A Economia e a Vida

Não temos nada contra a Economia. Pelo contrário, trata-se de mais um campo onde ideias criativas, inovadoras, justas e universalistas podem e devem ter lugar - conduzindo a um estado de coisas que facilite a expressão das mais nobres capacidades do ser humano, propiciando o tempo e os meios para tal.

Noutra perspectiva ainda, não podemos ter outro sentimento senão o de viva compreensão e respeito por quem, sofrendo privações e dificuldades, olhe para o futuro com ansiedade, receando piores dias e desejando melhores condições materiais - por quem, afinal, conta todos os cêntimos, não por avareza mas, antes, por necessidade manifesta.

Finalmente, nada nos move contra quem possa ter uma vida materialmente digna, confortável e que propicie bem estar e factores de relaxamento, no meio da tremenda pressão da vida contemporânea.

Quando, porém, vemos inquéritos e sondagens em jornais sobre se os cidadãos estão pessimistas ou optimistas para o(s) próximos(s) anos, e percebemos que os únicos fundamentos para um ou outro estado de ânimo são considerações puramente materiais ou economicistas, não podemos deixar de pensar que algo está profundamente errado nas noções e opções de valores vigentes. Nada mais dá razão de viver, confere alegria ou preocupação do que saber se a economia cresce 2% ou 3%, se os salários aumentam 1,7% ou 1,9%? Voltamos a ressalvar a situação daqueles que sofrem carências vitais, aos quais, aliás (como é evidente), não se aplicam as perguntas seguintes: a felicidade está em ter dois carros em vez de um? Em ter um veículo com mais 200 cc de cilindrada? Em ter 10 pares de sapatos em lugar de 8? Em ter mais roupas de marca e de último modelo? Em acrescentar à habitação urbana e, quiçá, a uma casa de campo, mais um apartamento junto à praia? Em exibir mais uns produtos de consumo?

Pode a dignidade do ser humano ser baseada em tais coisas? Onde sobra o espaço para o amor, para a criatividade, para a solidariedade, para a ternura e a compaixão, para ser diferente em cada novo dia, para ponderar o mistério solene da Vida? Não devemos parar um pouco, perguntar-nos por que 90% dos espaços dos jornais e noticiários só falam de política, economia, futebol e mexericos, como se a tal se resumisse a Vida? Não devemos, enfim, pensar de quanta desumanidade está cheia a Humanidade - e encontrarmos a coragem, e o impulso, e a lucidez para fazermos algo diferente e. melhor?

José Manuel Anacleto
Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

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