O Voo de Phrixus Montado no Carneiro de Ouro

Entre outros, é propósito da “Biosofia”, especialmente nesta rubrica, justificar e demonstrar a realidade de uma origem comum de numerosos mitos e tradições religiosos; realçar a identidade fundamental dos significados e de todo um vasto conhecimento cosmogónico que foi outrora, e por longas eras, património comum da humanidade; enunciar ilustrativamente o curso cronológico desse saber, nas distintas culturas que coloriram o nosso colectivo ancestral. Uma das muitas maneiras de fazê-lo, é através da riqueza dos mitos ou da simbologia grega originalmente representativa dos chamados “Mistérios”. Assim, dedicamos este artigo ao mito de Phrixus.

A narrativa do mito
Dos filhos de Aeolus, Athamas foi quem reinou sobre a Beócia e teve, por sua vez, da união com Nephele, dois filhos: um varão chamado Phrixus e uma donzela de nome Hele. Mais tarde, o rei Athamas casou-se de novo, desta vez com Ino, de cuja união nasceram Learchus e Melicertes. Contudo, Ino, receosa de que os seus filhos fossem preteridos, conspirou contra os da sua rival e urdiu um plano que visava essencialmente aniquilar Phrixus. Apoderou-se de todas as sementes de cereais e secou-as antes do tempo das sementeiras, para que delas não pudesse brotar nova ceifa.

Alarmado, Athamas envidou esforços para tentar remediar a desgraça que acometia o seu povo. Enviando um emissário ao Oráculo de Delphus, procurou saber que medidas devia tomar. Porém, Ino, com as suas artes, terá subornado o mensageiro para que dissesse ao rei que, segundo o Oráculo, os campos só tornariam a dar fruto se o jovem Phrixus fosse sacrificado em holocausto.

O povo, ameaçado pela fome, compeliu o rei a cumprir os terríveis desígnios do Oráculo…
A partir daqui, várias versões do desfecho do mito se sucederam. Entre elas, apresentamos a que tomou um lugar mais cativo: quando Phrixus estava prestes a ser imolado, sobre o altar surgiu pairando a imagem de um cordeiro, com um reluzente velo de ouro, que arrebatou a vítima e, também, sua irmã Hele e os levou pelos ares para longe do lugar sacrificial 1. Segundo a crença popular, este feito miraculoso terá sido resultado da intervenção de Hermes ao apelo fervoroso de Nephele. Em seguida, diz-nos o mito que, ao atravessarem o estreito que separa a Europa da Ásia, Hele caiu ao mar perecendo afogada, pelo que este estreito ficou nominado de Mar de Hele ou Helesponto 2. Phrixus, contudo, chegou são e salvo às terras da Cólquida.

O mito prossegue com a conhecida saga dos argonautas. Como o que nos propomos, neste apontamento, é a exegese dos significados simbólicos subjacentes a esta etapa da lenda (e porque o espaço de que aqui dispomos é naturalmente limitado), não avançaremos mais na narração dos acontecimentos que sobrevieram…

Identificação onomástica e dos significandos
- Dos filhos de Aeolus (ou filhos da Luz) - Aeolus era o deus que, de acordo com Hesíodo, atava e desatava os ventos. Segundo podemos ler no “Glossário Teosófico”, de Helena Blavatsky, como divindade do ar, Aeolus equivale ao Vâyu dos hindus ou Anila (Regente do Noroeste). Pode também ser entendido como a Luz do Akasha, a fonte de toda a vida manifestada. É o Aour hebreu, a essência da luz que dá vida. A Aeolia era uma região da Ásia Menor, na Grande Mísia, que, como então acontecia frequentemente, tinha um nome místico. De Mísia (mysea = segredo) provêm os vocábulos myesis (iniciação), mystes (iniciado), mysteria (mistérios) e mystikós (místico).

- … Athamas reinou sobre a Beócia - Em esoterismo, Athamas é o ÃL;‚tmâ 3 (termo sânscrito), o Espírito universal, a Mónada divina, o 7o Princípio no Homem. É o “Adamas” (diamante) heptafacetado.

- … e teve, da sua união com Nephele… - Nephele parece ter semelhança verbal com o nominativo hebraico Nephesh, que significa alento de vida, prâna, anima, mens, a faísca vital. Em grego, o seu significado literal era neblina, névoa matutina. No entanto, julgamos poder remontar esta versão a um contexto mais vetusto, presente na Cosmogonia hindu: falamos dos Nephilim da tradição hebraica que se identificam aos (e são filhos conceptuais dos) Agnishvâttas ou Kumâras do Hinduísmo; aos Titãs ou Gigantes da tradição helénica; aos Anjos caídos, da tradição Judaico-cristã. Dentre estes últimos, fazia parte Lucífer, o Portador da Luz que, por sua vez, era idêntico ao Prometeu Grego (um dos Titãs, o Logos grego, Aquele que trouxe para a Terra o Fogo divino: a Inteligência e a Consciência). Prometeu e Phoroneus (idênticos como símbolo e ambos heróis da mitologia grega) têm, como homólogo, Lucífer (ou o Planeta Vénus), a luz que brilha no horizonte “antes do surgir da aurora”. Ora, a Humanidade (as Mónadas - ou centelhas - humanas) é ocultamente designada por “Filhos da névoa de fogo”, ou “Filhos da Aurora” (cor de ouro) ou, ainda, “Filhos de Buddhi”. De facto, Prometeu 4 ou Phoroneus é o Buddhi-Manas.

- … um filho chamado Phrixus e uma filha, Hele - Phrixus e Hele 5 representam o princípio dual de Manas 6, sendo que Phrixus é o Manas ascendido e subordinado à luz de Buddhi, e Hele o princípio inferior de Manas, preso ao desejo (e à condição mortal), isto é, o Kâma-Manas. Curiosamente, Phren era um termo pitagórico que, precisamente, designava o traço de união do Manas (inteligência) dual: entre o seu aspecto inferior e mortal (ligado e ao serviço de Kâma) e o aspecto superior, sublimado e transcendido (porque ao serviço de Buddhi e de ÃL;‚tmâ). E Phronesis significava sabedoria, intelecção, pensamento - símbolo de Phrixus (o “fogo de Manas” ou o “fogo por fricção”).

Sobre Phrixus, muitas correlações interessantes há a fazer. Com propriedade, poderemos identificá-lo ao pramantha (sânscrito), um instrumento usado nas cerimónias religiosas para produzir o fogo sagrado por meio de fricção (de notar a proximidade com o termo phrixus). Com efeito, era um “pau” (um instrumento simbólico) utilizado pelos brâmanes para acender o fogo através do atrito. O pramantha era, deste modo, um dos dois aranÃL;®s 7.

Os dois aranÃL;®s eram idênticos à swastica, um dos símbolos mais antigos e sagrados da história humana, usado no transcurso de todas as Idades e latitudes 8.

Detenhamo-nos agora, de novo, nesta raiz grega phren. Dela deriva o vocábulo phrenesis 9, que significava excitação, arrebatamento, êxtase, originalmente no sentido místico. Era característica das pitonisas e dos profetas (do grego prophetes) 10. Também, e por outro lado, temos em Português o vocábulo frénico (do francês phrénique e, este, do latim científico phrenicus e, mais recuado, do grego phrenikós). Alude à divisão diafragmática que, no ocultismo, é representativa no Homem (no microcosmo) da constituição interna e subjectiva da ponte 11 que separa o quaternário inferior e mortal, da tríade superior, divina e sempiterna. Encontramos, na enfabulação atrás descrita, a alusão ao “Voo de Phrixus” e à sua vitória ao alcançar a outra margem - a vitória do eu inferior que consegue ver abrirem-se-lhe as Portas do Mundo Divino (alegoricamente, a Cólquida, onde se encontra o famoso Velo de Ouro 12). O empreendimento deste voo subentende uma condição incontornável de purificação e transcendência da natureza inferior, a transmutação em ouro “alquímico”, aludido na figuração do velo de ouro (uma aura dourada e resplandecente) do cordeiro (símbolo imaculado de purificação pelo fogo do espírito, o Agnus Dei dos cristãos). Phrixus é o Pramantha inferior, o (seu) reflexo ou sombra, que luta por se unir à luz que o fez nascer.

Mas Phríksos era também um dos nomes que os antigos gregos atribuíam a uma árvore - o Freixo (em ático, igualmente denominado meliás).

Sobre esta árvore, o freixo, iremos percorrer um longo caminho, debruçando-nos nos anais da Humanidade, remontando às mais vetustas idades e, assim, ao berço da 5a Raça Raiz - a Índia.

O Freixo - ou a Árvore sagrada de Yggdrasil
Nas tradições místico-religiosas escandinavas, o freixo Yggdrasil é, por excelência, um símbolo da imortalidade e da ligação entre os três mundos, tanto no Macro como no Microcosmo. Os deuses construtores e guias da humanidade reúnem-se aos pés de Yggdrasil, receptando as gotas de orvalho que brotam do seu topo (o topo do mundo) e promanam a alegria, a fecundidade e a justiça. A sua fronde está eternamente verdescente pois ele retira a sua inesgotável energia da fonte Urd, de cujas águas surgiu o universo. Esta Árvore secará e consumir-se-á apenas no dia em que for travada a última Batalha entre o Bem e o Mal e o primeiro prevalecer, fazendo que a vida, o tempo e o espaço se recolham (no seu periódico acolher) no Seio do Absoluto.

O freixo, de cuja madeira se faziam as hastes das lanças, representa também a própria lança erecta, que rasga o solo, e é veículo de contacto entre o contínuo fluir divino e a recepção terreal 13.

Esta Árvore Sagrada da mitologia dos povos do Norte é, porém, idêntica a outras, de diferentes tradições, no seu profundo e sugestivo simbolismo: a “Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal” - lado-a-lado com a “Árvore da Vida” - do Jardim do Éden, na tradição judaico-cristã 14; a Árvore Boddhi (ou Árvore Bo, ou a “Ashvatha”) sob a qual Gautama, o Buda, alcançou a Iluminação; a “Pippala”, Árvore do Conhecimento dos Parsis (idêntica à arvore Bo), cujo fruto haoma é, também, o fruto proibido; a Arasa Maram, a Árvore sagrada do Conhecimento, no hinduísmo; as muitas “Árvores da Vida”, como é o caso da cabalística, emblema sacratíssimo do esoterismo Judeu; a “Asherah” assíria; a “Ished” egípcia; o “Palâza (Butea frondosa), de folha tripla, que era um símbolo da essência tripla do Universo: Espírito, Alma e Matéria ou Corpo; a Kian-Mu chinesa, idêntica à Yggdrasil; o Himorogi japonês, etc 15. Tal como no jardim do Éden, temos representadas no homem ambas as Árvores: a da Vida e a da Ciência do Bem e do Mal. A primeira, invertida, no nosso sistema respiratório (brônquios e pulmões) e, a “Norte” 14, a segunda, nas ramificações do sistema cerebral.

Assinalamos um sugestivo “pormenor”: de numerosas variedades de Freixos é exsudada uma substância alimentícia, e com propriedades medicinais e purgativas, denominada maná (do hebreu, manã). Não podemos furtar-nos à memória do episódio mítico do “maná caído no deserto e salvador do povo faminto de Israel, rumo à Terra Prometida”. Nele vemos a alusão ao alimento do Céu superior ou do Manas Superior. Esse Maná é, de facto, libertador… E estamos em crer que, tenha sido tão somente um fluido espiritual ou tenha sido a substância nectarina que promana de muitos dos Freixos, o seu nome, pelos seus místicos efeitos, deve-se à conotação com o Manas sânscrito (a Razão Intelectual, a Mente - justamente, o que confere ao Homem a sua condição de humanidade).

Na Índia, o freixo cresce unicamente nos Himalaias mas apenas acima dos 1300 metros. Dele (Fraxinus Excelsior) se extrai o maná que, fermentado, produz uma bebida usada pelos monges e que, justamente, é identificado ao soma por autoctones hindus (e, pelos iranianos, ao haoma) 16. Era o mesmo Freixo 17 que proporcionava, na Grécia, um licor ambrosino (o kikeon) utilizado nos “Mistérios de Elêusis” 18.

É bastante significativo que o Freixo em inglês tenha o nome de Ash. Na verdade, ash é a raiz de Ashvatha, a Árvore do Conhecimento, por vezes também chamada Bo ou Bodhi, sob a qual Buda dissipou a ilusão e atingiu a Luz. Inquestionavelmente um e outro termos têm relação directa. Ashvatha é descrita com as raízes em cima e os ramos estendendo-se para baixo - a copa tipificando o mundo exterior dos sentidos (i.e., o universo visível e sensível) e a Roda infindável dos Renascimentos (a corrente de Samsâra), e as raízes, nas regiões celestes, simbolizando o Ser Supremo, a Causa Primeira, a Raiz do Cosmo 19. Nas Escrituras hindus é tida como “símbolo da vida e da ilusão das suas alegrias e prazeres”; e cada homem tem por missão penetrar fundo dentro dela, passar além dos seus ramos e, atingindo o topo das suas raízes, visionar e conquistar a Luz da Realidade. Curiosamente, o termo Ash, em hebraico, significa Fogo, tanto o fogo espiritual quanto o físico (o “Ash Metzareph” era um importante tratado cabalista cujo nome tinha por significado “O Fogo Purificador”) 20.

Outras referências, igualmente curiosas, a frutos, proibidos ou reservados para os heróis, encontram-se, nomeadamente, nas múltiplas menções ao poder encerrado na maçã: a maçã que Eva ofereceu a Adão…; os “Pomos de Ouro” do Jardim das Hespérides 21; e, no Zohar, podemos ler o seguinte: … “mercê deste orvalho, se nutrem os Santos Superiores. No mundo vindouro formará o maná dos justos. Esse orvalho cai no Jardim das Maçãs Sagradas….”; também o Mago Merlim, da lenda do Rei Artur, ensinava debaixo de uma macieira na Ilha de Avalon (em celta, chamada o Pomar das Macieiras). Na verdade, é pertinente observar que o coração das maçãs configura “uma flor de 5 pétalas” ou “uma estrela de 5 pontas”, dividindo-se em 5 pequenos alvéolos dentro dos quais se ocultam as sementes. E 5 é o “número do homem”, o número dos graus ou Planos que o Homem domina (no Grande Todo Septenário) - o 5o Princípio é Manas. A maçã, com propriedade, pode ser considerada como o fruto do “Conhecimento do Bem e do Mal”. Por último, destacamos uma significativa alegação da Filosofia Esotérica: Jambu (termo sânscrito) é uma das principais divisões do globo, no sistema purânico, que inclui a antiga Índia como berço da 5a Raça, ou Ariana. Significa “Terra das maçãs rosadas” 22. Num sentido mais vasto, é o nome do nosso Globo, separado dos outros seis que, com ele, conformam a nossa Cadeia Planetária. E esta Tradição, pela longevidade incomparável dos seus registos escritos, é obviamente a raiz de todas as demais tradições de Paraísos terreais, de Berços da Humanidade, de sonhos heróicos de Regresso às Origens, empossados na forma de miríficos “Jardins onde abundam Maçãs de Ouro”…

Não resistimos aqui a fazer um pouco de humor: até a célebre maçã de Newton foi, de facto, a maçã da “iluminação”!!!
Hele caída no Mar

Recuperemos o sentido interpretativo da narrativa:
- … Hele, irmã de Phrixus, caíu ao mar durante o temerário Voo. De facto, nesse voo podemos vislumbrar um equilíbrio e uma suspensão deveras precários. Esta imagem, sob o ponto de vista oculto, é muito significativa: do Princípio dual e irmanado, Kâma-Manas, um deles permanece no seio das águas - Kâma, do desejo, das emoções - como lhe é próprio. Hele e Phrixus (Kâma-Manas) são o reflexo invertido de ÃL;‚tma-Buddhi, o par Rei Athamas e Rainha Nephele.

Curiosamente, Hele parece constituir raiz etimológica de Helix (hélice), e de novo vemos sugerido o quadro simbólico do aranÃL;® e/ou da swastica. Do aranÃL;®, onde o pramantha representaria a haste ou elemento positivo/masculino, identificando-se a Phrixus (a expressão manásica), e onde Hele consubstanciaria o emblema axial feminino, a haste, a trave da polaridade negativa. O aranÃL;®, a swastica - ou a hélice - representam a conjunção de ambos os elementos, de polaridades contrárias ou complementares, que produz a infindável multiplicidade da Manifestação. Em linguagem ocultista, produzem o “Fogo por Fricção”.

Hele, numa imagem sugestivamente alegórica, cai no estreito entre duas importantes margens - estreito que recebeu o seu nome: Helesponto. É ele o Antakarana.

O Fogo - Agni + Cordeiro
O simbolismo do Velo de Ouro do Cordeiro transporta-nos para uma deambulação mais extensa sobre o significado, abrangente a todas as grandes religiões, de Agnus/Agni - Fogo Espiritual (e num sentido mais lato, fogo de purificação).
Com efeito, vemos, por exemplo, que nos Vedas, o carneiro é relacionado com Agni. Segundo a Bhâskala-mantra Upanishad, assim fala Indra:

… Transformei-me em cordeiro para a tua felicidade.
Alcançaste o Caminho da Boa-Lei,
Alcança, então, em ti, a minha natureza.
Eu sou o estandarte, eu sou a imortalidade,
Eu sou o logos do mundo:
O que Foi, É e Será.

O Carneiro (ou Agni) é igualmente a mansão (morada) de Kuvera, guardião do Norte e dos seus dons, segundo a lenda hindu.

Do mesmo modo, no Egipto, o símbolo do Carneiro teve a sua grande proeminência: Ammon é a divindade criocéfala (representada com uma cabeça de carneiro) 23. Ele é o “Sol Espiritual”, o “Sol da Justiça” 24. Até mesmo os judeus (no seu cativeiro) o reconheciam e lhe sacrificavam voluntariamente carneiros. Muito antes, para os sumérios, o carneiro já era símbolo do sagrado sacrifício. Também o Hermes Crióforo (ou Hermes com um cordeiro sobre os ombros) era, precisamente, venerado na Beócia.

Ilustrativamente, também no Reino Vegetal existe uma planta, cujo nome botânico, latinizado, é Agnus Castus (em grego lygos e também agnos, e em português conhecida como anho casto ou a árvore-da-castidade). O cunho deste nome, associado à “pureza” e “à “purificação”, repete-se insistentemente. Na antiga Grécia, Prometeu (de quem acima já falámos) era representado com uma coroa feita da planta Agnus Castus. A partir dela se fazia a bebida iniciática de purificação Perséia, em comum no Egipto e na Grécia, e Amomos 25, na Grécia. Era também usada no grande Cerimonial da Thesmophoria 26, em honra de Deméter. Igualmente a Cristandade dela se serviu nos conventos de monges e monjas, pois limitava o apetite venéreo.

Sabemos que no inglês da actualidade, ram é uma das formas de designar “carneiro”. Porém, no longínquo passado, Ram, na língua sânscrita, era o nominativo neutro de Ra, considerado como símbolo do tattva Agni (e ra tinha como significados comuns “fogo”, “combustão”). No francês actual, cordeiro diz-se agneau. Mesmo em português, conservamos reminiscências desta raiz ambivalente: agnelina é a pele de carneiro com lã; também a palavra “ígneo” alude ao fogo, adjectiva ou define “aquilo que tem a sua natureza ou se lhe assemelha”. Rambotim era igualmente um antigo tecido de lã de carneiro procedente do Oriente. E Rambuteira (Nephelium lappaceum) é uma planta frutífera comum no arquipélago malaio, e também na América do Sul, cujo nome deriva de rambut = lã de carneiro; quanto a este vocábulo, chamamos a atenção para o nome científico Nephelium, semelhante a Nephesh, e de novo nos deparamos com a relação “carneiro - ou o seu velo - e aurora e/ou névoa ígnea” 27.

Râma, ou Râm, o príncipe lendário do poema épico Râmâyana, foi, em tempos muito recuados, um importantíssimo organizador e legislador social. Segundo os Anais da Ciência Arcana, Râma foi o 7o Avatâra de Vishnu - e um dos primeiros Patriarcas da religião ariana - bem como a primeira personificação ou símbolo vivo do Carneiro Divino. A sua história chegou já desfigurada aos nossos dias, passando de era em era, de povo em povo, perpetuando-se pela oralidade dos bardos mas colorindo-se de um carácter mítico. É dito, não obstante, que a ele se deve a elaboração do calendário dos Árias bem como a exposição organizativa e figurativa dos signos num Zoodíaco 28, que vigora até hoje (se bem que, na época, não tivesse uma divisão duodenária). Os chifres do carneiro teriam constituído, então, um emblema da religião embrionária bramânica, sendo este símbolo ulteriormente trazido da Índia para o Egipto. Nesse país, numa forma de toucado (tiara), ele foi uma insígnia da Iniciação e, por inerência, da dignidade Sacerdotal e da Realeza faraónica. Os dois chifres da primitiva tiara Papal advêm daí.

Para os islamitas, o Ramadão - o 9o mês do ano árabe - é o tempo de uma celebração religiosa muitíssimo importante (mas cuja descrição nos dispensamos de enunciar por óbvios motivos de espaço). Mencionamos unicamente que Ramadão (Ramadhãn) provém da raiz ramadha que significa “arder” (de novo a alusão ao Fogo).

Também em Ashram, a literalidade do nome é por demais eloquente. No mundo físico, o Ashram é um lugar santificado e intimamente reservado onde um Adepto recebe o seu círculo de discípulos para os instruir (por vezes, de forma mais lata e com uma acepção mais generalizada, é também um mosteiro, uma ermida, um retiro onde se vive e pratica a disciplina espiritual). Nos Planos espirituais, é o lugar onde os Mestres de Sabedoria acolhem os seus discípulos (de grau superior) que a ele acedem no seu corpo espiritual. O “lugar santificado onde Moisés teria pisado - nele descalçando as suas sandálias -, 29 e prosternando-se ante a sarça ardente” (que ardia sem se consumir), parece-nos uma evidente alegoria do que acabámos de descrever como o ashram (ou o lugar impregnado pela aura ígnea do Mestre). O “Velo de Ouro” - a aura do Christés (ou Christos) 30, o “purificado”, o “vencedor” (do árduo e muito longo caminho que nos conduzirá, a todos, à emancipação dos grilhões humanos, à liberdade do Adeptado); a aura d’Aquele que, em linguagem alquímica, consumou a Grande Obra - transmutando o seu chumbo, saturnino, em ouro, esplendorosamente solar. Ashram (ash-ram) - uma árvore sagrada, uma sarça ardente, um “freixo ígneo 31″, tal como a Ashvatha budista ou a Asherah assíria? (… um “lugar” reservado aos eleitos?).

Ainda em relação ao simbolismo espiritual do Velo de Ouro do Cordeiro - o envoltório áurico dos iluminados - chamamos a atenção para uma sugestiva curiosidade: Rama ou Arimateia era a cidade do mítico José de Arimateia, que teria “amortalhado” Jesus, o Christos. Julgamos verosímil que, aqui, mortalha tenha precisamente o significado velado de aura.

Reproduzimos agora a conhecida e enigmática frase de carácter mágico (um palindromo perfeito, ou seja, que é sempre lido e verdadeiro qualquer que seja a direcção tomada na leitura - da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda, simetricamente palavra-a-palavra e letra-a-letra) SATOR AREPO TENET OPERA ROTAS que ocupou gerações de hermetistas. “O Semeador 32, o Carneiro [Celeste] com o Cio, Cumpre a Grande Obra Cíclica [da Geração ou Fecundação]”. Este logogrifo encerra a chave da Criação ou da Manifestação dos mundos.

Tal como no mito de Phrixus, na China, o Carneiro é a montada dos seres que atingiram a imortalidade, como Ko Yeu.

Por outro lado, a constelação zodiacal de Aries é universalmente a constelação do Carneiro (e um signo de fogo). É um símbolo de renovação e de imortalidade - em que toda a natureza se renova. Ares, em grego, era o nome dado ao planeta Marte, deus da guerra (do “atrito”, das violentas confrontações das emoções), e dos ferreiros (que forjavam o ferro por meio do “maço de ferreiro”, análogo ao martelo de Thor) 33. Já referimos atrás a identificação simbólica do martelo de Thor 34 com a swastica, com os dois aranÃL;®s e, assim, com o “fogo por fricção” - que deu, dá e dará nascimento a tudo o que tem a sua matriz arquetípica na Insondável Ideação Divina. Ares tinha também como significado “o princípio espiritual; a causa do carácter específico de cada coisa” (nas palavras de F. Hartmann, reproduzidas no “Glossário Teosófico”). E não deixa de ser curioso que “ara”, na antiga Roma, constituía precisamente o altar do sacrifício, onde se acendia o fogo purificador e onde, com frequência, eram oferecidas as vítimas propiciatórias - primacialmente, o cordeiro. 35

“Cordeiro de Deus, que expiais os pecados do mundo…” - reza a poderosa fórmula litúrgica. Com efeito este Cordeiro é o símbolo vivo do Fogo purificador!…

Isabel Nunes Governo
Vice-Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

1 É patente alguma semelhança entre este e o episódio da eminente imolação de Isaac, em oferenda pelo seu próprio pai, Abraão, vindo, afinal, a ser substituído por um cordeiro.

2 Hoje chamado Estreito dos Dardanelos.

3 Para que se torne compreensível a relação, exposta adiante, entre os diferentes Princípios de existência/consciência no Sistema Ocultista, faz-se necessário enunciá-los aqui, ainda que de forma sucinta: trata-se de um Septenário dividido entre uma Tríade Superior (Espiritual, Numénica, Imorredoura) e um Quaternário Inferior (o Mundo das Formas e dos Fenómenos, onde decorrem as inúmeras vidas sucessivas individualizadas). A primeira é constituída por ÃL;‚tman, Buddhi e Manas (este último, no seu aspecto superior. Manas é dual); a segunda, por Kâma-Manas (o Manas inferior), Prâna, Linga-SharÃL;®ra e SthÃL;»la-SharÃL;®ra.

4 O nome de Prometeu significa “aquele que vê (define ou tem o plano do) futuro” e, de algum modo, equivale ao pramantha cujo reflexo se projecta no mundo inferior (no microcosmo), como veremos adiante.

5 Encontramos, noutros contextos e com frequência, o nome Helena no vasto cenário mítico grego. Uma das mais lendárias e famosas foi Helena, filha de Júpiter e de Leda, e esposa de Menelau, rei de Esparta. Raptada por Páris, foi ela a causa da guerra de Tróia. Segundo lemos na “Doutrina Secreta” (de H.P.Blavatsky) é esta Helena, igualmente, a personificação do 4o Princípio (ou Kâmico) da constituição humana.

6 Os Mânushya-Buddhas são os supremos Instrutores e Guardiões das 7 grandes Raças-Raiz em cada Globo da nossa Cadeia Planetária. Gautama Buddha foi um deles. Mânushya é a forma adjectivada de manushya - homem (igualmente man, no vocábulo inglês) -, derivada da raiz verbal man = pensar. Quando os Manâsaputras acordaram o princípio manásico no homem, ele tornou-se apto a tomar, consciente e volitivamente, o Caminho de ÃL;‚tma-Vidyâ, atingindo assim a Iluminação.

7 O aranÃL;® duplo (ou completo) é uma swastica, disco de madeira com um furo ao centro, no qual os brâmanes produziam fogo por meio de fricção com o pramantha. O aranÃL;® feminino é um nome do Aditi védico (esotericamente, “a matriz do mundo das formas”). E quanto ao termo pramantha, curiosamente, também, pelo que nos chega até hoje, podemos constatar alguma semelhança com pragmática (do grego pragmatikós), que era um conjunto de preceitos ou fórmulas no rito das cerimónias religiosas.
Há quem diga que é o disco de Vishnu, pois, enquanto o disco rodar, o Universo inteiro, com todas as suas inúmeras formas de vida (que integram o Grande Septenário), manter-se-á activo e acordado. Na TrimÃL;»rti (ou Trindade hindu) - Brahmâ, Vishnu e Shiva -, o epíteto de Vishnu é “o Mantenedor” ou “o Conservador”, o de Brahmâ é “o Construtor” ou “Criador”, e o de Shiva é “o Destruidor” ou “Consumador”.

8 Do “Glossário Teosófico”, extraímos as seguintes transcrições: “Na filosofia esotérica é mesmo o diagrama mais místico e antigo. É o originador do fogo pela fricção e dos ‘quarenta e nove’ fogos. O seu símbolo foi impresso sobre o peito dos Iniciados, após a sua morte, e é objecto da mais respeitosa menção no Râmâyana. Esta cruz encontra-se gravada em todos os templos de rocha e edifícios pré-históricos da Índia, e onde quer que os budistas tenham deixado as suas marcas. É encontrada igualmente na China, Tibete e Sião, e entre as antigas nações germânicas, na forma de ‘Martelo de Thor’. (…) É tão sagrada para nós como o Tetraktys pitagórico, do qual é verdadeiramente o símbolo duplo.(…) Tem estreita ligação e até identidade com a cruz cristã, o que não impede que os missionários digam que é o ‘signo do diabo’. Como se explica, pois, que seja encontrada com frequência nas catacumbas de Roma, no célebre púlpito de Santo Ambrósio de Milão e em tantas outras partes? (…) Em relação à origem deste signo, é fácil reconhecer que representa os dois pedaços de madeira que compunham o aranÃL;®, cujos dois extremos estavam dobrados e, por sua rotação rápida, faziam surgir Agni (o fogo)”. As antigas representações romanas de Cristos são frequentemente enquadradas numa espiral ou numa swastica, o que alude, decerto, ao poder da sua natureza geradora e profícua.

9 Em português, frenesi. Hoje este vocábulo afastou-se do seu sentido místico original para caracterizar quase simplesmente uma patologia (histeria, de sentido gratuito) ou até uma avaliação de sentido depreciativo sobre o carácter ou compostura.
O Frenesi Místico ou Manticismo era outrora muito respeitado e apanágio tão só de sacerdotes e dos chamados profetas (que os houve em todas as civilizações e religiões). Lemos em “Ísis sem Véu” (de H.P.B.) que, inclusive, “Pitágoras e Platão tinham o manticismo em alto apreço e Sócrates aconselhava os seus discípulos que o estudassem…”… “Este Manticismo ou Frenesi Místico era um estado [consequente a uma exigente e continuada purificação] durante o qual se desenvolvia o dom da vidência que podia envolver ou incluir a profecia. Os padres da Igreja Romana, que condenavam com tanta severidade o frenesi mântico dos sacerdotes pagãos e das pitonisas, não deixam de o aplicar particularmente. Os montanistas, que tomaram este nome de Montano, bispo da Frígia, considerado como divinamente inspirado, competiam com os manteis ou profetas….”. O Antigo Testamento, fonte patrimonial comum de três das mais importantes religiões de hoje - o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo -, inclui, com naturalidade e reconhecimento, a herança escrita dos seus assumidos “Profetas”.

10 Segundo Clemente de Alexandria, no Egipto os profetas eram os oficiantes que presidiam aos detalhes do culto e que tinham de conhecer os 10 livros sacerdotais (estes tratavam dos ensinamentos sobre os deuses e sobre os deveres sacerdotais). Cada divindade tinha um profeta (ou mediador) ligado ao seu particular culto. (Não se deve tomar aqui esta palavra - profeta - no sentido hebraico).

11 A chamada “ponte sobre o grande vazio” - o Antakarana.

12 O velo de ouro simboliza uma aura luminosa e dourada, característica e atributo de Buddhi.

13 No simbolismo da lenda escandinava, BifrÃL;¶st era uma ponte construída pelos deuses para defender o Asgard (ou Ashgard, o Olimpo dos nórdicos). Nela se encontra dia e noite “o terceiro deus da Espada, conhecido pelo nome de Heimdal ou Riger”, com a espada na cinta, por ser o guardião da Mansão dos Deuses. Heimdal (equiparado ao arcanjo Miguel) é o Querubim da flamígera espada “que a bramia em todas as direcções do espaço, para bem guardar o caminho da Yggdrasil (a Árvore da Vida)”. Chamamos a atenção para a curiosidade do nome e da história de uma das nossas vilas nortenhas, Freixo-de-Espada-à-Cinta. Diz uma tradição que um capitão godo (os godos eram antigos povos da Germânia), ali chegado depois de uma dura batalha, e entregando-se à sombra acolhedora e benfazeja de um freixo, deu o nome à dita árvore, o qual depois se transferiu para a povoação que ali se começou a fundar com a massa dos seus homens. Muitíssimo mais tarde, D. Dinis distinguiu-a e prestou-lhe homenagem, pois a história local regista que “pendurou a sua própria espada num freixo”. Mandou erigir um castelo e um magnífico templo de invocação a S. Miguel Arcanjo. Conservam-se ainda hoje a igreja e as ruínas do castelo.

14 A tradição hebraica diz que a “Árvore da Vida” estava situada a Este, no Jardim do Éden, lugar dominado pelo Bem, custodiada por Querubins, e a “do Conhecimento do Bem e do Mal” estava situada a Norte, e estava dominado pelas forças do Mal. Cfr. a Sefer há-bahir.

15 Nos fragmentários textos das tábuas sumérias, podemos ver que Ashur era a sua floresta sagrada. Ashnan era uma divindade personificada mas também a força vital que suporta toda a criação, todas as coisas - a terra, as plantas, os animais, o homem…

16 Com efeito, os parsis utilizavam uma bebida fermentada, a partir do”mel” (néctar) nomeadamente de uma espécie arvícola “Ephedra” (supostamente a Pippala mítica), árvore esta que na América é por vezes chamada Mormon Tree [F. Americana Lin.]. (J.D.Hooker, “The Flora of British Índia”, Brook, Kent: L. Reeve and Co., 1882)

17 Na Grécia crescia o F. Excelsior e o F. Ornus, ambos melíferos, i.e., dadores de maná.

18 Sobre ele, dizia Hesichius, muito mais tarde (séc. VI d.C.), a significativa frase no seu léxico: Meliás Karpós: tÃL;² Anthrópon Géneos (a Raça do Homem está na semente do Freixo). Igualmente na mitologia germânica, o primeiro homem foi formado a partir de um freixo, “Ask” (Ash), por Odin e os seus pares [Odin é o equivalente ao Wotan escandinavo e a Ares (Marte) por também ser o deus das batalhas].
No “Suplemento do Teatro Crítico”, de A. Feijó, pode ler-se: “… crê-se que aquela medicina que chamamos manná é uma espécie de orvalho que, na Calábria, caindo sobre os freixos, se coalha…”. Era crença comum, no passado, que o maná com propriedades ocultas devia ser recolhido de madrugada, orvalhado, pois esta circunstância extrairia dele, da forma perfeita que só a Natureza pode dar, a sua “quinta-essência”.

19 Asu, em sânscrito, significa vida, espírito vital, alento (os Asuras eram seres espirituais e divinos, equivalendo em grau ao Ahura dos zoroastrianos). Por outro lado é patente aqui a estreita ligação dos Agnishwâttas (Agnishvathas ou Kumâras) com este aludido Plano da Manifestação, e o seu papel no Ministério do Conhecimento e da Evolução humanos.

20 O Ashwamedha (termo sânscrito) era uma oferenda sacrificial; Ash era a fumigação (essência) que se elevava do altar sacrificial [muito provavelmente, daí provirá, por deformação, a palavra inglesa ash = cinza(s)]. Esse mesmo fogo e fumigação alusivos ao sacrifício tinha o nome de Ishum na Suméria.

21 Hesperus era a “estrela vespertina”, Vénus. Aqui nos deparamos com nova alusão aos Kumâras, provenientes da Cadeia Venusiana na nossa 3a Raça-Raiz, e aos quais a Humanidade deve o despertar da Razão e da auto-consciência.

22 Diz a tradição (registrada por Gervásio) que Alexandre Magno (discípulo de Aristóteles, que lhe ensinou vários ramos do saber humano), nas suas incursões à Índia, e buscando o Elixir-da-longa-vida, ouviu falar de umas maçãs (decerto no sentido alegórico) que prolongavam até 400 anos as vidas dos sacerdotes-iniciados.

23 Aquele que está no centro do viril, rodeado de esplendorosos raios solares (do viril ou custódia cristãos, mas, muito antes, do viril egípcio - representado com ou sem uraeus -, do masdeísta, e estes trazidos da Índia meridional e do Ceilão).
Ammon tinha um templo portentoso em Tebas (Karnac), a que se acedia por uma enorme alameda bordejada de carneiros. Cada carneiro tinha o anel pentacular (símbolo do domínio do 5o Princípio no Homem) de Ramsés II - o faraó que se intitulava a si próprio “filho de Ammon”. Fica-nos a sugestiva interrogação sobre o significado literal do nome Ramsés, tanto mais que é sabido ser esse um nome crismático, um nome de eleição, usado ou adoptado por treze faraós.

24 Em alquimia, o “sal amoníaco dos sapientes” é também designado “sal de Ammon” (i.e., do Carneiro, que, segundo Fulcanelli, “se escrevia harmonic, porque realizava a harmonia, o acordo da água com o fogo, sendo o mediador por excelência entre o Céu e a Terra, o Espírito e o Corpo, o volátil e o fixo”). Ele é o agente da concórdia, da completude trina na unidade, enfim, da perfeição na pedra filosofal.

25 No grego antigo, mesmo o vocábulo Amnos (do qual se originou Ámnion = ÃL;‚mnios) significa cordeiro. O âmnios (ou melhor, o líquido amniótico) é o conteúdo vital, essência de vida (afim à “Água da Vida”, às “Águas da Mãe Virginal” - a Mãe Natureza, no Macrocosmos); é, no microcosmos, uma replicação orgânica, densificada, do “Akasha”, do “Azoth” dos Alquimistas, do “Oceano de Leite” da alegoria purânica, das “Águas Primordiais” aludidas em todas as cosmogonias e tradições religiosas. Em última análise, parece-nos plausível que o Amomos grego possa ser correlato ao Amrita védico - o alimento celeste, a nutriz dos deuses. Ambrósia, Amrita, Amomos (e até Haoma), todos estes místicos alimentos têm curiosa semelhança fonética, todos assentando na raiz am que, quase universalmente, quer dizer: raiz, essência, matriz, mãe, mãe primordial.
Como curiosidade acrescida, fazemos menção à identidade das deusas da fecundidade e das colheitas Ceres-Deméter (a quem eram dedicados os “Mistérios de Elêusis”) com uma outra muito mais antiga Asinu-Ashnán (Ezinu, ideograma sumério; Ashana, acádio). “Quando os deuses festejaram no Céu a entronização de Marduk, comeram ashanán, quer dizer, pão, e beberam geshtinan-na, quer dizer, vinho-do-céu”.

26 … Cerimonial da Iniciação destinado às mulheres. Thesmophorias era também o nome que se dava a essas mulheres candidatas à Iniciação.

27 Nefelite é, precisamente, um mineral, afim ao feldspato, que se encontra abundantemente nas lavas (os redutos ígneos) do Vesúvio.
Quanto ao étimo ram, comum em um tão vultuoso número de línguas vivas e também arcaicas, ilustramos um outro exemplo que aqui encontra relação: em português, espanhol, francês…, ramagem, rama ou ramaje, rameau… representam, de certo modo, o halo (se bem que físico/material) de uma árvore.

28 Com efeito, na antiga ÃL;‚ryâvarta (a Índia primitiva), o primeiro signo estabelecido na Roda Zodiacal foi o Carneiro - ocultamente, o asterismo do Fogo ou do Espírito universal (que confere a Iniciação suprema pelo conhecimento da Verdade). Este signo identifica-se aos remotos Ashwins (ou Aswini-Kumârau) - esotericamente, os Kumâra-Egos, os “Princípios” reencarnantes neste Manvantara. Râma ou Yâma - o filho do Sol - era símbolo do Manas superior (ou melhor, de Buddhi-Manas). Na tradição oral e exotérica, ele era um de dois irmãos gémeos (Yama-YamÃL;®, o Manas dual), tendo, pois, por irmã, YamÃL;® (a personificação do Manas inferior ou Kâma-Manas). Na realidade, e coincidentemente, no exoterismo bramânico, os Ashwins eram um par de gémeos… e também, na mitologia sintoísta (japonesa) encontramos uma mesma parelha criadora, de quem procedeu toda a humanidade, o casal de irmãos Isanaghi e Isanami, com um étimo eufonicamente muito semelhante (ash ou as, e is). Do mesmo modo, a nível cósmico/sistémico, Vénus e a Terra são ocultamente condiderados os “gémeos-siderais”. Vénus ou Ashphujit (assim chamado nas “Estâncias de Dzyan”) é o Alter-Ego da Terra (ver relação com o atrás referido relativamente aos “Senhores” Kumâras, Agnishvâttas, etc).
Diz uma certa lenda que a Râma, na sua juventude, enquanto meditava debaixo de uma árvore, lhe apareceu um Ser divino, de nome Aescheylkopa, com uma vara na qual se enroscava uma serpente [a eterna serpente, símbolo de Sabedoria]. Este Ser instruiu-o sobre todas as artes e medicinas que poderiam curar os homens física e espiritualmente… É nítida a identificação ao Asclépio (Asclepiós) grego. [Note-se a semelhança fonética do prefixo do nome que aqui figura em primeiro lugar, com o ash sânscrito, hebraico, germânico, etc. Por outro lado, nas velhas línguas-semente, não raro ask confunde-se ou substitui-se a ash; e de novo vemos manifesta, numa língua actual, a primeiríssima premissa da condição humana, isto é, de Manas - ask, em inglês conforma a indagação, o avançar para o Conhecimento… Designadamente, na mitologia nórdica encontramos a palavra Ask que representa o mesmo que Ash - a “Árvore do Conhecimento”. Da Ask, em conjunto com a árvore Embla, os deuses do Asgard criaram o primeiro homem dotado de entendimento]. E, ainda, podemos ver este étimo (ash) na palavra Akasha: Ak = veículo; aquilo que conduz, e ash = Fogo divino; mas também kash, que significa irradiar, brilhar. Na filosofia esotérica, Akasha é o 5o Elemento cósmico (contando de baixo para cima), a substância primordial irradiante que sustenta e penetra toda a criação, e o veículo do “Divino Pensamento” (Mahat). O Akasha é o veículo dos mais elevados pensamentos que o homem é susceptível de expressar, o meio pelo qual ele pode comunicar com os deuses. Os Mahâtmas por vezes chamam-lhe as Tábuas da Memória da Hierarquia dos Dhyân-Chohans bem como de cada Ego espiritual; enquanto que a Luz Astral (o aspecto inferior do Akasha) constitui as Tábuas da Memória terrena e das impressões inferiores a Manas. Este Ash (Fogo divino, Princípio divino) tem a mesma raiz e significado do etrusco Aes ou Aesar, do gálico Aes, do escandinavo Aes, do copta Os (Senhor) e até de Osíris. Por vezes o som Ish assimila-se ou identifica-se ao Ash e assume-se insistentemente em nomes de divindades como Ishtar, Ishvara, Ísis, Krishna, etc. No Japão, o mais venerado Templo é o de Isé, em honra de Isanaghi e Isanami. Segue-se-lhe o que abriga o santuário dedicado a Ashimán (o “deus dos oito estandartes”), em Kioto.
Com efeito, Is é o Ser (Sat), a única Realidade sempre presente, a Essência Divina que a tudo permeia e comunica a sua condição de Ser.

29 Segundo a tradição judaico-cristã, Moisés teria sentido um apelo que o arrebatou e ouvido a “voz do Altíssimo”; teria subido ao monte Sinai onde ouviu as seguintes palavras: “descalça-te porque estás em Terra Santa”… O conteúdo e a significação desta metáfora são os mesmos que são requeridos a todos os que se acercam da aura de um Mestre para serem por Eles instruídos - pureza e despojamento das “vestes” (ilusões) materiais. Na verdade, quando chega o glorioso dia e um discípulo se acolhe aos pés do seu Mestre, imerge na Sua aura. Não é demasiado importante se este episódio tem ou não realidade histórica. O que se releva é o significado vivo da alegoria, o conteúdo mítico-espiritual da sua narrativa. Esse relato, símbolo vivo, verdadeiro e imorredouro, em todos os tempos e lugares (e em todos os credos), tem um valor imensurável só por si.

30 Forma gnóstica primitiva de Cristo.

31 Em português temos a palavra “acha”, que significa justamente um pedaço de madeira (de árvore) destinado a “alimentar o fogo” (e destinado a arder).

32 Areté em grego significa Virtude. Estamos em presença de uma curiosa e profícua palavra (de novo com o mesmo étimo). Virtude tem como sinónimos pureza, perfeição, qualidade, excelência… mas também quer significar “aquilo que é potencial, virtual; é, pois, o vir-a-ser, a semente, e, neste sentido, a consequência ou karma/dharma (com efeito, dizemos: “em virtude de”, ou “em consequência de”), a descendência, a filiação, o Fio da Vida ou SÃL;»trâtmâ (e curiosamente, na sua correlacção com o Sushumnâ - conduto espinal -, fazemos notar que corda-dorsal ou notocórdio deriva do latim notu=dorso + chorda=corda, e cordeiro, de chordariu), como também o fio de Ariadne. Em termos místicos e filosóficos alude ao 2o Aspecto da Trindade Logóica: ao Verbo, a Vishnu (na Trindade hindu), à Palavra, à letra hebraica Vau, ao Filho (na Trindade cristã). E, neste último sentido, de novo se aproxima de Fio ou Hilo da Vida (no espanhol, hilo / hijo; no francês, fil / fils; no português, fio / filho, etc), como igualmente de Ram (ramo, ramal, extensão, descendência). Exprime, assim, a ideia de Princípio de uma continuidade: “No Princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus…”; Aries - ou o Carneiro - é o primeiro signo da Roda Zodiacal. O Verbo, o Filho, o Cordeiro de Deus são um só.
De igual modo, o verbo arar significa “preparar a terra para a sementeira”. A Festa da Páscoa e o Sacrifício do Cordeiro Pascal é uma reminiscência dos primitivos Mistérios {do Sublime Sacrifício do Filho do Homem, da Vitória da Vida sobre a Morte, e da consubstanciação alegórica das primícias das Searas ou Sementeiras - um símbolo da ressurreição ou da renovação da vida - nos Mistérios de Elêusis (celebrados em Arae, nos arredores de Atenas) em honra de Ceres-Deméter. Hoje vemos esta representação na liturgia cristã na forma da Eucaristia}.
Ainda relativamente ao poder criador do Verbo, da Palavra ou do Som, recordamos a Música das Esferas, da filosofia/cosmogonia pitagórica. E eis que o Cordeiro nos surge como o Orquestrador da Grande Sinfonia Universal, Aquele que faz tanger as cordas (alegóricas), vivas, sensíveis e vibráteis do Akasha - e que assim determina o Portento da Matemática Astronómica e de todas as outras Leis que regem o Kosmos.

33 Nos hinos do Rig-Veda, Vizvakarman (o 3o dos “7 Raios solares”) é descrito como “Aquele que se imola a si mesmo” e “Aquele que é o Grande artífice dos deuses e forjador das suas armas” (armas tem aqui o sentido de dons desabrochados, desenvolvidos, conquistados); é o carpinteiro celeste equivalente ao Tvachtri - e, assim, de novo nos encontramos face-a-face com os dois aranÃL;®s, ou a swastica. Tvachtri ou Tvashtri, ou ainda Akta - o “Pai do Sagrado Sacrifício”!!!
Na ainda jovem tradição cristã, encontramos a inequívoca identificação e adopção deste símbolo (o carpinteiro celeste) na figura de São José, esposo de Maria (Maya, Mãe Natureza). Existe aqui, igualmente, uma alusão torneada ou velada à presença activa, nele consubstanciada, do Espírito Santo. E relativamente a este 3o Aspecto da Divina Trindade, aproveitamos para fechar estas notas com a referência ao episódio alegórico da abertura das “Portas do Templo”, dando voz aos apóstolos do Cristo: verdadeiramente, aquelas “línguas de fogo” do Espírito Santo são a substância da oralidade e do entendimento - do Entendimento Sacramentado que nos permite entrecruzar e penetrar o sentido de todas as línguas do presente, do passado e do futuro. Foram chamadas “de Pentecostes” por serem adstritas à sublimação do 5o Princípio do Homem… Quando o tempo da madurez e da colheita surge, o Homem saberá entender todas as vozes (”linguagens”) do Universo e nenhuma encerrará segredos para ele.

34 O martelo de Thor (da mitologia escandinava) era uma arma e instrumento que possuía a forma de cruz swastica e que os maçons e místicos europeus designavam pelo nome de “cruz hermética” e também “cruz Jaina”.

35 Verifica-se a assonância entre Hari e Aries. Com efeito, presumivelmente com uma raiz fonética comum, Hari é o epíteto de Vishnu mas também de outras divindades hindus como Krishna, Indra, Varuna, etc. Significa “Aquele que dissipa a ignorância, os pecados do mundo” - o mesmo epíteto (ou significante) que mais tarde se atribuiu ao Cristo. Para lá de um radical puramente morfológico comum numa diversidade de idiomas e, regra geral, propagado por convenção externa, em Linguagem ocultista subjaz uma realidade muito mais fundamental e que se repete compulsivamente por razão numénica, ou seja, existe uma raiz harmónica subjectiva que concilia e identifica as palavras para lá da proximidade (ou não) em termos de tempo e de espaço (de latitudes e de momentos históricos ou civilizacionais).

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