Os Caminhos Religiosos

É Fidedigno o Caminho Religioso? É a referência?
As Religiões e sistemas Espirituais estão centrados sobre um “Caminho Perfeito” de desenvolvimento físico, psico-físico e espiritual que leva o homem a ser Homem. O adjectivo perfeito tem todo o cabimento por terem sido, essas directivas, dadas por seres perfeitos (ou seja, Seres isentos da ignorância e ilusões que são comuns aos homens mortais, Seres que já transcenderam a etapa humana - o sétimo e último dos Reinos da Natureza, com correspondência analógica ao sétimo Dia da Criação).

Devido a acidentes históricos originados pela insuficiência humana, chegou-se ao conflito terminal entre religiões pouco esclarecidas, que não exprimem correctamente o ensino dos seus Instrutores, e uma ciência que, sendo a condição sine qua non de um passo muito importante da Evolução - o despertar da mente científica -, não tem possibilidades de ser Ciência integral porque se confina a um só dos Sete Planos da Existência. Por outro lado, a Consciência abrange Três Mundos do Ser, mas o homem, sendo uma entidade habitada pelo Ser, não pode revelá-lo pois apenas está dando os primeiros passos evolutivos na senda da sua condição de “Humanidade”.

O resultado é paradoxal: o ensino religioso está certo e é verdadeiro nas suas raízes originais mas deteriora-se e não mais é entendido; o ensino científico está errado ou amputado, por falta de dados objectivos, pois o campo de investigação está reduzido a uma fracção do Plano Físico e Psico-Físico, os mais inferiores do Cosmo. Existe uma Cultura - um património e um legado cultural - de “Mestres de Sabedoria”, perfeita, verdadeira, de todos os Planos, ensinada em todos os tempos; prevalece uma cultura “humana”, imperfeita, pobre de dados objectivos, sentimental, especulativa, ignorante, de crenças falaciosas e teorias infundamentadas. A essência das religiões é verdadeira e perfeita; as crenças religiosas e os ‘dogmas’ científicos são falsos e imperfeitos.

A Ciência não pode resolver o défice de objectividade mas avança o passo indispensável da evolução humana: o despertar da mente científica. O conhecimento é importante; todavia, o despertar da mente superior ou intuitiva (a mente liberta de eu pessoal) tem muito mais valor, porque ensina a ver os factos de modo exacto, sem dependência do “eu” que olha mas não ainda não “vê”! A verdadeira Ciência é apanágio do novo Homem; as «fés» são o reduto do velho.

Outrora, a Ciência dos deuses (Seres Perfeitos) era chamada Filosofia e contemplava a Trilogia da Manifestação: Filosofia, o Saber Supremo ou Divino (o que depois se veio a chamar Metafísica) e as duas Sabedorias funcionais: A) a de Filo ou Ética, a religiosa; e B) a de Sofia ou do Conhecimento exacto, também chamado da Prudência, ou Vara das medidas e dos comportamentos - assim se lhe referiam os Antigos e a Antiga Sabedoria.

Ser cientista é ser filósofo de Sofia. Filosofia sem Sofia é a negação da própria filosofia - meros jogos e arrazoados de ideias que poucos sabem para que servem, mero vício de elucubrações e especulações lidando, frequentemente, como “sofisma”.

A Filosofia original de Pitágoras era experimental, e por isso muito diferente do que foi mais tarde apresentado pelos filósofos da Cristandade, mais ou menos escolásticos. Pessoalmente, somos descrentes do acompanhamento filosófico do tipo ‘Mais Platão e menos Prozac’ porque consideramos que a esses filósofos (amputados) falta a assunção de Sofia. Sem compreenderem o Ensino dos Mestres - a Ciência Ocultista e Universal, porque Inata na Natureza -, não têm a legitimidade para se considerarem Filósofos; nomeadamente, se tratarem alguém sem Sofia, são, no máximo, curandeiros e não filósofos terapeutas.

Há dois modos de expor uma temática: A) passo a passo, do mais simples para o mais complexo; B) apresentar uma visão global, e depois especificá-la. Ao usarmos este último modo (que é muito exigente), pedimos que se meditem as generalidades do todo, antes de se passar às partes.

O Efeito Evolutivo da Verdade sobre os Corpos
A mente é o 6o órgão do Buddhismo, junto ao conhecimento dos 5 sentidos, porque depende da Substância de veículos e das suas estruturas: não sabe “quem quer” mas, sim, quem desenvolveu o 6o órgão no corpo biológico e psicossomático. Disse o Senhor Buddha que podíamos auferir saúde física muitos anos mas não saúde mental. Com efeito, o corpo mental é ainda rudimentar ou insuficiente. Os psiquiatras têm razão: somos todos doentes mentais, sendo o mental e as emoções corpos com substância “não-física organizada”. As funções psíquicas do homem mortal englobam agregados de substância em Três Planos do Ser.

É grande a diferença entre a Sofia dos Mestres e o que se considera vulgarmente como Ciência e Religião. A Filosofia é um termo que significa - Religião-Ciência, a harmonia das duas. Evoluir é fazer a sintonia entre a Verdade e a Substância dos corpos para que o Ser se revele. Se a cultura é falsa, a Evolução Espiritual pára. O ensino dos Mestres tem valor (cumpre o seu valor) quando for corroborado pela própria experiência e compreensão pessoal, e só então; caso contrário, o efeito da Verdade perde-se na alma, por não revelar o Ser.

ÃL;€ luz deste facto experimental, não se trata de a Ciência ortodoxa justificar a Sofia dos Mestres mas sim de se entender que só há Ciência se ela for avalizada pela Ciência perfeita que é a Sofia dos Mestres. Até lá, apenas teremos “em mãos” uma coisa mais ou menos inexacta chamada ciência, e outra coisa, mais ou menos sentimental, consoladora e ignorante chamada religião (crença religiosa).

Pode a Filosofia perfeita dos Mestres (um Cristo ou um Buddha) que ensinaram religiões libertar o mundo da sua dor? É legítimo chamar filósofo ao inexperiente de outros Planos do Ser? Retenha-se o seguinte:

1. A melhor das terapias existentes é a Verdade porque nos dá acesso ao Ser Divino que em nós habita e é o poder infinito da libertação e do amor. Atente-se na libertação que a prática do método científico introduziu. No entanto, ele tem um problema: se for dado esse poder a alguém viciado pela maldade, não se pode esperar que o utilize bem, e talvez até se esteja a contribuir para precipitar a sua autodestruição. Quanto maior exactidão e rigor tiver esse Conhecimento, maior é o poder disponível para qualquer dos dois lados. Assim, olhando o nosso mundo, não é preciso ser muito inteligente para compreender por que há conhecimentos esotéricos que nunca são publicados.

2. O acesso à Verdade passa pela capacidade de ver de modo pleno, desobstruído, incisivo, despertando a mente científica (intuitiva), capacitando-nos a observar “para além” do (ou sem estar confinado ao) eu pessoal. Neste contexto holístico, espiritualista, .enquanto se misture a observação com experiências sensoriais, passionais, e emocionais ou afectivas (por outras palavras, vindas “de baixo”), condenamo-nos a uma vida de ignorância e de sofrimento, por impossibilidade de decidir com discernimento; quando tivermos experiências emocionais comandadas não “de baixo” mas “de cima”, acedermos gradativamente ao poder Infinito ou Vontade Suprema dos que podem dizer: seja feita a Vossa Vontade - a do Ser divino que em nós habita. Ilustrativa será a função libertadora que constitui a observação dos conteúdos inconscientes (complexos) livres do controlo do eu que os gerou, tal como é comum verificar-se numa terapia de psicanálise?!…

3. A mente é a «res», a coisa que gera filhos astrais, as emoções-pensamento, do mesmo modo que os corpos geram filhos biológicos. O pensamento não é uma abstracção mas é um ser vivo e inteligente, uma Força ou dinâmica orientada para cumprir, por si mesma, as intenções do Poder que os gerou. Ele projecta a sua Força sobre a Natureza e sobre os outros seres vivos, de tal modo que pode ser a maior bênção para o mundo se for imbuído de compaixão, de tolerância, de paz; todavia, pode constituir a maior maldição, se for odioso e destrutivo. Ao tratarmos, de forma séria, dos temas “ecologia” e “ambientalismo”, devemos pôr no topo da lista dos poluentes mortíferos e venenosos as emoções e pensamentos malignos e erróneos.

Se compararmos o poder destrutivo do pensamento sórdido, pervertido, “baixo” com o da chuva ácida, do envenenamento do solo e níveis freáticos, veremos que se está a ignorar ou a subestimar a realidade. O pensamento “não recto” e “não bom” é o maior veneno, uma arma de destruição maciça. O pavor dos dilúvios da Antiguidade foi real. Os dilúvios destruíram quase por completo, várias vezes, a vida na Terra - os cientistas confirmam-no. Não obstante, eles ignoram que as causas imediatas foram accionadas pelo poder mortífero do pensamento; não valoram o facto de que o pensamento é uma força efectiva, e não uma abstracção.

A “Arca”, “Noé”, “Salvação das espécies”, etc., são símbolos profundos que revelam o âmago; os ignorantes tomam-nos à letra. Os cientistas fazem coro e desprezam Sofia, a Ciência de todos os Planos. Terão eles, um dia, de se curvar perante a Ciência Integral, e de admitir para estudo os dados ocultistas sobre o Homem e o Cosmos, engrandecendo, assim, auspiciosamente, os critérios e modos de fazer Ciência, cujo instrumento nuclear, basilar, é o próprio Homem.

Caminhos de Oito Passos, Nove Passos, Dez Passos
O Buddhismo é a Ciência Suprema e o fundamento do método do despertar da mente intuitiva (científica). Antes de Buddha não era possível despertar a mente científica e ainda hoje a maioria de nós é dela carente. Não basta “levantar o dedo” e querer ser cientista: para tal, é necessário haver previamente desenvolvido a mente, em lugar de se fazer tráfico de ideias ou opiniões. Depois de Buddha, Pitágoras pôde criar a Filosofia, e Hipócrates, a medicina científica.

Os sistemas religiosos e espirituais são fundados no “paradigma das Leis”, conhecido desde a Antiguidade como a Árvore da Vida. Há diferenças entre os sistemas (as sistematizações do Ensino Oculto) conforme o povo a que se destinam; porém, em essência, todos são Verdadeiros.

Os Dez Mandamentos foram formulados para uma contenção da “Queda na Matéria”. Os Dez Passos do Pai Nosso conduzem à plenitude da Ascensão. Mandamentos e Pai Nosso têm por centro o “não matarás”, e o “perdoai-nos Senhor, assim como nós perdoamos”. Contêm em comum uma exigência de transformação do «eu».

Os métodos orientais - Caminho dos Oito Passos do Senhor Buddha ou de Nove Passos de Shankaracharya - diferem dos ocidentais. Aqueles propõem desenvolver a mente científica que passa pela abolição, ou melhor, pela laboriosa transcendência do “eu” que observa. Nos orientais, não há equivalente ao “não matarás” ou ao “perdoai-nos Senhor, assim como nós perdoamos”, porquanto é desse ponto central vazio ou de não-eu que partem. Não havendo “eu e o outro”, não há perdoar e ser perdoado. “Não matarás” porque matavas-te a ti mesmo; “não perdoarás” porque, se pecares, pecaste a ti mesmo. Observarás tudo tal como é e não com opiniões. Inclui no tudo o ti mesmo (sensações, emoções, pensamentos), como se não existisse «eu».

O Caminho dos Oito Passos é a Roda da Lei. O modo mais simples de a ver (um modo de ver é um modo de não ver; ao fazer uma opção, deixamos de fora outros modos de ver), é considerar uma Tríade Superior reflectida numa tríade inferior. O Ser Justo, que constitui a Perfeição humana, é aquele que vive (é) segundo o Discernimento ou Compreensão (em função) das duas Sabedorias funcionais representadas por: Palavra Justa (Saber Ético, da Meditação) e Pensamento Justo (Saber ou Pensamento Científico). Entre as duas Tríades está a Acção e Meios de Existência Justos, o contrário de Acção e Meios de Existência alheios a objectivos espirituais.

A Tradição do Justo aparece logo após Buddha em outras culturas. No Cristianismo dos Manuscritos do Mar Morto, são referidos o Justo e o Mestre da Justiça, porque eram praticantes do Caminho dos Justos.
A diferença entre os Oito Passos de Buddha e os Nove Passos de Shankaracharya está no Passo do Seja Feita a Vossa Vontade, como Resignação ou Contentamento à Vontade Divina (em nós). O Pai Nosso, ao reverter os Dez Mandamentos da Queda para a Ascensão, acrescenta o Passo de Shankaracharya, e nesse desenvolvimento processual de - Buddha € Shankaracharya € Cristo - acontece outro Passo: inverter a posição do Reino do exterior para o interior, o Reino em nós (venha a nós o vosso Reino). Corresponde à inversão do II e III Mandamentos em relação ao Pai Nosso (compare-se com II e III do Pai Nosso). É o sentido da ‘Paixão’. Buddha, quando não havia Força para o Eu absorver o Todo, extinguiu o eu no Todo; Cristo fez o oposto, colocou o Todo no Eu Divino, com igual resultado.

O Reino, após Cristo, passou a corresponder, “em baixo”, ao último versículo do Pai Nosso, Vosso é o Reino, o Poder e a Glória para todo o sempre, que substitui a não cobiça dos bens e da mulher do próximo. (X Mandamento). Viemos dos tempos em que a mulher (não esqueçamos que somos alternadamente homens ou mulheres) era a «coisa» do próximo. A mudança do Reino das coisas para o Reino Espiritual de Deus foi possível porque “em cima” se abriu o acesso ao Reino de Deus: venha a nós o Vosso Reino. Sem essa transformação a mulher continua a ser a «coisa» do próximo.

Não fora ainda possível introduzir o Seja feita a Vossa Vontade no tempo do Senhor Buddha. O Hinduísta tinha desenvolvido o Eu Sou Brahma (eu sou o Divino) e Buddha, sobre esse potencial, fez despertar a mente científica do verdadeiro Cientista. Com Shankaracharya e o Jnana Yoga ou Yoga do Conhecimento (Viveka Chudamani) foi possível introduzir o método do despertar da mente científica.

Não há diferença de Saber e Poder entre cada um dos Grandes Seres, como Buddha, Cristo ou Shankaracharya; o que há, sim, é um desenvolvimento sequencial da humanidade (que se torna claro, se virmos a realidade de uma perspectiva global). Certos desenvolvimentos ocorreram porque um Grande Ser mudou o relacionamento de Forças, activando pontos dormentes ou latentes. Instrutores como Cristo ou Buddha não vêm contar parábolas e rezas: vêm fazer evoluir segundo as Leis.

Precisamos de realizar o “milagre” de nos juntarmos para ter a experiência capaz de transformar o «sistema» que nos subjuga. O Divino que habita em cada um é a Compaixão infinita. Que alívio seria se todos ajudássemos a estabelecer o Caminho dos Justos, a esperança da Humanidade, e a desfazer os erros e maldades da cultura dominante!

Humberto Álvares da Costa
Cardiologista; Secretário Geral da Sociedade Teosófica de Portugal.

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