Coménio - O reformador do mundo

É surpreendente descobrir na obra de Coménio a sua apurada visão de futuro, a actualidade dos seus ensinamentos, a sua vontade intrépida de mostrar como é possível “ensinar tudo a todos”, sem excepções, e de contribuir para a reforma universal de todas as actividades humanas, opondo-se às divisões no seio do ensino, da religião e da política.
Alguns conceitos hoje debatidos, como educação permanente, democratização do ensino, aprendizagem global, diferenças individuais, inteligências múltiplas, foram inicialmente apresentados por Coménio. Muitas propostas deste “professor das nações” inspiraram a criação e a actuação de organizações internacionais, como a Unesco mas, volvidos quase 4 séculos, algumas das suas ideias-chave encontram-se ainda longínquas do nosso entendimento e do nosso quotidiano!

É enorme o desafio de escrever sobre Coménio (1592-1670), de tentar resumir os ensinamentos de um Homem que, em pleno século XVII, foi perseguido e ameaçado pelo fanatismo religioso, censurado pela sua coragem e ousadia, incompreendido, desprezado e mal amado por muitos do seu tempo… Mas nada fez esmorecer a sua paixão pela educação, nem o demoveu na sua aspiração de sabedoria universal e união de toda a humanidade, escrevendo uma vastíssima obra que, apesar de muitos manuscritos (únicos) terem sido criminosamente atirados às chamas, ascende a uma centena de títulos, entre livros pedagógicos, teológicos, linguísticos, literário-filosóficos e tratados de paz.

É hoje considerado o fundador da pedagogia moderna, sendo reconhecido o seu precioso contributo também na área da cooperação internacional e da linguística. O seu nome tem sido atribuído a vários centros e programas de ensino, nomeadamente no Reino Unido e no âmbito da União Europeia. Contudo, muitos de nós nunca ouviram falar de Comenius nem conhecem o seu pensamento abarcante, edificante e revolucionário… As nossas escolas tão pouco se referem a ele. Injustamente!

Humanizar o Homem
Didáctica Magna é, porventura, a obra mais conhecida de Coménio e “sem dúvida, o primeiro tratado sistemático de pedagogia, de didáctica e até de sociologia escolar”1. Numa altura em que o ensino era privilégio apenas de alguns, em que as escolas rareavam e a maioria das crianças era usada como força de trabalho imprescindível para garantir a subsistência da família, Coménio ousou defender uma escola pública e democrática para “todos por igual, nobres e plebeus, ricos e pobres, rapazes e raparigas”, inteligentes ou débeis por natureza.

O que hoje chamamos de ensino geral obrigatório - que existe há pouco mais de 50 anos no Ocidente - deve-se, em boa medida, ao impulso dado por Coménio. Apesar das crianças entrarem cada vez mais cedo nas escolas e dos estudos se prolongarem até idades cada vez mais tardias, o sonho de Coménio está ainda longe de ser croncretizado. “O homem tem necessidade de ser formado para que se torne homem”, escreveu Coménio em Panpaedia; a educação universal deve ser um direito de todos os povos: “deve-se desejar que até as nações bárbaras possam ser iluminadas e arrancadas das trevas da sua barbárie e, desse modo, porque são parte do género humano, assemelhadas ao seu todo, pois, na verdade, o todo não é todo se lhe falta alguma de suas partes”. Quem exclui alguém da educação, injuria toda a humanidade. “Todos os homens são vivificados pelo mesmo espírito”. Porquê beneficiar uns e negligenciar os outros?

Apesar dos esforços de algumas organizações internacionais e das actuais facilidades dos meios de comunicação e de informação, a verdade é que o livre acesso a bens essenciais como a educação, a saúde e a alimentação (!) está vedado a grande parte da população mundial! As palavras de Coménio alertam-nos para o egoísmo que, em todas as épocas, se mascara de tantas formas: “se não quer ser acusado de espírito estulto e malévolo deve querer-se que todos estejam bem e não apenas nós próprios, ou alguns dos nossos próximos, ou somente o nosso povo”.

Nas suas obras, Coménio repete insistentemente a trilogia: omnes, omnia, omnino - “educar todos, em todas as coisas, de uma forma total”, o que lhe valeu críticas néscias e injustas, nomeadamente de Piaget, como sendo uma “desconcertante pretensão”. Coménio estava ciente de que poderia ser mal interpretado, advertindo na introdução da Didáctica Magna que “É lícito, foi lícito e sempre será lícito procurar as coisas grandes (…) Por mais imperfeita que seja a minha tentativa e não chegue a atingir o objectivo que eu me havia proposto, o meu exemplo trará, todavia, ao menos, a prova de que foi percorrida uma longa etapa que jamais havia sido percorrida e que o cume a escalar está mais próximo do que até aqui”.

“Ensinar tudo a todos”
A verdadeira e profunda reforma da sociedade só será possível através da educação permanente e universal - a única via estável e segura para o crescimento individual e colectivo. A educação é a arte de fazer “germinar as sementes interiores as quais não se desenvolverão a não ser que sejam solicitadas por oportunas experiências”, explica Coménio em Panpaedia. Aliás, educar vem do termo educere, que significa «conduzir para fora». Três séculos mais tarde, homens como Huberto Rohden ou Agostinho da Silva, expuseram semelhantes princípios.

“É inata no homem a aptidão para saber, mas não o próprio saber”, esclarece em Didáctica Magna. “Durante toda a vida o Homem deve conhecer, experimentar e executar muitas coisas”, de forma a estimular “todas as faculdades humanas”. O objectivo é “iluminar todos os homens com a verdadeira sabedoria, para os organizar numa perfeita administração civil, e para os unir a Deus pela verdadeira religião”. Para Coménio, “todo o real é racional” e, portanto, cognoscível. Nada no mundo deve ser vedado ao conhecimento e à inteligência humana.
ropõe (em Didáctica Magna) “um método universal de ensinar tudo a todos. E de ensinar com tal certeza, que seja impossível não conseguir bons resultados. E de ensinar rapidamente, sem nenhum enfado e sem aborrecimento para os alunos e para os professores, mas antes com sumo prazer para uns e para outros. E de ensinar solidamente, não superficialmente e apenas com palavras, mas encaminhando os alunos para a verdadeira instrução, para os bons costumes e para a piedade sincera”.
Ensinar tudo, esclarece Coménio, “não quer dizer todavia que exijamos a todos o conhecimento de todas as ciências e de todas as artes (sobretudo se se trata de um conhecimento exacto e profundo). Com efeito, isso nem de sua natureza é útil, nem pela brevidade da nossa vida é possível a qualquer homem”. O que se pretende é a sistematização e a organização unitária do saber humano, dando a conhecer os seus fundamentos e princípios gerais. Numa altura em que nos deparamos com tantas áreas de conhecimento tão especializadas e espartilhadas, vale a pena reflectir seriamente sobre as sugestões de Coménio.

“A escola ideal”
A escola deve integrar crianças de diferentes proveniências, com inteligências diversas e com diferentes ritmos de aprendizagem. A heterogeneidade pode ser muito benéfica: “convém proceder de modo que os mais lentos se misturem com os mais velozes, os menos inteligentes com os mais sagazes, os mais duros com os mais dóceis, e sejam guiados com as mesmas regras e com os mesmos exemplos”; “entendo aquela mistura, não apenas em relação ao lugar, mas, muito mais, em relação ao auxílio” que uns e outros podem prestar entre si. O professor deve, contudo, estar atento aos que mais precisam de ajuda e ter em conta que “o mesmo método não pode ser aplicado a todos por igual”.

Nada deve ser forçado, “deve inflamar-se nas crianças o desejo ardente de saber e de aprender” desde a mais tenra idade. Esta vontade deve ser fomentada em casa pelos próprios pais, na escola pela amabilidade dos professores, pelo espaço agradável e acolhedor das instalações e terrenos circundantes, pela simplicidade e naturalidade do método de ensino, pela pertinência e utilidade das matérias apresentadas, e por toda a comunidade, reconhecendo a importância e o valor da “juventude estudiosa”.

Coménio enuncia os fundamentos para o ensino universal, procurando, ao mesmo tempo, corrigir o que considera ser autênticas aberrações metodológicas, grande parte das quais ainda hoje perpetuadas nas nossas escolas e universidades! “O que se poderia inculcar suavemente nos espíritos, é neles impresso violentamente, ou melhor, é neles enterrado e ensacado. O que poderia ser posto diante dos olhos de modo claro e distinto, é apresentado de modo obscuro e intrincado, como que por meio de enigmas”. É fundamental que “todos se formem com uma instrução não aparente, mas verdadeira, não superficial mas sólida”, que o aluno “se habitue a deixar-se guiar, não pela razão dos outros, mas pela sua, e não apenas a ler nos livros e a entender, ou ainda a reter e a recitar de cor as opiniões dos outros, mas a penetrar por si mesmo até ao âmago das próprias coisas e a tirar delas conhecimentos genuínos e utilidade”.

“A instrução superficial”
Porque desaprendemos tão depressa aquilo que supostamente nos ensinam? Porque é que passados alguns meses, dias ou até escassas horas depois do «teste», os alunos já não são capazes de se lembrar da «matéria» e limitam-se a gagejar vagas noções sobre o assunto que afincadamente haviam estudado? Uma das causas tem a ver com o método de ensino, outra com a falta de interesse que as matérias despertam, observava Coménio há 4 séculos atrás! “Mas haverá remédio para este mal? Sem dúvida” se as escolas deixarem de cometer “o erro de ensinar a olhar com os olhos dos outros e a saborear com o coração dos outros”. Se tiverem “como objectivo habituar os espíritos a irem buscar o vigor às próprias raízes, como fazem as árvores”.

Contudo, as escolas “têm-se esforçado, não tanto por cavar a fonte da inteligência neles escondida, como por irrigá-la com águas alheias. Isto é, não lhes têm mostrado as próprias coisas, como é que elas são por si e em si, mas que é que, acerca disto ou daquilo, pensou ou escreveu este ou aquele, um terceiro ou até décimo autor; a tal ponto que chegou a pensar-se que a máxima erudição consistia em saber de cor opiniões discrepantes de muitos autores acerca de muitas coisas. Daí que muitos não se ocuparam senão em respigar, de vários autores, frases, sentenças e opiniões, construindo uma ciência que não passava de uma manta de retalhos (…) Mas que interessa distrair-se com as opiniões emitidas por vários autores acerca das coisas, quando o que se procura saber é como são verdadeiramente as coisas em si mesmas? Será que tudo o que fazemos na vida não consiste senão em andar atrás dos outros, que correm de cá para lá, e em observar onde alguém se desvia, tropeça ou perde o norte? (…) Porque é que havemos de servir-nos mais dos olhos dos outros que dos nossos?”.

“Aprender solidamente”
“Se se quer alcançar o conhecimento, não de outras fontes, mas do próprio arquétipo das coisas”, então as escolas devem, por lei: “I - Derivar tudo dos princípios imutáveis das coisas. II - Nada ensinar apenas com argumentos de autoridade, mas ensinar tudo por meio de demonstração, sensível e racional. III - Nada ensinar com o método analítico somente mas, de preferência, tudo com o método sintético”.

O ensino deve inspirar-se na Natureza e à sua semelhança “proceder das coisas gerais para as particulares” e “das coisas mais fáceis para as mais difíceis”, “tudo gradualmente, nada por saltos”, “todas as coisas com nexos contínuos” e “com “exercícios contínuos”. Deve-se ensinar a partir das causas, “isto é, mostrar não só como é que alguma coisa é, mas também porque não pode ser de outra maneira. Com efeito, saber significa conhecer as coisas por meio das suas causas”.

Coménio defende o que hoje chamamos de «currículos em espiral»: iniciar os assuntos e retomá-los em formas cada vez mais alargadas e profundas. Mas o seu método preconiza que todas as ciências e artes devem proceder de um único tronco comum - como as ramagens de uma frondosa árvore -, consolidado desde os primeiros anos de ensino. Deve haver “uma tal coordenação das matérias que os estudos que, pouco a pouco, se seguem, pareçam nada trazer de absolutamente novo, mas sejam apenas um desenvolvimento pormenorizado das coisas anteriores”. Por outras palavras, “os estudos da vida inteira devem ser dispostos de tal maneira que constituam uma enciclopédia, na qual nada se encontre que não tenha nascido da raiz comum e que não esteja assente no seu devido lugar”.
Para que a aprendizagem seja mais rápida e eficaz deve-se utilizar “o mais que se puder, os sentidos. Por exemplo: associe-se sempre o ouvido à vista”. “O conhecimento deve necessariamente principiar pelos sentidos (…) Porque é que o ensino há-de principiar por uma exposição verbal das coisas, e não por uma observação real dessas mesmas coisas?” Para além disso, a experiência sensitiva permite aos alunos verificarem por si mesmos aquilo que se pretende transmitir, “imprimindo-se com verdade e com certeza” na memória.

Todo o conhecimento, uma vez adquirido, deve ser partilhado, discutido e posto em prática pelos alunos: “logo que uma coisa seja entendida, difunda-se de novo, comunicando-a a outros, para que nada se saiba em vão”, com vantagens para todos. “Quem ensina os outros instrui-se a si mesmo, não só porque, repetindo os próprios conhecimentos, os reforça em si mesmo mas, também, porque encontra uma boa ocasião para penetrar mais fundo nas coisas”.

Investigações recentes sobre recursos de ensino, têm comprovado a eficácia das sugestões pioneiras de Coménio: ao comparar a retenção na memória de um mesmo conceito, aprendido por diferentes vias, os estudantes conseguem recordar: 10 % do que leram; 20 % do que escutaram; 30 % do que viram; 50 % do que viram e escutaram; 70% do que discutiram; 90 % do que explicaram e realizaram na prática. Com a actual facilidade dos meios informáticos e audiovisuais, os recursos de ensino podem ser francamente melhorados!

Pela Paz e Unidade
Coménio tinha uma visão abrangente e integradora, extremamente avançada para o seu tempo. Esboçou planos para a criação de uma língua universal, como meio de entendimento e de comunicação entre todos os povos, e de diferentes (mas interligadas) instituições internacionais para zelar pela paz, pela unificação das igrejas e pela partilha do conhecimento. Ao “conselho da luz” ou “colégio didáctico universal” cabia a tarefa de “examinar as diversas descobertas científicas e recomendar os meios de as difundir e de as fazer aplicar, da maneira mais eficaz, em proveito de todos os homens”. A coordenação e cooperação de todos os estudiosos e investigadores permitiria “difundir a luz da sabedoria a todos os povos e espíritos para atingir um estado cada vez mais elevado e melhor”.

As suas concepções humanísticas e universais revelam a influência da tradição rosa-cruz, a cuja fraternidade Coménio terá pertencido, embora não assumisse publicamente a sua filiação, por receio de graves represálias. Antes da sua morte, Leibniz escreveu “há-de chegar o dia em que a multidão dos homens de bem honrará, não só as tuas obras, mas também as tuas esperanças e os teus desejos”. Realmente, as sementes lançadas por Coménio jamais se perderão, muitas já floresceram, deram frutos e novas sementes… outras aguardam o auxílio dos “jardineiros dos tempos modernos” para irromperem nos “campos da inteligência” e da criatividade.

Gabriela Oliveira
Licenciada em Comunicação Social

1 … de acordo com Joaquim Ferreira Gomes, na introdução de “Didáctica Magna” - 3o edição, Fundação Calouste Gulbenkian.

Quem foi Coménio?
Breves Apontamentos Biográficos
Do seu vasto e riquíssimo percurso, assinalámos alguns dados essenciais, que nos permitem compreender melhor a sua vida e obra.
1592 - João Amós Comenius nasceu a 28 de Março na Morávia (República Checa), no seio de uma família evangélica. Aos 12 anos perde os pais e duas irmãs, vitimados pela peste.
1608 - Aos 16 anos entra para a escola latina de Prerov, lamentando-se de ter iniciado os estudos tão tarde.
1611 - Seguindo formação eclesiástica como era comum na altura, ingressa aos 19 anos na Universidade Calvinista de Herborn, e mais tarde matricula-se também na Universidade de Heidelberg.
1616 - É ordenado sacerdote. Dois anos depois, regressa à Morávia onde lecciona na sua antiga escola, dirigindo as escolas do norte da Morávia. As lutas entre católicos e protestantes agravam-se, deflagrando-se a sangrenta e fratricida guerra dos 30 anos que marca definitivamente o seu percurso. É perseguido, entra em clandestinidade e procura abrigo e protecção.
1621 - A cidade de Fulnek é saqueada e queimada, perdendo toda a sua biblioteca e muitos manuscritos. Pouco depois, a esposa e os filhos morrem, vitimados pela peste. Procura, nos anos seguintes, asilo para a sua Fraternidade, fixando-se em Leszno, na Polónia, onde se dedica com ardor e entusiasmo à obra da reforma pedagógica.
1631/38 - Escreve diversas obras relacionadas com o estudo das línguas, o ensino e a reconciliação das igrejas, com vista à paz. A Didactica Magna é editada em Oxford.
1641 - Vai para Londres, a convite do Parlamento, com intuito de fundar um círculo de colaboração pansófica. Recebe mais tarde vários convites internacionais, decidindo-se por Estocolmo, onde assume funções de reformador do sistema escolar sueco. Contactou com Descartes, Locke e outros homens ilustres do seu tempo.
1648/56 - Estabelece-se na Prússia Oriental, escrevendo a Novissima Linguarum Methodus. É convidado para a Hungria onde publica Schola Pansophica. Regressa a Leszno mas a cidade é saqueada e incendiada, perdendo ingloriamente várias obras, nomeadamente o Glossário Latino-Checo, no qual trabalhou durante mais de 40 anos.
1657 - Refugia-se em Amesterdão, publicando Opera Didactica Omnia que reúne as suas obras pedagógicas e os seus tratados escritos até então.
1667 - Através da obra Angelus Pacis apela à paz e à tolerância entre as nações europeias e insiste na criação de instituições internacionais com esse fim.
1670 - Morre a 15 de Novembro, em Amesterdão.

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