Cristo. Parte III - A Falsificação da História

Com o fito de reescrever a história à luz dos caprichos e interesses dos vencedores, o já referido Eusébio de Cesareia, biógrafo do imperador Constantino e historiador (com o tempo tornado) oficial da Igreja Romana triunfante 14, juntou todo um ramalhete de piedosas falsificações, que outros (nomeadamente Ireneu, Epifânio e Tertuliano) já haviam começado a perpetrar, assim se consumando uma das maiores fraudes de todos os tempos. Entretanto, toda a história oficial do Cristianismo dos primeiros séculos está baseada na suposta “autoridade” de Eusébio e de todos os que lhe haviam fornecido os materiais que ele tão habilmente manuseou, juntou (?) e acrescentou…

A deturpação dos factos
Assim, contrariamente à verdade dos factos - que, tão-só, desde há pouco mais de cem anos tem sido possível, lentamente, ir recuperando -, a deturpada história Oficial daqueles vencedores, sustenta, entre muitas outras falsidades:

- A ideia de que os Gnósticos foram uma heresia demoníaca que, a determinada altura, se procurou infiltrar no seio do verdadeiro Cristianismo - quando os factos (ver a Parte II) demonstram que o gnósticos eram os verdadeiros cristãos primitivos (ainda que algumas das suas ramificações surgissem mais tarde) e os detentores do Conhecimento Sagrado - Sophia, entre os Gnósticos, é o complemento (pólo de Ciência) do Cristo (de Amor e Compaixão); e a ligação ao melhor da Filosophia grega, começando nos Mistérios ÃL;“rficos e no Pitagorismo, é manifesta.

- A ideia de que os Gnósticos eram imorais e ímpios quando, na realidade (e salvo as inevitáveis excepções), eram muito mais puros, isentos, fraternos e carinhosos do que os chefes do Cristianismo literalista. Pelo contrário, uma significativa parte destes últimos deram exemplos de desonestidade, inescrúpulo e, além do mais, de um ódio muitíssimo cruento (ainda que, em alguns casos, com a atenuante de um devocionalismo cego e exacerbado, que sempre turva a razão). Detenhamo-nos nestas palavras (documentadas) de Tertuliano: “Tu, que gostas de espectáculos, espera o maior de todos os espectáculos, o último e eterno julgamento do Universo. Como eu admirarei, como rirei, como exultarei, quando vir tantos monarcas orgulhosos e deuses populares a gemer nos abismos mais profundos das trevas; tantos magistrados que perseguiram o nome do Senhor a liquefazer-se em fogos mais violentos do que eles alguma vez atearam contra os cristãos; tantos filósofos sábios a corar em chamas incandescentes como os seus iludidos seguidores; tantos poetas celebrados a tremer perante o tribunal, não de Minos mas de Cristo; tantos dramaturgos, mais afinados na expressão dos seus próprios sofrimentos… ” (etc, num nunca mais acabar de imagens macabras). Serão estes sentimentos e este fraseado um exemplo de “amor cristão”? Entretanto, muitas outras posturas e exemplos semelhantes podemos encontrar, dos quais não resistimos a reproduzir uma uma pequena exortação de (São!) Jerónimo ao “amor filial”, quando os pais se revelassem infiéis: “… Se o teu pai se deita na tua porta, se a tua mãe descobre a teus olhos o seio que te nutriu, esmaga o corpo sem vida do teu pai, esmaga o seio da tua mãe e, com os olhos secos, refugia-te no Senhor que te chama”!

- A ideia de que os Gnósticos tentaram aproveitar-se de certas vistas largas - i.e., erudição grega - de São Paulo para os seus fins tenebrosos e que Paulo os terá reprovado severamente. Para sustentar esta tese, forjaram-se epístolas atribuídas a São Paulo (nomeadamente, as “pastorais” a Timóteo e a Tito, que são referidas pela primeira vez no fim do Séc. II, por Ireneu, e que nem sequer Eusébio incluiu na Bíblia) para o colocar a anatemizar os Gnósticos e a sustentar a importância de crer no Jesus histórico, quando, na verdade, Paulo sempre sustentou, correctamente e tal como os Gnósticos, que o importante não era o Jesus “segundo a carne”, i.e. um relato histórico de factos concretos, mas a realidade do Cristo (de que falaremos mais adiante, sobretudo no próximo número). Nos primeiros séculos da nossa Era tais epístolas não são citadas, malgrado a sua pretendida importância, o que elucidativamente atesta a sua inveracidade; por outro lado, os investigadores independentes contestam a sua autenticidade, como sempre o fizeram os Gnósticos. Quando, em 1945, se encontraram os textos enterrados em Nag Hammadi 1500 anos atrás 11, verificou-se que ali se encontravam referências e comentários às Epístolas incontestavelmente genuínas de São Paulo e que eram omitidas, como inexistentes, justamente aquelas que são consideradas espúrias. De resto, note-se que.Paulo escreveu as suas cartas a igrejas em sete cidades que são conhecidas como tendo sido centros de cristianismo gnóstico durante o século II 5. Se Paulo fosse anti-gnóstico, estranho seria que estes o citassem tão abundantemente como uma autoridade; e mais estranho ainda é que cristãos literalistas e anti-gnósticos atacassem Paulo como um “desencaminhador herege”, afirmações patentes, por exemplo, nas cartas de Clemente Romano (alegado 4o papa), antes das falsificações de Eusébio (falsificações que, espantosamente, continuam a ser traduzidas como se estivessem nos originais). Quase 2.000 anos depois, a verdade começa a vir ao de cima, embora um manto de silêncio ainda a procure encobrir!

- A ideia de que os Gnósticos eram sacrílegos, ao considerarem como um nível primário de Espiritualidade: a interpretação literalista, histórica e factual dos Evangelhos; a crença num Salvador (exclusivamente) externo; a Ressurreição de uma forma física (embora eles não desdenhassem dos que não podiam ir mais longe, antes procurando dar a cada um o que necessitava). Na verdade, muito embora na sequência habitual do Novo Testamento as Epístolas de Paulo apareçam depois dos 4 Evangelhos, elas foram escritas anteriormente - alguns anos antes da data que a Igreja aponta para o nascimento dos Evangelhos e, na realidade, uns 100 anos antes. Ora, nessas cartas (não consideramos aqui o que foi forjado posteriormente), nunca Paulo se refere a um Jesus histórico. Mais significativo ainda: nunca cita as palavras que, nos Evangelhos, são atribuídas a Jesus. Não é, no mínimo, estranho, para um Apóstolo de Jesus?… Ou será que, realmente, Paulo era Apóstolo do Cristo e não de um Jesus histórico, a exemplo dos Gnósticos?

Neste passo, justifica-se citar novamente a sempre iluminadora Helena Blavatsky: “… Leia-se Paulo; leiam-se os poucos originais que nos ficaram dos escritos atribuídos a este homem destemido, honrado e sincero: quem poderá afirmar que haja neles uma só palavra, uma só frase, em que Paulo signifique com o termo Cristo algo mais que a ideia abstracta da divindade pessoal que mora no homem? Para Paulo, Cristo não é uma pessoa mas a personificação de uma ideia. ‘se um homem está em Cristo, ele torna-se uma outra criatura’; nasceu de novo, como depois da iniciação, porque o Senhor é espírito - o espírito do homem” 1. Por outras palavras, o Cristo pode estar em cada homem, como esteve em Jesus - e em vários outros grandes Iniciados. Nesta acepção, pois, como veremos melhor, o Cristo é o Eu Superior, a Tríade Superior emanada pela Mónada (Deus, ou Pai que está no Céu).

Se houvesse prevalecido a concepção dos Gnósticos e Cabalistas, ter-se-ia mais facilmente conservado uma Ciência Espiritual no seio do Cristianismo, sem que por isso se excluíssem os que respondem predominantemente a estímulos devocionais, sempre respeitáveis quando sinceros e tolerantes. Como sucedeu o contrário, toda a ênfase foi posta na crença emocional e na Salvação vinda do exterior, sem grande exigência de uma alquimia interna; consequentemente, a teologia cristã foi perdendo as chaves da Sabedoria Eterna, e permanece silenciosa sobre as grandes questões cosmogónicas e antropogenéticas.

- A ideia de que os quatro Evangelhos canónicos são “a Palavra de Deus”, de “autoria divina”, “inspirados verbatim pelo Espírito Santo”, apesar de neles se encontrarem tantas incoerências, citações do chamado Antigo Testamento que … nunca existiram nos livros deste, todo o tipo de intercalações, bem como evidentes impossibilidades históricas; enquanto que inúmeros - centenas - de outros Evangelhos, designadamente os numerosos Evangelhos Gnósticos, entre os quais há alguns da maior beleza, sabedoria e ciência espiritual, como se pode ver nos encontrados em Nag Hammadi 11 - são apócrifos e indignos de atenção e de estudo (quando não “demoníacos’). Neste passo, devemos deixar inteiramente claro que, sobretudo quando expurgados das intercalações falsificadoras, os quatro Evangelhos são também eles de uma sabedoria, beleza e simbolismo notáveis - nisso residindo muito da importância e força inspiradora do Cristianismo. Simplesmente, muitos outros Evangelhos, atirados à vala comum da História, como os descobertos em Nag Hammadi, ou como o texto gnóstico “Pistis Sophia” 15, merecem exactamente os mesmos qualificativos.

- A colocação na boca ou na pena de Gnósticos ou de outros cristãos mais ilustrados, e considerados heréticos, de palavras que eles nunca proferiram/escreveram, de concepções que nunca defenderam, de posições que nunca perfilharam - algo que se foi tornando cada vez mais fácil de fazer, à medida que se ia destruindo ou escondendo tudo quanto eram documentos autênticos. É assim que, durante séculos, só se conheceu dos Gnósticos, dos Essénios 16, dos Maniqueus ou dos Paulistas, como, mais tarde, dos Priscilianos 17, dos Nestorianos ou dos Catáros - brutalmente dizimados - aquilo com que a ortodoxia triunfante deturpou o seu verdadeiro carácter, com que os enfrentou e caluniou (Do mesmo modo, em resultado da mesma senha destruidora, desapareceram, queimados publicamente por determinação imperial [Teodósio II e Valentiniano em 448] os 15 Volumes com que Porfírio, o grande sábio neoplatónico do Século IIII, demonstrava que o Cristianismo era bom, justo e verdadeiro, em tudo o que continuava a Sabedoria Antiga, e absurdo e nocivo em tudo o que trazia de “original”; da obra de Celso no mesmo sentido, conhecem-se as partes citadas nos textos com que, contra ele, polemizou Orígenes - entretanto também considerado herege 18, etc., etc., etc.).

- A posição de que a verdadeira fé não implica conhecimento e compreensão, antes devendo prescindir deles e até considerá-los como potenciais inimigos; de que a Salvação consiste em crer, sem razão que o justifique, na história literal de Jesus (apesar de todas as incoerências com que é contada), incluindo a ressurreição no sentido de facto físico (algo de completamente estranho aos autênticos escritos de São Paulo; veja-se, por exemplo, Gálatas, 3:1-4) e a extraordinária ideia de que Jesus é o único Filho de Deus, que veio ao mundo trazer a única luz verdadeira à Humanidade, depois de esta haver sido abandonada à sua sorte durante milhões de anos 19!

- A tese da sucessão apostólica, baseada numa lista falseada de papas e na fantasiosa versão de que São Pedro fora o primeiro Bispo de Roma e, assim, o primeiro Papa - pretensão que ainda hoje continua a ser mantida. Ireneu, no fim do Século II, em plena luta contra os gnósticos, foi o iniciador desta falácia. Já nos referimos a esta questão na 1a primeira parte deste artigo, publicada no o 15 da “Biosofia”, para que remetemos.

- Uma interminável lista de santos martirizados, uma enorme parte dos quais mais não foram do que simples invenções. Em muitos casos, decalcaram-se as vidas de místicos e filósofos pagãos, assim cristianizados já depois da sua morte! A vida do suposto São Josafá, nome que constitui uma corruptela de Bodhisattva, foi decalcada - imagine-se -, da de Gautama Buda! A mitológica Aura Plácida (brisa gentil) foi desmembrada em duas “mártires cristãs”, Santa Aura e Santa Plácida! Também foi canonizada uma lança (São Longinus) e uma capa (São Anphilobus)!!! 1 Deve referir-se que embora os cristãos tenham sido perseguidos, quer em termos puramente individuais ou localizados, quer em termos gerais, como aconteceu especialmente no tempo de Nero e de Diocleciano, a realidade está muito aquém dos exageros da fabulosa versão oficial da Igreja - cegamente aceita por alguns historiadores que não a cotejam com outras fontes (as que escaparam….) -, e do que filmes de Hollywood podem fazer crer. Não fiquem dúvidas nenhumas de que consideramos que essas perseguições foram lamentáveis e que algumas das suas vítimas demonstraram uma notável grandeza de alma. Tal, porém, não nos obriga a acreditar nos inúmeros relatos inverosímeis. Se eles fossem reais, o mais prodigioso de tudo seria que os perseguidores não se tivessem convertido em massa, perante tantos (supostos) milagres, tanta bondade, tanta luz espiritual. Acrescem outros aspectos a ter em conta: muitos dos “mártires” procuraram afanosa e histericamente a sua condenação, para assim garantirem a “salvação eterna” e obterem a glória como mártires, motivação em todo o caso egoísta; uma grande percentagem de cristãos foram condenados pela sua prática intolerante para com outras religiões, que os levava a destruir ou profanar representações iconográficas alheias (o que também dificilmente podemos considerar louvável ou meritório). Assim, muitos foram penalizados por factos que não se prendiam directamente com a circunstância de serem cristãos. De resto, inúmeros filósofos, profetas, místicos e sacerdotes pagãos foram também martirizados em período de maior tirania do Império Romano, mesmo antes da Igreja Católica assumir o poder - e disso (já) muito pouco reza a história. A nossa reprovação não distingue as perseguições que sofreram cristãos ou não-cristãos.

A Igreja com o poder temporal
Depois do breve interregno com a chegada ao poder do imperador Juliano, cognominado pela Igreja Romana (começando em S. Jerónimo 20) como “o apóstata”, e amaldiçoado secularmente pelos cristãos - apesar de ter sido um estadista competente, tolerante, sábio, humanista, promotor do progresso e da cultura 21 -, a perseguição a tudo e todos os que de mais esclarecidos haviam no seio do Cristianismo, e a tudo e todos quantos representavam a sabedoria antiga dita “pagã”, atingiu limites dificilmente ultrapassados, em barbárie e obscurantismo, por qualquer outra época da história humana.

A consequência, como alguém judiciosamente observou, é que “Os antigos tinham construído as pirâmides e o Parténon mas, no espaço de algumas centenas de anos de cristianismo, as pessoas em muitas partes da Europa tinham esquecido como fazer casas de tijolos. No Século um AC, Possidónio havia criado um magnífico modelo rotativo do sistema solar que representava fielmente as órbitas dos planetas. Em finais do século quatro DC, era um sacrilégio não acreditar que Deus colocava as estrelas nos céus todas as noites. No século três AC, o académico Eratóstenes de Alexandria havia calculado correctamente a circunferência da Terra (com uma margem de erro muito pequena), mas tinha-se então tornado uma heresia não acreditar que a Terra era plana” 5.

Não admira, por isso, que as forças que geraram a Renascença, o Humanismo e o surgimento da Ciência Moderna, tivessem buscado a sua inspiração na Antiguidade Clássica, nos grandes filósofos, pesquisadores, escritores, artistas e até juristas do “paganismo” grego e romano!

A Sanha persecutória
Vejamos alguns exemplos da sanha persecutória, devastadora, sectária e fanática dos detentores do poder religioso e temporal.

Relativamente à destruição de Gnosticismo: um decreto do cristianíssimo Imperador Romano Teodósio rezava assim: “Saibam por este presente estatuto, novacianos, valentinianos, marcionitas, paulistas, com que fios de mentiras e vaidades, com que erros destrutivos e venenosos, as vossas doutrinas são inextricavelmente tecidas. Fazemo-vos um aviso: que nenhum ouse, a partir desta data, reunir-se em congregações. Para evitar isto, ordenamos que sejam privados de todas as casas nas quais se habituaram a reunir e que estas sejam imediatamente entregues à Igreja Católica” 22. Mais tarde, em 381, o mesmo Imperador tornou a heresia num crime contra o estado, pelo que as escrituras gnósticas deviam não só ser proibidas mas totalmente destruídas e queimadas. Passou a ser interdita, sob pena de morte!!!, a discussão pública de filosofia ou de religião - o clero da Igreja no poder pensava, por todos, aquilo em que se deveria acreditar! Não admira que um abade sequaz de Cirilo - o arcebispo de Alexandria que comandou a horda de monges que assassinaram Hipácia 23 - tenha ameaçado os cristãos “heréticos” desta forma: “Farei com que reconheçam o arcebispo Cirilo ou, então, a espada eliminará a maioria de vós; e, além disso, aqueles que forem poupados irão para o exílio” 5. Foi neste clima que os gnósticos se viram obrigados a enterrar a biblioteca de Nag Hammadi 24. (Foi também nesta época que, no Egipto, o patriarca Timóteo tornou obrigatório comer carne ao domingo, expediente esse que tinha o fito de descobrir quem eram os gnósticos - pois estes eram rigorosamente vegetarianos! 25).

No que respeita à destruição da Sabedoria Antiga, o caso foi ainda mais terrível. Bibliotecas inteiras, milhares e milhares de livros e de documentos, alguns preciosos, foram queimados (na maior parte dos casos pelos sequazes da Igreja dominante ou pelos oficiais do poder temporal que a sustentava; outras vezes, pelos próprios donos, sob ameaça e sob o jugo do terror). Filósofos e sacerdotes “pagãos” - tantos deles, exemplos de sabedoria e de integridade - foram acorrentados (nos seus próprios santuários), até morrerem de fome; torturados cruelmente, até confessarem crimes imaginários (incluindo o de praticarem sacrifícios humanos) que nunca tinham sequer imaginado praticar, ou até confessarem a falsidade das suas filosofias e a fraude dos seus deuses. Inúmeros santuários das religiões ditas pagãs (de onde a Igreja recolhera todos os seus principais dogmas, para os desfigurar sacrilegamente) foram arrasados ou transformados em templos cristãos. Em 391, o cristianíssimo imperador Teodósio publicou um édito determinando que fossem fechados todos os templos não cristãos (vindo os bens a reverter para a Igreja…), ensejo logo aproveitado para a imediata destruição do maravilhoso templo de Serápis, em Alexandria. Com efeito, hordas de monges fanáticos, loucos, animalizados na sua sanha destruidora - deles escreveu o contemporâneo Eunápio: “monges que se assemelham a homens mas vivem como porcos” - percorriam o Império semeando a morte, a destruição, o obscurantismo. A cultura, a ciência, a filosofia, a arte resultante do labor de dezenas e dezenas de respeitáveis gerações de investigadores e criadores ficaram sepultadas sob uma avalanche irresistível de orgulhosa e ignorante intolerância. Então, uma idade negra começou no médio Oriente, no Norte de África e na Europa…

E Se…?
Entretanto, não podemos evitar as perguntas: e se este fanatismo deplorável não tivesse saído vitorioso? Se não se tivesse dado um corte com o passado, destruindo séculos e séculos de Sabedoria acumulada? Se não tivessem sido afrontados, perseguidos e silenciados os Cristãos mais puros e mais sábios, que respeitavam a Sabedoria Universal e intemporal e viam em Jesus um exemplo puríssimo do Iniciado que tinha chegado a ser o Christos, o Mestre, o Ungido, assim podendo criar à Sua volta relatos simbólicos da vida de todo o Salvador do Mundo, de todo o Adepto Perfeito que vem abençoar o mundo - relatos esses que serviam de modelo inspirador para todos os que se dispõem a trilhar o caminho ascendente?

Estamos convencidos que, então, teríamos menos ódios e separatismos no mundo de hoje, e seríamos capazes de ser mais fraternos e universalistas; a Ciência Moderna não teria surgido com a oposição da (e em oposição) à(s) Igreja(s) instalada(s) no poder, nem teria necessitado de partir do zero, sem os sólidos fundamentos da Antiga e Eterna Sabedoria, de que se perderam as chaves interpretativas, após séculos e séculos de fanatismo obscurantista; não se gerariam tantas e tão cruentas guerras santas (!!!) que fazem a vergonha destes dois últimos milénios; ter-se-ia evitado a criação de mais uma casta sacerdotal, quantas vezes ignorante e abusiva (embora com muitas honrosas excepções), que promoveu ou foi conivente com tantas perseguições odiosas, e ficou passiva e silenciosa quando os fracos e oprimidos eram esmagados pelos mais ricos e poderosos - bem ao contrário do Mestre em cujo Nome pretende falar, que foi compassivo onde era fácil atirar pedras, e inamovível onde os princípios realmente sagrados eram postos em causa.

Um Cabalista do Séc. XIX, Alphonse Louis Constant (Eliphas Levi), fez algum dia uma síntese particularmente inspirada, tão expressiva que não resistimos a citá-la: “Uma grande infelicidade aconteceu ao Cristianismo. Fraudando os Mistérios, os falsos gnósticos (por gnósticos eu entendo os que sabiam, os Iniciados do primitivo Cristianismo) levaram a Igreja a rejeitar a Gnose, afastando-a [a Igreja] das verdades supremas da Cabala, que continha todos os segredos da teologia transcendente. Que a ciência integral, que a razão mais elevada volte ao património dos condutores dos povos (…) e mais uma vez o mundo social ressurgirá do caos. Cessai de queimar as santas imagens, pois ainda fazem falta, aos homens, templos e imagens; mas (…) reconhecei, enfim, os que sabem como mestres dos que crêem” 26.

Alargámo-nos, muito, é certo. No entanto, era necessário aclarar alguns equívocos que não podem - não devem - durar para sempre, sob pena de a verdade continuar sepultada sob as ruínas de uma grande sabedoria estilhaçada por um vendaval de insânia e de mistificações de toda a ordem. Muito mais ficou por dizer. Abrimos, todavia, o caminho para, no próximo número, podermos falar mais à vontade acerca do Cristo, o grande Mestre de Amor Compassivo que, unindo-se com Sophia 27, a Sabedoria-Ciência Divina (Binah, na Árvore da Vida 28), se manifestou na/sobre a figura puríssima mas humana - bela e inspiradoramente humana - de Jesus. F

José Manuel Anacleto
Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

14 Eusébio, “History of the Church”, Penguin Classics, 1965.

15 Pistis Sophia - “Conhecimento-Sabedoria”. Um livro sagrado dos antigos gnósticos e, simultaneamente, cristãos primitivos. Recomenda-se a tradução para Inglês de George R.S.Mead (2a ed. rev. e anotada: Theosophical Publishing House, Madras, 1921). Mead foi secretário pessoal de Helena Blavatsky, que lhe recomendou vivamente o estudo dos antigos Gnósticos. No Volume XIII dos “Collected Writings” desta autora, podem encontrar-se inúmeros comentários por ela feitos àquela obra (TPH, Wheaton, Illinois, 1982).

16 Sobre os Essénios, existe uma extensa literatura, obviamente de diferentes níveis de qualidade e/ou profundidade. Cabe-nos apenas salientar que os Manuscritos do Mar Morto, descobertos há cerca de 55 anos atrás, confirmam que entre os Essénios, no Séc. I A.C, já existiam muitos dos preceitos que encontramos nos Evangelhos canónicos (e noutros, claro), bem como relatos da existência de um Mestre de Justiça com muitos dos caracteres da vida de Jesus - nomeadamente, o facto de ter sido crucificado, depois de lapidado.

17 Acerca do Priscinialismo, e das incríveis perseguições que sofreu, recomenda-se o livro “Origens do Cristianismo Português”, de Moisés Espírito Santo (Instituto de Sociologia e Etnologia das Religiões, Lisboa, 1993).

18 Várias das teses de Orígenes foram repudiadas e consideradas heréticas no Concílio de Constantinopla, que teve lugar em 553. Entre elas, estava a da preexistência da Alma Humana. Ao condenar esse princípio, a Igreja Romana rejeitou, embora apenas implicitamente, a ideia da Reencarnação (visto que condenou apenas o tipo de reencarnacionismo sustentado por Orígenes) - não obstante aceite por inúmeros cristãos, antes e depois disso. Sobre as doutrinas de Orígenes e as suas implicações e conexões, recomendamos dois bons livros de G. de Purucker: “Studies in Occult Philosophy” e “The Esoteric Tradition”, 2 Vols. (Theosophical University Press, Pasadena, 1973). Orígenes, ardente defensor do Cristianismo (por vezes excedendo-se na sua natureza devotada) viveu entre 185-254. Foi discípulo de um homem extraordinário, Amónio Saccas, fundador da escola teosófica-eclética dos “filaléteos” (amantes da verdade) de Alexandria, e um verdadeiro sábio (que, no entanto, ganhava a vida humilde e duramente). Vários cristãos (como S.Clemente de Alexandria, Panteno e Atenágoras, além de Orígenes) tinham Amónio em alta estima. Ele, porém, não tinha preferência por qualquer religião em particular, antes se dedicando ao estudo da árvore comum de que todas são ramificações. Disse ele: “… O que Cristo tinha em mente era reinstalar e restaurar na sua primitiva integridade a sabedoria dos antigos, pôr um limite ao predomínio da superstição (…) e extirpar os vários erros que se haviam enraizado nas diferentes religiões populares”.

19 As Religiões e Filosofias Arcaicas detinham o conhecimento da imensa antiguidade do Universo - mesmo deste Universo - e das Idades remotas em que a Humanidade tinha iniciado o seu percurso no globo terrestre. Vejam-se, por exemplo, as cifras de tempo da antiga e nobilíssima tradição hindu e compare-se com que, ainda há 150 anos atrás, na Europa “cristã” - e, ainda hoje, em certos grupos fundamentalistas dos EUA - se pensava: que o mundo tinha sido criado apenas há cerca de 6.000 anos! É outra demonstração de como o triunfo do falso Cristianismo sobre o Cristianismo intemporal, de Sabedoria e Compaixão, representou um factor retrógado em inúmeros aspectos. Hoje, conhecendo-se que o primeiro (!) homem não existiu só há 6.000 anos, cada vez é mais insustentável a concepção do Cristianismo-única-religião-verdadeira-consumando-a-única-promessa-contida-no-Judaísmo… (Quanto à frase teológica sobre “os que dormiam no seio de Abraão”, só pode ser o eco muito distorcido das Inteligências Espirituais que dormem em [Para]Brahman durante um período de Pralaya ou Noite Universal, sendo Abraão uma derivação do Brahman do Hinduísmo).

20 S.Jerónimo, tradutor da chamada Vulgata, i.e., a tradução da Bíblia para Latim, terá encontrado o original hebreu do Evangelho segundo São Mateus na biblioteca de Cesaréia, fundada por Pânfilo Mártir. Ele escreveu expressamente o seguinte: “Os Nazarenos, que em Beréia de Síria usavam este Evangelho, deram-me permissão para traduzi-lo” e “No Evangelho usado habitualmente pelos Nazarenos e Ebionitas, por mim há pouco traduzido, e que muitos consideram o autêntico Evangelho de Mateus…”. Ele reconhece que se trata do escrito autêntico de S.Mateus, pois afirmou também: “… o próprio apóstolo São Mateus não quis escrever em termos claros. Com efeito, se não se tratasse de um ensinamento secreto, teria acrescentado ao Evangelho alguns comentários seus; mas escreveu-o em caracteres hebraicos, de seu próprio punho, dispondo estes de tal forma que o sentido ficou velado, sendo perceptível somente às pessoas de maior religiosidade e, no transcurso do tempo, aos que houvessem recebido dos seus intercessores a chave interpretativa”. Não obstante, como H. P. Blavatsky faz notar em “Ísis sem Véu”, Jerónimo e a Igreja em geral cada vez mais se obstinaram na perseguição a hereges como os que…detinham o autêntico Evangelho de S.Mateus!

21 Filho de Júlio Constâncio, cunhado de Constantino, Juliano foi educado no Cristianismo. No entanto, ao ver os horrores que os cristãos, detentores do poder, iam perpetrando (por exemplo, o assassínio do seu próprio pai e parentes mais próximos), e ao verificar a profundidade dos poemas homéricos e a sabedoria e tolerância da filosofia grega (foi especialmente imbuído do neoplatonismo), retirou ao Cristianismo o carácter de religião de Estado. Não houve, contudo, quaisquer perseguições aos cristãos que por ele tenham sido ordenadas. Amado do povo, incansável governante e estudioso, Juliano teve, infelizmente, um reinado bem curto, vindo a morrer aos 32 anos. Segundo podemos ler na “Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira” (certamente insuspeita de ser anti-Catolicismo Romano…), “a aversão que os cristãos manifestaram sempre a Juliano funda-se, principalmente, nos ‘sete livros injuriosos que escreveu contra o Cristo’ [injuriosos, segundo os fanáticos ditos cristãos, claro], os quais S.Jerónimo se negou a refutar, para ‘não ter de esmagar esse cão raivoso’. Todavia, o odiado soberano é autor da famosa Carta a um Pontífice que, hoje ainda, pode servir de guia nas igrejas cristãs. As considerações que faz acerca do respeito devido aos sacerdotes, as suas qualidades e virtudes, o seu grau de instrução, leituras que deve fazer, vocação, conduta - ‘magnífica em presença dos deuses, simples na vida particular’ - bem poderia incluir-se entre os mais belos documentos que a Apologética e a Exegese nos legaram”. Compare-se bem Juliano com Constantino…

22 Os Valentinianos e os Marcionianos eram os seguidores das ideias de dois grandes instrutores gnósticos: Valentino e Marción. Outro gnóstico notável foi Basílides.

23 Hipácia, a última dirigente da escola neo-platónica de Alexandria, era uma mulher de grande sabedoria, tanto em termos de erudição - como filósofa, cientista, matemática -, quanto em termos de carácter humano. Tinha uma vida impoluta e austera (apesar da sua juventude). Respeitada e até venerada por alguns dos homens mais sábios e cultos do seu tempo, neles se incluindo Sinésio, o Bispo cristão de Cirene (que lhe escrevia nestes termos: “ó minha mãe, minha irmã, minha mestra, minha benfeitora! (…) O Meu coração anseia pela presença do vosso divino espírito, o qual, mais que qualquer outra coisa, poderia aliviar a amargura do meu destino”), foi, porém, detestada por outros cristãos, fanáticos. Um dia, ao dirigir-se para a Escola, foi interceptada por uma turba de monges instigados por Cirilo - mais tarde canonizado! Sofreu uma morte cruel, cortada em pedaços, a carne arrancada aos ossos por meio de conchas de ostras, e os restos lançados ao fogo! No meio de todos os filmes Hollywoodescos, tantas vezes ridículos no seu exagero e na sua fantasia, sobre os martírios de cristãos, não houve, contudo, lugar para narrar a vileza do assassínio de Hipácia, esse sim, bem real historicamente!… A Escola Neoplatónica foi transferida para Atenas e, mais tarde, encerrada, por ordem do Imperador Justiniano.

24 Robinson, J.M., “The Nag Hammad Library”, Harper Collins, 1978, 1990. Podem aqui ser encontrados todos os manuscritos que se encontraram em Nag Hammadi, compilados e comentados por J. Robinson. É, certamente, uma obra deveras recomendável.

25 Lieu, S., “Manichaeism”, Manchester University Press, 1985.

26 Citado em “O Cristianismo Esotérico”, de Annie Besant (Ed. Pensamento, S.Paulo, 1978.

27 Helena Blavatsky, “A Doutrina Secreta, Vol. V”; “Collected Writings, Vol. XIV” (Theosophical Publishing House, 1985).

28 Sophia-Binah dos gnósticos cabalísticos corresponde ao Espírito Santo, que, com o Pai e o Filho, conforma a Trindade Divina.

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