Cristo. Parte II - Os Primeiros Cristãos

Na 1a Parte deste artigo, publicada no número anterior da “Biosofia”, tentámos mostrar que, para o ocultista, existe um Ensinamento fundamental comum a todas as grandes religiões, pelo menos nas suas formas mais puras e autênticas; que existem muitas dúvidas sobre os factos históricos da vida do Messias cristão e que os próprios Evangelhos encerram muitas contradições factuais; que o desenvolvimento das Igrejas Cristãs teve muitos aspectos obscuros ou pouco consentâneos com o ideal do Cristo; e que, no entanto, este inspirou, até hoje, milhões e milhões de pessoas, impregnando muito da civilização ocidental e fazendo ressoar no nosso íntimo uma vibração irresistível de Amor e de Verdade.

Prometêramos que, neste número da “Biosofia”, tentaríamos explicar o porquê dessa aparente contradição, e aludir, o melhor que saibamos, à natureza excelsa e luminosa do Cristo. Afinal, ficará ainda para uma 4a Parte deste artigo, a publicar em próximo número. Com efeito, entendemos que há muitos e tremendos equívocos a desvanecer, bem como factos extremamente relevantes a aclarar, e que este artigo nos oferece uma oportunidade de contribuirmos para esse objectivo. Teremos, assim, de nos alargar em considerações que consideramos sobremaneira importantes e que implicarão deixar para número seguinte o que havíamos anunciado para este.

Quem foram os primeiros Cristãos?…
Helena P. Blavatsky indicou claramente a relação de Jesus com os Ebionitas, a esta comunidade pertencendo também grande parte dos seus seguidores e dos seus parentes. Na primeira das suas obras 1, à pergunta, por ela mesma colocada, “quem eram os primeiros cristãos?”, responde: “Sem dúvida alguma, os ebionitas”. E cita, em seguida, Walter Cassels: “Não há dúvida que o autor [das Homilias Clementinas] era um representante do gnosticismo ebionita, que foi (…) a forma mais pura da cristandade primitiva” 2.

… Será que foram hereges?
Parece estranho e indefensável? Quando, em 160, o bispo Melito de Sardis foi até Jerusalém, para entrar em contacto com a primitiva Igreja Cristã de Jerusalém, ficou consternado por não encontrar os descendentes dos Apóstolos a defenderem o Cristianismo literalista - isto é, destituído do seu significado mais profundo, interno, esotérico - mas, sim, um grupo de Ebionitas (Ebionitas significa, etimologicamente, “Homens Pobres”) 3. Estes cristãos gnósticos tinham o seu próprio “Evangelho dos Ebionitas” e, ainda, um “Evangelho dos Hebreus”, um “Evangelho dos Doze Apóstolos” e um “Evangelho dos Nazarenos” 4, todos eles muito diferentes dos Evangelhos que, actualmente, constituem o Novo Testamento (e que só nos concílios de Niceia e Laodiceia, que tiveram lugar, respectivamente, em 325 e 363, foram seleccionados de entre incontáveis Evangelhos).

Comentando o facto, escreveram Timothy Freke e Peter Gandy, num excelente livro recentemente publicado 5: “O propagandista literalista Eusébio explica o facto de se ter verificado que a Igreja de Jerusalém era composta por gnósticos afirmando que eles obviamente tinham todos ‘abjurado’ (…) e se tornado heréticos - mas não explica porquê ou como é que isto poderia ter acontecido! Na realidade, os indícios sugerem que os cristãos de Jerusalém tinham sido sempre gnósticos, porque no primeiro século a comunidade cristã era inteiramente composta por diferentes tipos de gnosticismo”.

Mais adiante, teremos de nos referir uma outra vez a Eusébio, visto que a história oficial do Cristianismo dos primeiros séculos está, numa grande medida, ainda hoje, baseada no seu livro “História Eclesiástica” - cuja credibilidade deve ser questionada muito seriamente.
Retomando as origens

Antes disso, porém, voltemos à obra de Helena P. Blavatsky. Escreveu ela: “… E quem eram os ebionitas? Os discípulos e seguidores dos nazarenos primitivos, os gnósticos cabalísticos” 1.

Correlacionando os factos e afirmações que temos vindo a referir, é possível extrair importantes conclusões, nomeadamente as seguintes:

- O título de “Nazareno” ou, originalmente, “Nazaria”, associado a Jesus (e/ou aos seus seguidores) não se referia a Nazaré 6 - (onde Jesus seguramente não nasceu, e que talvez nem existisse na época 7, sendo que, de qualquer forma, nada justifica uma referência tão expressiva e repetida) - mas, sim, a um grupo gnóstico judaico. Lembremos que, segundo se relata nos Actos dos Apóstolos, 11:26, foi só em Antioquia que “os discípulos, pela primeira vez, foram chamados de cristãos”. Até então, eram conhecidos apenas por “Nazarenos”.

- O Cristianismo não surgiu como uma revelação sem raízes, desenquadrado de toda uma tradição milenar e, mais proximamente, dos grupos, ensinamentos e escolas de Tradição Espiritual que fervilhavam, há 2.000 anos, à volta do Mediterrâneo. Entre esses núcleos, contavam-se os habitualmente inseridos na designação genérica de Essénios, mas que, além deles mesmos, incluíam os Terapeutas - que tinham uma forte influência budista - 8, os Nazarenos, os Ebionitas e várias outras derivações; os diversos grupos Gnósticos, quer os mais estreitamente ligados ao Judaísmo mas sempre recebendo outras expressões da Sabedoria, nomeadamente do Pitagorismo e do Platonismo, quer os que, por exemplo, se ligavam à grande Tradição Egípcia, como os Ofitas 9, em todos os casos respeitando a Sabedoria Antiga (a grande Tradição Universal); os que detinham o conhecimento da Cabala, quer mais estritamente judaica, quer no seu sentido mais universalista … enfim, toda uma série de ingredientes que vieram a informar o Cristianismo nascente. Deste modo, na sua origem, não estava ele dissociado da Sabedoria Universal mas, sim, que a reafirmava num determinado contexto histórico e cultural (por isso, mais adaptado à mentalidade daquilo que podemos chamar a “civilização ocidental”), visando um revigoramento em termos de ética e de Conhecimento Sagrado. Em todos ou quase todos os grupos citados, além das conexões já referidas, existiam elementos que os ligavam à Sabedoria Espiritual da Índia, ao Zoroastrismo persa, ao Hermetismo, e a toda a religiosidade arcaica.

- A necessidade incontornável do Cabalismo Cristão (como substratum ou pano-de-fundo) para compreender o verdadeiro Cristianismo, assim clarificando a sua génese e descodificando o seu simbolismo 10.

- A importância capital dos Gnósticos 11 no que o Cristianismo teve de mais genuíno e mais puro.
- O facto de que o que se considera normalmente como herético, representa, afinal, a matriz original do Cristianismo. Pelo contrário, o que é tido por ortodoxo e legítimo, é que constitui a sua deturpação.

A Falsificação da História
E então - perguntar-se-á -, por que é que, ainda nos nossos dias, os Gnósticos são vistos como uma heresia terrível surgida em certa fase de desenvolvimento do Cristianismo, ao qual, insidiosamente, teria procurado desvirtuar 12, porque é que, para o comum das pessoas, a Cabala significa “uma conjura odiosa”? A resposta, por mais terrível que seja, na verdade, é esta: porque eles foram (injustamente!) derrotados na tremenda luta que contra eles descerraram grupos de cristãos mais ignorantes, fanatizados (no seu excesso emocional, tantas vezes histérico) e agarrados à letra morta. Estes últimos acabaram por prevalecer. Uma vez coligados com o poder temporal, quando o cruel, sanguinário e inescrupuloso imperador Constantino 13 impôs que o Cristianismo fosse a religião oficial do Império, destroçaram todo o assim chamado Paganismo - no que devemos incluir não apenas as superstições (que existiam naquele tempo, como continuam a existir hoje, ainda que sob outras formas e nomes) mas, também, Ciência Integral e elevação Ética - e as suas manifestações religiosas, artísticas, filosóficas, científicas e culturais; mas, além disso, perseguiram e dizimaram outros cristãos, mais puros, mais sábios e de pendor mais universalista.

Veremos, na 3a Parte deste artigo, o que significou essa ignominiosa destruição, como foi levada a cabo e quais algumas das consequências que daí advieram. Tentaremos, desse modo, dar um contributo para repor a verdade histórica, falsificada pelos vencedores - como sempre aconteceu nas épocas de tirania, seja política, económica, cultural ou religiosa.

José Manuel Anacleto
Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

1 H. P. Blavatsky, “Ísis sem Véu”, Ed. Pensamento, S.Paulo, 1990. Sobre este particular, cfr. especialmente o Volume III. Recomenda-se igualmente o Volume V da sua obra “A Doutrina Secreta” (Ed. Pensamento, S. Paulo, 1973).
2 “Supernatural Religion”.
3 Cfr. G.Ludemann, “Heretics”, SCM Press, 1995.
4 Cfr. G.R.S. Mead, “Fragments of a Faith Forgotten”, Theosophical Publishing Society, Londres, 1906 (2a ed.); W.Barnstone, “The Other Bible”, Harper Collins, 1984.
5 T. Freke e P. Gandy, “Os Mistérios de Jesus”, Publicações Europa-América, Lisboa, 2002.
6 Para uma elucidação alargada do termo “Nazareno” e outros correlacionados, cfr. Isabel Nunes Governo, “Logos, Devas e Elementais” (Centro Lusitano de Unificação Cultural, Lisboa, 2002).
7 Cfr. o que escrevemos na 1a parte deste artigo, no o anterior da “Biosofia”.
8 “Quais foram, no Ocidente, as comunidades religiosas que acolheram o Buda Dharma e dele impregnaram o pensamento ocidental? Os Terapeutas do Egipto e os Essénios da Palestina”. In Catecismo Budista, de Henry S. Olcott (Ibrasa, S. Paulo, 1983).
9 Sobre os Ofitas, Cfr. o “Glossário Teosófico” de Helena P. Blavatsky (Ed. Ground. S. Paulo).
10 Acerca da Cabala, cfr. o artigo de Humberto Álvares da Costa “Introdução para um Estudo da Árvore da Vida”, saído no o 7 da “Biosofia”.
11 Sobre os Antigos Gnósticos, e alguns dos seus textos e princípios, cfr. o artigo de Ana Isabel Neves publicado no o 13 da “Biosofia”.
12 Como é óbvio, e mencionado no artigo referido na nota anterior, os gnósticos a que aqui nos reportamos devem ser claramente distinguidos dos autodenominados grupos gnósticos hoje existentes.
13 Constantino foi um imperador cruel e sanguinário, que mandou matar o próprio filho, e que assassinou grande parte da sua família, pelo menos em um caso pelas próprias mãos. O seu favorecimento à Igreja foi, manifestamente, movido por desígnios políticos. De resto, só se baptizou quase à hora da morte (ironicamente, por um “herege”); e a sua conversão só se deu 11 anos depois da famigerada e pretensa visão que teria tido, antes de uma batalha, de uma cruz com a legenda “In Hoc Signo Vinces” (sob este Sinal vencerás) - não obstante o facto de ter, efectivamente, saído vencedor dessa batalha militar.

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