O Processo Evolutivo e Alguns dos Seus Contornos

Não te dei, ó Adão, nem rosto, nem um lugar que te seja próprio, nem qualquer dom particular, para que teu rosto, teu lugar e teus dons os desejes, os conquistes e sejas tu mesmo a possuí-los.

tu, que não conheces qualquer limite, só mercê do teu arbítrio, em cujas mãos te coloquei, te defines a ti próprio.
Não te fiz nem celeste nem terrestre, nem mortal nem imortal, para que tu, livremente, tal como um bom pintor ou um hábil escultor, dês acabamento à forma que te é própria”
Pico de La Mirandola
(Oratio de Hominis Dignitate)

Impermanência, Morte e Medo da Mudança

“Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer produz muito fruto”
João, 12:24

A vida, o mundo, a realidade - como lhe queiramos chamar - é um constante fluxo e refluxo de nascimentos, transformações, mortes e renascimentos (muitas vezes) em planos superiores, numa sequência que, à nossa escala, podemos dizer infindável. Assim, também, só na mudança, na morte do velho e no nascimento do novo, nas constantes mortes e ressurreições materiais e psicológicas, o homem, as sociedades, as culturas evoluem; mudança que é, não só absolutamente desejável, mas também, pela própria natureza das coisas, um caso de perfeita inevitabilidade. E é neste contexto que vemos, paradoxalmente, os seres humanos terem, de uma forma esmagadora, um enorme medo do novo, do desconhecido (o medo da morte…) que se traduz por uma estranha fixação na estabilidade; eles que são a impermanência absoluta em termos físicos, emocionais e mentais, tudo o que desejam, por norma, é a permanência, pela falsa impressão de segurança que essa ilusão lhes transmite. É inegável o conforto que proporciona aquilo que é conhecido, habitual, já experimentado - ambientes, caras, coisas e, talvez sobretudo, ideias e conceitos.
Ao nível do conhecer e do ser, o medo da morte, do desconhecido, da mudança, consubstancia-se, habitualmente, na ansiedade provocada pela separação dos padrões pessoais de consciência que é necessário efectuar para ascender a patamares superiores de entendimento. É por isso que esses padrões - os nossos preconceitos - constituem um condicionamento sempre muito difícil de ultrapassar.

Cultura e Condicionamentos

“Há mais coisas entre o céu e a terra do que podemos entender com a nossa inteligência”
Lao-Tsé Tao-Te-King

Os preconceitos são, basicamente, resultantes de atitudes, desejos e valores culturalmente obtidos, isto é, as pessoas são em muitos aspectos um produto da sua cultura: maneiras de ser, sentir e pensar que atravessam as sociedades, são características adquiridas pelo contacto com pais, familiares, professores, amigos, vizinhos, jornais, livros, programas de televisão, etc.; padrões criados pela convivência, pelo hábito e por mecanismos de prémio e censura. Aquilo que somos é, em grande parte (ia a escrever maioritariamente), a soma das nossas aprendizagens, hábitos e experiências.

Este tipo de afiliação é feito de modo lento e imperceptível desde a mais tenra idade, sendo, por isso, razoavelmente difícil perceber, pelos próprios, o seu enredamento na teia dos conceitos (preconceitos) culturais; geralmente, as pessoas estão convencidas de que as filosofias de vida por que se regem são produto de opções próprias, de vontade pessoal e, principalmente, que essas filosofias se radicam em valores correctos, se não mesmo indiscutíveis. Mesmo depois de alertados, quando damos conta do facto, geralmente só enxergamos, como se costuma dizer, a ponta do “iceberg”, ficando o grosso daquilo que nos condiciona depositado em níveis inconscientes da psique.

Não é fácil perceber e aceitar que aquilo que estamos habituados a considerar bem e mal, certo e errado, falso e verdadeiro, feio e bonito, elegante e grosseiro, não são valores absolutos mas, sim, conceitos ligados a maneiras de pensar datadas, culturalmente inseridas, contextualizadas e padronizadas; e sendo muitos deles, certamente, (ainda) valores estáveis, grande parte não representam mais do que simples modas com uma utilidade bastante discutível e um período muito limitado de vida. No entanto, para o bem e para o mal (!?), se nos descuidamos, condicionam totalmente os nossos comportamentos, atitudes e pensamentos.

Não cabe aqui discutir extensivamente a bondade social e humana deste tipo de padrões, tudo parecendo, contudo, indicar que tanto indivíduos como sociedades - pelo menos dentro dos níveis de consciência habituais - não se podem desenvolver moral e cognitivamente sem serem sujeitos ao processo de aprendizagem que, desde a mais tenra infância, constitui a afiliação cultural; nem (con)viver sem obedecer a (certas) regras de comportamento 1. Mas não parece ser menos verdade que, em qualquer estágio de desenvolvimento, existem vários destes padrões/conceitos/preconceitos que estão “maduros” para serem descartados e que livrarmo-nos desta “ganga” faz parte e é factor dinamizador da evolução espiritual das pessoas e dos grupos sociais (culturas e subculturas) 2.

Libertação e Evolução

“Nada o pode salvar, a não ser você mesmo”
Emerson

Percepcionar a existência desta realidade é o primeiro passo para deixarmos de ser escravos do meio, da opinião dos que nos rodeiam, dos costumes, das ideias do mundo exterior, tudo isso que constitui a argamassa de que são feitos os preconceitos, as emoções, os desejos egoístas e os medos que nos condicionam; compreendê-la e libertarmo-nos das suas teias no quotidiano, permitir-nos-á um enorme aumento da liberdade interior, da lucidez e da serenidade pessoal. Poderemos assim controlar melhor as nossas circunstâncias e o próprio destino.
Claro que a libertação das certezas preconceituosas da sociedade e dos grupos culturais a que pertencemos tem um preço a pagar, que é o de ficarmos sem certas âncoras externas a que anteriormente nos arrimávamos, e passarmos a ser, de certa forma, “estranhos na nossa própria terra”. E isto pode não ser fácil, pode ser mesmo muito doloroso de suportar se, entretanto, não formos encontrando valores internos de qualidade mais elevada onde nos possamos escorar 3.

Para se aceitar ou desejar a mudança, parece ter sempre que acontecer qualquer coisa que abale o pequeno mundo das nossas certezas e preconceitos. Depois, tudo é mais fácil. Depois, vêm os novos horizontes e perspectivas, uma melhor compreensão, e todo o processo de transformação se torna num enorme prazer pessoal. ÃL;€ medida que se vai conseguindo integrar, na vida corrente, a libertação séria e natural de algumas dessas prisões mentais, tudo se torna mais leve, despreocupado, honesto e fraternal; é possível viver em melhor harmonia connosco próprios e com os outros; muita da ansiedade psicológica, muitos dos desejos de ter e dos medos de perder (que nos atormentam) desaparecem, a vida torna-se mais simples e gratificante, e algo do potencial escondido da mente se liberta.
A libertação da mente de limitações e condicionamentos arbitrários que lhe são impostos, fará, necessariamente, despertar capacidades psíquicas até então adormecidas: há uma efectiva expansão da consciência, um aumento da autoestima e dos sentimentos universalistas e fraternais. No entanto, como já referimos, não se tratam de processos fáceis, dada a existência de estruturas estratificadas onde as consciências individuais tendem a ficar prisioneiras.

O Espectro da Consciência 4

“Para um feiticeiro, a realidade, ou o mundo que todos conhecemos, é apenas uma descrição” Carlos CastaÃL;±eda (Journey to Ixtlan)

A realidade, ou melhor, a forma como se vê a realidade manifestar-se, depende do nível em que se focaliza a consciência do observador que a avalia (o nível do seu ser e do seu conhecer). As Filosofias Perenes e os trabalhos de alguns (raros) investigadores modernos, constatam a existência de vários de tais níveis que vão desde os mais baixos, mais grosseiros, menos conscientes, até aos mais altos, mais conscientes, mais subtis; digamos, usando uma hierarquia de subtilização crescente que nos é familiar - várias outras podem e têm vindo a ser utilizadas - que tais estágios de consciência evoluem ascensional e sucessivamente da matéria (o não consciente) para o corpo, daí para a mente, a seguir para a alma e, por fim, para o espírito (o super consciente). Os homens e as mulheres desenvolvem-se, no ser e no conhecer, nesta hierarquia, até atingirem a Iluminação - o Espírito; e cada uma destas dimensões transcende e inclui as dimensões anteriores (que podem sempre emergir em caso de necessidade) - o nível espiritual transcende e inclui o nível da alma, que transcende e inclui o nível da mente e assim sucessivamente (totalidades incluindo totalidades, como as várias camadas da cebola).

Cada vez que o centro focal do eu se identifica com um nível básico de consciência (novo e) mais elevado, o indivíduo sofre (!) aquilo que, habitualmente, se designa por uma “transformação pessoal”, passando como que a possuir uma nova identidade, decorrente duma também nova e mais elevada visão e percepção do mundo e de um conjunto mais amplo e mais abrangente de princípios morais e estéticos, necessidades, desejos, perspectivas, etc.

Mas embora, como já foi referido atrás, cada estágio de consciência transcenda e inclua os níveis precedentes, havendo, por isso, uma relação umbilical entre eles, não sendo possível, às sociedades e às pessoas, passar a um patamar superior sem ter passado pelos estágios que lhe são inferiores, os indivíduos de cada um dos grupos, per se - excepto no que respeita às (poucas) pessoas já evoluídas nos níveis da alma e do espírito - acham que a sua visão do mundo e os seus princípios guias são os únicos correctos, tratando todas as outras visões e princípios como desvios perigosos e intoleráveis a que é preciso ganhar supremacia. Por isto, também, a lentidão, as barreiras, as dificuldades, as incompreensões, o isolamento e o sofrimento que acompanham os processos de evolução, quer individual quer colectivamente.

Os Estágios Superiores de Consciência

“Saiba que, por natureza, toda a criatura busca tornar-se semelhante a Deus”
Mestre Eckhart

No entanto, apesar de todas as suas dificuldades, este trajecto de evolução da consciência, rumo a uma transcendência espiritual muito superior, é o Projecto a que pertencemos, que nos conduzirá muito para além das limitações das chamadas autonomia, auto realização e intencionalidade que caracterizam os estágios do corpo e da mente brutos no seu melhor. As dimensões mais elevadas, os planos mais evoluídos de consciência característicos dos iogues, dos santos, dos sábios que sempre existiram, são potenciais inerentes a todo o ser humano de qualquer nível! O Espírito está sempre presente em cada um de nós e o nível de evolução da consciência não é senão a expressão do grau da sua concretização; mesmo a forte repressão cultural, a que estamos sujeitos, do materialismo dito científico que a Humanidade tem vindo a atravessar, não será suficientemente forte (como nada alguma vez poderá vir a ser), para impedir que Ele acabe, inexoravelmente, por emergir em toda a Sua Glória.

Esta gradual manifestação da Luz em cada um “materializa-se” pela aquisição de um tipo raro de “bens” preciosos; aqueles que, uma vez adquiridos, passam a fazer parte integrante de nós próprios, bens internos que nunca mais nos podem ser tirados, ao contrário daqueles que procuramos, sempre tão avidamente, no mundo exterior, por mais sólidos que eles nos pareçam: pessoas, cargos, dinheiro, poder, entre outros, tudo coisas susceptíveis de nos ser subtraídas a qualquer momento, quantas vezes para nosso grande desgosto e dor.

Passamos a vida a procurar, no exterior, certezas, pedras filosofais onde possamos aportar, de modo a que, enfim, sejamos “felizes para sempre”, quando tudo isso - e muito mais - está, e sempre esteve, dentro de nós, à nossa inteira disposição, à espera que sejamos capazes de o ir descobrindo.

Vítor Martins

1 No que respeita ao desenvolvimento individual, é bem conhecido o caso do “menino lobo” que, devido a trágicas circunstâncias, cresceu, desde a infância à adolescência, entre animais e se desenvolveu como um deles, poucas características apresentando da sua humanidade.
2 E sendo certo que a chegada a novos e mais altos níveis de consciência traz consigo (novos e mais altos) problemas próprios que, por sua vez e a seu tempo, terão também que ser resolvidos, isso não é, nem pode vir a ser, em qualquer nível, razão para não se buscar, incessantemente, a própria evolução espiritual, dado que se trata de um Processo em que o objectivo é o próprio Processo; e o facto do Caminho parecer não ter fim, deve ser mais caso para contentamento do que para decepção, pois que quanto mais elevado é o nível atingido, maior o grau de perenidade espiritual e felicidade alcançados.
3 Aqui aparece o enorme perigo de arranjarmos, nesse momento, apenas novos preconceitos da mesma natureza, para substituir aqueles que acabámos de abandonar. Vemos, muitas vezes, quanto é fácil confundir a libertação de preconceitos e outros condicionamentos sociais estreitos, feita no sentido de expandir a consciência e a responsabilidade pessoal e social do indivíduo, o seu livre arbítrio, a sua fraternidade universal e o seu empenhamento sério e efectivo na melhoria das condições das outras pessoas, com exercícios de auto indulgência, fuga à vida e desresponsabilização pessoal nos assuntos reais e concretos da humanidade.
4 Sobre este assunto, ver os livros de Ken Wilber, nomeadamente “O Espectro da Consciência”, “O Projecto Atman” e “Psicologia Integral”.

License

This work is published under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 2.5 License.

Post a Comment

You must be logged in to post a comment.