A Matéria

No número anterior da “Biosofia, tratou-se nesta secção de resumir o que, sobre a Matéria, a Ciência Física e a Ciência Oculta têm a dizer, assim permitindo aos leitores fazerem o respectivo contraponto. A perspectiva da Física foi exposta e descrita pela nossa muito querida amiga Dra. Liliana Ferreira de um modo tão claro, rico e sugestivo que, ao procedermos à sua leitura, logo nos ocorreu que largas passagens dessa parte do artigo mereceriam um comentário neste número.

A o fazê-lo, procuraremos aclarar o melhor que nos seja possível como os desenvolvimentos da Física (e de outros ramos da Ciência “oficial”) abriram um campo onde a voz do Ocultismo, desde que apresentado com rigor, justifica ser escutado com interesse, senão mesmo com verdadeiro respeito, tal como no passado o foi pelos grandes filósofos-cientistas que encheram de glória as brilhantes civilizações da Antiguidade - como, nos tempos históricos, foi o caso da Grécia, do Egipto e da Índia. Será lamentável se, por inabilidade ou excesso de devocionalismo irreflectido dos “esotéricos”, ou por um preconcebido ou altivez dos “físicos” (ou “químicos”, ou “biólogos”…), essa linha de contacto não for solidamente estabelecida. Estamos convictos que a “Biosofia” é um bom contributo para esse objectivo e uma relevante demonstração de que esse diálogo atento e respeitoso é possível e desejável.
Vejamos, então, alguns excertos da perspectiva da Física apresentada no número anterior, começando pela própria definição de Matéria.

A Questão Ontológica.
Os Objectivos das Ciências Físicas

Ela foi apresentada da seguinte forma:
Matéria é um conceito que para as ciências físicas (como, aliás, para o senso comum) designa “aquilo” de que são feitas as “coisas” que têm massa. Por sua vez, a grandeza massa é uma medida da quantidade de matéria (!) de que são feitas as “coisas materiais”.

O ponto de exclamação que a Dra. Liliana Ferreira intercalou na frase é elucidativo de como ela está consciente da “pescadinha de rabo na boca” (usando as suas próprias palavras) que se releva nesta definição: da matéria remete-se para a massa e da massa remete-se para a matéria. E, no entanto, a autora expressou fielmente o actual conhecimento científico.
O que quer isto dizer? Em primeiro lugar, o facto bem curioso de ser extremamente difícil definir aquilo que, à primeira vista, seria o dado mais simples e a mais fácil evidência da Física. Como em outras partes daquele mesmo artigo ficou patente, contudo, quanto mais a Ciência aprofunda a sua investigação sobre o âmago da Matéria, mais a objectividade - aparentemente tão óbvia e incontestável - da Matéria parece escapar-se por entre os dedos dos pesquisadores. De modo que a antiga sabedoria implícita na afirmação de que nada é o que parece, volta a ganhar, mais além de um senso comum, surpreendente pertinência.

No entanto, a mesma definição evidencia ainda as virtualidades e os limites da Ciência dita experimental. Vale a pena referi-lo, ainda que nos repitamos ao fazê-lo, para que se não cometam injustiças por excesso ou por defeito. As Ciências físicas pretendem, por posição de princípio, responder à pergunta “COMO?”. Têm-no feito de um modo empolgante e merecedor da maior gratidão e respeito. O método científico provou aí as suas potencialidades. Não se espere das mesmas Ciências que respondam às perguntas “PORQUÃL;?” ou “PARA QUÃL;?” ou sequer ao “O QUE É?” no sentido ontológico. Esta Ciência não o pode fazer, e essa incapacidade não justifica que se lhe dirija nenhuma censura, desde o momento em que nunca pretendeu fazê-lo. O problema só poderá surgir quando pretenda responder ao que não pode saber (e que assumiu não ser o seu campo de trabalho) ou quando amesquinhe os que se ocupam dessas questões, a que se não pode recusar dignidade e importância. Este último “vício” insinua-se em alguns fundamentalistas ou fanáticos da Ciência Moderna mas não na generalidade dos seus maiores vultos, que têm uma posição de construtiva humildade; e, de qualquer modo, não é uma postura científica (parecendo até ser anti-científica).

A exposição deste equilíbrio apareceu já em dois artigos anteriores da Dra. Liliana Ferreira, publicados nos os 1 e 13 da “Biosofia”, e para eles remetemos 1.

O Espaço e a Origem do Universo
Mais adiante, lemos:

Existem, actualmente, duas concepções principais sobre o universo: uma considera-o como um imenso espaço finito, preenchido por matéria-energia em expansão a partir de uma “explosão” inicial, que teria ocorrido há cerca de 15 mil milhões de anos atrás; a outra pondera-o como um espaço infinito, onde continuamente se gera nova matéria, num dinamismo que lhe imprime movimento de expansão. Estas duas diferentes ideias são apoiadas por certos factos científicos relevantes mas também se ligam com visões metafísicas e filosóficas distintas, mostrando que as grandes questões sobre a causa última da existência do universo e da matéria continuam por responder.

Na concepção ocultista, a ideia de Espaço evoca o que de mais sublime e elevado podemos conceber: “É, no plano da abstracção absoluta, a sempre incognoscível divindade, que é vazia apenas para as mentes finitas, e, no da percepção mayaávica, o Plenum divino, o absoluto Continente de tudo quanto existe, tanto manifestado como não-manifestado, sendo portanto o Todo Absoluto. O Espaço sempre foi é, e será; é a causa eterna de tudo, a divindade incompreensível, cujas vestimentas invisíveis constituem a mística raiz de toda a matéria e do Universo. É a única coisa eterna que podemos facilmente imaginar, imóvel em sua abstracção e não influenciada pela presença nem pela ausência de um universo objectivo nele. Carece de dimensões em todos os sentidos e é existente por si mesmo.” 2. Verdadeiramente, nada de mais divino, porque incausado e infinito, pode existir, ou melhor, ser; tal assenta, evidentemente, no facto de a Sabedoria Esotérica excluir, por insustentável, a hipótese teísta de uma divindade extra-cósmica e absoluta (duas “características” desde logo contraditórias entre si), omnipotente e criadora do universo (ainda que sublime, o universo é imperfeito, o que é incompatível com a ideia de omnipotência). Assim, como um ilustre cabalista (Henry Pratt) algum dia escreveu, o Espaço é “o continente desconhecido de tudo, a causa primeira desconhecida”. (Há 2.600 anos atrás, um notável filósofo grego, Anaximandro, havia desenvolvido, no sentido de Espaço tal como aqui apresentado, o conceito de Ápeiron, i.e., o não limitado ou indefinido, de modo semelhante ao que os ainda mais vestutos sábios hindus o haviam feito. Para Anixamandro, a espacialidade do Ápeiron era a quantidade infinita de matéria, de que todas as coisas tiram a sua origem e em que todas as coisas se dissolvem, quando termina o ciclo que lhes foi estabelecido por uma lei necessária).

Há o espaço absoluto, incondicionado e ilimitado, que é imensamente metafísico, ou seja, muito para além da substância física. Nos domínios do relativo, do manifestado, cada Plano superior é, relativamente ao que lhe está imediatamente abaixo na escala hierárquica, o Espaço de onde continuamente se gera nova matéria (que assim, surge, no Plano inferior). Já expuséramos esta ideia no número anterior da “Biosofia”, pouco depois do subtítulo “Os diferentes níveis de materialidade” (pág. 20).

A uma das questões mais interessantes actualmente colocada pela ciência, ou seja, a de saber se o Universo está em constante e infinita expansão, ou se haverá uma fase de contracção quando (se) esse movimento se detiver, responde o ocultismo: as respostas díspares que se vão sucedendo na comunidade científica são ambas parcialmente verdadeiras e incompletas. Em determinadas “zonas” do espaço, no que respeita a alguns (conjuntos) de sistemas siderais, o universo está em plena expansão, pois permanece ainda na fase de “materialização”, diferenciação ou “afastamento” relativamente ao Espaço de onde brotou; noutras, a fase contractiva ou do retorno do ciclo - pois tudo é cíclico no Universo - já se iniciou, ou pode mesmo estar na sua fase de culminação. Localmente, o espaço como que se fecha, homogeneizando os seus tecidos, dissolvendo como que uma ferida antes aberta, que se fechou.

No que respeita a outros Planos, “encobertos” pelo que a Física chama “Espaço” - e que só o é relativamente ao Mundo Físico - as coisas passam-se analogicamente.

Não obstante todas as virtualidades que a teoria do Big Bang possa ter - e cabe aqui lembrar a ancestral ideia cosmogónica do “Ovo do Mundo” onde a potencialidade de todo o Cosmos está contido -, o Ocultismo não a pode subscrever, pelo menos nos termos em que actualmente é formulada. As razões são várias e não seria possível descrevê-las ou sequer enumerá-las a todas neste artigo 3; assim, referiremos somente duas das principais. Em primeiro lugar, a não ponderação de Planos de substância supra-física, i.e., cujas partículas elementares apresentam um movimento de tão alta frequência e uma subtileza ou tenuidade tais que a tornam ainda algo de directamente inacessível aos actuais meios de investigação da Física (questão, aliás, presente nos mais diversos domínios). Em segundo lugar, mesmo no que ao Plano Físico exclusivamente concerne, a “eclosão” de matéria-energia não se dá num único ponto e num único momento iniciais mas, sim, disseminadamente pelo espaço (onde não existe “em cima” e “em baixo”, nem “o lado direito” nem “o esquerdo”…) e pelo tempo (se nos é permitida esta imagem, é algo assim à semelhança da chuva, que não começou a cair apenas num único ponto e num único momento temporal mas sim que, sob certas condições, em diferentes tempos e lugares, se precipita).

Algumas considerações muito sugestivas…
Voltando ao número anterior da “Biosofia”, podemos ler em seguida:
Independentemente dessas hipóteses, a ciência entende o universo como um espaço essencialmente vazio, salpicado, aqui e ali, por densos aglomerados de matéria. Esses agregados apresentam tipos semelhantes de estruturas e subestruturas materiais (galáxias, sistemas solares, estrelas, etc.) e que são regidos pelas mesmas leis físicas que testamos, quer por observação directa, quer por via laboratorial, no planeta Terra e no Sistema Solar. Manifesta, assim, uma ordem implícita, simultaneamente estranha e muito, muito bela.

Em nota de rodapé, foi acrescentada uma clarificação sobremaneira importante, que muito nos apraz registar e que reproduzimos:
Por “essencialmente vazio” queremos dizer que existem partículas materiais mas que a sua densidade (o número de partículas por unidade de volume) é tão extraordinariamente baixa que não permitiria que os objectos materiais se mantivessem coesos”.

A Ciência Espiritual sempre sustentou que não existe no Cosmos tal coisa como vazio 4; que, pelo contrário, esse aparente vazio é muito mais pleno do que os objectos (mais) materiais que o têm como pano de fundo ao qual salpicam; que só por isso, é que se pode afirmar que “Segundo as melhores teorias de partículas, o vácuo é um meio fértil em partículas virtuais, mesmo quando não há partículas âreaisâ™ presentes” 5. Ficamos satisfeitos por verificar que, ao menos neste particular, a distância da Física (já) não é tão grande.

Quando, na mesma nota, se fala na densidade das partículas materiais extraordinariamente baixa, então, eis que se toca um dos postulados fundamentais do Ocultismo: que existem diferentes Planos ou níveis de substância ou materialidade, uns mais densos (e por isso, apreensíveis pelos sentidos ou por instrumentos físicos) e outros mais subtis - ou menos densos - que, por não apreensíveis desse modo, se consideram como “vazio”, por mera simplificação ou comodidade de expressão (que, assim, não é rigorosa). Temos escrito abundantemente sobre essa questão. Outros, actualmente ou antes de nós, o fizeram também. Pareceria que batalhávamos em vão, pareceria que não nos conseguíamos fazer entender; mas, afinal, é tão lógico e evidente…

Identicamente, quando verificamos que agora, na comunidade científica, se pode falar sem temor (e, sim, convictamente) do espaço, essencialmente vazio, salpicado, aqui e acolá, por densos aglomerados de matéria, voltamos a rejubilar. Com efeito, deparamo-nos afinal com a confirmação do ensinamento ocultista 6 de que “a matéria é buracos cavados âno Espaçoâ™ ou âno Éterâ™ [expressão anterior ao advento da ciência experimental, que esta usou e de que se descartou, dando-lhe um sentido muito diferente do seu significado multimilenar 7], ou âno KoÃL;lonâ™ 8 ou âno Akashaâ™” 9.

Mas, no mesmo parágrafo, encontramos ainda outros motivos para congratulação! Com efeito, ao lermos que esses agregados apresentam tipos semelhantes de estruturas e subestruturas materiais (galáxias, sistemas solares, estrelas, etc.) e que são regidos pelas mesmas leis físicas que testamos … no planeta Terra e no Sistema Solar, verificamos a confirmação da imemorial sabedoria oculta contida neste grande princípio hermético (que configura a Lei das Analogias): “o que está embaixo é como o que está em cima e o que está acima é igual o que está embaixo”. 10
Finalmente, gostaríamos de fazer uma breve referência à expressão ordem implícita. É outro conceito muito próximo das sustentações milenares da Ciência Oculta. Escrevemos alargadamente sobre isso em outro artigo da “Biosofia” 11, para o qual tomamos a liberdade de remeter. Lembramos, somente, que os ocultistas jamais postularam que o Universo fosse obra de um Deus pessoal, antropomórfico e… absoluto e omnipotente, embora neguem a ideia do acaso e afirmem a existência de Inteligências 12 operantes no âmago da Natureza - sendo o substrato ontológico dessa ordem, bela, sublime e maravilhosa, mas não absoluta ou perfeita. Escrevemos isto em atenção à pergunta que a tantas pessoas inteligentes e reflectidas tem lançado para os braços do agnosticismo ou do materialismo: “Se o Universo é obra de um Deus Absoluto e todo poderoso, por que não é ele perfeito, por que há tentativas falhadas, por que há evolução?”. O Ocultismo tem uma resposta - muito mais coerente do que a das doutrinas desvirtuadas das Igrejas ou a do que a das teorias materialistas.

A “Ilusão Material”; As Forças Eléctricas
Mais adiante, encontra-se a seguinte passagem:
Ao longo dos últimos dois séculos de investigação, a física e a química demonstraram de modo convincente que o aspecto contínuo, coeso e estável que caracteriza os corpos materiais é apenas uma “ilusão” de óptica e sensorial, e se deve: primeiro, ao facto de os constituintes que formam a matéria - os átomos ou moléculas (agregados de átomos) - serem tão pequenos que não podem ser percebidos pelas nossas capacidades sensoriais; segundo, por esses constituintes existirem num número elevadíssimo dentro dos materiais (uma simples gota de água é feita aproximadamente de 3.000.000.000.000.000.000.000 moléculas de água; e cada molécula de água tem 2 átomos de hidrogénio e um de oxigénio!); finalmente, porque os átomos e moléculas que os constituem, embora em constante movimento, estão como que presos uns aos outros, ligados por forças (também invisíveis para nós) de natureza eléctrica. (…) A forma, o volume, a densidade e outras características dos materiais dependem especificamente dessas forças de interacção eléctrica entre os átomos ou moléculas que os constituem.

Estamos perante outras afirmações de excepcional interesse. Deixaremos para daqui a pouco a transcrição de um excerto da obra de Helena Blavatsky escrita há 120 anos atrás, contendo algo que era então considerado uma loucura, e que hoje é… um facto científico. Por agora, realçaremos que, justamente por (entre outras razões) saber desde há milénios incontáveis que o aspecto contínuo, coeso e estável que caracteriza os corpos materiais é apenas “uma ilusão” de óptica e sensorial (ou seja, de percepção), como, entretanto, a Física demonstrou convincentemente - e, com um isso, um grande rasgão nas concepções brutamente materialistas foi feito - é que os expoentes da Ciência Oculta sempre sustentaram “a natureza ilusória da matéria” 13.

Quanto às forças eléctricas que prendem uns aos outros os átomos e moléculas, embora estes estejam em constante movimento, mais uma vez é o que o Ocultismo há muito sustentava. Em primeiro lugar, a ideia do movimento incessante de tudo na Natureza. Em segundo lugar, a concepção de que são forças electro-vitais as que permitem a atracção e a coerência (como, também a repulsão) entre todas as sub-unidades constituintes da substância universal. Sob o nome de Fohat - “a essência da electricidade Cósmica”, “o poder electro-vital que (.) une e combina todas as formas, dando-lhes o primeiro impulso que, com o tempo, se converte em Lei . que enlaça todas as energias cósmicas”, “o poder eléctrico de afinidade e simpatia” 2, “a força ou energia que chamamos de electricidade, misteriosamente relacionada a outras forças físicas tais como magnetismo, gravitação e assim por diante” 14 -, sob o nome de Fohat, dizíamos, a Ciência Oculta sempre assinalou tais factos. E as referidas forças de interacção eléctrica são expressões (ou “filhas”) da grande Força Universal, designada no Ocultismo Oriental por Fohat 15.

A Interpenetração dos Estados da Matéria
Outra frase que, especialmente, julgamos de destacar, é esta:

Como consequência da natureza descontínua da constituição da matéria, os diferentes estados físicos podem interpenetrar-se, sendo possível os estados menos densos existirem no “interior” dos mais densos: um líquido ou um gás pode existir no interior de um sólido, um gás no seio de um líquido, gases mais rarefeitos entre outros mais densos.

E, chegados aqui, indaga naturalmente o ocultista: como pode então custar a entender-se, ao menos de um ponto de vista lógico, que existam vários outros estados da matéria, suprafísicos, que possam interpenetrar, isto é, encontrar-se no âmago dos conhecidos pela Física, dando assim lugar ao septenário de Planos da substância universal (e suas subdivisões: subplanos, níveis ou estados)? Aliás, não constata a Física que a matéria já ponderada parece estranhamente escassa para que exista um modelo de interpretação da realidade completo e coerente? 16

No Interior do Átomo
Escreveu também a Dra. Liliana Ferreira:
Os átomos não são (…) uma massa compacta indivisível, como sabemos actualmente. Também eles são constituídos por partículas menores, altamente energéticas, executando movimentos de frequência vibratória tão elevada que se os conseguíssemos ver não distinguiríamos a trajectória da partícula que a executa.

Há 120 anos atrás, Helena Blavatsky sustentou o seguinte: “Um bloco de matéria ou de pedra está imóvel e é impenetrável em todos os sentidos. Não obstante, e de facto, as suas partículas estão animadas de um movimento vibratório incessante, eterno, tão rápido que, para o olho físico, o objecto parece em absoluto desprovido de movimento; e a distância daquelas partículas entre si, no seu movimento vibratório, é tão grande (vista de outro plano de existência e percepção) como a que separa flocos de neve ou gotas de chuva. Mas, para a ciência física, isto será um absurdo” 17.

Face ao parágrafo imediatamente citado, e a vários outros excertos reproduzidos mais acima, constatamos que, hoje, essa afirmação de HPB já não é entendida como algo de absurdo mas, antes, como um facto natural. E, visto que o mesmo sucedeu com muitas outras afirmações suas, de outros ocultistas e da Ciência Esotérica - não será justificado conferir maior e mais séria atenção ao Sistema Ocultista como um todo? Permita-se-nos acrescentar mais um exemplo: na mesma obra, Helena Blavatsky escreveu expressamente: “Segundo os ensinamentos esotéricos, o Espaço e o Tempo são uma só coisa”. Está registado, basta ler. Quantos anos depois o conceito de espaço-tempo (e, não, espaço e tempo) veio a penetrar a mente dos cientistas?

Mais à frente, podemos ler:
Os átomos são constituídos por um núcleo positivo e por cargas negativas que gravitam à sua volta. O o de cargas positivas do núcleo (protões) dá ao átomo uma identidade particular. (…)
As cargas negativas em volta do núcleo, os electrões, são as responsáveis pelas ligações de natureza eléctrica com os outros átomos e, portanto, pela coesão dos materiais. Percebe-se, assim, que o tipo de átomo e a intensidade da força da ligação de natureza eléctrica que ele estabelece com os outros átomos vão determinar as características do corpo que se constituiu com esse “pedaço” de matéria.

Tornamos aqui à questão de Fohat. Há cerca de 35 anos atrás, o ocultista (teósofo) e químico Ikbal Taimni escreveu: “H.P.Blavatsky usou a expressão âElectricidade Cósmicaâ™ em lugar de Fohat, o que é muito significativo e mostra que ela estava tentando referir-se à força ou ao princípio universal, instrumento para a criação do material primordial do universo manifestado, os átomos e moléculas dos diversos Planos. Pode ver-se imediatamente que isto é verdade, pelo menos no Plano físico, se tivermos uma ideia, ainda que elementar, sobre a estrutura de um átomo tal como a ciência moderna expõe. Mencione-se de passagem que as estruturas dos átomos e moléculas não mais pertencem ao reino da especulação como no tempo de H.P.Blavatsky. Essas coisas são agora conhecidas com muita clareza (…)

Não necessitamos detalhar aqui a estrutura dos átomos, mas é bom que se faça uma breve referência geral ao assunto, a fim de mostrar como a ciência moderna não somente corrobora bastante a doutrina ocultista em relação a Fohat, mas também muito a esclarece.

(…) No momento, os pontos que realmente nos propomos estudar em relação à estrutura do átomo, incidem no facto de que os átomos dos diversos elementos são formados pela adição crescente [e periférica] de eléctrons carregados negativamente formando envoltórios, por protões carregados positivamente e por neutrões formando o núcleo no qual se concentra a massa do átomo; e ainda mais, que é a quantidade e a colocação dos electrões nos envoltórios orbitais que determinam a maior parte das propriedades dos diversos elementos. (…) isso não mostrará que os diversos átomos são movimentos giratórios [vórtices] em matéria de natureza mais subtil e que os diferentes Planos podem ser criados pela produção de vórtices dentro de vórtices?” 14

Com efeito, o que HPB dissera, na década de 1880, sobre Fohat é notável. Já acima reproduzimos algumas das suas asserções. Acrescentemos agora outras, mais relacionadas com as afirmações neste momento em apreciação, deixando sem referência muitos outros dos seus desenvolvimentos sobre essa figura tão fascinante da Cosmogonia Oculta - Fohat. Assim, escreveu ela nas suas obras “Glossário Teosófico” e “A Doutrina Secreta” que, recorde-se, saíram à luz do dia muito antes da Física ter chegado aos actuais conhecimentos sobre os átomos e sobre a importância da electricidade na manifestação da Vida: “(Fohat é) . no Universo de manifestação, a sempre presente energia eléctrica e incessante poder destruidor e formador” 18; “(Fohat é). o princípio animador que electriza cada átomo, para dar-lhe vida” 2. Julgamos que se tratam de afirmações extremamente significativas.

No Interior do Núcleo Atómico
Na mesma parte do artigo que temos vindo a comentar, também podemos ler:
Estabelecendo uma escala de correspondência, diremos que se o núcleo do átomo mais pequeno que conhecemos, o de hidrogénio, fosse do diâmetro de uma maçã, o electrão estaria a 1 quilómetro de distância do núcleo! Além disso, como a massa do electrão é cerca de 1000 vezes menor que a do protão, concluímos que o átomo é fundamentalmente uma estrutura vazia, com cerca de 99,9% da sua massa concentrada no núcleo!
Sabe-se hoje que as próprias partículas constituintes dos núcleos atómicos - os protões e os neutrões (também massivas mas sem carga eléctrica) - são ainda constituídas por três partículas de natureza diferente, os quarks, fortemente ligados entre si. As partículas nucleares não são, portanto, compactas; são, também elas, constituídas por outras entidades menores e espaço vazio.

Entretanto, na última década, e embora ainda sem confirmação experimental, tem ganho um relevo e interesse particulares a chamada teoria das “supercordas”, onde se pondera a hipótese de os quarks não serem ainda as mais pequenas entidades constitutivas da matéria. Segundo essa teoria, todas as partículas do universo seriam feitas de quantidades ínfimas de energia vibrante de determinada frequência (cordas), sendo as propriedades carga eléctrica, estado magnético, massa, etc., que as caracterizam, conferidas por diferentes padrões vibratórios.

Já acima nos referimos à questão do espaço vazio, que só por comodidade de expressão (e por impossibilidade actual da Física de escrever o que lá existe) pode realmente ser chamado “vazio”. Entretanto, tomando em consideração as frases da Dra. Liliana Ferreira que acabámos de citar, vale a pena reproduzir algo que nós próprios escrevemos nesta secção no número anterior da “Biosofia” (a sua inserção neste passo permitirá aclarar melhor o seu sentido e alcance): “… Com respeito ao Plano que lhe é imediatamente de maior materialidade, o Plano ou sub-Plano de substância mais elevada é o espaço (que, de modo incorrecto, ou pelo menos não rigoroso, se considera vazio, como o espaço entre as partículas atómicas) simultaneamente causal ou contenedor (dessas outras vidas ou partículas mais densas e objectivas)”. Assim, o espaço “vazio” entre as partículas atómicas é, na verdade, substância-energia de um nível mais elevado, mais subtil, menos denso.

A teoria das supercordas 19 é certamente uma das mais notáveis aproximações da ciência moderna às concepções do Ocultismo! De tal modo assim é, e tão fascinante é o assunto, que se justifica autonomizá-lo um futuro artigo da “Biosofia”.

De qualquer modo, a sustentação da “Doutrina Secreta” sobre a “infinita divisibilidade do átomo”, a que já nos referíramos anteriormente, parece cada vez… mais sustentável.

A Anti-Matéria
Mais à frente, no mesmo artigo, encontramos o seguinte parágrafo:
No nosso universo existem também partículas de massa igual à do protão e à do electrão mas com carga eléctrica de sinal contrário - o anti-protão e o positrão, respectivamente - que se poderiam associar num anti-átomo, originando o que designaríamos por anti-matéria. O universo em que vivemos é matéria, embora existam muitas outras partículas consideradas anti-matéria e até consigamos, em experiências laboratoriais e durante intervalos de tempo extremamente curtos, criar anti-átomos. Quando matéria e anti-matéria se encontram, aniquilam-se mutuamente, transmutando-se em energia.

Sobre a questão da anti-matéria, na impossibilidade de alargar ainda mais o presente artigo, tomamos a liberdade de recomendar a leitura de um dos livros do Centro Lusitano de Unificação Cultural, com o título “Luzes do Oculto” 20 - especificamente a pergunta e resposta o 369. Este assunto, contudo, virá também a ser abordado noutro número desta revista.

Matéria Viva e Matéria Inerte?
Como sabemos, a ciência distingue matéria viva de matéria inerte, considerando que determinadas associações moleculares, muito ricas em átomos de carbono, azoto, hidrogénio e oxigénio, em certos ambientes ricos em água e em condições particulares de pressão e temperatura, desenvolvem uma especial complexidade e capacidade de auto-replicação, dando ulteriormente origem aos seres vivos. Contudo, ao nível da constituição material interna, atómica e sub-atómica, não há qualquer diferença na matéria e nas interacções existentes no seu seio, que permitam diferenciar um átomo presente numa estrela, mineral, planta, animal ou ser humano. A matéria, chamemos-lhe viva ou inerte, é constituída pelo mesmo tipo de partículas!

A Ciência Oculta, que sempre sustentou a unidade essencial da vida-substância-inteligência do universo, encara como um facto evidente a afirmação contida nas duas última frases (foi, aliás, com um argumento muito semelhante que Helena P. Blavatsky se tornou pioneira também no campo da Ecologia, um mais a somar a tantos outros); e essa é mais uma razão para que, conforme igualmente já aclarámos no artigo anterior, conteste a distinção entre matéria viva e matéria inerte. Para o ocultista, a Vida é Movimento (ou o Movimento é Vida) - e, nos átomos de um mineral, não existe movimento incessante? De resto, como tão sabiamente observou o nosso amigo Dr. Humberto Álvares da Costa, do ponto de vista ocultista, a própria questão da “origem da vida” enferma de um erro de princípio, uma vez que a vida é eterna, sempre existiu e sempre existirá.

Novos Horizontes
Justifica, igualmente, fazer uma menção a este excerto:
Pelos anos 20 do século passado, o físico francês Louis de Broglie formulou uma hipótese revolucionária (confirmada experimentalmente alguns anos mais tarde) ao prever que as partículas materiais deveriam apresentar um comportamento dual partícula-onda. Em certas condições, manifestam propriedades físicas localizadas no espaço, comportamento típico de uma partícula com uma dada massa, e, noutras, revelam propriedades características de perturbações ondulatórias distribuídas espacialmente (ondas).

No o 5 da “Biosofia”, nesta mesma secção, em artigo com o título “ÃL; Procura do Gato… (Sobre o Vácuo e a Realidade)”, esta duplicidade foi explicada sob a perspectiva ocultista. Para os leitores interessados na questão, endossamos para o que então se deixou escrito:

Quase a terminar o seu texto, colocou a Dra. Liliana Ferrera a seguinte questão:

Matéria? Ou, apenas, Materialidade?
Sim, Materialidade, afirmamos nós! Ou, como um notável advaitista 21 escreveu (e já citámos no artigo anterior), “a possibilidade permanente de sensações!” 22.

Conclusão
Finalmente, deparamo-nos com estas significativas perguntas:
No quadro do conhecimento científico actual, num entendimento abrangente dos fenómenos estudados e no limiar de novas descobertas sobre a natureza interna de todas as coisas, parece razoável perguntar: terá sentido ponderar o conceito matéria como uma entidade única, separada, com características independentes do resto? Ou será que tudo o que existe materialmente corresponde, apenas, a diferentes níveis de materialidade, de “condensação”, da mesma energia presente em todas as coisas?…

Em qualquer bom manual de Ocultismo de séculos anteriores, a concepção contida na última frase-interrogação está claramente presente. Assim, permita-se-nos repetir: no quadro do conhecimento científico actual, o Ensinamento Esotérico - de um verdadeiro e genuíno Esoterismo - deve fazer ouvir a sua voz, já que em tantos aspectos se antecipou aos melhores desenvolvimentos da Ciência moderna.

José Manuel Anacleto
Presidente do CLUC

1 O o 1 é o da Primavera de 1999, e o o 13, o da Primavera de 2002. Ambos os artigos estão publicados na secção “O Olhar da Ciência”.

2 Cfr. “A Doutrina Secreta”, de Helena P.Blavatsky (Ed. Pensamento, São Paulo, 1973). Cfr. também o que, nesta mesma secção (”Entre o Céu e a Terra”), escrevemos no o 15 da “Biosofia”.

3 Tal, não obstante, é feito em outro espaço desta revista.

4 Cfr. “ÃL; Procura do Gato… (Sobre o Vácuo e a Realidade), no o 5 da “Biosofia” (Centro Lusitano de Unificação Cultural, Lisboa, 2000).

5 In “ÃL; Procura do Gato de ScrÃL;dinger”, de John Gribbin (Editorial Presença, Lisboa, 1988 - 2a ed.).

6 Cfr., por exemplo, “A Doutrina Secreta”, de Helena P. Blavatsky, cit.; “Étude sur la Conscience”, de Annie Besant (Éditions de la Famille Théosophique, Paris, 1923; existe uma edição brasileira, da Editora Pensamento).

7 Conforme se escreveu no já citado artigo da “Biosofia”, o 5.

8 KoÃL;lon - Sobre o KoÃL;lon, reproduzimos aqui o que escrevemos no o 3 da Biosofia: “Termo grego que significa, literalmente, ÂVazioâ™ ou âVácuoâ™, e que foi usado por Annie Besant e Leadbeater. Na verdade, a substância do universo material, mesmo nos seus níveis mais subtis, nada mais é do que âburacosâ™ nesse KoÃL;lon ou espaço abstracto, pontos ou corpúsculos luminosos nessas âtrevas do caos primordialâ™, onde (pre)existem os protótipos espirituais ou arquétipos de todas as coisas e de todos os elementos; assim, o KoÃL;lon pode ser considerado com a anti-substância material do Universo”.

9 Akasha - Na definição de H.P.Blavatsky: “A subtil, supersensível essência espiritual, que preenche e penetra todo o espaço. É o Espaço Universal nos seus aspectos sempre cambiantes expressos nos Planos materiais e de objectividade”.

10 In “A Tábua de Esmeralda”.

11 Cfr. “A Ordem e a Inteligência no Cosmos”, no o 10 da “Biosofia”, pp.
14 a 16. V. Também o nosso artigo “Noções Básicas de Cosmogénese (2a Parte)”, publicado no o 80 de “Portugal Teosófico” (STP, Lisboa, 2000).

12 Colectivamente formando a Mente Cósmica.

13 Expressão de H.P.Blavatsky, já por nós reproduzida e comentada no o anterior da “Biosofia”.

14 I.K.Taimni, “O Homem, Deus e o Universo”, Ed. Pensamento, São Paulo.

15 A Cosmogonia Esotérica refere-se aos Filhos de Fohat “cujas produções cooperativa e activa são, entre outras energias, a Electricidade, o Magnetismo, o Som, a Luz, o Calor, a Coesão, etc” (in “A Doutrina Secreta, Vol. I”, de HPB).

16 Entre a imensa bibliografia sobre a natureza septenária do Universo (sete Planos da Substância Universal) e do Ser Humano (sete Princípios de Consciência), além da obra já citada de H.P.Blavatsky, cfr. o livro “Transcendência e Imanência de Deus” (José Manuel Anacleto, Centro Lusitano de Unificação Cultural, Lisboa, 2002).

17 In “A Doutrina Secreta, Vol. II”, p. 220 (da edição em 6 volumes).

18 In “Glossário Teosófico”, Ed. Ground, São Paulo.

19 Sobre a Teoria das Cordas, cfr. o artigo publicado no o 12 da “Biosofia” (Centro Lusitano de Unificação Cultural, Lisboa, Inverno 2001/2002) e, também, o livro “O Universo Elegante”, de Bryan Greene (Gradiva, Lisboa, 2000).

20 Com 1a e 2a edições em 1998 e 3a edição em 2002.

21 O Advaitismo é a vertente monista ou não dualista da Vedanta, sistema esotérico oriental, assente na interpretação do profundo significado dos Upanishads e no esforço de verdadeiro conhecimento de muitas gerações de sábios. Shankârâchârya foi o grande expoente da Vedanta monista ou advaíta.

22 Subba Row, “Consciencia e Inmortalidad”, Editorial Kier, Buenos Aires, 1994.

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