Homenagem a Samuel Hahnemann

O Pai da Homeopatia
Levei muito tempo para empreender algum escrito sobre Samuel Hahnemann pois disponho de bastante pouco para dizer por palavras - pelo menos à altura do que seria merecido - e muito para expressar com o coração. Os seus dados biográficos são, no fundo, escassos, parcos, se tivermos em conta o vulto humano que deveras foi. Os seus feitos extraordinários na área da medicina de investigação (como, é claro, na sua muito singular e bem sucedida aplicação prática) não encontram rival com quaisquer outros: o penetrante pensamento intuitivo que lhe pertencia era único e, no curso da sua vida, logrou realizar e deixou comprovadas centenas, senão milhares, de deduções clínicas no domínio da diagnose articulada com inéditos e insólitos agentes curativos, percorrendo todas as patologias conhecidas na época. O seu legado à humanidade não tem preço e, desde a data do seu desaparecimento físico, pouco, irrisório mesmo, se veio a acrescentar aos preciosos dados constantes nos seus monumentais Códices e Simpósios Homeopáticos, como sejam o “Organon da Arte de Curar”, a “Matéria Médica Pura”, o “Tratado das Doenças Crónicas”, etc. Nestes colossos, podemos designadamente encontrar uma espantosa pluralidade de substâncias medicamentosas e suas indicações terapêuticas, por ele inúmeras vezes testadas e descritas caso a caso.

Na verdade, julgo que poucas vezes extrapolo, com considerações afectivas pessoais, as minhas descrições biográficas das grandes figuras históricas que vim tratando nesta rubrica. Faço hoje uma excepção (perdoem-me a imodéstia pois, presumivelmente, em pouco ou nada interessará ao leitor o conhecimento das minhas preferências e/ou afectos particulares): no seio da legião de grandes vultos científicos no percurso da humanidade, as minhas maiores reverências vão - sempre foram - para Samuel Hahnemann e Albert Einstein. Neles encontramos o mesmo espírito vivo e perscrutador, em simbiose perfeita com a Natureza. Ambos conheceram e reconheceram como seu próprio o palpitar de todas-as-coisas - num caso, por mais longínquas que fossem no grande Espaço universal; noutro, por mais abscônditas que estivessem no igualmente grande Espaço “intra-mundos”. No fundo, e ainda que pareça paradoxal, estamos a falar da mesma vastidão e da mesma realidade.

Einstein projectou a sua tarefa e a sua “viagem” trazendo-nos belos e até então insondáveis, inatingíveis e quase mágicos segredos, do primeiro dos Espaços referidos; Hahnemann viajou e “arrancou” para nós comoventes - porque tão sensivelmente íntimos e indissociáveis de nós - segredos vitais do segundo (afinal, d’Aquilo que chamamos, tão simplesmente, Natureza). Na verdade, ambos entabularam longos diálogos com a Natureza Viva de Todas as Coisas, neste grande Cosmo em que cada expressão de vida é parte correlacionada, inter-sensível, e inter-actuante. Nas suas respectivas investigações, procediam, vividamente, sob a luz do método ocultista: podiam ver, ler no Grande Livro da Vida, simplesmente sem sair do lugar, na mais profunda quietude, auscultando os silêncios palpitantes e eloquentes da Natureza 1. Ambos foram expoentes do exercício da Intuição (no sentido que a ciência esotérica lhe dá) 2, exemplos e paradigmas do homem-do-futuro.

Pela determinante importância do seu pioneirismo, por terem sido guardas-avançados do que de melhor a humanidade representa e tem para oferecer, por nos levarem, nos induzirem (ao colectivo da humanidade) no seu encalço, nutro por eles a mais sentida gratidão; Na verdade, como se nos anteciparam - com quanto mérito e esforço! Como, por via do seu estatuto conquistado e estabelecido, nos aliviaram a carga e a densa obscuridade do caminho (esse caminho feito de etapas sobre etapas, do terreno psicológico e do conhecimento efectivo, que indubitavelmente todos, em comum, teremos de percorrer na nossa longa Caminhada Evolutiva)!

Quem foi Samuel Hahnemann
Nascido na Alemanha, em 1755, Samuel Christian Hahnemann era médico de formação profissional ortodoxa. Inconformado com a ineficácia e a imprecisão dos princípios basilares da medicina então vigente, decidiu-se a encetar experiências insólitas na sua própria pessoa, as quais, estava convicto, viriam a justificar e a reforçar as ideias que fervilhavam dentro de si: o princípio ou lei da similitude e a potência incrementada que se consigna no infinitamente pequeno. Acreditava que, para curar uma determinada doença, necessário é dar ao paciente um remédio tal que, se administrado a um indivíduo saudável, lhe provocaria os mesmos sintomas dessa mesma doença. Por outro lado, pensava ainda, conseguir-se-ão os mais eficazes resultados se se fizer combinar essa similitude com a potenciação (subtilização) energética do agente que se subministra, pois agirá a partir da raiz do distúrbio funcional (ou seja, do substracto psíquico, de planos de manifestação vibratória mais internos e subtis do ser).

Possuía um raro dom: através de um processo de intensa polarização (identificação) subjectiva (se assim nos poderemos expressar) com inúmeras e sucessivas espécies vegetais e também minerais sobre que se debruçava, ia captando ou intuindo as suas características essenciais, que catalogava minuciosamente e, sempre tacteando um pouco como no escuro, ia inserindo num determinado número de lotes ou agrupamentos maiores, padronizados.

No decurso das suas acuradas meditações, prospectou, simultaneamente, a importância radical das “diluições infinitesimais”. Fazemos notar que, segundo a generalidade dos biógrafos, Hahnemann partia experimentalmente do zero: para ele, as conquistas eram dadas, passo a passo, em cima do simples empirismo. Sustento, porém - quiçá, aos olhos de muitos, infundadamente ou com algum atrevimento - que ele intuía (numa antecipação visionária) sobre a natureza psico-vital das substâncias e só depois, a partir dessas pistas subjectivas, as testava. E se assim não fora, não lhe teria chegado o tempo de uma vida para ser tão preciso, directo, multifacetado e abarcante no rol descritivo 3 dos inúmeros caracteres e indicações terapêuticos de cada uma e todas as substâncias inventariadas.

Alguns acontecimentos favoreceram inexoravelmente a sua busca. Não entraremos em demasiados detalhes, senão para mencionar a historicidade da sua iniciação, aparentemente casuística, com a quinina. Regista-se que, ao experimentá-la em si próprio, usou da maior precaução (dadas, talvez, as características de alguma toxicidade da substância), utilizando doseamentos diluídos. E consta que foi este procedimento que veio a espoletar a crescente constatação do imenso poder terapêutico contido numa diluição.
A energia vital
ÃL;€ medida que ia testando os efeitos práticos da subministração de cada produto em diferentes diluições, as suas expectativas iam-se afirmando e consolidando, fazendo crescer o seu entusiasmo. Deste modo, inventariou (e fê-lo exaustivamente) o comportamento e as indicações terapêuticas de um imenso repertório de substâncias, não só experimentando-as em si próprio como, também, num crescente leque de discípulos que, convicta e apaixonadamente, se ofereceram para esse efeito. Numa fase inicial, testaram, assim, os efeitos de substâncias tais como o enxofre, a beladona, o heléboro, o mercúrio, etc, etc. Com o tempo, reuniu-se uma extraordinária compilação: centenas de remédios homeopáticos, exaustivamente descritos por Hahnemann no seu legado documental.
Quanto a este precioso contributo, enumeramos as suas principais obras. Em 1810, surgiu “Organon da Ciência Médica Racional”; a 2a Edição deste tratado, vinda a público, em 1819, alterou o seu título para o (até hoje assim conhecido) “Organon da Arte de Curar” (ou “Exposição da Doutrina Médica Homeopática”). Neste livro, para além de tratar amplamente da teoria e fundamentos científicos e filosóficos do seu método, oferece magistralmente a enunciação e compreensão de todo um corpo de regras minuciosas para o exame dos doentes, a exposição detalhada dos medicamentos administrados num corpo são e a capacidade operativa de selecção dos remédios segundo o princípio similia similibus.

Prosseguiu, entre os anos de 1811 a 1821, com a publicação dos seis volumes da sua “Matéria Médica Pura”; de 1828 a 1839, com o seu grande trabalho, em quatro volumes, intitulado “As Doenças Crónicas”; em 1929, acrescentando e tratando, na 4a edição do seu “Organon”, a noção importantíssima da psora (ou afecção artrítica, hoje assim mais correntemente conhecida).
O hermetismo do postulado homeopático
A homeopatia é um sistema dinâmico de actuação curativa num organismo funcionalmente alterado, em desequilíbrio. O segredo deste método consiste na libertação induzida da energia, ordinariamente “coagulada” e passiva, que distingue e caracteriza cada espécie vegetal, mineral ou animal. Essa libertação é feita, precisamente, por meio do processo denominado de “dinamização”. Pela repetida e brusca (sincopada, seca) movimentação de uma dessas substâncias diluídas, liberta-se o seu animus - o agente activo, a “electricidade” particular de cada elemento mineral, vegetal ou animal. Nessa operação, provoca-se uma fricção entre o éter 4 desse agente e o éter do ambiente em que está imerso (o oceano de energia que lhe está subjacente e que é comum a toda a envoltura ecológica ou ambiental). Desse modo, igualmente, se animam ou activam os princípios vitais, que assumem, no plano físico, as tão inusitadas virtualidades e potenciação. A essência ou alma de cada elemento (a 5a essência, dos alquimistas; o éter) sobrepuja a característica inércia da matéria coagulada, que lhe corresponde e que é sua, e manifesta-se profunda e subtilmente por detrás, nos bastidores, da vida puramente física e mecânica. A raiz ou origem dos distúrbios é, assim, actuada e regulada pela lei das compensações energéticas e da identidade dos agentes vitais (similia similibus curantur = o semelhante cura o semelhante).

Para Hahnemann (e, nomeadamente, em antecipação a Freud), o ser humano constitui uma unidade fisiológica-psicológica-social. Na sua concepção, ele privilegia os sintomas psíquicos e atenta o perfil temperamental e fisionómico de cada paciente. Factores como os seus hábitos e tendências comportamentais, bem como a cor e a textura estruturais da pele ou do cabelo, eram minuciosamente anotados. Reconhecidos estes e outros caracteres significantes, era-lhe então possível identificar o ou os medicamentos homeopáticos consonantes ou simpáticos 5.

A Farmacopeia Homeopática
(ou o procedimento para obter as dinamizações)
Após a obtenção das substâncias no seu estado espontâneo na natureza, seja por processos químicos ou pela maceração alcoólica - reservando as substâncias puras de um lado e as tinturas-mãe de outro -, procede-se à dinamização por via líquida ou por via sólida.

No primeiro caso, junta-se uma parte da preparação primária com 9 partes (se na escala decimal) ou 99 (se na escala centesimal) de álcool, colocando a solução resultante num frasco ou tubo de ensaio. Agita-se, então, um determinado número de vezes, de cada uma delas fazendo bater o seu fundo numa superfície dura, que ofereça uma precisa resistência. Chama-se a esta fase o processo da sucussão (ou também, potenciação).
Obtém-se, assim, a 1a Diluição ou Dinamização.

Repetindo o processo, ou seja submetendo este preparado a uma nova diluição nos mesmos termos ou escala (misturando-se uma parte com 9 ou 99 partes de excipiente alcoólico), obtém-se a 2a Dinamização; e, deste modo, sucessivamente, até à 30a, 200a, e até na casa milenesimal (quando o caso particular o justifique). Uma diluição designada 200 C é, pois, uma operação laboriosamente faseada, que implica um sem número de intervenções.

Se o número da dinamização pertence à escala decimal, a rotulagem indicará o respectivo dígito a que se segue um “X” ou um “D” (por exemplo: Gelsemium 5aX, ou 5aD). Se a escala é centesimal, acrescenta-se o signo “CH” ou, simplesmente, não se acrescenta nada (por exemplo: Gelsemium 20 CH).

No segundo caso, o da via seca, mistura-se uma parte da preparação base com 9 ou 99 partes de lactose (açúcar de leite). Coloca-se esta junção num almofariz (ou congénere) e tritura-se por um tempo especificamente fixado: é o processo da trituração. E esta é a 1a Dinamização. Sucedem-se os procedimentos equivalentes aos usados na via líquida, neste caso utilizando sempre lactose em lugar de álcool. 6

A experiência mostrou, entretanto, que determinadas substâncias consideradas insolúveis, como os metais triturados até à 3a Dinamização centesimal, se volvem solúveis daí por diante - e, assim, a sua energia peculiar, posta suficientemente em liberdade, pode continuar a ser operada pelo processo da via líquida (isto é, tendo sido obtida a 3a trituração centesimal, pode, a partir daí, prosseguir-se para a 4a Dinamização líquida e seguintes).

Diz-se, comummente, nos laboratórios de química, que nada, do produto original, pode ser encontrado na solução resultante de sucessivas diluições do método homeopático; que, quimicamente, nada já lá existe. Alguns acrescentam, até, que resultados benéficos, ou até curativos, só podem ter sido induzidos por sugestão 7. Contudo, os casos insofismáveis de bebés ou animais absolutamente curados pelos medicamentos homeopáticos (muitos destes, altamente diluídos) demonstram incontornavelmente que algo (conecto com o produto-base original) deve subsistir no seio daquele aparente inerte e incaracterístico “líquido ou grânulo excipiente” - sendo, pois, os resultados independentes de qualquer sugestão. E, dizemos nós (os adeptos da Homeopatia), esse algo só pode ser energia 7 - energia pura e liberta, crescentemente, das suas camadas físicas involucrantes. É, afinal, a tal alma dos elementos!

Isabel Nunes Governo
Vice-Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

1 Einstein, nas suas longas noites de meditação (concentração), não permitia que interrompessem ou perturbassem o seu silêncio e imobilidade. Por outro lado, como já foi dito em anterior número da “Biosofia” pela nossa querida amiga Doutora Liliana Ferreira, ele, curiosamente, tinha (teve) como companheiro fiel de “mesa de cabeceira” a obra “A Doutrina Secreta”, de Helena P. Blavatsky.
2 Ou melhor dizendo, do Pensamento Intuitivo, Vívido e Superior, de uma subtileza e penetração abarcantes e universais; muito acima, pois, do mero intelecto comum (sendo que este é ainda alicerçado sobre o instinto e a emoção, que o embotam, e inibindo a sua clareza e fiabilidade).
3 … com base, seguramente, em infindáveis experimentações.
4 Aquela electricidade particularizada é também referida, nomeadamente pelos teósofos, como éter, colorido pela idiossincrasia de cada espécie de vida animada (Cfr. O nosso artigo “Os Mistérios da Electricidade”, in Biosofia o 4).
5 O que equivale a dizer: que consubstanciavam termos vibratórios afins; e, também, cuja “nota-chave” se enquadra basilarmente numa das grandes categorias-mães que referenciámos atrás, as quais, por sua vez, correspondem, no ser humano, a tipificações constitucionais e bio-funcionais/humorais específicas - de molde sucinto, as assim chamadas “diáteses”. Incluem ou indiciam predisposições para determinadas patologias.
6 Estes eram originalmente os métodos de preparação preconizados. No entanto, têm vindo a sofrer alterações para processos um tanto mais sofisticados, dada a industrialização em larga escala. No essencial (e nos seus porquês) mantêm-se os preceitos operativos.
7 Acrescentamos aqui, como curiosidade pertinente, que os países mais adiantados científica e tecnologicamente há muito reconhecem a validade e o crédito deste ramo da Medicina. Designadamente, no Reino Unido, desde 1948 que a Homeopatia é abrangida, consagrada e comparticipada pelo Serviço Nacional de Saúde. Ali existe actualmente um número superior a 8 milhões de utilizadores regulares.
8 Afinal, não há nada de tão estranho assim no método infinitesimal da Homeopatia: a ciência moderna atesta que a energia contida no átomo não é - não pode ser - dimensionada pelo “tamanho” objectivo e espacial de qualquer átomo.

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