O Dia da Morte de Sócrates

Acusado de impiedade e de corrupção da juventude, o Mestre Ateniense 1 foi condenado à morte por envenenamento. Submetido a um julgamento infame e a todos os títulos injusto, defendeu-se com rara dignidade, a mesma com que cumpriu a pena depois de recusar auxílio para escapar em liberdade. O que sabemos sobre este episódio provém principalmente dos escritos que Platão, seu fiel discípulo, nos legou; no entanto, os diálogos platónicos não podem nem devem ser encarados como um relato histórico, mas antes como propostas de reflexão suscitadas por episódios dramáticos, nos quais Sócrates figura como personagem principal, questionando incessantemente os seus interlocutores.

Ao penetrarmos na cela onde Sócrates espera a morte, e ao acompanharmos a sua última conversa com amigos e discípulos, somos invadidos por um misto de espanto, respeito e admiração: não podemos deixar de notar a nobreza com que enfrenta a morte, a lucidez das suas palavras e a serenidade dos seus actos. O que permite a este homem injustamente condenado comportar-se de forma tão digna? A resposta encontra-se na visão do mundo que advoga, na sua concepção da realidade, do propósito da vida, da morte e do saber. Isso mesmo ele explica aos amigos, que bem mais angustiados que ele não compreendem a calma e até alegria com que enfrenta o final 2.

O diálogo platónico em que é descrito o último dia de Sócrates, intitulado “Fédon”, é mais que tudo uma descrição e legitimação do verdadeiro objecto e fim da filosofia. E essa descrição é, em si mesma, a justificação da serenidade e até alegria de Sócrates perante a morte. Em poucas palavras poderíamos assim resumir o argumento e tese aí expostos: o verdadeiro saber consiste no conhecimento das realidades inteligíveis ou Formas, e este saber só é alcançável separando, na máxima medida possível, a alma do corpo. Ora, a filosofia, como amor ao saber, é exactamente a actividade que, em vida, permite uma maior aproximação da verdadeira realidade, purificando o homem que se concentra cada vez mais em ver com os olhos da alma e não com os do corpo. Assim, a filosofia é a mais nobre das actividades humanas e prepara o homem para, após a morte, aquando da completa separação da alma do corpo, ser capaz de atingir totalmente o objecto da sua busca: a verdadeira sabedoria. Por isto mesmo, Sócrates ou qualquer verdadeiro filósofo só pode alegrar-se quando enfim chega o momento de se libertar dos grilhões do corpo para contemplar, sem véus nem sombras, o vale da verdade.

Esta tese assenta em dois pressupostos fundamentais: o primeiro é a existência de uma realidade inteligível a que damos o nome de Teoria das Formas; o segundo a imortalidade da alma, sendo a morte a separação da alma do corpo. Porque o espaço que temos é curto, vamos apenas deter-nos no primeiro destes pressupostos: a Teoria das Formas.

A Teoria das Formas ou Ideias é uma teoria central do pensamento platónico; afirma a realidade de “”qualquer coisa como seja o “Justo”", o “Belo”, o “Bem”, a “Grandeza”, a “Saúde”, a “Força”, “em resumo, a realidade de todas as demais coisas, aquilo que cada uma delas precisamente é”. “Esse tipo de coisa existe ao mais alto grau possível”, pertence a uma “realidade distinta”, uma “realidade de além”, a uma outra “esfera de conhecimentos”. As Formas são objectos puros, invisíveis aos olhos, seres simples que se mantêm constantes e idênticos a si mesmos, logo imutáveis e imortais; existem em si e por si. Platão introduz, assim, uma distinção metafísica entre duas realidades, uma sensível e outra inteligível - a primeira, aquela em que comummente vivemos e nos movemos; a segunda, a realidade das Formas. Esta última possui um estatuto ontológico superior: é uma realidade “mais real”, mais verdadeira, e é a causa da realidade sensível.

Analisemos as consequências desta teoria só aparentemente “primária e talvez ingénua”. Se tudo aquilo que existe no mundo sensível, e que na sua diversidade se oferece aos nossos sentidos, não possui realidade em si, mas uma realidade que lhe é conferida por outra acima dela, uma realidade para a qual tende e pela qual anseia, sem no entanto alguma vez a alcançar, então este mundo é apenas uma cópia imperfeita ou sombra desse outro mundo, já não “mais real” mas, (o) verdadeiramente real e por isso infinitamente mais rico e interessante. Mais, se o mundo inteligível é a “verdadeira realidade” responsável pela geração e corrupção daquilo que no mundo sensível aparece, então só a realidade das Formas é digna de investigação, só ela é o verdadeiro objecto do saber. E, só o conhecimento da realidade em si, das Formas ou Ideias, poderá levar-nos à compreensão da finalidade última de todas as coisas; principalmente, o conhecimento da Ideia de Bem. O saber não se pode constituir sobre aquilo que permanece em eterno devir; deve, pelo contrário, procurar alcançar aquela realidade una e imutável que é condição de tudo o que existe.

Estabelecida a realidade das Formas ou Ideias podemos compreender a postura de Sócrates. Se a alma é imortal, se a morte permite a tão almejada separação do corpo, então ela só pode ser recebida com alegria por aquele que dedicou a vida a prepará-la para esse momento, adornando a alma “não com adornos alheios a ela, mas com aqueles que lhe são próprios - isto é, temperança, justiça, coragem, liberdade e verdade” para, assim, alcançar a verdadeira sabedoria: como Filósofo e não como aqueles a quem a sabedoria basta “tão só para embrulhar tudo e desse pouco satisfazerem-se a si mesmos”.

Sócrates, como mais tarde Cristo, Hypatia, Jacques de Molay, Giordano Bruno, e alguns outros, morreu porque não aceitou conformar-se com a ignorância humana, e porque incentivou os seus semelhantes a fazerem o mesmo, a cometerem o abominável crime de se questionarem, de se aperfeiçoarem, de nunca se conformarem. É terrivelmente incómodo um homem que se questiona. É assustadoramente incómodo um homem que não se satisfaz com os modelos sociais e culturais vigentes. Mas são invariavelmente esses homens aqueles que, com candura, abnegação e sobretudo humildade, levam toda a humanidade pela mão, conduzindo-a a novos patamares de compreensão de si mesma e do mundo. Sócrates não morreu em vão, como não morreram os outros. As suas palavras e atitudes ecoam pelos séculos, chegam até nós, e dois mil e quinhentos anos mais tarde ainda auxiliam os homens a tornarem-se mais dignos, mais virtuosos e menos ignorantes. A morte de Sócrates ensina-nos, ainda hoje, a viver melhor. E a continuar a questionar.

Filipa Falcão

1 “Mestre Ateniense” é uma designação
consagrada na tradição filosófica para nos referirmos a Sócrates. Este esclarecimento visa diferenciar esse título daquele que usualmente é utilizado nesta revista, e que se refere exclusivamente a indivíduos que atingiram um patamar evolutivo supra-humano.

2 É preciso ter em atenção que não há, nem na doutrina platónica nem na ciência esotérica, qualquer apologia do suicídio; muito pelo contrário, este é fortemente desaconselhado. O que há é uma exortação à compreensão e aceitação da morte, a defesa de uma visão que a entende não como o reverso da vida mas como o reverso do nascimento (assim como a morte é a porta de saída do plano físico, o nascimento é a porta de entrada).

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