Cada vez mais depressa?…

Nunca como hoje a nossa civilização foi tão marcada pela velocidade, pela ordem, pelo ritmo, pela sincronização e pelo desejo imperioso de controlar o tempo. Queremos tudo o mais rápido possível e com o mínimo esforço… perseguindo uma felicidade que parece escapar sempre do nosso alcance. Mas porquê e para onde corremos nós?

Chegamos constantemente atrasados, não temos tempo para nada, sentimo-nos exaustos e impotentes perante tudo aquilo que gostaríamos de fazer, de ter, de saber… e culpamo-nos por não conseguirmos dar a atenção devida àqueles de quem mais gostamos, por não sermos capazes de acompanhar a torrente de notícias da actualidade ou de ler mais e mais livros na tentativa de adquirirmos mais conhecimentos… que se esfumam assim que os tentamos alcançar. Porquê esta ânsia, esta pressa de viver? Estaremos afectados pela “febre da velocidade”?

Na verdade, a vida moderna instiga-nos a uma crescente aceleração, fomentada e alimentada, em grande medida, pela indústria. Nem sempre foi assim: basta recuar à “realidade” de alguns anos atrás ou deslocarmo-nos a uma pequena aldeia do interior do país para nos apercebermos como aí o “tempo” decorre tão mais devagar. Estamos rodeados de informação, de regras, de tecnologia e dos mais variados estímulos que, de um modo directo ou subtil, funcionam como “aceleradores do tempo”, refere James Gleick 1. “Antes da era das máquinas, poucas pessoas tinham uma experiência directa do movimento uniforme, na forma em que é expresso pelas equações de Newton. A velocidade estabilizada apareceu com os comboios”, escreve Gleick. O automóvel reforçou esse movimento acelerado, acrescentando a vertente individual: cada um de nós, ao volante da viatura, pode assumir o controlo do movimento, dando-nos uma sensação (ilusória) de poder.

A velocidade é, afinal, uma “conquista” recente na história da Humanidade. Tal como a noção de sincronicidade. A própria linguagem teve de se adaptar e criar novas palavras para traduzir a ideia de celeridade, hoje vulgarizada no nosso quotidiano. O desenvolvimento das redes de transportes e de comunicações permitem-nos realizar autênticos “milagres” aos olhos dos nossos antepassados… A evolução tecnológica procura dar-nos respostas em “tempo real”, encurtando distâncias, tentando abolir as barreiras do espaço e do tempo. Podemos estar permanentemente contactáveis através do telemóvel, enviar mensagens escritas em fracções de segundo, estabelecer ligações para qualquer parte do mundo via internet, assistir em directo na TV ao desencadear de guerras ou de outros acontecimentos “notáveis”… Conseguimos em poucas horas percorrer distâncias que antes demoravam dias, semanas ou até vários anos. Tudo isto tornou-se possível graças aos espantosos progressos da ciência, que têm vindo a transformar o plano físico e a desvanecer muitas das superstições instaladas.

A obsessão de “medir” o tempo
O hábito de olhar para o relógio está já tão enraizado que ficamos desorientados quando nos esquecemos dele e não temos nada por perto que nos indique “as horas”. Seja no relógio despertador da mesinha de cabeceira, no relógio do fogão, do microondas, do vídeo do computador, do automóvel ou nos painéis electrónicos espalhados pelas ruas, lá estamos nós sempre à procura de uma máquina que nos indique a hora certa. Perdemos por completo a capacidade de nos orientarmos pelo sol, de nos guiarmos pelos astros, como foi uso durante milhares de anos - e ainda que conhecêssemos essa arte, de pouco nos serviria… porque o “tempo” foi padronizado.

A obsessão por determinar a hora exacta fez com que, nas últimas décadas, os cientistas deixassem de fixar o tempo em função de referências astronómicas. “A referência absoluta passou das estrelas para os feixes atómicos no interior dos cofres”, refere James Gleick. A hora exacta é definida por consenso mundial e por decreto, para a qual muito contribui o relógio principal da Directoria do Tempo (uma agência do exército norte-americano, sediada em Washington). Relógios atómicos, com milhões de peças, localizados em vários pontos do planeta, verificam em conjunto e continuamente cada fracção de segundo. Ou, para sermos mais rigorosos, cada nano-segundo: a milésima parte da milionésima parte de um mili-segundo. Apesar de todos os esforços, o tempo parece escapar a qualquer tentativa de medição: diferenças nos campos gavitacionais podem fazer com que esses mesmos relógios atómicos andem mais depressa ou mais devagar!

Falar em escalas de tempo tão comprimidas parece não ter a mínima relevância para o nosso dia a dia. Mal conseguimos apreender a noção de um mili-segundo…. Mas têm uma importância capital para os sistemas de comunicação à escala mundial e para a sincronização, sem a qual, por exemplo, as redes de telefones celulares ou as transmissões por satélite não funcionam correctamente. Apercebemo-nos de imediato quando há um desfasamento entre o som e a imagem que vemos na televisão, ou ainda quando a nossa voz parece fazer “eco” ao telefone… Não é por acaso que a Directoria do Tempo pertence ao Departamento de Defesa dos E.U.A.: a temporização rigorosa é um requisito essencial para que bombardeamentos, como os da Guerra do Iraque, atinjam o “alvo seleccionado”, minimizando os habituais “danos colaterais”, utilizando a sua linguagem eufemística ou, de um modo mais claro, reduzindo a probabilidade de destruir e matar pessoas aleatoriamente.

Já não podemos viver sem a “hora exacta”. Existem horários estabelecidos para quase tudo, no emprego, nas escolas, no comércio, nos serviços, nos transportes… e a mínima descoordenação dos ponteiros dos relógios pode causar enormes transtornos (como, por exemplo, a acumulação excessiva de passageiros na plataforma do comboio ou do metro) ou mesmo graves acidentes de viação. Basta que os semáforos estejam dessincronizados, que uma composição do metro avance mais depressa do que era suposto ou que um avião não cumpra a rota e a velocidade estabelecida. Fracções de segundo podem fazer a diferença entre a suposta normalidade e a catástrofe.

Excessos e contradições
Esperar deixa-nos ansiosos. Premimos o botão de fecho da porta nos elevadores para não termos de aguardar três segundos! Andamos aos zig-zags nas filas de trânsito na tentativa de pouparmos alguns minutos. Comemos fast-food, compramos refeições já preparadas, enchemos a dispensa de alimentos (sumos, bolachas, latas de conserva, caldos, concentrados…) pré-cozinhados e embalados, em detrimento dos legumes e das frutas frescas. Já não precisamos de ir à costureira: as lojas de pronto-a-vestir têm tudo, inclusive calças de ganga pré-coçadas ou até pré-remendadas! Consomem-se produtos com maior teor de álcool, cafeína e nicotina, comercializam-se speeds e outras drogas de efeitos poderosos imediatos… Compramos computadores mais rápidos ou aumentamo-lhes a memória; os jogos electrónicos, cada vez mais exigentes, desafiam a nossa velocidade mental; os serviços noticiosos reclamam a nossa atenção múltipla ao exibirem várias informações em simultâneo; os anúncios publicitários recorrem a técnicas sofisticadas e estão cada vez mais comprimidos…

Não admira que revelemos dificuldade em nos centrarmos apenas numa coisa de cada vez. Estamos constantemente em multitarefa (comemos a ver televisão, a ler o jornal, conduzimos ou caminhamos enquanto falamos ao telemóvel…) e nem o acto de dormir (a pausa regeneradora por excelência) escapa a esta tensão, ao ser, tantas vezes, induzido por tranquilizantes e perturbado por ruídos e outras formas de poluição. Níveis crescentes de ansiedade e stress afectam cada vez mais pessoas, desde idades muito precoces, dando origem a problemas de saúde e a desequilíbrios de vária ordem.

“Agora as crianças crescem mais depressa”, “são mais inteligentes”, ouvimos dizer com frequência. Na realidade, o seu desenvolvimento físico e intelectual é muito mais estimulado mas, nem sempre, da melhor forma. A obesidade, a hiperactividade, a depressão, etc. na infância, alertam-nos para a necessidade de repensar todo o processo educativo, começando naturalmente pelo papel dos pais. Os avanços tecnológicos contribuíram, sem dúvida, para a melhoria das condições de vida; mas a promessa de nos fazer “poupar tempo” e de aumentar a nossa disponibilidade para a família e para o lazer, não se concretizou. Bem pelo contrário: o apelo excessivo ao consumo e a multiplicação das obrigações fazem com que se passe cada vez mais tempo no emprego e nas compras (tentando amealhar para depois gastar…). Grande parte das crianças, algumas desde os 4 meses de idade, ficam 8 horas ou mais longe da família e quando chegam a casa são colocadas em frente ao televisor… enquanto os pais preparam as refeições ou lhes dão a comida na boca. O tempo desocupado está a “desaparecer”, mesmo para as crianças… Não nos parece que estes sejam sinais de “qualidade de vida”.

A utilização abusiva de fertilizantes e pesticidas na agricultura, a criação (isto é, a prisão) intensiva de espécies animais com o recurso a hormonas, antibióticos e outros medicamentos, têm feito aumentar exponencialmente a produção alimentar. Em cada dia que passa encontram-se à venda milhares de novos produtos. Mas tudo isto para quê? Como se pode ler num livro do Centro Lusitano: “O que têm feito muitos dos homens modernos? Atentam contra o ritmo natural: introduzem na natureza produtos que a impedem de seguir os ciclos normais de construção e destruição e fabricam produtos que desobedecem ao mesmo ritmo por não serem normalmente degradáveis - tornando-se degradantes”.

“Toda esta actividade, toda esta produção e todo este consumo acelerado geram uma poluição que envenena a atmosfera, os mares, as florestas, a água, a terra, os alimentos, etc. Pois bem, isto não é inteligente nem racional. Uma ‘economia’ que malbarata, que destrói, que suja, que desperdiça, será que é uma verdadeira economia?”, questiona Omraam MikhaÃL;«l AÃL;¯vanhov 2. A sociedade moderna parece apostada em carregar no acelerador, avançando de olhos vendados, ainda que à sua frente se afigure um precipício. Até quando?

Parar para reequilibrar
Associamos velocidade a inteligência, queremos pensar rapidamente, aprender rapidamente, decidir rapidamente. De alguma maneira agrada-nos a sensação de estarmos em permanente ebulição, em aparente movimento, sintonizados com o frenesim produtivo (algumas pessoas chegam a sentir vergonha por estarem desempregadas ou por terem optado por ficar em casa a cuidar dos filhos…). “As pessoas não encontram sentido nas suas vidas e, por isso, passam o tempo a correr à sua procura. Pensam no próximo carro, na próxima casa, no próximo emprego. Depois descobrem que essas coisas são vazias, também, e continuam a correr”, comentou Morrie 3. Ou, como escreveu Jim Morisson, num momento de lucidez: nós procuramos algo que já nos encontrou, só que nós não demos ou não quisemos dar por isso!

Resistimos a abrandar, a parar, adiando sucessivamente os momentos de pausa, de reflexão e introspecção. Mas será inteligente aquele que persegue referenciais em constante mutação, sem se interrogar sobre a sua validade? O nosso ritmo biológico reclama descanso (privados do sono habitual ficamos desorientados), os ciclos da Natureza revelam-nos a sucessão dos momentos de actividade e de repouso, fundamentais para exteriorização e a interiorização.

Só podemos exteriorizar o que foi interiorizado e, em consequência, contribuir ou não para a transformação e a evolução… No entanto, é mais fácil respondermos a estímulos exteriores do que escutarmos silenciosamente a nossa voz interior e avaliarmos atentamente a nossa conduta, os nossos desejos e ideais. Receosos de “nos ver” ou de descobrirmos a verdade, vamos acumulando “detritos” e adiando a sua (a nossa) transmutação… Por vezes, só despertamos verdadeiramente para a Vida com o aproximar da morte! Então, é como se quiséssemos retirar sumo de um limão que está seco… ou seja, pode já ser tarde.

ÃL;€ volta do tempo
O que é, afinal, o tempo? Algo estranho e abstracto que não conseguimos controlar nem definir, mas cujos efeitos sentimos na pele, com o inevitável e incontornável envelhecimento. Distinguimos, habitualmente, dois “tempos”: o físico e o psicológico. O primeiro, mais ou menos exterior a nós, assinalado pelos ponteiros do relógio, sucede de um modo (aparentemente) uniforme, marcando a alternância dos dias e das noites, a sucessão das estações, dos anos, etc. Já o tempo psicológico, aquele que medimos cá dentro, é muito variável: custa a passar quando estamos chateados ou preocupados, passa demasiado depressa quando nos sentimos bem… Que noção do tempo terão, por exemplo, os recém-nascidos? E as pessoas que sofrem de perturbações mentais ou de certas doenças degenerativas? Qual dos “tempos” é o mais real?
Equacionando o tempo como o decurso de 3 etapas - passado, presente e futuro - vale a pena acompanhar a desconcertante reflexão do Físico Étienne Klein: “Comecemos pelo passado. Será que existe? Evidentemente que não, porque, por definição, o passado já não é mais. Existiu, sem dúvida alguma, mas não existe mais. E o futuro, será que existe? Também não, porque ainda não aconteceu. Resta o presente, que nos parece bem presente, mas que um segundo depois deixa de o ser. Pois o presente não dura mais que um instante e desaparece a partir do momento em que aparece”. Paradoxal? Pois bem, voltemos à pergunta inicial, o que é o tempo?

Mais do que a sucessão de episódios, situações ou acontecimentos (meras manifestações impermanentes), poderemos encarar o tempo como o fluxo que permite a evolução e a continuidade da consciência - a possibilidade de tudo se transformar continuamente em algo de novo, em formas sucessivamente aperfeiçoadas, em níveis cada vez mais sublimes… até à plena vivência e consciência da Unidade.

Tempo e movimento são difíceis de distinguir. Quando tentamos “aproveitar bem o tempo”, parecemos movimentarmo-nos cada vez mais, realizando algo no espaço visível, como sendo um sinal de que estamos vivos e somos produtivos. Mas um sinal para quem? Com que objectivos? Por isso nos assusta tanto a ideia da morte…

É o ampliar da(s) consciência(s) que mais importa e, sendo a globalização uma realidade irreversível nos nossos dias, podemos correr mais ao encontro de nós mesmos, para que possamos descobrir-nos e dar o melhor aos “outros”, para que contribuamos para o aproximar de povos, culturas e religiões, para unir todas as vozes e vontades num serviço comum, em prol da Humanidade, desenvolvendo uma consciência amplamente grupal e elevando a consciência planetária.

Correr sim, mas de um modo consciente e na direcção que o nosso discernimento indicar. Para que, como cantaram os Pink Floyd (no tema Time), não fiquemos sempre à espera de algo ou de alguém que nos mostre o caminho, até um dia descobrirmos que vários anos passaram e ninguém nos disse para onde seria melhor correr e nós perdemos o tiro de partida: isto é, a oportunidade de sermos (verdadeiramente) humanos. Correr sim… mas, de um modo ponderado e criativo, na direcção da Vida.

Gabriela Oliveira
Licenciada em Comunicação Social

Abílio Oliveira
Engo Informático; Psicólogo Social; Assistente do DCTI no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa; Autor dos livros “O Desafio da Morte”,
“Olhar Interior” e “Sobreviver”

1 no seu livro recém-editado “Cada Vez Mais Rápido”.

2 no livro “A Via do Silêncio”.

3 num testemunho tocante retractado no livro “ÃL;€s Terças com Morrie”, de Mitch Albom.

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