Glória e Ruína de ALEXANDRIA

Situada no Norte do Egipto, junto ao Mediterrâneo, e na borda ocidental do delta do Nilo, relativamente perto das pirâmides de Gizé, Alexandria foi durante quase mil anos um centro extraordinário de saber e conhecimento, bem como um local eminentemente cosmopolita de encontro de civilizações e culturas. Aí se ergueram edifícios gloriosos e reverendos, aí estudaram e investigaram inúmeros sábios de algumas dezenas de gerações, aí se reuniram obras que continham o resultado do esforço, do talento ou do génio de grande parte dos maiores filósofos, cientistas e artistas da Antiguidade.

Fundada em 332 A.C. pelo conquistador grego Alexandre Magno (que, recordemos, fora educado por Aristóteles 1), a cidade foi desde o início concebida com o intuito de constituir um centro mundial de comércio, cultura e saber. Esta amplitude de visão traduziu-se também nas construções arquitectónicas, nas avenidas com 30m de largura, no seu porto marítimo, então o maior do mundo. Alexandre tendia a defender o respeito por outras culturas e por diferentes religiões, a busca incessante do conhecimento, a mescla de raças. Não admira, pois, que rapidamente Alexandria se tornasse um centro cosmopolita por excelência - onde conviviam egípcios, gregos, macedónios, romanos, judeus, navegadores fenícios e visitantes indianos, persas, sírios, babilónios, árabes, gauleses, iberos, etc. A tanto ajudava, também, a sua localização, verdadeiro ponto charneira entre o Oriente e o Ocidente.

Em Alexandria, logo no início do Séc. III A.C., se ergueu o primeiro farol de que há memória no planeta 2, e que veio a ser considerado uma das sete maravilhas do mundo. Aí se construíram magníficos templos (de Ísis, de Poseidon, de Serapis; mais tarde, Igrejas Cristãs e Mesquitas), palácios, teatros, imponentes colunas (como a de Diocleciano), a grande tumba de Alexandre, um fórum, um estádio, um ginásio… E aí permaneceram, até hoje, enigmáticas esfinges…

No entanto, a pérola mais brilhante de Alexandria, que surgiu logo cerca de 30 anos após a sua fundação, foi a famosa Biblioteca 3, bem como o Museu que lhe estava associado. Anexo a esse conjunto, levantou-se também um esplêndido Serapeum 4 - o já referido templo em honra de Serapis 5 -, verdadeiro tesouro arquitectónico.

A Biblioteca e o Museu de Alexandria
O Museu tinha simultaneamente um carácter religioso e de verdadeiro centro de conhecimento e de investigação (de certo modo, um protótipo de uma universidade), pois estava dedicado às nove Musas 6 e respectivas “especialidades” 7. O que se sabe acerca dos edifícios e da organização arquitectónica do Museu é devido a descrições de escritores antigos, visto que nunca foram encontradas as suas ruínas. Era constituído por uma êxedra (sala onde sábios se reuniam para discutir as suas reflexões e investigações), diversos aposentos, um refeitório colectivo, dez laboratórios de investigação (cada um deles dedicado a um assunto diferente), um observatório astronómico e, ainda, contribuindo em muito para o progresso das ciências naturais, preciosos jardins botânicos e zoológicos. Os governantes de Alexandria suportavam todas as despesas de funcionamento do Museu (o mesmo fazendo para a manutenção e contínuo enriquecimento da Biblioteca), incluindo a alimentação e remuneração dos sábios que ali trabalhavam. A estes, também não era estabelecido qualquer trabalho obrigatório; assim, podiam dedicar-se às suas investigações e a dar algumas aulas 8. Durante séculos, ser convidado para investigar e leccionar no Museu era uma distinção somente ao alcance de um escol.

A protecção e apoio aos que trabalhavam na grande aventura do conhecimento foi um cunho notável da dinastia dos Ptolomeus, os reis gregos que herdaram a parte egípcia do império de Alexandre Magno. O primeiro de todos os Ptolomeus, homem de confiança de Alexandre, general e historiador, estava decidido a transformar Alexandria na capital intelectual do helenismo, suplantando Atenas. Para o efeito, convidou poetas, astrónomos, matemáticos, médicos e filósofos ilustres. Entre estes, encontrava-se Demétrio de Falero, que havia governado Atenas durante 10 anos e era um filósofo peripatético 9 discípulo de Teofrasto 10 - que, por sua vez, havia sido discípulo e sucessor de Aristóteles. Será Demétrio o responsável pela criação do Museu e da Biblioteca, de acordo com o modelo do Museiom (que incluía a biblioteca de Aristóteles e aquisições posteriores) organizado por Teofrasto em Atenas mas, agora, com uma amplitude muito maior (cfr. a nota 6).

A Biblioteca - em cuja entrada, significativamente, havia a inscrição “Lugar de Cura da Alma” - beneficiou do mesmo zelo pela cultura e pelo conhecimento. Grandes somas foram gastas na aquisição de livros das mais distintas origens e nas mais diversas línguas. Emissários eram enviados a locais distantes para comprar outras bibliotecas. Os navios mercantes que atracavam em Alexandria eram revistados para procurar livros. Manuscritos eram pedidos emprestados, copiados e depois devolvidos aos donos. Assim, não admira que se tivesse chegado a reunir em Alexandria um número de obras que se estima em 700.000!

Ali figuravam, por exemplo, todas as peças de teatro de Sófocles, Ésquilo e Eurípedes, bem como muitos dos escritos de Platão, Aristóteles, Zenão, Homero, Safo, Demóstenes, Tucídides, Xenofonte, Píndaro, Isócrates, Euclides - para referir só figuras helénicas, e inúmeros rolos com preciosidades do conhecimento antigo sobre filosofia, cosmologia, matemática, astronomia, medicina, história, geografia, etc, etc, etc.

Entretanto, de todo esse tesouro inestimável, apenas resta uma pequena quantidade de manuscritos ou, aqui e acolá, umas folhas soltas dos exemplares. Tudo o resto se perdeu. Como pôde tal acontecer?

As Grandes Destruições
Foram o ódio e o fanatismo os grandes responsáveis pela destruição das preciosidades de Alexandria e do culto pela sabedoria que aí esteve sediado durante séculos.
A primeira destruição ocorreu em 48 A.C, num incêndio deflagrado (embora, ao que parecesse, acidentalmente) quando César e os soldados romanos tomaram a cidade. Entretanto, Marco António, outro líder romano, quis presentear Cleópatra e ressarcir a Biblioteca dos danos sofridos, doando-lhe 200 mil pergaminhos e livros… por ele retirados da biblioteca de Pérgamo, rival da de Alexandria.

A destruição mais importante e devastadora, porém, ocorreu no final do século IV D.C.. O bispo cristão Teófilo, patriarca de Alexandria, que via no conjunto de edifícios constituído pelo Museu, pela Biblioteca e pelo Serapeum símbolos e praças-fortes do paganismo (ou da luz do conhecimento que se opõe às trevas da crendice, da ignorância e do fundamentalismo dito religioso), acirrou a multidão dos seus acólitos e estes, no ano de 391 11, devastaram quanto puderam… de tudo: os livros, ornatos e partes substanciais dos prédios do Museu e da Biblioteca e, naturalmente, o Serapeum - um crime imenso contra a sabedoria, a cultura e, afinal, contra a Humanidade! Estava criado o ambiente para que, 24 anos mais tarde, monges e cristãos fanáticos, agora acirrados pelo sobrinho de Teófilo (o não menos intolerante e obscurantista São Cirilo), tivessem assassinado Hipátia (ver adiante); para que as luzes de Alexandria se extinguissem uma após outra; para que a escola neoplatónica, a glória maior do pensamento que ali floresceu, tivesse que chegar ao fim dos seus dias; para que prevalecesse a ignorância, a superstição, a barbárie, a tirania de uma única Religião-Igreja…

A lenda pretende que os últimos restos da Biblioteca e do seu depósito teriam sido destruídos em 641 ou 642 por muçulmanos, comandados pelo general Amrou, sob as ordens do Califa Omar, de Damasco; mas, hoje em dia, tal (hipotético) facto está completamente desacreditado por um grande número de historiadores.

Uma Perda Imensa
É difícil imaginarmos qual a verdadeira dimensão da destruição desses grandes centros alexandrinos de cultura e de sabedoria. É incalculável! Podemos, tão só, lembrar que ali estava reunido o trabalho de gerações e gerações de sábios e investigadores de quase todos os ramos de conhecimento humano, um manancial imenso de sabedoria de séculos e séculos, bem como momentos gloriosos da cultura de que devíamos ser herdeiros, e importantes anais da história humana - tudo perdido… Com essas e outras devastações (em outros pontos do globo, pelos mesmos motivos), quebrou-se o fio condutor dos nunca acabados esforços por “mais luz”, fez-se um corte com um conhecimento longamente cumulado. Mais tarde, quase se teve que partir do zero; e é difícil aceder às chaves interpretativas do que resta dos trabalhos dos grandes sábios da Antiguidade, que tinham linguagens e códigos bem diferentes dos nossos.

Carl Sagan, no seu livro “Cosmos” 12, dedicou algumas páginas a Alexandria e à sua biblioteca, tanto no primeiro como no último capítulo. A certa altura, escreveu ele: “Sabemos, por exemplo, que nas prateleiras da biblioteca existiu um livro do astrónomo Aristarco de Samos, defensor de que a Terra era apenas um planeta que, tal como os outros, girava em torno do Sol e que as estrelas estavam a distâncias enormes. Cada uma destas conclusões é inteiramente correcta mas tivemos de esperar quase 2000 anos pela sua redescoberta. Se multiplicarmos por 100 000 a perda leste livro de Aristarco, poderemos fazer uma ideia da grandiosidade da civilização clássica e da tragédia que representou a sua destruição. Hoje ultrapassámos de longe a ciência do mundo antigo mas existem lacunas irreparáveis no nosso conhecimento histórico. Imaginem que mistérios sobre o nosso passado se poderiam resolver com um cartão de leitor da Biblioteca de Alexandria. Temos conhecimento de uma história do mundo em três volumes, hoje desaparecida, escrita por um sacerdote caldeu chamado Berossus. O primeiro volume tratava do intervalo de tempo desde a Criação até ao Dilúvio, um período que ele calculava ser de 432000 anos, cerca de cem vezes mais do que a cronologia do Velho Testamento. Que coisas lá estariam escritas?”.

Salva a devida consideração por C. Sagan, permitimo-nos duvidar que tenhamos ultrapassado “de longe a ciência do mundo antigo”. Admitimos que assim seja no que respeita aos pormenores mais objectivos, externos e concretos do mundo físico, e a muitas conquistas tecnológicas; mas o futuro ainda haverá de decidir se não tinham os sábios da Antiguidade um conhecimento mais profundo, vasto, íntimo e essencial do Universo, da Vida e do Homem no seu todo. “Que coisas lá estariam escritas” na tal obra de Berosus? Pessoalmente, desconhecemos. Somos, contudo, levados a suspeitar que conteriam conhecimentos da mais alta valia; tal é indiciado por um facto que Sagan fez notar mas cujas implicações não pôde desenvolver:
Berosus fala de um período de tempo de 432 000 anos para um Manvantara 13, isto é, para a Era compreendida entre (um)a Criação e a sua dissolução pela água - o (um) dilúvio - ou pelo fogo. Ora, 432 é uma das mais importantes chaves numerológicas concernentes às cifras de tempo da cosmogonia esotérica e dos ciclos evolutivos. Escreveu Helena Blavatsky no final do Séc. XIX: “A combinação dos três algarismos 4, 3, 2 com zeros correspondentes ao respectivo ciclo e Manvantara foi e é eminentemente hindu, e permanecerá secreta, embora se revelem alguns dos seus caracteres significativos. Esta combinação se refere, por exemplo, ao Pralaya 14 das raças em suas periódicas dissoluções, que são sempre precedidas da vinda e encarnação de um Avatar 15 especial sobre a Terra. Todas as nações da antiguidade, tais como o Egipto e a Caldeia, adoptaram esses algarismos…” 16. Os iniciados costuma(va)m indicar a que ciclo particular essa chave 432 se aplicava, com a adição dos correspondentes zeros (como Helena Blavatsky faz notar). Conforme os casos, esses zeros velavam ou desvelavam a verdadeira informação.

Nas cifras de tempo da antiquíssima sabedoria hindu 17, encontramos uma quantidade impressionante de múltiplos de 432. Temos, desde logo, o Maha Yuga (o Grande Ciclo) de 4 320 000 anos, que integra o Krita Yuga (Idade de Ouro), com a duração de 1 728 000 anos, o Tetrâ Yuga (Idade da Prata), com a duração de 1 296 000 anos, o Dvâpara-Yuga (idade do Bronze), com a duração de 864 000 anos e o Kali Yuga (Idade Negra), com a duração de 432 000 anos. Todos estes números são múltiplos de 432(000), de acordo com a sequência 4,3,2,1 (lembremos a década pitagórica). Temos depois a duração de 308 448 000 anos de um particular Manvantara (tanto quanto podemos vislumbrar, a duração típica de um período global), outra vez um múltiplo de 432; um Dia de Brahma contém 4 320 000 000 anos (que, novamente, salvo erro nosso, corresponde ao Manvantara de uma Ronda), sendo exactamente o mesmo valor o de uma Noite de Brahma (o correspondente Pralaya); 360 anos de tais Dias e Noites de Brahma perfazem um Ano de Brahma, que totaliza 3 110 400 000 000 anos (outra vez múltiplo de 432); por fim, 100 desses Anos formam o período completo de uma Idade de Brahma, o Maha Kalpa com a duração de 311 040 000 000 000 anos, ainda e sempre um múltiplo de 432.
Verificamos, por outro lado, que o coração humano bate, em média, 4 320 vezes numa hora; que uma Idade Astrológica dura 25 920 anos, ou seja, 4 320 : 2 x 12 (signos); que, por sua vez, o valor em graus de uma circunferência, 360, multiplicado por 12, dá 4 320… etc, etc., etc. O 432 é, assim, uma das traves mestras da Arquitectura do Cosmos.

Daqui decorre, portanto, que Berosus 18 deveria possuir um significativo conhecimento cosmogónico e que o seu livro decerto estaria repleto de afirmações do maior valor e interesse, sobretudo para quem possa dispor das chaves para as interpretar correctamente e extrair todas as suas implicações. Se pensarmos em quantas obras semelhantes poderiam existir na Biblioteca de Alexandria, podemos e devemos, realmente, lamentar-nos com uma perda de tão grande dimensão…. Tenhamos em conta, por exemplo, que desapareceram quase todos os cerca de 20 000 livros atribuídos a Hermes (segundo os cálculos de Plutarco e Jâmblico) e que se encontravam em Alexandria.

As Grandes Escolas de Alexandria…
Várias escolas filosófico-religiosas de enorme importância e valor floresceram em Alexandria.

Nesse centro cosmopolita, quase desde o início, estabeleceu-se uma importante comunidade judaica. Em contacto com outras culturas, concepções filosóficas e formas religiosas, alguns dos sectores mais cultos dessa comunidade aí alargaram os seus horizontes. Absorveram a influência da filosofia grega, das cosmogéneses (mais) orientais, de uma gnose e de uma cabala mais universal. Foi então que o seu monoteísmo ganhou consistência e dignidade. Passou a haver uma referência ao Ser Uno, em conformidade com as grandes escolas e tradições espirituais (nomeada e especialmente) da Índia, do Egipto e da Grécia, sobrepondo-se ao Jeová-deus tutelar do povo judeu, único apenas para esse povo e, relativamente a esse povo, ciumento do culto a outros deuses. Alguns historiadores, como Conybeare, chegam a admitir a existência em Alexandria de Mistérios judeus copiados dos de Elêusis (que se celebravam perto de Atenas, em honra de Deméter e de Ísis).

Essa visão mais subtil e profunda não deixou, certamente, de influenciar a chamada “tradução dos setenta” do Pentateuco (os cinco primeiros livros da Bíblia), justamente promovida em Alexandria durante o reinado de Ptolomeu Filadelfo (284-247 A.C.). Foi a primeira tradução para grego de textos bíblicos, constituindo assim um marco histórico de grande importância. Cabe a propósito referir que há bastantes indicadores de que o livro da Sabedoria (do Velho Testamento) é de origem alexandrina, sendo de qualquer maneira evidente a influência das concepções da antiga filosofia grega nesse texto.

Expoentes desta abertura a um maior universalismo e a vistas mais largas de alguns judeus alexandrinos, foram Aristóbulo e Fílon.

Aristóbulo - Filósofo peripatético da segunda metade do séc. II A.C.. Nasceu em Alexandria. Tentou demonstrar que os antigos poetas e filósofos gregos (especialmente, Aristóteles) tinham-se inspirado em Moisés, para o que forjou inúmeras citações daqueles. É, evidentemente, reprovável o artifício de que se serviu para estabelecer a (pretensa) origem judaica da sabedoria grega; e tanto assim é que, verificada a inexistência de tais citações, o que ressalta é a influência das concepções gregas em alguns aspectos da sabedoria judaica (como outras tradições, mais orientais, influenciaram os diferentes outros aspectos; fica assim desfeita a ideia de que a Bíblia, apesar da sua importância, seja uma obra “escrita por Deus” e, muito menos, uma revelação especial para “o povo eleito”, “o povo de Deus”). Não obstante, as suas intenções mostram que não se negou a conhecer a cultura grega nem a lhe atribuir valor e relevância. Aristóbulo sustentou que a Sabedoria é eterna como Deus, e constitui não só a potência criadora como o meio pelo qual Deus governa o mundo; que Deus, imutável e incompreensível em Si mesmo, não pode estar em comunicação directa com o mundo, nele agindo através de forças intermédias.

Fílon, o Judeu - Nasceu em Alexandria no final do séc. I A.C. e morreu em meados do séc. seguinte. Era extremamente versado tanto nas escrituras e tradições espirituais judaicas quanto na ciência e filosofia gregas (especialmente o platonismo mas, também, o pitagorismo e o estoicismo). Escreveu obras exegéticas, filosóficas e histórico-apolegéticas, entre as quais “Sobre a Eternidade do Mundo”, “Sobre a Providência” e comentários sobre o Pentateuco. Pretendeu explicar o judaísmo a leitores “pagãos” e defendeu, também ele, que os filósofos gregos deviam a Moisés algumas das suas ideias fundamentais. Tal é, de facto, insustentável mas deve dizer-se que Fílon não recorreu aos (maus) expedientes de Aristóbulo. Além disso, cabe reconhecer em Fílon uma grande penetração metafísica. Foi, de facto, um grande filósofo e místico.

A sua reflexão centrou-se sobremaneira na Transcendência de Deus face ao mundo, que não era, deste modo, criado pela suprema Divindade mas, sim, pela Sua imagem, por um Logos, Verbo ou Demiurgo, a que chamou “o segundo Deus” 19. Rejeitou a ideia da criação do nada, e defendeu a eternidade da matéria, sobre a qual teria actuado ordenadoramente o Verbo, a Sabedoria Divina que lhe deu forma, a partir do caos primordial. É admitido por muitos autores que a sua concepção do Logos ou Verbo influenciou o autor do Evangelho segundo São João. De acordo com a tradição pitagórica e platónica, bem como cabalística - que igualmente conhecia e em que foi versado -, defendia a ideia da Reencarnação. O impacto das suas obras foi grande entre diversos autores, tanto judeus como cristãos, sendo também fonte inspiradora de alguns sectores do Gnosticismo. Distinguiu-se pelo seu método alegórico de interpretação dos textos espirituais e filosóficos, o qual exerceu larga influência, chegando até vários autores alquimistas.

Refira-se que Fílon procedeu a uma cuidadosa enumeração dos grupos e fraternidades de teor espiritualista então existentes na Palestina e a relatos sobre a Jerusalém do seu tempo. Entretanto, nele encontramos um silêncio total sobre os supostos factos da existência histórica de Jesus e sobre a suposta (nascente) Igreja Cristã, o que é mais um argumento no sentido de que a história veio a ser “piedosamente” falsificada, de que existiu um sublime Jesus mas com uma vida objectiva bem diferente da que aparece tipificada nos Evangelhos, e de que os fundamentos em que a Igreja Romana pretende assentar (a primitiva Igreja apostólica liderada por Pedro, etc.) são pura invenção 20.

Também foi em Alexandria que cristãos como Panteno, Clemente de Alexandria, Orígenes e, mais tarde, Sinésio de Cirene - todos influenciados pela nascente escola neoplatónica, de que adiante falaremos - demonstraram uma visão mais lúcida, aberta, universalista e tolerante do Cristianismo do que aquela que (infelizmente) veio a triunfar mais tarde. Os três primeiros leccionaram na chamada Escola Catequética de Alexandria e, de acordo com Helena Blavatsky, tinham sido iniciados nos Mistérios (do que existem claros indícios nas obras de Clemente e de Orígenes).
Panteno nasceu na Sicília na primeira metade do Séc. II. Poucos dados seguros existem sobre ele. Terá sido filósofo estóico, tornando-se então cristão, sem desdenhar da filosofia grega, antes nela colhendo elementos para fortalecer as crenças cristãs. Era dotado de grande erudição. Depois de ter viajado até à Índia, estabeleceu-se em Alexandria, onde fundou a Escola acima referida. Morreu cerca do ano 200.

Clemente de Alexandria nasceu em 150 e morreu cerca de 215. Por volta de 180, depois de muito viajar, chegou a Alexandria, onde Panteno lhe deixou uma forte e positiva impressão. Chefiou a Escola Catequética (a Didascaléion) desde 189 até 202 (data em que foi obrigado a deixar de leccionar, em virtude de perseguições então levantadas), tendo-lhe sucedido o seu discípulo Orígenes.

Embora a polarização de Clemente fosse sobretudo moral e pedagógica, valorizou muitíssimo a filosofia. Era notavelmente piedoso, culto e erudito, em especial quanto à filosofia, religião, mitologia e literatura dos gregos. Algumas das suas obras principais são “Stromata”, “Pedagogo” e “Protréptico”. Embora não totalmente imune ao sectarismo religioso, incorporou no Cristianismo muitos elementos da filosofia grega (destacando os elementos comuns), chamou-se a si mesmo um eclético (decerto por influência do grande Amónio Saccas) e mencionou respeitosamente Buddha (é o primeiro autor cristão de que há registo de o ter feito). O seu conhecimento de uma longa tradição espiritual está bem expressa nesta passagem de “Stromata”, em que evoca as fontes onde beberam Sócrates e Platão (que tinha em elevada consideração): “Os profetas do Egipto, os caldeus da Assíria, os druidas da Gália, os magos da Pérsia, os gimnosofistas da Índia”. Face a isto, é naturalmente que constatamos o facto de em certos momentos ter sido atacado como herege, o que pôs em causa a sua canonização (seguramente bem mais merecida do que a de legiões de santos, descontado já os que só existiram imaginariamente). Efectivamente, ele foi reconhecido como um dos santos da Igreja até à época de Benedito XIV (já em meados do Séc. XIV), que riscou o seu nome do calendário.
Clemente procurou elevar os cristãos da crença até à gnose, à ciência espiritual (ele distinguia entre os simples crentes e os gnósticos, isto é, os sábios ou perfeitos, ideias e expressões já usadas nas epístolas de S. Paulo). Referia-se definidamente a uma doutrina esotérica, que podia ser transmitida somente a alguns mais preparados. Sustentava, admiravelmente, que “a simples pureza é apenas um estado passivo”, defendendo, pois, uma pureza sábia e diligente. Escreveu ele em Stromata: “Certas pessoas, julgando-se dotadas de condições especiais, não se querem ocupar de filosofia, nem de lógica. (…) não querem aprender as ciências naturais. Apenas pedem fé e nada mais… Eu chamo verdadeiramente instruído ao homem que descobre em todas as coisas a verdade, e tão bem que, pedindo à geometria, à música, à gramática e à filosofia os elementos que lhe convêm, sabe proteger a fé contra os ataques… (…) O homem familiarizado com todos os géneros de sabedoria será o gnóstico por excelência”. Em nome da verdade, convém entretanto esclarecer que Clemente se opôs a algumas franjas de gnósticos, incluindo os basilidianos. De qualquer modo, foi um cristão notável, daqueles que honram a sua religião e que constituem exemplos de sabedoria e virtude. Tal como o seu discípulo Orígenes, postulava a ideia das vidas sucessivas.

Orígenes nasceu em Alexandria em 185 e morreu em Tiro em 254. Viajou muito, nomeadamente para a Arábia, Palestina, Grécia e Roma. Na cidade natal, assistiu às lições de Amónio Saccas (ver Infra) e, com apenas 18 anos, sucedeu a Clemente na direcção da Escola Catequética de Alexandria (mais tarde, em 231, abriu a sua própria escola em Cesareia).

Combinou uma rara erudição com um misticismo ardente e ascético, por vezes, excessivo. Foi um dos pioneiros na exegese das Escrituras judaico-cristãs, que em muitos casos interpretou alegoricamente, considerando ridícula a sua literalidade. Numa das suas homilias, afirmou ele: “Visto que a própria Escritura consiste em, por assim dizer, num corpo visível e na alma que está nele e que pode ser percebida e compreendida; e, ainda, do espírito que está de acordo com as normas e a sombra das coisas celestiais, peçamos ÃL;€quele que fez, para a Escritura, corpo, alma e espírito: um corpo para aqueles que vieram antes de nós, uma alma para nós e um espírito para aqueles que, na época vindoura, herdarão a vida eterna e alcançarão as coisas verdadeiras e celestiais da lei. E, assim, não busquemos, no presente, a letra mas, sim, a alma; e, se formos capazes, ascenderemos também ao espírito, devido aos sacrifícios a cujo respeito acabamos de ler”. Estas últimas afirmações mostram também como o seu autor conhecia a tríplice natureza humana - espírito, alma e corpo (ao contrário do que depois se generalizou no Cristianismo, onde se mistura alma e espírito como se fossem uma coisa só. Conforme alguns dos leitores saberão, há outras classificações, mais desdobradas, dos diferentes níveis do Ser Humano Integral, de base quaternária, quinquenária e, mais rigorosamente, septenária).
Entre as inúmeras obras de Orígenes, destacam-se “Doutrina da Preexistência das Almas”, um título por si só muito significativo, “Dos Princípios”, em que expressa o que de essencial tem a dizer sobre Deus, o mundo, o homem e as Escrituras, “Philosophoumena”, em que descreve aparelhos e prescrições de teor mágico, e “Contra Celsum”, em que defende o Cristianismo das posições antagónicas de Celso. Tal defesa teve um sucesso relativo, visto que cristãos zelosamente fanáticos acharam melhor fazer desaparecer a obra de Celso, que conhecemos somente pelos comentários de Orígenes e pelas referências de Eusébio de Cesareia - o grande falsificador da história do Cristianismo e de inúmeras outras tradições religiosas e filosóficas; não obstante, deve-se reconhecer a Orígenes o mérito de fundamentar razoavelmente o Cristianismo, conciliando-o com a filosofia grega, em especial, a platónica - embora também conhecesse e apreciasse autores pitagóricos e estóicos -, e mesmo com alguns dos Ensinamentos transmitidos nos Mistérios 21. Assim, na sua “História Eclesiástica”, Eusébio cita Celso, que terá escrito sobre Orígenes: “No que se refere às opiniões acerca das coisas e da divindade, helenizou e transferiu as opiniões dos Gregos para as fábulas estrangeiras. Com efeito, vivia sempre com Platão; frequentava os escritos de Numénio, de Crónio, de Apolófanes, de Longino, de Moderato, de Nicómaco e dos pitagóricos célebres; servia-se também dos livros de Querémon, o estóico, e de Cornuto; aprendeu com eles a interpretação alegórica dos mistérios gregos, que aplicou às escrituras judaicas”.

Encontramos nas obras de Orígenes várias referências ao ensinamento esotérico do Cristianismo, sob a expressão de “Mistérios de Jesus”. Defendeu a preexistência das Almas e um certo tipo de Reencarnação, e essa foi uma das suas teses condenadas e consideradas heréticas no Concílio de Constantinopla, em 553. Sustentava Orígenes que Deus quer que todos os espíritos regressem ao seu estado primitivo e, por isso, todos chegarão ao bem e à felicidade, ainda que depois de uma longuíssima luta. Este homem notável morreu na sequência de ferimentos sofridos na altura das lamentáveis perseguições desencadeadas contra os cristãos pelo Imperador Romano Décio. Anteriormente, porém, tivera boas relações com o Imperador Filipe e com a mãe de Alexandre Severo.

Sinésio foi um Bispo cristão do Séc. IV que manteve as ideias neoplatónicas depois da sua “conversão” (a qual terá obedecido ao desígnio de ajudar a verter boas influências no Cristianismo, permitindo que nele se guardasse, ainda que esbatidamente ou com más interpretações, alguns dos princípios da Eterna Sabedoria). Voltaremos a falar dele a propósito de Hipátia.

Na verdade, “a Igreja de Alexandria sempre foi uma das mais notáveis Igrejas Cristãs; ali, o Egipto, a Grécia, Israel, Roma e o Oriente se encontravam, não apenas no comércio mas, igualmente, no intercâmbio intelectual e espiritual” 22. Panteno, Clemente, Orígenes e Sinésio foram os que mais se afirmaram pela sua sabedoria; não obstante, outros cristãos se destacaram singularmente. Tal foi o caso de Santo Atanásio e de Ário.

Santo Atanásio (c. 295 a c. 373), Patriarca de Alexandria e um dos Doutores da Igreja, foi um dos mais encarniçados adversários da chamada heresia ariana, que veio a ser condenada no Concílio de Niceia (embora tenha ainda obtido triunfos posteriores, até à sua derrota final), e o responsável maior da formulação da Trindade Divina vigente na Igreja Romana. No “Glossário Teosófico” de Helena Blavatsky, podemos ler o seguinte: “Atanásio, o padre da Igreja que definiu a Trindade como dogma, teve pouca necessidade de buscar inspiração ou de torturar seu próprio cérebro; teve unicamente de dirigir-se a uma das inúmeras trindades dos credos pagãos ou aos sacerdotes egípcios, em cujo país teria passado toda a sua vida [de facto, não toda mas a maior parte]. Modificou ligeiramente apenas uma das três ‘pessoas’. Todas as tríades dos pagãos eram compostas do Pai, da Mãe e do Filho. Transformando a tríade em ‘Pai, Filho e Espírito Santo’, mudou o dogma apenas exteriormente, uma vez que o ‘Espírito Santo’ foi sempre feminino e, segundo os Evangelhos gnósticos, Jesus dirigia-se ao Espírito Santo [Sophia] como sua ‘mãe’”.
Ário (256 a 336) era também um padre alexandrino e foi o grande alvo e adversário de Atanásio. O arianismo negava a unidade e a consubstancialidade das três pessoas da Trindade cristã (contrariamente ao partido de Atanásio), sustentado que o Verbo ou Filho tinha sido criado e era, portanto, inferior ao Pai; também negava a divindade de Cristo, embora o considerasse essencialmente perfeito.

Qualquer que seja a apreciação sobre as teses em confronto 23, o facto é que estas polémicas não deixam de mostrar a vitalidade do pensamento alexandrino, mesmo no seio da Igreja Cristã. Ao menos, nesse tempo, havia grandes discussões teológicas; actualmente, quando se fala de religião, só se discute o preservativo e tomadas de posição sobre assuntos político-sociais (mesmo quando intervêm os chamados “grandes pensadores”…).

Igualmente em Alexandria, nasceram ou floresceram alguns dos movimentos gnósticos de maior importância ao redor do Século II. Relembre-se que Nag-Hammadi, onde há cerca de 60 anos se encontraram dezenas de textos gnósticos de grande valor, fica situada perto de Alexandria. Como já escrevêramos no número 16 da Biosofia, alguns grupos gnósticos e cabalísticos estiveram na génese do Cristianismo, e no que ele conteve de mais puro, genuíno e afim com a grande Tradição Universal 24. Naquela cidade viveram e ensinaram cristãos gnósticos ilustres como Basílides ou Valentim.

Basílides nasceu no final do Séc. I D.C. e desencarnou em meados do séc. II. Perto de 125, vivia em Alexandria. Afirmava ter recebido a sua doutrina dos apóstolos Mateus e Pedro, através de Glauco. Foi o autor de uma obra em 24 volumes de comentários a Evangelhos. Todos eles foram queimados por cristãos fanáticos.
Imbuído de ideias platónicas (com elementos do estoicismo e do aristotelismo), mazdeístas e, em geral, dos Mistérios, foi um dos que tentou lutar contra a dissociação do Cristianismo em relação à Sabedoria Universal. Apesar de todas as adversidades e oposições que contra ele se levantaram, teve nisso considerável sucesso: o seu sistema exerceu larga influência até ao Século IV (quando desapareceu em consequência das perseguições encetadas aquando da ascensão da Igreja Romana ao poder, no Império). Antes disso, os basilidianos eram em grande número no Egipto e no Sul da Europa.

Basílides afirmava a existência de um sistema de forças divinas, em série decrescente de esplendor e pureza, partindo desde a mais alta e inefável (Abraxas) e descendo em numerosas emanações (eones; correspondentes às Sephiroth cabalísticas) que, nas suas diversas subdivisões, moravam em uma série de 365 esferas celestiais. A esfera inferior ou lunar é a habitada pela raça humana e governada por um Demiurgo inferior (Jeová…). Sustentava ainda, nas suas observações cosmogónicas - em sintonia com todos os conhecedores da Sabedoria Eterna e Universal -, que o(s) mundo(s) não foram criados pela Suprema Divindade (o Pai Oculto e Inefável): deste emanou o Nous, o Pensamento (Divino) que, por sua vez, emanou o Logos, o Verbo Criador (compare-se com a trindade plotiniana; ver Infra). Deste, por sua vez, emanaram as Inteligências e, destas, Sophia (a Sabedoria criadora) e Dynamis, a Força propulsora.

Embora discordando dele em diversos pontos, Clemente de Alexandria considerava Basílides um homem de grande conhecimento e de profundos sentimentos religiosos. Tinha assim uma atitude bem diferente da que detractores fanáticos, começando em Santo Ireneu e, depois, em Tertuliano, demonstraram ao referir se aos gnósticos em geral, e a Basílides em particular, lançando-lhes todo o tipo de acusações infundadas, bem como deturpando e/ou destruindo os seus escritos. Durante mais de 1500 anos, o conhecimento sobre as ideias dos gnósticos era baseado não nas suas reais concepções mas no que os seus adversários quiseram fazer acreditar que eles eram e defendiam. A pouco e pouco, nomeadamente com as descobertas de Nag-Hammadi, alguma luz de verdade se vai repondo.

Valentim foi praticamente contemporâneo de Basílides. Nasceu em Alexandria no início do Séc. II e, por volta de 130, aí ensinava ciência e literatura; em 135 viajou para Roma. Morreu cerca do ano 160, em Chipre. Deixou escritos alguns tratados e diversos sermões, cartas e hinos; escusado será dizer que também eles foram objecto da sanha destruidora do sectarismo e da intolerância. E, obviamente, também Valentim foi alvo de torpes acusações por parte de Ireneu, Tertuliano, Epifânio e Eusébio de Cesareia, entre outros.

As ideias cristãs de Valentim conciliavam-se naturalmente com as influências pitagórica, platónica e estóica, do mesmo modo como conciliou distintas formas de Gnose num elaborado sistema. Também ele refutava a ideia da criação do(s) mundo(s) por um Ser Absoluto (visto que a criação é, em si mesma, um acto relativo), referindo-a, sim, ao(s) Demiurgo(s) - sendo Jeová um dos inferiores. Como outros gnósticos proeminentes (em especial, Marcion) procurou separar o Cristianismo das noções de um deus vingativo e caprichoso, tal como aparece (pelo menos na letra) no Velho Testamento. Nessa esteira, distinguia-se entre os “psíquicos” (agarrados às interpretações literais, à crença cega e ao “olho por olho, dente por dente”) e os “pneumáticos” (os que entendiam o ensinamento mais profundo revestido nos símbolos externos, e que se tornavam “homens novos em Cristo”, despertando os seus níveis espirituais de Ser; Pneuma significa “Espírito). Esta distinção encontra fundamento nas Epístolas de São Paulo (cfr., por exemplo, I Coríntios, 2:14-15; 3:1-6 e 5:17; Gálatas, 3:19-28; Romanos, 8:1-4). Os valentinianos também chegaram a ser em grande número (à medida do prestígio do seu ilustre e brilhante fundador), sofrendo tremendas perseguições em pleno séc. IV.

… Em Especial a Neoplatónica
Entretanto, a mais importante, admirável, gloriosa e influente das escolas filosóficas de Alexandria foi a neoplatónica, fundada por Amónio Saccas, continuada por Plotino, e que, entre outros, abrigou também homens e mulheres tão brilhantes como Jâmblico, Hipátia e Proclo. De todos estes, e ainda de outros neoplatónicos de relevo que viveram em Alexandria, falaremos expressamente mais adiante.
O Neoplatonismo não é apenas, como o nome indica, uma renovação da filosofia de Platão 26 mas é também, e principalmente, um sistema que, além do pensamento platónico, recolhe com grande vigor especulativo as restantes direcções fundamentais da filosofia helénica, bem como diversas concepções religiosas e místicas, incluindo as orientais. Assim, nele são incorporados, sobre a matriz platónica, elementos da filosofia pitagórica, aristotélica e estóica; elementos de tradições religiosas e espirituais da Índia, da Caldeia, da Pérsia (o zoroastrismo e o mitraísmo), da Síria, da Caldeia e, até, dos druidas; elementos, em geral, dos Mistérios egípcios e gregos. Caracteriza-se, assim, o neoplatonismo por uma acentuada capacidade de síntese, realizada com um entendimento superior. Conciliam-se tradições mais orientais e mais ocidentais, o monoteísmo (profunda reflexão sobre o Uno, em especial em Plotino) e o politeísmo panteísta ou hilozoísta (particularmente em Proclo), a filosofia com as práticas teúrgicas (particularmente em Jâmblico), a sólida razão com os voos do misticismo. Neste último aspecto, a acentuada onda de misticismo e/ou devocionalismo dos séculos I a III da Era Cristã, encontrou no neoplatonismo uma vivência esclarecida e não turvada pelo fanatismo. Não podemos deixar de, mais uma vez, citar Helena Blavatsky: “A fase que se inicia com os Neoplatónicos e os Gnósticos, é o único foco, que a história nos depara, onde pela última vez convergem os cintilantes raios de luz emanados de idades remotas e não obscurecidos pelo fanatismo” 27.

Homens e Mulheres Notáveis
Alexandria foi um centro dinâmico e irradiante onde passaram a sua vida (ou, pelo menos, parte dela) e desenvolveram um profícuo labor, além dos judeus e cristãos que já acima citámos e sobre os quais aduzimos alguns elementos, muitos outros homens e mulheres notáveis, verdadeiras luzes da civilização e da cultura, não obstante terem nascido e morrido… pagãos. O talento e o génio não têm barreiras religiosas, nem nacionalistas, nem cronológicas; e esperamos dar o nosso modesto contributo para que a História faça justiça à Sabedoria Antiga, às religiões e filosofias arcaicas, bem como à ciência, à arte e à cultura (em geral) do que com tanta ligeireza e complexo de superioridade se arruma no depreciativo termo “paganismo”.
De facto, em Alexandria trabalharam cientistas e homens de cultura como:
Apolónio de Perga - Matemático que viveu desde, aproximadamente, 262 a 180 A.C.. Estabeleceu as formas das secções cónicas - a elipse, a parábola e a hipérbole. Os seus escritos sobre as secções cónicas viriam a ser usados por Kepler, dezoitos séculos depois, para compreender os movimentos dos planetas.

Aristarco de Samos - Matemático, astrónomo e inventor nascido em Samos (a ilha de Pitágoras) cerca de 310 A.C. e que morreu por volta de 230 A.C.. Parece que, por volta do ano 280, estudou em Alexandria com Straton de Lampsaque (filósofo peripatético que, porém, se apartou muito das ideias de Aristóteles). Das obras de Aristarco, só chegou até nós um tratado sobre as distâncias do Sol e da Lua. No entanto, através das referências de Arquimedes, sabemos que as suas teorias astronómicas tinham uma clara base heliocêntrica, postulando nitidamente o movimento da Terra à volta do Sol - quase dois milénios antes de Copérnico. Também tinha conhecimento do movimento das estrelas.

Aristarco de Alexandria - Gramático e crítico literário grego do Séc. II A.C.. Viveu quase sempre em Alexandria, onde abriu uma escola de Filologia, e foi director do museu e da biblioteca, bem como preceptor de dois reis da dinastia ptolemeica. É-lhe atribuída a autoria de cerca de 800 obras escritas. Entre outros, comentou Homero, Hesíodo, Sófocles e Aristófanes.

Arquimedes - Extraordinário matemático, e o maior génio mecânico de que há registo histórico, pelo menos até Leonardo da Vinci. Nasceu no ano 287 A.C. em Siracusa, na Sicília (lembremos que Platão passou dois períodos de tempo em Siracusa, provavelmente em busca de contacto com pitagóricos, visto que fora também na Sul da Itália que Pitágoras estabelecera a sua comunidade). No entanto, ainda jovem, transferiu-se para Alexandria, onde completou os seus estudos. Morreu com cerca de 75 anos de idade.

Arquimedes foi grandemente influenciado pela leitura das obras de Euclides e pelo contacto com Erastótenes e Cónon de Samos. Destacou-se pelos seus inventos mecânicos, pelo seu talento como engenheiro; contudo, não dava muita importância a esses inventos para utilização prática, pois todo o seu enlevo estava na descodificação das leis matemáticas da natureza. Segue assim a grande tradição de Pitágoras e Platão, que se continua em Euclides, Aristarco e nele próprio e, mais tarde, em Leonardo da Vinci, Descartes, Copérnico, Kepler, Galileu, Giordano Bruno, Newton e Einstein, entre outros. A sua obra prima “Método Respeitante a Teoremas Mecânicos” revela o modo como Arquimedes procedeu às descobertas: a sua mente agia no campo teórico das verdades matemáticas, antes de conseguir testá-las praticamente. Sustentava ele que todo o universo podia ser descrito pela matemática. Os seus teoremas eram rigorosamente demonstrados. Introduziu no cálculo o conceito de aproximação, que se veio a revelar de excepcional importância.
Parece que os originais da quase totalidade das obras escritas de Arquimedes desapareceram no incêndio da Biblioteca em 48 A.C.. Entre elas , e com base nos indícios de outros autores que a elas se referiram, terá existido um tratado sobre catóptrica (onde Arquimedes investigou a refracção, cerca de 1500 anos antes de qualquer outra investigação conhecida) e um tratado sobre poliedros semi-regulares.

Cónon de Samos - Matemático e astrónomo contemporâneo de Arquimedes, com quem estabeleceu contacto em Alexandria - contacto que se manteve, depois, por correspondência. Era, contudo (também ele), natural da mesma ilha que o grande Pitágoras. Pelo menos através do contacto com Aristarco de Samos (cujos livros, aliás, também existiam na Biblioteca de Alexandria), conheceu Cónon a teoria heliocêntrica (que, seguramente, terá partilhado com Arquimedes). Note-se que o heliocentrismo era ensinado nos Mistérios e certamente que não são por acaso as referências das religiões e filosofias arcaicas à divindade solar. Atribui-se-lhe, pelo menos, a descoberta de uma nova constelação de sete estrelas pouco luminosas.

Dionísio de Trácia - Gramático grego que realizou, pelo estudo da linguagem, algo de equivalente ao que Euclides fez relativamente à Geometria. Definiu as diferentes partes do discurso. A sua obra “A Arte da Gramática” - a mais antiga conhecida na chamada civilização ocidental 28 - serviu de base para a gramática grega, latina e de outras línguas europeias até à Renascença.

Erasistratus - Médico do Século III A.C., foi o primeiro, de que há registo, a dissecar cadávares humanos, para fins de estudo. A medicina dos antigos gregos atingiu elevados patamares, com base num conhecimento mais integral do ser humano. Repare-se que, em pleno séc. XVII, na Europa, a esperança média de vida era significativamente inferior à daqueles tempos.

Erastótenes - Nasceu cerca de 280 A.C. e morreu no início do séc. II A.C.. Embora tenha sido também filósofo, historiador, geógrafo, poeta e crítico teatral - um verdadeiro homem de cultura, num sentido muito amplo e nobre -, ficou especialmente célebre como matemático e como astrónomo. As suas observações mais importantes tiveram por fim obter a medida do meridiano terrestre - o que fez de modo notavelmente preciso, com pequeníssima percentagem de erro face aos valores actualmente tidos como exactos, com os instrumentos modernos - e determinar a inclinação da eclíptica sobre o equador - o que, evidentemente, pressuponha o conhecimento da esfericidade da Terra, na boa tradição pitagórica.
Algumas referências de outros autores mostram-no particularmente interessado no simbolismo religioso - por exemplo, tecendo considerações sobre Ísis, a Virgem Celeste (evidentemente, protótipo da Virgem Maria do Cristianismo).

Euclides - Notável geómetra grego dos Sécs. IV e III A.C.. No reinado de Ptolomeu I (306-283 A.C.), habitava em Alexandria. O valor dos seus trabalhos manteve-se intacto durante mais de dois milénios e estimulou o interesse pela ciência de homens como Kepler, Newton ou Einstein.

A sua obra principal é “Elementos de Geometria”. Nesta, Euclides estabeleceu os fundamentos da Geometria, começando com um conjunto de definições simples e evidentes, que então passa a utilizar para provar uma sucessão de teoremas, cada um deles baseado no antecedente. Não é difícil situar o livro de Euclides na tradição pitagórica e platónica (de resto, há quem sustente que muitos dos axiomas e demonstrações aí constantes devem a sua existência a Pitágoras, Tales e Eudóxio). Cabe ainda salientar que Euclides também se distinguiu no domínio da ÃL;“ptica.

Herófilo - Fisiólogo e médico que nasceu por volta da data da fundação de Alexandria e morreu na primeira metade do Séc. III A.C.. Identificou o cérebro como sede da inteligência (física).

Herón - Eminente matemático e físico alexandrino do séc. II D.C.. Escreveu quatro tratados de mecânica e inventou vários aparelhos mecânicos - mais de 100 estão descritos no seu tratado “De Automatis”. Entre eles, estão o chamado balão de Herón, ainda contemporaneamente usado nas bombas de êmbolo e nos sifões, rodas dentadas e vapores a motor e, também, um dispositivo existente num templo do antigo Egipto que punha em movimento todo um grupo de figuras. Exerceu grande influência nos construtores medievais e renascentistas de autómatos.

Hesichius - Gramático alexandrino, cognominado o Ilustre, que deixou um valioso dicionário de Palavras gregas. Morreu no Séc. VI D.C.

Hiparco - Astrónomo-astrólogo do séc. II A.C. Nasceu em Niceia mas passou grande parte do seu tempo estudando e trabalhando em Alexandria. Fez um mapa das constelações e classificou o brilho das estrelas. Descobriu a precessão dos equinócios e rectificou a duração do ano até então adoptada.

Ptolomeu - Astrónomo, astrólogo (autor da obra “Tetrabiblos”, que sistematizou muitas noções astrológicas e foi a base de trabalho da maior parte dos astrólogos europeus durante cerca de 1500 anos), matemático e geógrafo do Séc. II D.C., trabalhou no Museu e Biblioteca alexandrinos.

Enquanto astrónomo, é especialmente conhecido pelo seu sistema geocêntrico, que colocava a Terra como um corpo fixo no centro do mundo. Nisto, conformou-se com as noções exotéricas e a tradição aristotélica (que se prolongou na escolástica cristã e fez lei na Igreja), contrárias ao ensinamento esotérico apresentado nos Mistérios e, ainda, aos livros sagrados dos hindus. Entretanto, parece que o próprio Ptolomeu não estava convencido da realidade desse geocentrismo, limitando-se a construir um modelo que permitia calcular o movimento dos planetas, movimento que descrevia como provocado por esferas etéreas e giratórias, às quais estavam presos aqueles astros.

Estes aspectos transportam-nos directamente para a Astrologia. Aí, a questão das esferas planetárias é de grande importância, embora praticamente não seja considerada pela quase totalidade dos astrólogos modernos, que perderam as chaves dessa, outrora, profunda ciência esotérica - hoje habitualmente reduzida a menoridades egocêntricas e à criação de dependências alienantes. Ainda assim, cumpre-nos explicar que é perfeitamente natural que a astrologia seja “geocêntrica”: ao ponderar as influências que actuam na Terra (e isso, no seu sentido mais amplo, desde a criação dos globos da cadeia planetária, passando pelos seus grandes períodos, pelas grandes unidades colectivas - tal como a Humanidade-no-seu-todo -, até chegar, finalmente, ao indivíduo), não pode deixar de considerar a Terra como centro de tudo (da mesma forma como, se atentarmos nas influências sociais, culturais, familiares, hereditárias, etc., de um indivíduo, o estamos a colocar, para esse efeito, no centro de tudo). Deste modo, a Terra aparece naturalmente no lugar do Sol e vice-versa (o que é bem significativo).

De qualquer forma, não devemos subestimar as qualidades de Ptolomeu como astrónomo: “… classificou as estrelas, registou os seus brilhos, apresentou boas razões para acreditarmos que a Terra era uma esfera, estabeleceu as regras para as previsões dos eclipses e, talvez o mais importante, tentou compreender a razão por que os planetas exibem esse movimento estranho e errante contra o fundo de constelações distantes”, nas palavras, insuspeitas, de C. Sagan. Muito menos devemos desvalorizar os conhecimentos astrónomos dos Antigos, em particular os dos vetustos sacerdotes egípcios e bramânicos. A própria ordenação dos planetas, num tempo onde se julga que não se possuíam os instrumentos de observação desenvolvidos e aperfeiçoados nos últimos 500 anos, é reveladora disso: apresentava-se a esfera sublunar - a Terra - no lugar do Sol, e vice-versa, por razões que, em parte, já vimos. Também por razões esotéricas, vinha em seguida a esfera lunar. E depois, na ordem correcta em ternos astronómicos, seguiam-se os restantes planetas do sistema solar, até Saturno (a Sabedoria Antiga afirma que os planetas trans-saturnianos já integram uma realidade diferente. H.P.Blavatsky é inequívoca na sustentação de que Neptuno só pertence ao nosso sistema solar num plano mayávico. Não obstante, nos antiquíssimos Vedas hindus, é aludida a existência de inúmeros globos planetários; e os sábios das idades arcaicas conheciam, por exemplo, a existência de Urano, sendo propositadamente que não o incluíam nos sete planetas por eles mencionados. Tão pouco ignoravam que o Sol era uma estrela e não um planeta…).

Theon - Célebre astrónomo, matemático e filósofo peripatético do séc. IV D.C.. Proporcionou uma educação esmerada à sua ainda mais admirável filha Hipátia.
No que respeita à Filosofia, entretanto, a lista de homens e mulheres alexandrinos que merecem figurar, iluminados, na história do pensamento é verdadeiramente extraordinário. Entre eles temos, nomeadamente:

Aedésia - Filósofa da escola neoplatónica, mulher de Hérmias e mãe de Amónio (falaremos posteriormente de ambos). Distinguiu-se pela sua virtude e pelo zelo com que se entregou à escola a que pertencia. Encaminhou os filhos para Atenas a fim de se beneficiarem com a sabedoria do grande Proclo. Viveu no Séc. V e, juntamente com Hipátia e mais algumas, constituem exemplos de mulheres ilustradas e que se distinguiram publicamente pela sua inteligência, numa época em que tal não era frequente. Aproveitamos aqui para ressaltar o facto de, entre os Gnósticos, muitas mulheres desempenharem funções proeminentes, bem ao contrário do que sucedeu na Igreja Romana triunfante.

Alcinus - Viveu no Séc. I D.C.. Predominantemente platónico, conjugou esse sistema com ideias aristotélicas e com largas influências orientais - sendo assim, digamos, um neoplatónico avant la lettre.

Amélius - Pertenceu à Escola Neoplatónica de Alexandria, tendo sido discípulo de Plotino, então o seu mais ilustre representante. Durante um quarto de século acompanhou as lições de Plotino (que o considerava, entre os seus discípulos, o que melhor compreendia o sentido das suas ideias), anotando tudo quanto ouviu, daí resultando, segundo Porfírio, a produção de mais de 100 obras, todas elas perdidas. Também se interessou vivamente pelos trabalhos de Numénio. A sua aguda intelectualidade era acompanhada por um manifesto desprendimento dos interesses mundanos.

Amónio, filho de Hermias e de Aedésia - Discípulo de Proclo, deixou Atenas após a morte deste, e regressou a Alexandria, onde ensinou matemática e filosofia. Como vários outros neoplatónicos, esforçou-se por conciliar os sistemas de Platão e Aristóteles.

Amónio Saccas - Parece que morreu no ano 242, tendo nascido por volta de 170 D.C.. Foi o fundador da escola teosófica-eclética dos “filaléteos” (amantes da verdade) e o verdadeiro impulsionador do neoplatonismo. Entre os seus discípulos, encontrou-se Plotino. Teve uma grande influência, embora nada tivesse deixado escrito (como, aliás, Gautama, Pitágoras, Jesus, Apolónio de Tiana 29 e outros grandes mestres). Apesar de ter sido um grande sábio - a pontos de o chamarem de Theodidaktos, isto é, divinamente instruído -, e de ter atraído muitas das maiores inteligências no seio do Império Romano, começou por trabalhar humilde e duramente. Era de extrema bondade e viveu segunda uma ética de grande elevação.
Vários cristãos ilustres, como Clemente de Alexandria, Orígenes, Panteno e Atenágoras 30, tinham-no em altíssima estima (o mesmo acontecendo, aliás, com alguns dos mais cultos rabinos judeus). Amónio, porém, embora tivesse sido educado no seio do Cristianismo, não professava ou manifestava preferência por nenhuma religião em particular, antes se dedicando ao estudo da árvore comum de que todas são ramificações. Assim, dizia ele: “… o que Cristo tinha em mente era reinstalar e restaurar na sua primitiva integridade a sabedoria dos antigos, pôr um limite ao predomínio da superstição (…) e extirpar os vários erros que se haviam enraizado nas diferentes religiões populares”. Certo é que Amónio conheceu os mais variados sistemas filosóficos e tradições espirituais e religiosas, incluindo a filosofia grega, os mistérios órficos, a tradição hermética, o Zoroastrismo, as grandes escolas hindus e, claro, o Cristianismo. Para tanto, interpretava “as lendas, narrativas, mitos e mistérios sagrados mediante um princípio de analogia e correspondência, de forma que os eventos relatados como tendo ocorrido no mundo externo eram vistos como expressões de operações e experiências da alma humana” 31.

Na escola fundada por Amónio, existiam três referências fundamentais: 1) uma absoluta, inefável e suprema Divindade, que é a raiz de tudo quanto existe, visível e invisível; 2) a natureza eterna e imortal do Homem que, sendo uma radiação da Alma do Mundo, é de essência idêntica à dela; 3) a “Teurgia ou “trabalho divino”, o acto de produzir um trabalho de deuses: retornando à sua primitiva pureza natural, o homem poderia fazer com que os deuses lhe transmitissem os mistérios divinos, e até que se lhe tornassem sensíveis. A real teurgia divina não pode - não deve de maneira nenhuma - degenerar em mediunidade ou, pior ainda, em magia negra.

A humanidade tem, indiscutivelmente, uma enorme dívida de gratidão para com Amónio.

Antíoco - Viveu no Séc. I A.C. e ensinou filosofia em Atenas, Roma (aí Cícero foi um dos seus auditores) e Alexandria, tendo suscitado grande interesse. Acabou por desenvolver um pensamento eclético, de raiz platónica mas mesclado com elementos aristotélicos e estóicos. Foi assim, igualmente, um precursor do neoplatonismo.

Apuleius - Nasceu por volta de 125 D.C.. Viajou muito: esteve em Cartago, Atenas, Roma, Tripoli, Alexandria e, possivelmente, em regiões mais a oriente. Foi outro dos precursores do neoplatonismo alexandrino. Alguns autores consideram-no um pitagórico, do que não existem actualmente provas concludentes.

Damáscio - Viveu no final do Séc. V e na primeira metade do Séc. VI. Começou por estudar em Alexandria com Amónio, filho de Hermias, tendo depois seguido para Atenas. Foi aí discípulo e amigo de Isidoro, a quem sucedeu na chefia da escola neoplatónica. Foi o último elo desta cadeia gloriosa, pois um decreto do “cristianíssimo” imperador Justiniano obrigou ao encerramento da escola (já no século anterior fustigada por repressivos éditos imperiais) - mais um acto brutal de intransigência, fanatismo e obscurantismo. Com outros sábios sobre os quais impendia ou a pena de morte ou a obrigação de abraçar a fé cristã triunfante, ainda que contra a sua consciência, Damáscio foi obrigado a abandonar o Império, tendo-se dirigido para a Pérsia. Diz-se que regressou mais tarde, tendo-se refugiado e morrido em Alexandria. As suas reflexões sobre a Divindade, conciliando a unidade absoluta em-si-mesma com a diversidade do mundo e das leis (divinas) que o governam, são particularmente interessantes.

Herénio - Filósofo do final do séc. II e do séc. III D.C.. Foi discípulo de Amónio Saccas e, segundo relata Porfírio na sua “Vida de Plotino”, quebrou o compromisso de não divulgar publicamente os ensinamentos secretos (esotéricos) de Amónio.
Hérmias - Filósofo neoplatónico, discípulo de Siriano. Foi marido de Aedésia e pai de Amónio, qualquer dos dois se tendo celebrizado mais do que ele.
Hierócles - Filósofo neoplatónico do séc. V, nascido em Alexandria. Escreveu sete livros sobre a providência e o destino, e um comentário sobre os Versos Áureos pitagóricos. De rica eloquência, comentava Platão admiravelmente. Sustentava uma moral onde a pureza e a serenidade de princípios se uniam a um grande bom senso prático. Advogava a ideia da reencarnação - facto comum entre os neoplatónicos - e apresentava uma hierarquia de deuses, em três grandes classes, a partir do Deus Supremo 32.

Hipátia - Nasceu cerca de 370 e morreu em 415, da forma trágica adiante resumido. Era filha do matemático Theon. Celebrizou-se como notável matemática, física, astrónoma e, sobretudo, como filósofa, tendo dirigido a escola neoplatónica de Alexandria. Inúmeros testemunhos dão conta de que, nesta mulher extraordinária, a virtude ia a par da formosura. Alguns cristãos tinham-na na mais alta estima e consideração, como, por exemplo, Sinésio, bispo de Ptolemais; todavia, muitos outros eram bastante mais sectários e hostis. Cirilo, o arcebispo de Alexandria, odiava-a, bem como ao seu prestígio e sabedoria. Hipatia, “apesar do grande perigo que corria, continuou a ensinar e a publicar até que no ano de 415, a caminho do seu trabalho [na Biblioteca], foi atacada por um grupo de [monges] fanáticos partidários do arcebispo Cirilo. Arrastaram-na para fora do carro, arrancaram-lhe as roupas e, com conchas de abalone, separaram-lhe a carne dos ossos. Os seus restos foram queimados, os seus trabalhos destruídos, o seu nome esquecido. Cirilo foi santificado” 33.

Do ponto de vista individual, a nobreza de Hipátia, a última grande luz da (Biblioteca) de Alexandria, refulge ainda mais em face da ignorância, do fanatismo e da crueldade de que foi vítima; de um ponto de vista colectivo, porém, este foi (mais) um episódio trágico e marcante das perseguições contra o saber antigo, das quais resultou uma época de obscuridade e ignorância. Com a morte de Hipátia, cujo prestígio junto do governador romano assegurava alguma protecção para os sábios não cristãos, deixaram os neoplatónicos de ter condições para manter a sua escola em Alexandria (com umas tímidas revivescências), embora ela tivesse sobrevivido mais cerca de um século em Atenas.

Na sua obra “Ísis sem Véu” 34, escreveu Helena Blavatsky: “No início do século IV, a massa popular começou a reunir-se diante da porta da academia em que a culta e infeliz Hipátia expunha as doutrina dos divinos Platão e Plotino e, assim, impedia o progresso do proselitismo cristão. (…) ela dissipou com muito sucesso a névoa que pairava sobre os ‘mistérios’ religiosos inventados pelos padres. (…) então a luz platónica começou a lançar um brilho por demais inconveniente sobre a piedosa colcha de retalhos, porque ela fez ver a todos a fonte de onde provinham as doutrinas ‘reveladas’. Enquanto viveu para instruir as massas, nenhum milagre divino foi produzido, pois ela podia divulgar as causas naturais que permitem a sua realização. A sua sorte foi decidida por Cirilo, cuja eloquência ela eclipsou e cuja autoridade, baseada em superstições degradantes, deveria inclinar-se diante da de Hipátia, erigida sobre a rocha da imutável lei natural (…) apenas eles, os sábios pagãos detestados e eruditos, e os não menos sábios gnósticos, tinham nas suas doutrinas os fios até então ocultos de todas essas marionetes teológicas. Uma vez erguida a cortina, a conexão entre a antiga religião pagã e a nova religião cristã foi exposta; e, então, o que adviria dos mistérios em que penetrar era um pecado e uma blasfémia? Com a coincidência das alegorias astronómicas de vários mitos pagãos com as datas adoptadas pelo Cristianismo para a natividade, a crucifixão e a ressurreição, e com uma identidade de ritos e cerimónias, qual teria sido a sorte da nova religião se a Igreja, com o pretexto de servir a Cristo, não se desembaraçasse dos filósofos mais bem informados? Se o coup d’état [golpe de estado] tivesse falhado, seria na verdade muito difícil adivinhar qual seria a religião predominante no nosso próprio século. Mas, com toda a probabilidade, não teria ocorrido o estado de coisas que fizeram da Idade Média um período de escuridão intelectual…”.

Isidoro - Nascido no Séc. V em Alexandria, foi um dos últimos chefes da Escola Neoplatónica - e também um dos menos dotados, ao que parece. Sobrava-lhe em paixão e em imaginação o que lhe faltava em rigor filosófico, bem como em tacto e prudência. Parece, entretanto, ter sido versado nos mistérios egípcios, na teurgia e possuir excelente eloquência oratória.

Jâmblico - Nasceu na 2a metade do Séc. III (D.C.) em Calcis, na Síria, e terá morrido cerca de 333. Viveu a maior parte do seu tempo em Alexandria - cuja escola neoplatónica veio a liderar.

Combinou a filosofia neoplatónica, quer com elementos pitagóricos e de filosofias religiosas orientais, quer com teorias e práticas teúrgicas (foi iniciado nos mistérios caldeus; aliás, a sua obra “De Mysteriis Liber” estuda os mistérios caldeus, egípcios e assírios e faz uma defesa da magia). As suas inclinações teúrgicas mereceram no início a reprovação de Porfírio; mas Jâmblico acabou por sustentá-las de modo suficientemente fundamentado para que essa oposição se desvanecesse. Saliente-se, de resto, que alertou claramente para os maus usos da magia cerimonial (ou seja, para fins egoístas e perversos), bem como para a sujeição escravizante ou alienante a entidades elementais ou outras. Jâmblico acentuou os caracteres místicos e religiosos do neoplatonismo, e introduziu no seu sistema uma série de emanações e desdobramentos trinos (a partir da trindade primordial apresentada por Plotino), extremamente sugestivos, bem como várias classes de Demiurgos (poderes criadores divinos). Não há dúvida de que a diversidade dos seus interesses constituiu uma forma de enriquecimento do pensamento neoplatónico.

ÃL;€ maneira pitagórica, desenvolveu um grande interesse pelas fórmulas numéricas. No Glossário Teosófico de Helena Blavatsky, pode ler-se sobre Jâmblico: “Foi biógrafo de Pitágoras e era profundamente versado no sistema deste (…). Ensinava que o Uno, ou seja, a Mónada Universal, era o princípio de toda a unidade, assim como de toda a diversidade, ou seja, de homogeneidade e heterogeneidade; que a Díade ou dois (Princípios) era o intelecto ou aquilo que chamamos de Buddhi-Manas; três era a Alma (o Manas inferior). (…) As suas austeridades, pureza de vida e sinceridade eram extraordinárias”.

Lisímaco - Viveu no Século III D.C.. Inicialmente absorvido na filosofia estóica 35, acabou por chegar às doutrinas neoplatónicas da Escola de Alexandria.
Olimpiodoro, o Neoplatónico - Em pleno Séc. XIX, Creuzer e Cousin escreveram livros onde reconheceram o valor das ideias deste filósofo, que viveu há quase 1500 anos e ensinou em Alexandria.

Os principais escritos de Olimpiodoro de que há registo são um livro sobre Platão e comentários sobre quatro das suas obras. Nesses comentários, expressa não apenas as concepções de Platão mas também as da Escola de Alexandria, com alguns desenvolvimentos pessoais. Fez estudos sobre os mitos, com a interpretação metafísica e moral característica dos neoplatónicos. Distinguiu (na esteira de Platão) diferentes espécies de memória, a mais importante das quais sendo a reminiscência, própria da Alma Racional, isto é, já de um domínio de imortalidade 36. Também diferencia o raciocínio ou inteligência dedutiva da Razão ou Inteligência pura (o que corresponderia à distinção entre Kama-Manas, a mente inferior, e Buddhi-Manas, a mente superior guiada pela Intuição). Identificou a virtude com a sabedoria, conducente a uma vida conforme a razão e liberta da escravidão dos sentidos. Sustentou que é na virtude que reside a verdadeira felicidade e que ela deve ser independente de qualquer consideração (sempre “egoísta”) sobre castigos ou recompensas, seja na presente vida, seja numa futura 37.

Olimpiodoro, o Peripatético - Como o seu cognome indica, tinha Aristóteles na mais alta consideração mas, não obstante, procurou conciliar as suas ideias com a de
Platão. Viveu nos Sécs. IV e V, e contribuiu para a instrução de Proclo.
Orígenes, o Pagão - É habitualmente assim cognominado para o distinguir do Orígenes acima referido. Foi neoplatónico, discípulo de Amónio Saccas e amigo de Porfírio.

Plotino - Viveu entre 204 ou 205 e 270 D.C.. Nasceu em Licopólis, no Egipto. Foi discípulo de Amónio Saccas em Alexandria, tendo assistido às suas aulas durante dez anos, até à morte do mestre. Transferiu-se para Roma em 245, aí fundando a sua própria escola, que dirigiu quase até ao final da sua vida. Já no Outono da sua existência, escreveu os 54 tratados, ordenados pelo seu discípulo Porfírio em seis Enéadas ou Novenas, por conterem 9 tratados cada uma.

Plotino é considerado o filósofo neoplatónico por excelência e um dos vultos maiores da chamada filosofia ocidental (devendo notar-se, a propósito, que Plotino se esforçou por obter mais conhecimento em latitudes definidamente orientais, em particular na Pérsia e na Índia). Sintetizou admiravelmente toda a antiga filosofia grega que, ao mesmo tempo, revigorou.

Parece que vários Padres da Igreja Cristã eram secretamente seus discípulos, e essa foi uma das vias pelas quais o neoplatonismo se injectou no seio do Cristianismo (mais tarde, parece que outros neoplatónicos, como Sinésio, se fizeram cristãos com o fim de preservar algo da Sabedoria Antiga no seio desta religião, sofrendo, todavia, ao ver a ignorância e fanatismo de muitos dos designados cristãos). É possível constatar a influência plotiniana (e neoplatónica, em geral) em Santo Agostinho, São Basílio, Gregório de Nissa, João Escoto Erígena 38, Maister Eckart 39 e no próprio São Tomás de Aquino (não obstante o seu nítido e assumido aristotelismo), entre autores cristãos, e numa longa lista de filósofos e místicos não cristãos, alguns dos quais, aliás, aqui mencionados.

Encontramos em Plotino três vertentes fundamentais: a sua ênfase sobre o Uno; a meditação sobre a participação no Uno das naturezas inteligíveis e sua relação com as sensíveis; o exame da ideia de emanação - “o processo pelo qual o superior produz o inferior pela sua própria superabundância, sem que o primeiro perca nada em tal processo” 40. Desenvolveu um sistema de idealismo ou panteísmo objectivo. Acima de tudo, de toda a existência, está o Uno, o Divino Supremo. Permanecendo sempre imutável, faz jorrar, da sua própria plenitude - como um raio - uma imagem de Si mesmo, chamada Nous (Inteligência, Razão; a Mente Divina), que forma o conjunto das ideias do mundo inteligível. A Alma (do Mundo), por sua vez, é a imagem ou produto do Nous e, ao mover-se, gera o universo objectivo. Temos aqui, pois, uma trindade: o Uno, o Nous e a Alma do Mundo. O Demiurgo identifica-se com a Alma do Mundo e é ele (e não o Uno ou Deus supremo) que engendra o mundo objectivo, de acordo com as ideias da Inteligência Divina.

Plotino era, obviamente, partidário da reencarnação. Distinguia entre opinião, ciência e iluminação: “os meios ou instrumentos da opinião são os sentidos; o da ciência, a dialéctica; o da iluminação, a intuição (…) Nas sensações não há verdade mas somente opinião; é por ser receptiva que ela é opinião”.

A sua pureza e austeridade de vida foram exemplares, tendo alcançado estados místicos de grande elevação - correspondentes ao samadhi dos hindus. As últimas palavras deste autêntico príncipe entre os místicos foram: “Estive tentando unir o que é divino em nós ao que é divino no Universo”.

Porfírio - Nasceu na Síria em 232 A.C. e o seu verdadeiro nome, Melek ou Malek (que significa rei), parece indicar que nas suas veias corria sangue semita. Morreu na Sicília em 303. Julga-se que foi discípulo de Orígenes, o pagão, em Alexandria. Numa das suas viagens a Roma, em 262, relacionou-se com Plotino e, desde então até 266, passou a frequentar as suas lições, tomando-o como mestre. Em 273, três anos depois da morte de Plotino, sucedeu-lhe na chefia da escola em Roma (enquanto Amélius a passou a liderar no Oriente).

Porfírio adquiriu uma instrução quase enciclopédica. Escreveu cerca de 100 obras, incluindo temas científicos, literários e filosóficos, bem como uma biografia de Plotino, uma “Vida de Pitágoras” 41 e a sua grande obra em 15 volumes “Contra os Cristãos” - que mais tarde, em 448, por decreto dos Imperadores Teodósio II e Valentiniano, foi mandada queimar publicamente. Os Padres da Igreja consideravam Porfírio como o inimigo mais acérrimo e mais irreconciliável com o cristianismo. No entanto, vários deles - segundo refere Santo Agostinho 42 na sua “A Cidade Deus” - honravam Plotino “como um dos homens mais sábios e bondosos”. Deve aliás aclarar-se que Porfírio - e com ele todos os neoplatónicos, ainda segundo Sto. Agostinho - “exaltavam a Cristo ao mesmo tempo em que menosprezavam o cristianismo” (isto é, as insensatas afirmações e a intolerância de um certo tipo de ortodoxia que se desviou da atitude compassiva e do Conhecimento sagrado do Senhor Cristo).
Com Plotino, referiu-se Porfírio a três hipóstases supremas: o Ser, a Inteligência (o Nous) e a Alma; porém, colocou acima mesmo da primeira hipóstase este um, este para além, este não ser anterior ao ser. Tal é, de facto, a sustentação da Sabedoria de todas as Idades; e a própria expressão para além (do Ser manifestado) evoca-nos imediatamente a noção vedantina de Parabrahman (ou seja, o que está para além de Brahman, além do Ser manifestado num universo).

Porfírio defendeu, naturalmente, a metempsicose - excluindo, é claro, qualquer possibilidade de regresso a encarnações em corpos animais.

No “Glossário Teosófico”, podemos ler sobre ele: “Místico por nascimento, seguiu, como o seu mestre Plotino, a disciplina Râja-Yoga pura, que conduz à união da alma com a Superalma ou Eu superior (Buddhi-Manas) (…) De todos os neoplatónicos, Porfírio foi o que mais se aproximou da verdadeira Teosofia, tal como agora é ensinada na Escola secreta oriental (…) Recomendava a prática da abstinência, dizendo que ‘nos assemelharíamos aos deuses, se pudéssemos abster-nos de alimentos vegetais bem como dos animais’”.

Potamon - Filósofo alexandrino que Diógenes Laércio considera o fundador da Escola Neoplatónica, sustentação que parece não ter fundamento. O que se sabe dele é bastante nebuloso mas a sua filosofia era eclética, procurando ressaltar a verdade presente em diferentes Escolas de pensamento e conhecimento.

Proclo - O último dos grandes filósofos neoplatónicos. Nasceu em Bizâncio em 412 e morreu em Atenas em 485, depois de ter sucedido a Siriano na direcção da escola neoplatónica nesta cidade, já então alvo de perseguições do poder imperial romano-cristão. Estudou algum tempo em Alexandria (com Olimpiodoro). Infelizmente, grande parte das suas obras não chegou até nós. Entre as que se conservaram, as mais importantes são: “A Teologia segundo Platão”, “Comentários sobre o Timeu”, “Comentários sobre Parménides” e “Elementos de Teologia”.
Proclo desdobrou, sucessivamente, a trindade de Plotino, à qual, no entanto, acaba sempre por retroceder, num magnífico processo dialéctico. O seu sistema de psicologia é esplêndido e conduz à proclamação da reminiscência (no sentido platónico) como o termo dos nossos esforços intelectuais, só alcançável no nível da Razão Pura (Buddhi-Manas). Caracterizou-se pela precisão lógica, riqueza e subtileza de pensamento, em que se consuma toda a grande tradição filosófica grega, platónica, aristotélica e neoplatónica.

Era, naturalmente, partidário da Reencarnação, e da forma mais lúcida, esclarecendo más interpretações 43. Sustentou que a alma humana está inicialmente sob a influência da alma divina num ou noutro dos sete planetas, o que é conforme ao mais profundo ensinamento ocultista sobre a astrologia e os sete raios - mas tal implicaria uma longa explicação, que aqui não tem cabimento. Salientamos, tão só, que esse ensinamento pouco tem a ver com as generalizadas e vulgares explicações sobre a astrologia e os sete raios.

A exposição de Proclo sobre o Corpo Astral é extremamente sugestiva, relacionando-o com os sucessivos mantos ou veículos que a alma humana vai tomando ao descer as diversas regiões planetárias (ou astrais) até chegar ao plano terrestre, a este mundo sublunar, onde toma um corpo de carne. Assim, esta natureza astral engloba quer o Linga-Sharira, quer o Kama, quer o Manas Inferior da classificação teosófica dos Princípos Humanos (pelo que a natureza astral tanto pode ser referida ao Linga-Sharira 44, mais tarde chamado Duplo Etérico, quer ao Kama ou Kama-Manas 45). Foi tão douto nas ciências naturais quanto na teurgia. Considerava atentamente os hinos órficos e os mistérios caldeus.

Siriano - Nasceu em Alexandria no séc. IV A.C.. Tendo seguido para Atenas, sucedeu a Plutarco de Atenas como chefe da Escola (precedendo a Proclo). Filósofo e místico, escreveu sete livros de comentários sobre Homero, e dez sobre a conciliação de Orfeu 46, Pitágoras e Platão. Enquadrou a filosofia aristotélica como um pórtico de entrada para a filosofia platónica.

Zózimo, o Panapolitano - Alquimista grego do início do século IV. Embora aí não tenha nascido, viveu em Alexandria. Foi autor de uma volumosa colecção de textos e livros alquímicos, de que só uma parte se conservou, e que reproduz tratados de Cleópatra, Panmenes, Petésis e Maria, a judia. Essa obra é tida como a primeira exposição e síntese do pensamento e das formulações da alquimia greco-egípcia.
Sabedoria e Fanatismo
Comparando, de um lado, Amónio, Plotino, Hipátia, Clemente e a maioria dos reis Ptolomeus - representantes do universalismo, da tolerância e da inteligência que não exclui, antes alicerça, os voos do misticismo - e, do outro lado, Teófilo, Cirilo, Justiniano, Teodósio e todos aqueles que destruíram os tesouros de sabedoria alexandrinos (e suas ramificações) - representantes do fanatismo, da tirania, e da inimizade pela luz do Conhecimento -, podemos distinguir dois campos que, em diferentes épocas e circunstâncias, há muito se defrontam.

Nunca faltou na história da Humanidade quem reafirmasse as verdades da Eterna Sabedoria, quem ensinasse os seus princípios fundamentais, quem oferecesse a substância, o alimento para que pudéssemos verdadeiramente progredir, libertando-nos e regenerando-nos. E também nunca faltou, infelizmente, quem tentasse silenciar as vozes da sabedoria, quem se opusesse violentamente à luz da verdade, quem preferisse o fundamentalismo cego ao universalismo esclarecido.
Pensa-se, por vezes, que o Cristianismo foi somente uma religião perseguida. Não é assim: Igrejas e pessoas ditas cristãs (na verdade, pouco dignas do seu Mestre) foram muito mais perseguidoras do que perseguidas, desde o Séc. IV, quando o Cristianismo se tornou a religião oficial no Império Romano, até aos dias sombrios da Inquisição (dias que foram centúrias). Os episódios tristes de Alexandria foram apenas mais alguns numa imensa lista, que inclui a erradicação violenta das heresias (algumas bem mais esclarecidas do que a ortodoxia), a destruição sistemática de obras filosóficas, científicas, literárias e artísticas de sábios e homens de cultura “pagãos”, a dizimação de civilizações (lembremos os incas, por exemplo), a oposição à investigação científica e ao livre pensamento, e quase sistemática inimizade para com muitos dos seres humanos mais lúcidos e verdadeiramente santos, sempre que as suas ideias se não coadunavam com os dogmas promulgados pelas hierarquias eclesiásticas.

De resto, não se pense que os poderes políticos (ou outros) que, em alguns momentos dos três primeiros séculos da nossa Era, determinaram perseguições a cristãos, somente de estes se constituíram como inimigos. Muitos outros místicos, entre os chamados pagãos, foram identicamente perseguidos e martirizados. Por exemplo, o imperador romano Diocleciano, que determinou uma das mais severas perseguições contra cristãos, foi o mesmo que mandou queimar bibliotecas inteiras de obras sobre “magia” e “alquimia” - que nada tinham a ver com o Cristianismo.
O facto bem triste, de qualquer modo, é que o fanatismo e o obscurantismo de alguns cristãos excederam todos os outros nos Sécs. III a V da nossa Era e durante a Idade Média, cerca de um milénio em que se sepultaram tesouros magníficos de sabedoria antiga, considerada demoníaca - apesar de, em tantos aspectos, ter sido o reservatório de onde as Igrejas retiraram os seus dogmas, desfigurando os originais. Helena Blavatsky expressou admiravelmente isso mesmo: “Se se atentar para os milhares e talvez milhões de manuscritos queimados; os monumentos reduzidos a pó com as suas inscrições por demais indiscretas e pinturas de um simbolismo excessivamente sugestivo; a multidão de eremitas e ascetas que passaram a percorrer as ruínas das cidades do alto e do baixo Egipto, os desertos e as montanhas, os vales e as terras altas, buscando com ardor obeliscos e colunas, rolos e pergaminhos, para destruir os que contivessem o símbolo do Tau ou qualquer outro signo de que a nova fé se havia apropriado - compreender-se-á facilmente por que sobrou tão pouco dos anais do passado.

A verdade é que o obsediante espírito de fanatismo dos cristãos dos primeiros séculos e da Idade Média, como também ocorreu depois com os sectários do Islamismo, preferiu sempre viver no obscurantismo e na ignorância. (…) Ambas as religiões conquistaram os seus prosélitos com a ponta da espada; ambas construíram os seus templos sobre enormes hecatombes de vítimas humanas”.

Numa perspectiva oposta, contudo, não podemos deixar de ressalvar todos os que, no seio das ortodoxias ou, pelo menos, beneficiando da sua tolerância, dignificaram o Cristianismo com exemplos de respeito pela Sabedoria onde que ela se encontre e, afinal, de verdadeira santidade: desde as figuras aqui referidas (Panteno, Clemente de Alexandria, Orígenes, Sinésio…), até vários outros ao longo da história. Não podemos deixar de ressalvar as incontáveis pessoas de nobres sentimentos, de boa vontade, de atitudes altruístas e de abertura mental que se reclamaram de cristãs e que, ao longo dos séculos, desde há 2000 anos até aos nossos dias, contribuíram (tantas vezes, heroicamente) para melhorar o nosso mundo. Não podemos, mais ainda, deixar de ressalvar as figuras luminosas que definiram o impulso cristão - Jesus, S. Paulo e os cabalistas-gnósticos que geraram a matriz evangélica…

Em quase todas as épocas e latitudes existiram actos e atitudes de fundamentalismo ou de unilateralismo violentos. Posteriormente às devastações de Alexandria, lembremos as de Ninive ou, bem mais próximo de nós, a destruição das estátuas do Senhor Buddha perpretada pelo regime taliban no Afeganistão. Deste modo, não é de estranhar que os grandes Mestres responsáveis pelo governo oculto do planeta tenham preservado do conhecimento público (assim obstando a duas ameaças: a sua destruição; a sua deturpação ou má utilização) muitos dos mais preciosos originais dos grandes textos onde se verteu a mais elevada sabedoria).
Alexandria Hoje
Actualmente, Alexandria é a segunda cidade do Egipto, depois da capital (Cairo), da qual dista um pouco menos de 200 Km. Entre modernos prédios, bairros de lata, automóveis, eléctricos, torres emissoras para telefones portáteis, e instalações industriais e comerciais, estão alguns restos do Serapeum, e vestígios de várias civilizações.

Em Outubro de 2002, foi inaugurada a nova Biblioteca de Alexandria (ironicamente, já sofreu um incêndio…), que possui cerca de dois milhões de livros e visa recuperar a imagem da cidade como um centro de sabedoria. É, sem dúvida, uma iniciativa que devemos saudar; mas uma grande oportunidade perdeu-se há 1600 anos atrás, naquela encruzilhada entre o Oriente e o Ocidente, entre o passado e o futuro…
Onde está, para onde foi, a Alma da velha e gloriosa Alexandria?

José Manuel Anacleto
Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

1 Aristóteles (384-322 A.C.) foi um dos maiores filósofos gregos e um dos mais notáveis pensadores de que a história tem registo. Não tinha, é certo, a penetração metafísica e cosmogónica do seu mestre Platão, nem fora, como este ou como Pitágoras, um Iniciado; mas nem por isso deixaremos de lhe reconhecer a aguda inteligência, a incessante curiosidade e busca pelo conhecimento, a capacidade de sistematização que revelou. Num famoso quadro de Rafael, surgem Platão e Aristóteles lado a lado, o primeiro apontando para o Alto, o segundo para a terra. A conciliação de ambas as naturezas (embora reconhecendo a superioridade de Platão e do que ele representa) é, na nossa perspectiva, muitíssimo necessária. Entre outras sínteses, o neoplatonismo, partindo de Platão, aceitou e incorporou algumas das formulações aristotélicas - e, com isso, enriqueceu o platonismo. Pensamos que deve ser creditada a Aristóteles a influência em algumas boas qualidades (porque também teve defeitos nocivos) do grande Alexandre.
2 Construído em mármore branco, na ilha de Pharos (daí provindo o termo “farol”), na baía de Alexandria.
3 Na verdade, merecia ser mais famosa. Seria importante generalizar o conhecimento dos grandes centros de cultura e sabedoria da Antiguidade, muitos deles destruídos pelos fanatismos religiosos, nacionalistas ou rácicos. A Humanidade é muito mais plural nos seus valores, na(s) sua(s) sabedoria(s) e nos seus grandes marcos históricos do que geralmente se pensa.
4 Um dos dois de maior magnificência, juntamente com o de Mênfis.
5 Serapis - Nesta acepção, “um grande deus solar que substituiu Osíris no culto popular e em honra do qual se cantavam as sete vogais. Em muitas das suas representações surgia como uma serpente, um ‘Dragão de Sabedoria’. Era o deus maior do Egipto durante os primeiros séculos do cristianismo” (In “Glossário Teosófico”, de Helena P. Blavatsky).
6 A palavra Museu deriva, obviamente, de Musas. A ideia da criação de Museus provém de Pitágoras, que fundou uma espécie de confraria, na qual o culto das Musas simbolizava o estudo e a investigação da Ciência (Sophia, ou seja, o Conhecimento Integral). As casas pitagóricas chamavam-se Museus. Platão instalou a sua Academia em Atenas, numa sua propriedade pessoal, e nela se incluía um jardim para passeio, salas-de-estar onde decorriam diálogos sobre temas da Sabedoria e instalações privativas para o director e os alunos. O Liceu de Aristóteles tinha uma orientação metodológica que pressupunha a cooperação entre sábios na investigação. Após a morte de Aristóteles, o seu sucessor Teofrasto organiza, no Liceu, um Museu onde existiam salas de aula, alojamentos para os professores e a grande biblioteca reunida pelo estagirita. Demétrio de Falero virá a basear-se nesse modelo e ampliá-lo-á em Alexandria.
7 As Musas eram deusas que presidiam às chamadas artes liberais.
8 Cfr. www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/momentos/museu/museu.htm
9 Os peripatéticos eram os filósofos que tomavam como ponto de partida as doutrinas de Aristóteles (podendo, ou não, modificá-las em alguns pontos).
10 Teofrasto - Discípulo e sucessor de Aristóteles, nasceu em Erese, na ilha de Lesbos, por volta de 372 A.C. e morreu em Atenas, talvez com mais de 100 anos. Orientou o Liceu aristotélico durante cerca de 35 anos. Escreveu várias obras sobre filosofia, moral, física e botânica (destacando-se esta última), que revelam o seu maior pendor para as ciências naturais.
11 Decerto aproveitando o Édito do Imperador Romano Teodósio, que determinava que fossem fechados todos os templos não cristãos.
12 … sem dúvida, uma excelente obra.
13 Manvantara - Literalmente, um período entre dois Manus. É um ciclo de manifestação, actividade ou exteriorização universal - seja de uma raça, de um globo, de uma cadeia planetária, de um sistema solar ou de um Cosmos maior.
14 Pralaya - É o período de dissolução, noite, repouso, total ou parcial, de um Universo. Sendo o oposto de um Manvantara, é também de diversos tipos.
15 Avatar - Um elevado Ser que, voluntariamente, encarna entre os homens, a fim de impulsionar algum ou alguns aspectos do Plano evolutivo.
16 In “A Doutrina Secreta, Vol. V” ou “Collected Writings, Vol. XIV”.
17 As medidas de tempo das filosofias e tradições religiosas dos hindus mostram um Cosmos muito, muito antigo, mesmo se considerarmos apenas a sua actual encarnação; e, assim, tais sustentações podem ser dignamente confrontadas com os actuais dados da Ciência (por muitas mutações que estes ainda venham a ter). Já a ideia de o mundo ter apenas 6 000 anos, defendida até há cerca de 150 ou 200 anos pelas Igrejas Cristãs (e ainda hoje, em especial nos E.U.A., por grupos fundamentalistas), com base numa interpretação literal da Bíblia, é hoje indefensável fora de qualquer delírio fanático. Donde, talvez as teologias ocidentais não sejam assim “tão” superiores…
18 Sobre Berosus, cfr. o Vol. I da “Doutrina Secreta”, pp.50-51 e o “Glossário Teosófico”, ambos de Helena Blavatsky.
19 Cfr. o nosso artigo sobre “O Demiurgo”, na revista Biosofia, o 18.
20 Cfr. os nossos artigos sobre “Cristo” publicados nos os 15, 16 e 17 da Biosofia.
21 “Os Mistérios eram, em todos os países, uma série de representações dramáticas, nas quais os grandes mistérios da cosmogonia e da Natureza, em geral, eram personificados por sacerdotes e neófitos, que desempenhavam o papel dos diferentes deuses e deusas, repetindo supostas cenas (alegorias) das suas respectivas vidas. Estas eram explicadas no seu sentido oculto aos candidatos à Iniciação e incorporadas nas doutrinas filosóficas” (In “Glossário Teosófico”).
22 In “A Dramática História da Fé Cristã”, de J. J. Van der Leeuw; Ed. Pensamento, S. Paulo, 1987 (embora nela encontremos elementos interessantes, consideramos muito discutíveis alguns dos argumentos contidos nesta obra). Cfr. também “Será Que Precisamos de Deus?”, de Roger Garaudy; Temas e Debates, Lisboa, 1997.
23 Na verdade, ambas as doutrinas enfermam de pressupostos imperfeitos, do ponto de vista da Sabedoria Esotérica, sendo de qualquer modo duvidoso que a posição que saiu vencedora fosse realmente a melhor.
24 Deve, contudo, notar-se que entre os gnósticos daquele tempo (e, claro, muito mais ainda entre autodenominados “gnósticos” dos nossos dias) também existiram pessoas pouco esclarecidas, que pregavam ideias sem base na ciência universal do espírito, e que, desse modo, suscitaram muita confusão. O próprio Plotino chamou a atenção para isso. Por outro lado, em outros casos, houve muita falta de coerência e de um mínimo de organização e de sentido de hierarquia. No que, porém, respeita à sabedoria de um Basílides, de um Valentim ou de um Marcion (a quem se terá devido a preservação do Pai Nosso), importa dar testemunho.
25 Cfr. “Os Mestres do Espírito”, Planeta, Editora Três, S. Paulo.
26 Platão, foi sem dúvida o mais influente os filósofos ocidentais. Impôs-se quer pela pujança e elevação do seu sistema, quer pela perfeição dos princípios éticos propostos, quer pela forma como, nos seus diálogos, conseguiu transmitir veladamente alguns dos princípios mais sagrados da Sabedoria Esotérica, assim beneficiando o pensamento humano sem trair os seus deveres de guardar sigilo, como Iniciado que era. Nascido em 428 ou 427 A.C., morreu aos 80 anos. “Ele absorveu a erudição do seu tempo - a da Grécia de Filolau a Sócrates; depois, a de Pitágoras na Itália; depois, o que ele pôde obter da do Egipto e do Oriente. Era tão completo que enfeixava na sua doutrina todas as filosofias da Europa e da Ásia, e à cultura e à reflexão ele acrescentou a natureza e as qualidades de um poeta” (Helena Blavatsky, em “Ísis sem Véu, Vol. I”). A filosofia platónica tem por coroamento a teoria das ideias: a verdade, objecto da ciência, não pode ser encontrada nos fenómenos particulares e passageiros mas nas ideias, tipos puros de cada tipo de setes: no cume está a ideia do Bem. (A expressão “amor platónico”, tantas vezes usada na linguagem vulgar, pouco ou nada tem a ver com as concepções de Platão e não podemos julgar um tão grande homem por palavras de literatura de cordel).
27 In a “Doutrina Secreta”, Vol. I. Desenvolvemos um pouco as ideias latentes nesse trecho em artigo publicado no o 17 da Biosofia, na secção “Esoterismo de A a Z”.
28 A mais antiga gramática do mundo, pelo menos de cujo conhecimento tenha chegado aos nossos dias, é do grande sábio hindu Panini, com vários milhares de anos - outro dado confirmativo da importância e pioneirismo da cultura e civilização da Índia arcaica.
29 Apolónio de Tiana viveu, grosso modo, todo o primeiro século da Era Cristã. Foi seguramente um dos grandes Mestres e benfeitores que viveram no seio da Humanidade. Filósofo pitagórico, taumaturgo e médico (dos corpos e das almas), insuflava por onde quer que passasse um novo vigor ético e um novo afluxo de vida espiritual (sem distinções sectárias de religiões). O efeito moralizador e humanizador que incutiu, em dado momento, entre alguns dos principais dirigentes do Império Romano, incluindo alguns bons Imperadores, foi magnífico. É por vezes chamado o “Cristo grego” e pena é que, a partir de certo momento, a Igreja Cristã o visse como um inimigo e não como o perfeito complemento de Jesus. São Justino, o Mártir, perguntava: “Como explicar o facto de (…) enquanto os milagres de Nosso Senhor se conservam apenas na tradição, os de Apolónio serem mais numerosos e manifestarem-se realmente por factos tão concretos que arrastam todos os que a eles assistem?”. Apolónio nasceu em Tiana (na Capadócia, Ásia Menor) e, no decurso de uma existência prodigiosa, viajou por todo o Império Romano, esteve na Península Ibérica, e chegou à Índia e às regiões trans-himalaicas, aí tendo entrado em contacto com alguns dos Grandes Mestres da Ciência Espiritual. Na última fase da sua vida, instituiu uma Escola em Éfeso. Entre outros testemunhos, a vida de Apolónio está documentada numa biografia escrita por Filóstrato, cerca de 100 anos depois da sua morte. Este lapso de tempo, entretanto, não belisca em nada a historicidade de Apolónio, relativamente ao qual há muito mais certezas do que relativamente a Jesus. Com efeito, Filóstrato tinha à sua disposição noventa e sete cartas de Apolónio (facultadas pela imperatriz Júlia Domna, segunda esposa de Séptimo Severo) e o diário de Damis (companheiro de viagens de Apolónio).
30 Atenágoras - Filósofo e apologista cristão do séc. II e início do séc. III. Na esteira de S. Justino, procurou absorver na doutrina cristã a cultura e filosofia grega, na qual reconhecia paralelismos com os postulados cristãos. Perto do ano 180, escreveu uma petição, em favor dos cristãos, a Marco Aurélio (por sinal, um dos melhores e mais sábios Imperadores Romanos).
31 In “New Platonism and Alchemy: the Ecletic Philosophy”, de Alex Wilder.
32 De facto, as 7+5 hierarquias de poderes criadores podem ser agrupadas em três grupos: as (progenitoras) dos níveis espirituais; as dos níveis psíquicos e as dos níveis astrais formativos do físico (cfr. “A Doutrina Secreta”, de H. Blavatsky). Na melhor tradição cristã dos primeiros séculos, nomeadamente a que se mesclou com o neoplatonismo, também havia essa tripartição. Assim, nas obras do pseudo-Aeropagita temos 3 grandes grupos: o mais elevado integrava a tríade constituída por Serafins, Querubins e Tronos; o intermédio, abrangia as Dominações, as Virtudes e as Potestades; o inferior, os Principados, os Arcanjos e os Anjos. Estas noções quase se perderam no seio do Cristianismo; e talvez pior ainda, são as ploriferantes obras, ditas esotéricas, com pseudo-angeologias.
33 In “Cosmos”, de Carl Sagan.
34 Cfr. o Vol. III da edição em língua portuguesa.
35 O Estoicismo é a doutrina de uma escola filosófica greco-romana, que vai do ano 300 A.C. até ao ano 200 D.C.. É costume distinguir o estoicismo antigo (Zenão, Cleantes, Crisipo), o estoicismo médio (Panécio, Posidónio) e o estoicismo tardio ou posterior (Séneca, Epicteto, Marco Aurélio). O estoicismo congrega doutrinas de antigos filósofos com ideias de Platão e de Aristóteles, e é portador de uma especial ênfase na ética. Proclama o ideal do sábio, que vive em conformidade com a natureza, que suporta serenamente o sofrimento e se contenta com a virtude como fonte única de felicidade.
36 Sobre esta questão, recomenda-se a leitura de “A Chave da Teosofia”, de Helena Blavatsky.
37 Esta noção é muito cara ao Centro Lusitano de Unificação Cultural e transparece em vários dos seus livros.
38 João Escoto Erígena (os apelidos Scotus e Erígena são redundantes, significando ambos “irlandês”; mas generalizou-se esta nomeação) viveu no Séc. IX. Traduziu do grego as obras de Dionísio pseudo-aeropagita. Foi neoplatónico, panteísta e pelagiano, tendo naturalmente sido várias vezes condenado como herético, apesar de tolerado enquanto vivo. Em 1225 o papa Honório III mandou queimar todos os exemplares da sua principal obra (”Da Divisão da Natureza”) mas a ordem não foi eficientemente cumprida.
39 Meister Eckart foi um extraordinário místico, filósofo e orador alemão (c. 1260-1327). Profundo conhecedor de diferentes sistemas filosóficos, e muito influenciado pelos escritos de Dionísio pseudo-Aeropagita e de Escoto Erígena, bem como dos neoplatónicos, tentou explicar e fundamentar o misticismo. Sacerdote dominicano, veio, contudo, a ser processado por heresia, dadas as suas concepções panteístas. O seu discípulo Tauler foi outro homem admirável.
40 In “Momentos Decisivos do Pensamento Filosófico”, de Luís Washington Vita.
41 Pitágoras foi certamente um dos vultos mais notáveis da história humana. Nasceu entre 580 e 570 A.C na Ilha de Samos e morreu por volta do ano 495 A.C. Viajou um pouco por todo o mundo, retirando a sua Ciência-Filosofia dos diferentes sistemas de que teve conhecimento, designadamente na Caldéia, no Egipto e na Índia - onde, segundo informa H.P.Blavatsky, é conhecido até hoje por Yavanâchâria (”o mestre grego”). Deu indicações (as que era possível expor fora dos círculos misteriosóficos) sobre o heliocentrismo, foi o mais versado em geometria do seu século e é dele a palavra “filosofia”. Deixou pistas sobre a importância terapêutica da música e das cores. Ensinou a doutrina da Reencarnação, da forma correcta como é exposta nas grandes Escolas hindus. A sua influência no que de melhor tem a civilização ocidental é extraordinária, e muitos dos pitagóricos, ao longo dos séculos, contribuíram de modo singular para o avanço da ciência. Tendo vivido numa época de excepcional importância (cfr. o que escrevemos no o 17 da Biosofia), representou à sua escala, para o Ocidente, algo de semelhante ao impacto do Ensinamento do Senhor Buddha no Oriente.
42 Sto. Agostinho (354-430) foi um dos maiores teólogos da Igreja Cristã. Tornou-se cristão em 387, por influência de Sto. Ambrósio, tendo passado a combater o maniqueísmo, com que antes se identificara, bem como os pelagianos, os donatistas, etc. Apesar disso, e do característico fanatismo religioso, teve o mérito de incluir no seu sistema muitos elementos do platonismo. As suas obras principais foram “A Cidade de Deus” e “Confissões”.
43 Cfr., na Biosofia o 16, o artigo “Proclo e a Reencarnação”, p.23.
44 Linga-Sharira - O corpo astral (inferior), o corpo modelo, padrão ou prototípico (do corpo físico). É também o veículo e acumulador de Prana (vitalidade), cuja corrente dirige e distribui segundo as necessidades do organismo físico.
45 Kama, palavra sânscrita, significa desejo; Kama-Manas é o desejo-pensamento, o nosso psiquismo inferior, o nosso pensamento dominado e toldado pelo desejo egotista e sensorial, o nosso pensamento concreto dependente de estímulos externos e, assim, basicamente reactivo. Na classificação teosófica dos princípios humanos, Kama é o 4o princípio nesta sequência, apresentada do mais externo para o mais interno e real: 1. Sthula-Sharira, o Corpo Físico Denso; 2. Prana, a Vitalidade; 3. Linga-Sharira, o Corpo Astral ou Corpo Modelo; 4. Kama(-Manas); 5.Manas - a Mente Superior; 6. Buddhi - Razão Intuitiva; 7. Atman - o Espírito.
46 O orfismo e os mistérios órficos, com uma acentuada ênfase no valor do som e da música, informaram muito do que de melhor caracterizou a antiga cultura grega. Caracterizavam-se por uma moral puríssima. No seu Glossário Teosófico, escreveu Helena Blavatsky: “A teologia que Orfeu ensinava é puramente hindu. Para ele, a Essência divina é inseparável de tudo o que é no Universo infinito, pois todas as formas estão ocultas nela desde a eternidade. Em determinados períodos, essas formas são manifestadas emanando da Essência Divina ou manifestando-se por si mesmas. Assim, graças a esta lei de emanação (ou evolução), todas as coisas participam de tal Essência (…) Como todas as coisas d’Ela procederam, a Ela devem voltar necessariamente e, portanto, é preciso haver inúmeras transmigrações ou reencarnações e purificações antes de chegar à consumação final. Isso é pura filosofia Vedanta”. Na mesma obra, a autora relaciona Orfeu e Arjuna, o discípulo dilecto de Krishna.

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