se dizer que: “coitados, os antigos ignoravam que o átomo era divisível…”. Mas, perguntamos, quem disse que os Sábios da Antiguidade entendiam exactamente por “átomo” o que a Física (que deles herdou esse termo) veio a circunscrever como tal 2? Os ocultistas sempre sustentaram o que Helena P. Blavatsky veio a expressar na sua “Doutrina Secreta”, escrita antes que Thompson viesse a lograr dividir o átomo e que, ao longo do séc. XX, esse mesmo átomo fosse cada vez mais subdividido, até um termo que ainda nenhum cientista pode afirmar com segurança qual será:

“Sobre a doutrina da natureza ilusória da matéria e infinita divisibilidade do átomo, é que se fundamenta toda a ciência do ocultismo”. 3

Aliás, entre muitos outros exemplos, já há 2.500 anos atrás Anaxágoras postulava que, na Natureza, não existia tal coisa como o vazio; que tudo estava preenchido, e que cada corpo, ainda mesmo o mais ínfimo, era divisível infinitamente.

O Ocultismo estuda e respeita a Matéria
Contrariamente ao que uma opinião generalizada pode crer, o Esoterismo tem muito a dizer sobre a Matéria (neste artigo, mais não podemos do que falar de uma pequena parte). De algum modo, pode dizer muito mais sobre a Matéria do que sobre o Espírito - que é “incomensurável na sua luz e está fora do alcance de todo o pensamento (…) está longe, muito longe e, contudo, está muito perto, abrigando-se na câmara mais íntima do coração” 4; que é “inapreensível, impossível de conceber, nunca nascido, para além do raciocínio, para além do pensamento” 5. No universo em que vivemos - aliás, onde quer que seja - tudo tem Matéria ou, pelo menos, Substância (que é o númeno da Matéria); e a Ciência Oculta assinala e descreve não apenas os estados físicos da Matéria - que a Física e a Química têm vindo a investigar cada vez mais exaustivamente - mas muitos outros que permitem a geração de formas nos mundos anímicos, psíquicos e “espirituais”; e considera, inclusive, a Matéria caótica ou informe primordial e a sua raiz Imanifestada. Com efeito, voltando a citar Helena Blavatsky, “A matéria é tão indestrutível e eterna como o próprio espírito. Imortal, mas tão-só em suas partículas, e não como formas organizadas”. 3

Matéria, Vida e Percepção
A Ciência Oculta define a Matéria como “o agregado de objectos de possível percepção” 3. Ou, sob outra perspectiva, “a possibilidade permanente de sensações” 6 ou de percepções. Visto que estamos num universo que, no seu longo devir, está cindido em dois pólos - não obstante, sempre presentes e inter-relacionados -, isto é, Espírito e Matéria, Sujeito e Objecto, nem o Espírito pode ser algo sem uma base substancial, nem a Matéria existiria (ao menos para algum fim útil) sem Vida e sem Consciência. O Espírito ou Vida é incessante Movimento, e este implica que uma substância seja movida, num espaço que é igualmente substancial (por mais ténue que seja essa substância). Não pode ser o nada a mover-se; nem o movimento pode dar-se num vazio. No entanto, salvo como mera abstracção teórica, tampouco a matéria pode ser vista como a coisa em si mesma, objectividade pura, dissociada do(s) sujeitos(s) que percepcionam as formas em que está organizada 7. Neste sentido, a percepção é o acto que une os dois pólos. E é impossível considerar qualquer realidade manifestada sem uma base trinitária - neste caso, sujeito, objecto e percepção; sujeito conhecedor, objecto conhecido e conhecimento.

O Hylozoísmo
O Ocultismo sustenta o princípio Hylozoísta - toda a matéria é viva. Nega, por exemplo, a afirmação da Biologia segundo a qual no Reino Mineral não há vida. Identificando Vida e Movimento - “Movimento universal perpétuo que nunca cessa (…) é a única Divindade perpétua e não criada que somos capazes de reconhecer” 8 -, e visto que, indiscutivelmente, existe Movimento nas partículas constituintes das formas minerais, constata, pois, que o númeno da Vida aí está presente, como está nos vegetais, nos animais, no ser humano, em tudo no Cosmos. Sim, “mesmo nas pedras existe actividade, palpitação de vida. Se assim não fosse, não seriam possíveis as associações moleculares, as combinações dos elementos por atracção simpática ou magnética. Se tudo fosse inerte, se não falasse a inteligência electiva da natureza, se não houvesse resposta consonante às leis universais, não presenciaríamos tais relacionamentos, tal movimento multicolor, gerador e anunciador de vida” 9.

Vimos já que tanto a Matéria como a Vida (consciente ou inconsciente) são eternas. Sustenta o Esoterismo que o Espírito, na Matéria, é Vida, e que esta anima a Matéria com um movimento incessante 8. E acrescenta a noção da Vida Una e Omnipresente que “… não só penetra mas é a essência de cada átomo de Matéria; e que, portanto, ela não apenas tem correspondência com a Matéria mas possui também todas as suas propriedades - etc. - consequentemente, é Material, é a própria Matéria” 8.

Assim, o ensinamento ocultista mostra a existência de um único princípio na Natureza, Espírito-Matéria ou Matéria-Espírito 8, ambos aspectos ou símbolos da Vida Una (radiante do Absoluto), que os sintetiza.

(Valerá a pena lembrar aqui que, numa carta enviada pelo Mestre Koot-Hoomi ao Sr. Alfred P.Sinnett considerava-se uma “… ideia absurda (…) a de que a força é capaz de existir por si mesma, ou de agir, tanto quanto a vida, fora, independentemente da matéria; em outras palavras, a ideia de que força seja qualquer outra coisa excepto matéria nos seus estados mais elevados” 8. Se tivermos em conta que esta carta foi enviada em pleno séc. XIX e que, então, o conceito de “força” vigente nas ciências físicas era mais lato do que o actualmente prevalecente, encontrando-se então bem mais próximo do que, depois, se veio a nominar “energia”, fica patente como a Ciência Oculta continha muitas noções que só mais tarde a Ciência Física veio a confirmar ou a admitir - ou pelo menos, com as quais se veio a deparar -, nomeadamente a partir da célebre forma de Einstein: E=MC2).

A Vida Una e as Vidas incontáveis
O princípio hylozoísta a que acima nos referimos, contudo, desdobra-se noutras implicações. Também na “Doutrina Secreta”, escreveu Helena Blavatsky: “Tudo é VIDA, e cada átomo, mesmo de poeira mineral, é uma VIDA” 1. Mais até, acrescenta a Doutrina Oculta: cada partícula atómica é, ela mesma, uma Vida.

Há assim uma Vida-Substância Universal que é integrada, que é composta de miríades de vidas, de unidades de ser, cada um com a sua própria consciência ou inteligência, ainda que diminuta. Essas vidas são a essência, o substratum da matéria; são a sua inteligência dinâmica, a sua ordem ínsita 10. Têm o seu movimento próprio, e uma interacção vital e consciente com as outras unidades de ser. Na tradição ocultista, são habitualmente designados como Devas (nos graus mais elevados) ou como Elementais - ou ainda, no que concerne ao Plano Físico, “as vidas ígneas” 1.

Os diferentes Níveis de Materialidade
A Ciência Esotérica afirma a existência de sete diferentes Planos ou Mundos de Matéria manifestada, o último dos quais é o físico, com os seus diversos estados (de matéria). Além deste, existem seis outros Planos, de substância mais subtil, com frequência vibratória mais elevada, susceptível de ser organizada em formas propiciadoras de vivência, percepção e consciência mais sublimadas 11. Com respeito ao Plano que lhe é imediatamente de maior materialidade, o Plano ou sub-Plano 12 de substância mais elevada é o espaço (que, de modo incorrecto ou, pelo menos, não rigoroso, se considera vazio 13) simultaneamente causal e contenedor (dessas outras vidas ou partículas mais densas e objectivas).

Antes da Matéria Cósmica no Universo Manifestado, postula o Ocultismo a existência da raiz pré-cósmica, não organizada, numénica da Matéria. É o que os sábios vedantinos designaram por Mulaprakriti (Mula significa raiz; prakriti significa natureza, matéria, substância). Aparece referido nas tradições cosmogónicas de todos os povos como o Caos ou o Abismo ou as “Águas primordiais” 14, 15. É o símbolo substancial do Absoluto ou espaço ilimitado.

Temos, depois, o que na Sabedoria Espiritual hindu é designado por Pradhana: é a Matéria Cósmica no seu momento primordial, “pronta” a ser organizada. É a causa material (muito mais espiritual, entretanto, que a mais excelsa realidade espiritual vislumbrada pelos místicos), ainda não desenvolvida ou evolucionada, do Universo. Corresponde a Adi-Prakriti, literalmente, a natureza (Prakriti) suprema ou primordial (Adi). É dotada de inteligência (dela procede a Mente Cósmica, ou seja, o agregado de todas as vidas inteligentes criadoras no seio da substância universal), e nela está imanente a Universal Força Criadora, activa e dinâmica - Fohat ou Shakti (o Eros da mitologia grega) - que a vai desdobrar septenariamente, dando origem aos sete planos atrás referidos (diferenciações da Adi-Prakriti, ou Matéria Cósmica Primordial). Fohat é a sempre presente força criadora, que “electriza cada átomo para lhe dar vida” 1, que combina os elementos, que agrega e organiza formas; o incessante Movimento Vital, a manifestação da Vida Una em cada uma das miríades de Vidas que a integram. De facto, todas as partículas materiais, além de terem massa, são electricamente carregadas - por Fohat, a “electricidade cósmica”, como H. P. Blavatsky tão apropriadamente lhe chamou.

Assim, na perspectiva ocultista, é impossível dissociar vida, inteligência e matéria, excepto para fins teóricos de estudo.

As religiões ocidentais, à medida que se afastaram da Sabedoria Esotérica de que são filhas, criaram uma clivagem fatal entre Espírito (considerado, paradoxal e impossivelmente, como destituído de substância) e Matéria (que diabolizaram). O Ocultismo não subscreve essa posição e sublinha o facto de que só onde há substância ou matéria (o que acontece no Universo inteiro), é possível haver Ciência - Ciência essa que, por alargada a todos os Planos do Cosmos, se diferencia da Ciência materialista. Não devemos, porém, ser sectários: importa reconhecer o talento e a Sabedoria onde quer que se encontrem. É por isso que terminamos com a reprodução da maior parte do maravilhoso “Hino à Matéria” do cientista e jesuíta Pierre Teilhard du Chardin, um dos mais notáveis pensadores cristãos:

“Bendita sejas, poderosa matéria,
Evolução irresistível, realidade sempre nascendo,
Que a cada momento fazes em estilhaços
Os nossos limites e nos obrigas a buscar
Cada vez mais profundamente a Verdade.

Bendita sejas, matéria universal,
Éter sem fronteiras, triplo abismo das estrelas,
Dos átomos e das gerações.
Tu, que dissolvendo e transbordando
As nossas estreitas medidas,
Nos revelas as dimensões divinas.

(…)

Bendita sejas, matéria imortal,
Tu que, desagregando-te um dia em nós,
Forçosamente nos induzirás a chegar
Ao íntimo daquilo que é.

Sem ti, matéria, sem as tuas lutas,
Sem os teus dilaceramentos,
Viveríamos inertes, estagnados, pueris,
Ignorantes de nós mesmos e de Deus.

Tu que feres e que curas,
Tu que resistes e que cedes,
Que aprisionas e libertas,
Que desmoronas e constróis,
Seiva de nossas almas, mãe de Deus,
Carne do Cristo, eu te bendigo!
Eu te bendigo e saúdo,
Não como te descrevem -
Diminuída ou desfigurada -
Os pontífices da ciência e os pregadores da virtude,
Não como um amontoado, dizem eles,
De forças brutais ou de apetites baixos,
Mas como me apareces hoje,
Na inteireza da tua Verdade.

(…)

Tu que reinas nas serenas alturas
Onde os santos imaginam evitar-te,
Como Carne tão diáfana e fluída
Que não te distingamos mais do Espírito,
Leva-me para o alto, matéria,
Pelo esforço, a separação e a morte.
Leva-me para onde for possível, enfim,
Abraçar castamente o Universo.”

José Manuel Anacleto
Presidente do Centro Lusitano de Unificação

1 Sobre Helena Blavatsky, V. o livro “Duas Grandes Pioneiras”, Centro Lusitano de Unificação Cultural, Lisboa, 1999.

2 O conceito de átomo em Ocultismo é diverso do postulado pela Física. Consiste numa Vida ou unidade de ser onde, à escala, está representado o Cosmos total ou a Vida Una.

3 Helena P. Blavatsky, “A Doutrina Secreta”, Ed. Pensamento, S.Paulo, 1973.

4 Mundaka-Upanishad.

5 Maitri-Upanishad. No mesmo sentido, cfr. também o Capítulo “Espírito” do livro “Cartas de Luxor” (Centro Lusitano de Unificação Cultural, Lisboa, 2000).

6 Conforme a sugestiva definição de Subba Row. Cfr. “Consciencia e Inmortalidad”, Editorial Kier, Buenos Aires, 1994.

7 Citando novamente a “Doutrina Secreta”, de H.P.Blavatsky: “Não pode haver manifestação de Consciência, semi-consciência ou, até, ‘propósito inconsciente’, excepto através do veículo da matéria; quer isto dizer, no nosso plano (…) que é apenas através de alguma agregação ou estrutura molecular que o Espírito emerge na corrente da subjectividade individual ou subconsciente. E, como a Matéria, existindo independentemente da percepção, é uma mera abstracção, ambos estes aspectos do ABSOLUTO - Substância Cósmica e Ideação Cósmica - estão mutuamente interdependentes”.

8 “Cartas dos Mahatmas para A. P.Sinnett”, Editora Teosófica, Brasília, 2001.

9 In “Luzes do Oculto” (Centro Lusitano de Unificação Cultural, 1a e 2a eds., Lisboa, 1998).
10 V. “Ordem e Inteligência no Cosmos”, no o 10 da “Biosofia” (Centro Lusitano de Unificação Cultural, Lisboa, 2001).

11 Sobre esta temática, cfr. os os 2 e 3 da “Biosofia”.

12 Visto que cada Plano tem, por sua vez, uma subdivisão septenária.

13 Como o espaço entre as partículas atómicas.

14 Genesis, I: 2.

15 Mulaprakriti é chamada Aditi nos Vedas, e Terra de Adão, pelos alquimistas ocidentais; corresponde a Shekinah, o véu de Ain Soph, na Cabala.

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